... "mas, ao tentar desafiar as forças que controlavam a ordem natural, foram amaldiçoados e transformados para sempre: Iaraque foi levado para o céu, tornando-se uma águia, enquanto Aiyana tornou-se um lobo. E uma busca eterna se iniciou, esperando pelo dia em que se reencontrariam. Em noites de lua cheia, Aiyana ainda uiva para o céu, chamando por Iaraque, e ele responde com seu grito esperançoso, prometendo que um dia se reencontrarão."


Sandra fecha o livro e olha o celular. Estava na hora de buscar seu filho na escola. Saiu da cafeteria e entrou no carro. Sempre que conseguia sair mais cedo do trabalho, ela fazia isso. Corria para a Livros & Café, pedia o seu cappuccino e esquecia das horas lendo um livro.

Na pesada rotina de sua vida, não tinha tempo para hobbies. Mas a leitura era algo que ainda tentava manter.

Parou no semáforo, tamborilou os dedos no volante. Estava sempre apressada e ansiosa. Olhou para o livro fechado sobre o banco do passageiro. A lenda do Lobo e da Águia era o livro que estava relendo pela terceira vez. Era até estranho de pensar, pois não costumava ler livros fantásticos, mas esse a surpreendeu. Se identificou com a guerreira Aiyana, desafiadora e corajosa.

— Nem tão corajosa assim… — deu um risinho, falando sobre si mesma e foi despertada pela buzina do carro atrás do seu.

Estacionou e desceu. Seu filho de sete anos, Caio, já a aguardava sentadinho no banco da área de espera da escola.

— Oi filho! — o abraçou. — E aí, como foi a aula hoje?

— Eu tenho um novo amigo.

— Mesmo? Que legal, filho!

— Ele é novato. Veio de outra cidade pra cá. Mãe, compra um sorvete?

— Hoje não. A mamãe está super atrasada para terminar um projeto em casa. Preciso levar amanhã cedo pro trabalho.

— Você está sempre trabalhando… — reclamou o menino.

— Eu sei, Caio, mas a vida adulta é assim mesmo. Muitas responsabilidades. Mas vou pedir pro seu pai te levar, tá bom?

O menino apenas balançou a cabeça. Tirou o livro do banco e se sentou, folheando-o em seguida.

— Esse livro parece chato.

Sandra riu e falou, já dirigindo:

— Até que ele é legal. É sobre uma lenda de dois guerreiros que eram guardiões, com a missão de manter o equilíbrio cósmico. Mas eles quebraram uma regra e foram amaldiçoados.

— Por quê?

— Porque na tribo deles, não era permitido… como posso dizer… quebrarem as regras. É isso. — não queria falar de romances para um menino de sete anos.

— Lê pra mim depois?

— Humm… ok.

Depois de quase 20 minutos, estacionava em frente ao portão de sua casa. Abriu-o e manobrou o carro dentro da garagem.

— Paiêêê. — Caio entrou em casa abraçando o pai que até então estava concentrado em seu notebook.

— Oi, filhão. Como foi a escola hoje?

— Foi bem legal. Eu tenho um amigo novo. Posso trazer ele aqui?

— Tem que ver com a sua mãe… Oi.

— Oi — respondeu simplesmente. — Escute, Caio, a gente nem conhece a família do menino.

— É só falar com o pai dele, ué. Ele que busca o Igor na escola.

— Não sei… mas seu pai pode ver isso amanhã quando ele te buscar.

— É… Sandra, amanhã vou trabalhar até mais tarde.

— Eu não acredito, Mauro. Eu tenho compromisso. Eu te falei.

— Eu sei, mas eu não esperava por um imprevisto.

Os dois começaram a discutir e Caio sentou no sofá. A mãe saiu nervosa da sala em direção ao quarto.

— Você e minha mãe sempre brigam agora…

— Desculpe, filho. É que… não é nada… adultos são idiotas, às vezes. Vem, vamos fazer um lanche e depois, tarefa, ok.

No dia seguinte no trabalho, Sandra informou à sua chefe que precisava buscar o filho na escola novamente, pois seu marido não poderia. Jeiza a liberou, com a garantia de que ela voltaria para a reunião geral sobre os projetos que precisariam finalizar para dali a dois dias.

— O cliente não vai aceitar mais um adiamento do prazo, Sandra. Precisamos fazer hora extra.

— Fique tranquila, Jeiza, eu volto o mais rápido possível.

Saiu às pressas rumo à escola, o trânsito terrível, e uma chuva forte. Mas ao passar pela Avenida Principal, seu carro atolou em um dos buracos. Soltou um xingamento.

— Eu não acredito!

Tentou ligar para o marido. Telefone desligado. Ligou para a escola.

— Oi… sou Sandra, a mãe do Caio. Estou presa no trânsito, caí num buraco aqui e tenho que esperar a chuva passar para tomar alguma providência. Vou demorar um pouco, posso falar com ele?

"Claro… Caio! — ouviu chamar — sua mãe quer falar com você.”

"Oi mamãe."

— Oi filho, a mamãe está presa na chuva e vai demorar, então…

"Posso ir com o pai do Igor?"

— Espera, Caio, claro que não, a gente nem…

"Ele disse que me leva, é caminho da casa dele, mãe."

“Posso falar com sua mãe?” — Ouviu ao longe. — "Alô, … sou Luís, o pai do Igor. Tudo bem?”

Sandra não respondeu de imediato.

— Hã, oi, sou Sandra. Tudo bem…

"Olha, eu levo o Caio, se você não se importar. Assim você não fica preocupada com seus horários. Ele falou que você vai precisar voltar ao trabalho… se me autorizar, eu o levo em casa, sem problemas"

— Certo… só vou falar com a diretora sobre a autorização. Obrigada, vai me ajudar muito. Vou te passar o telefone do meu marido, qualquer coisa pode ligar pra ele, por favor.

"Claro. Fique tranquila. Tchau."

— Tchau…

Conversou com a diretora, querendo saber mais sobre o pai de Igor para poder liberar o filho. A diretora garantiu que se tratava de uma boa pessoa, assim como a mãe da criança. Sabia tudo sobre eles.

Com certeza, pensou ela. A senhora Dalva dava relatório de tudo e podia confiar.

Liberou o filho e chamou ajuda para tirar o carro daquele buraco. Tinha que voltar para a empresa.

Tentou ligar para o marido novamente e nada. Caio teria que ficar sozinho em casa por um período até que Mauro chegasse. Ela não gostava disso, mas era o jeito.

Enquanto retornava para o trabalho, tentou identificar aquela voz. Parecia conhecida. Seria de algum cliente que ela já tinha conversado? Muito provavelmente. Conhecia muitas pessoas e conversava com elas diariamente, por força do seu trabalho como agente publicitária.

Depois pesquisaria sobre este tal Luís. Poderia ser uma boa coincidência. Pensou ela com sua cabeça estrategista. Nessa hora, um vento forte entrou pela janela do carro e o livro no console começou a folhear, parando em uma página com a imagem da águia. Os olhos dourados daquela ave brilhavam intensamente, como se fossem duas pequenas estrelas, e pareciam fixos aos seus. Ficou atônita. Sentiu como se a águia estivesse a observando. Com as mãos tremendo, fechou o livro rapidamente e acelerou para a empresa.


Notas finais
"As águias, quando avistam a tempestade, não recuam. Abrem suas asas corajosamente, rasgam as nuvens escuras, avançam contra os ventos e enfrentam os choques elétricos da tempestade! Nesta luta terrível, perdem algumas penas, se ferem, mas não recuam!" — Marli Souza.