Aurelius tinha começado a sentir uma pontada de dor muito conhecida sua na ponte do nariz, o tipo que ganhava de presente quando estava começando a abusar de suas habilidades. Ele olhou de soslaio o relógio no canto do computador vendo se tratar de seis horas da noite. Estava mexendo com as filmagens do depósito de terrígeno desde as oito da manhã. Não era acostumado a abusar de suas habilidades por tanto tempo ininterrupto assim.

Ele suspirou e desativou a tecnopatia, seus olhos alterando do dourado de seus poderes para o clássico azul. O homem se recostou para trás em sua cadeira, encarando a tela com o olhar cansado e mais focado em seu próprio reflexo nela do que na informação exposta ali.

Existiam programas de computadores capazes de recuperar arquivos deletados. Aurelius já tinha corrido uns dois desses na filmagem, só por precaução, mas desde antes de fazê-lo, sabia se tratar de, provavelmente, uma esperança vazia. A tarefa não teria sido entrega para um tecnopata se todos os meios tradicionais para executá-la não tivessem se esgotado, em especial uma tarefa vinda direta das mãos da família real. Aurelius era o tecnopata de maior nobreza em Attilan? Sim. Mas não era príncipe e nem estava dentro do círculo íntimo da família. Era provável que sua posição como engenheiro genético tivesse contribuído, mas ainda assim, ele sabia muito bem o que uma tarefa daquela proporção chegando em suas mãos queria dizer: ninguém sabia o que fazer.

E o próprio Aurelius estava admirado com o nível de maracutaia tecnológica executado naquelas filmagens. Adulterar a filmagem com aquele nível de perfeição não teria sido fácil. Nada fácil. E tudo isso só trazia uma pergunta à mente dele:

— Quem raios é você? — Ele perguntou, encarando os arquivos binários na tela do computador.

Quem teria habilidade tecnológica suficiente para um feito desses? Pior, quem teria interesse? O que havia de tão terrível ou perigoso em toda essa confusão que exigia esse nível extremamente exagerado de cautela para tentar garantir o sigilo da transação?

Conseguia pensar em algumas respostas, e decidiu que não gostava de nenhuma delas. No melhor dos casos, estava lidando com outro tecnopata, e aí poderia ser um dos bonzinhos como Visão, ou um da lista dos malvados, como Ultron. Nenhuma das possibilidades o agradava, mas, ao menos explicaria o nível de complexidade. Quer dizer, sendo tecnopata, se alguém o pedisse para adulterar algo, era provável que acabasse fazendo algo espalhafatoso desse jeito por puro hábito, por ser de sua natureza.

Mas, caso não se tratasse de um tecnopata, se tivesse sido um trabalho manual, teria sido de alguém que teria conscientemente se dado a todo esse trabalho perfeccionista para, de propósito, garantir o segredo absoluto da filmagem. E não havia tantas pessoas com recursos para pagar alguém caro o suficiente por um serviço daquela complexidade. Gente de Madripoor, por exemplo. Mais uma vez, as opções eram limitadas, e Aurelius não gostava de nenhuma.

E isso levando em conta a certa limitação de seus conhecimentos sobre heróis e vilões do mundo fora de Attilan. Ele só tinha conhecimento das armas pesadas, como os Vingadores e os X-Men — coitados dos mutantes nos dias de hoje —, mas sabia que a todo momento alguma outra pessoa muito habilidosa poderia aparecer. Nem se quisesse, Aurelius teria condição de prever as pessoas possivelmente responsáveis por isso com precisão aproveitável. Hacker com habilidades incríveis era do tipo que se bater em uma árvore caem três. Se a árvore ficar em Nova York, deviam cair uns cinco.

Bendita era dos heróis… Para isso, a quantidade de super-poderosos no mundo não era nada útil.

Ele bebeu um longo gole de água, respirando fundo e voltando a encarar a tela do computador, seus olhos assumindo o tom dourado enquanto os arquivos crus se tornavam legíveis para ele na tela. Tudo bem, era muito difícil conseguir descobrir quem tinha adulterado as filmagens pelos padrões de tecnologia utilizados nelas, então só o que podia esperar era conseguir reverter o que quer que fosse aquilo e torcer para a própria filmagem lhe dar algumas respostas.

Aurelius esquadrinhou os arquivos com os olhos mais uma vez. Os locais onde havia alterações saltavam aos seus olhos: era como estar lendo um livro e de repente dar de cara com um parágrafo que deveria estar na página seguinte, como se uma página inteira tivesse se perdido.

Aurelius suspirou. Seis e meia da noite. Mas não podia faltar muito mais, tinha deduzido mais da metade do pedaço faltante, um trabalho nada fácil e muito exaustivo mas, no mínimo, recompensador. Agora, até ele estava ansioso para saber o que essa filmagem tanto escondia, o que iria requerer um cuidado tão grande para esconder as informações. É claro, ninguém iria querer Raio Negro como inimigo, logo era uma decisão esperta cobrir muito bem seus rastros. Ainda assim…

Ele olhou para a tela, mais uma vez focando os olhos mais em seu reflexo que no conteúdo da tela em si, mas dessa vez, naquele momento, algo aconteceu. Ele deixou o queixo cair, devagar, vendo de súbito um padrão não antes percebido por ele.

Os olhos de Aurelius assumiram a cor dourada de novo, e ele voltou a tentar ligar os pontos, de outra forma, e dessa vez estava funcionando como magia.

Tinha conseguido. Ainda havia um ou outro frame perdido ou corrompido, mas nada que o atrapalharia de ter acesso ao cenário como um todo. A sensação de alívio e realização que o inundou foi tamanha que o homem tentou nem pensar muito sobre isso, para não acabar pensando no que teria acontecido se não tivesse conseguido resolver. Tinha conseguido. E era isso que importava por ora.

Ele tirou os frames corrompidos do arquivo, o que poderia até deixar o vídeo meio agarrado em algumas partes, mas daria para assistir. E era o que importava. Ele respirou fundo, estalou os dedos e iniciou o vídeo, recostando-se para trás para ver o fruto de seu trabalho.

Um homem entrou no armazém primeiro. Usava roupas esfarrapadas, do tipo que entregou para Aurelius muito rápido se tratar de alguém de casta baixa, alguém que sequer teria passado pela terrigênese. O homem olhou em volta por um instante e seguiu para a outra porta do armazém, a saída dos fundos, levando uma chave consigo.

Ele a abriu, e um grupo de três homens entrou no local. Aurelius estreitou os olhos, tentando melhorar a qualidade da imagem, mas teria de se contentar com o conteúdo um pouco pixelado mesmo e a impossibilidade de reconhecer o rosto de qualquer um. O primeiro homem chamou os outros três com a mão, indicando-os uma pilha de caixas ao lado, e os três homens começaram a carregá-las para fora do armazém, uma a uma. Não durou muito tempo; eles eram bem rápidos nesse tipo de coisa e levou Aurelius a se questionar sobre o nível de profissionalismo dos compradores. Foi um trabalho muito limpo, eles entraram, pegaram, e saíram. O último deles entregou algo para o homem que tinha os recebido e deixou o armazém, depois de terem pego as últimas caixas.

Aurelius bufou, frustrado. Que algumas pessoas tinham entrado no armazém e levado o terrígeno era óbvio, qualquer pessoa minimamente inteligente teria feito essa dedução. A única coisa que aquela filmagem o mostrava era que não havia superpoderes envolvidos na transação, mas grande coisa. Isso não ajudava muito.

Já perdendo as esperanças, ele enfim viu algo que poderia interessar. O homem que tinha sobrado no armazém se aproximou do painel de acesso do local. Ele abriu o painel, pareceu colocar algo ali, o fechou de novo, e só depois saiu. Então a filmagem chegou em um trecho adulterado.

Aurelius levou alguns segundos analisando aquele pedaço, mas, eventualmente, a ficha caiu. Um dos ladrões tinha entregue ao traidor um pedaço de tecnologia que adulteraria as filmagens para eles, um microprocessador ou chip pequeno, por exemplo. Algo que ainda deveria estar onde tinha sido colocado, ou o criminoso já teria sido encontrado a essa altura.

Havia uma pista.

Aurelius piscou os olhos, levantando-se de um salto. As janelas do computador se fecharam e ele começou a se desligar sozinho, enquanto o homem ajeitava o casaco e praticamente corria para fora de seu escritório. O armazém não ficava muito longe dali, e àquela altura ele mesmo estava queimando de curiosidade com o que iria encontrar. Não era qualquer um que conseguia alterar um arquivo a ponto de dar trabalho a um tecnopata, ao menos se não fosse outro tecnopata, portanto, admitia, muito lhe deixava curioso descobrir quem teria tido tamanha capacidade.

Sem paciência para limousine, ele pegou uma scooter no estacionamento, acelerando-a até o limite pelas ruas da cidade. Benefício de estar a serviço do rei: se dissesse que o tempo era questão crítica, e não apenas sua curiosidade o fazendo correr na rua de forma irresponsável, ninguém questionaria. O homem chegou ao armazém em tempo recorde, parando a scooter na porta de qualquer jeito e correndo até o painel do lado de fora.

O rei Boltagon tinha feito o enorme favor de acrescentar as credenciais de Aurelius às permissões para entrar no armazém, o que fazia sentido uma vez que estava investigando o local. O inumano colocou a mão sobre o painel, esperando a leitura de digitais reconhecê-lo e, lentamente, abrir as portas do armazém.

O local era enorme. Muito se tinha discutido em Attilan, por um bom tempo, sobre guardar terrígeno em armazéns ou apenas fazer os cristais sob demanda, mas acabou decidido ter um estoque para “possíveis emergências”. O que eram “possíveis emergências” nunca tinha sido especificado, mas Aurelius tinha suas teorias, todas envolvendo algum tipo de medida de contenção violenta contra insurgências internas ou ondas de primitivos clandestinos. Às vezes, sentia nojo de sua sociedade, não iria mentir.

Ele correu os olhos pelo local, agora vazio. Depois do roubo, as caixas não estavam mais sendo mantidas nele, mas o público não sabia disso. E nem devia saber. Deviam pensar que estava tudo resolvido e sob controle, mesmo estando bem longe disso. Aurelius esquadrinhou o chão de linóleo do lugar, mas não havia nada de interessante contra os ladrilhos brancos para se recolher; não que ele esperasse encontrar algo, mas procurar não machucava nada.

Assim sendo, ele se virou para o painel interno do armazém. Havia duas possibilidades para a entrada do traidor: ou ele era alguém que possuía acesso, e nesse caso, Aurelius não duvidaria nada do histórico de entrada dele no local ter sido apagado, ou qualquer que fosse a tecnologia utilizada para apagar as filmagens também teria dado acesso ao inumano a um local restrito.

Nada disso faria diferença se conseguisse encontrar a pista onde acreditava haver uma, então Aurelius tentou não pensar muito a respeito. Ele piscou os olhos, tornando-os dourados e olhando o circuito do painel por um tempo. Parecia estar funcionando normalmente, mas quanto a isso, era esperado. Se o dispositivo tinha cumprido seu trabalho de deletar a filmagem, não teria por que continuar interferindo.

Ele piscou os olhos de novo, voltando ao azul normal. Se não podia identificar o intruso através do circuito, o jeito era fazer à moda antiga. Ele enfiou a mão no bolso, tirando uma chave de fenda pequena e começando a desparafusar o painel. Não achava que o responsável pelo crime teria voltado à cena depois, seria muito arriscado, e como a própria família real não tinha mencionado nada sobre nenhum dispositivo sendo encontrado, o que quer que fosse ainda devia estar no mesmo lugar.

Aurelius soltou o painel, devagar, tentando não estragar nem tirar nada do lugar. Um primeiro olhar não revelou nada de mais. Bem, se fosse fácil de achar ele não estaria ali. O homem resmungou enquanto virava a tampa do painel e levantava alguns fios. Ele já estava começando a se sentir muito frustrado e irritado. Acendeu sua lanterninha de bolso, agora procurando em todos os cantos o máximo que podia e então, finalmente, lá estava.

Não era surpresa ninguém ter encontrado. Aurelius só sabia que era um chip porque, bem, era ele. Ele sabia dessas coisas. Mas o negocinho era tão pequeno que poderia facilmente ter passado por um bolinho de poeira. Não tinha mais de dois milímetros de tamanho, e mesmo Aurelius teve muita dificuldade para pegar aquele negocinho daquele tamanho e colocar num saquinho plástico para analisar.

A má notícia, ele percebeu logo em seguida, era que o chip estava frito. Algum mecanismo de autodestruição, e ele não conseguiria descobrir nada dele assim. É claro. Com sua sorte, porque esperaria algo diferente disso?

Aurelius suspirou, enfiando o saquinho no bolso e começando a parafusar a caixa de volta no lugar. Precisava pensar. Não queria voltar para o rei e a rainha de Attilan com nada menos que o nome de um culpado, e mesmo que tivesse atingido um bloqueio, não deixaria este impedi-lo de completar a missão.

Tudo bem, não podia analisar o conteúdo do chip. Mas podia analisar a carcaça. E foi ao pensar nisso que, Aurelius percebeu, na verdade não poderia fazer essa análise. Mas conhecia quem poderia.

Ele soltou um palavrão baixo. Incrível o quanto sua vida gostava de lhe pregar peças, fazendo-o voltar para os pontos os quais não queria ir nos momentos nos quais mais gostaria de evitá-los. Eupraxia podia até ser física quântica, mas como dividia o laboratório com o setor químico do Conselho Genético, tinha acesso a todo o tipo de parafernalha que ele queria usar agora. O acesso em si não era o problema, isso ele tinha certeza de que poderia conseguir, mas ela tinha o conhecimento. E isso ele não teria com facilidade de alguém de confiança, só esbarrando com a pessoa na esquina.

É claro, confiança era uma palavra muito forte para usar se referindo a Eupraxia, mas ao menos ela tinha o rabo preso com ele. Se ele rodasse, ela rodava junto, então a mulher não tentaria passá-lo para trás de graça com um assunto sério desses. Com pormenores, certamente, mas não com isso. Seria ruim para ela também.

Ele acabou pegando um táxi dessa vez, abandonando a scooter. Ele se acomodou no banco de trás, passando o endereço para o motorista e pegando o celular no bolso, pensando em mandar uma mensagem para não aparecer de surpresa, pois sabia que Eupraxia odiaria isso. Ele desbloqueou o aparelho, percebendo uma notificação de rede social e clicou, por instinto.

Arrependeu-se no mesmo segundo.

Se tivesse algum amor próprio, teria parado de seguir Ileana. Não lhe fazia nada bem ficar vendo pedaço a pedaço o quanto ela estava feliz e seguindo em frente enquanto ele ficava preso em sua vida atual e a seus sentimentos passados. Mas nenhum soco na boca do estômago era tão forte quando ver que ela tinha postado uma foto com o novo filho recém-nascido, ainda na maternidade.

Ele sentiu algo embolar em sua garganta. Por um bom tempo em sua vida receou o dia em que se tornaria pai, pensando que seria péssimo nisso graças ao exemplo horrível que teve em sua vida, mas o instinto paternal sempre tinha sido muito forte nele. Com o tempo, aceitando seu casamento com Eupraxia, aceitou também que algum dia ela seria a mãe de seus filhos.

Mas com a forma como o relacionamento dos dois ia, por mais que Aurelius sonhasse com o dia no qual ia segurar seus pequenos nos braços — sim, seus, pois queria muito ter mais de um — também receava o que sua relação com Eupraxia faria para a criança enquanto crescia. O quão prejudicial seria crescer com pais que se confrontavam tanto.

Talvez o universo estivesse fazendo algo bom, ao privá-lo de ser pai. Talvez fosse melhor para a criança se nunca tivesse de passar por isso, por mais que Aurelius desejasse visceralmente, dia após dia, noite após noite, que um dia Eupraxia ia entrar no quarto o xingando de todos os nomes porque ela estava prestes a ficar gorda por culpa dele — sim, pois tinha certeza, essa seria a reação dela. Não havia a menor chance de Eupraxia ser do tipo maternal, muito menos ao lado dele.

Mas, no fim das contas, ou ela estava usando anticoncepcionais, algo que era direito dela e ele não tinha nada a ver com isso, ou o universo simplesmente tinha decidido negar a ele esse sonho também. E se fosse esse o caso, não tinha o que dizer. Já tinha entendido que não estava escrito em seu futuro ser feliz. E estava conformado.

[...]

Eupraxia se estressava no trabalho com mais frequência que gostaria de admitir. Não gostava de se sentir pressionada, não gostava de ficar travada em um problema sem poder resolver. E gostava menos ainda de receber pedidos de coisas que não podia fazer na hora.

Talvez esse fosse um dos motivos, além dos óbvios, pelos quais receber uma mensagem de Aurelius dizendo que precisava vê-la no trabalho era tão incômoda. O trabalho deles era o único local no qual se sentiam seguros de terem um espaço livre da presença alheia, e os dois respeitavam isso um no outro. Para Aurelius, fazer questão de ir até o laboratório dela para vê-la, algo devia ter acontecido.

Ela passou a mão na nuca, alongando-se para tentar afastar o nervosismo, e ajeitou alguns fios de cabelo de volta para o coque alto que tinha arranjado. Podia não ser nada demais. Às vezes, ele só queria falar algo sem que os criados ouvissem, ela bem sabia como essa gente podia ser fofoqueira de vez em quando. Ou podia ser algo sério. Talvez alguma tragédia tivesse acontecido. Talvez fosse alguma tragédia acontecendo com ele, em específico, situação na qual ela não fazia ideia de porquê ele pensaria que haveria alguma utilidade em vir falar com ela no próprio laboratório mas, bem, poderia estar subestimando a situação. Não seria a primeira vez.

Eupraxia girou na cadeira, balançando uma lapiseira entre os dedos e afastando o olhar de suas anotações mais recentes. Estava ficando tonta com o tanto de contas matemáticas que vinha fazendo, precisava descansar um pouco. Ao menos a visita de Aurelius serviria como um refresco, uma mudança de tema.

E ele não demorou para chegar. Entrou no laboratório usando um daqueles ternos pretos ridiculamente elegantes dele e, surpresa para zero pessoas, ajeitando a gravata e as abotoaduras. Eupraxia tinha pensado por algum tempo que ele fazia isso só na presença dela, tentando se apresentar o mais alinhado possível ao seu lado, mas acabou aprendendo que eram reflexos tão naturais do homem que ele sequer se dava conta de ter feito os gestos na maioria das vezes. Ser exageradamente asseado estava, de fato, na personalidade dele.

Aurelius acenou educado para o zelador que tinha aberto a porta para ele, e depois de se ver sozinho no laboratório com a esposa — ele tinha sido específico na mensagem que o assunto era confidencial, e que chegaria ao fim do dia quando ela estivesse em suas inevitáveis horas extras e o resto do local estivesse vazio —, o homem seguiu até Eupraxia, enfiando a mão no bolso e tirando de lá um saquinho de plástico, que estendeu para ela.

— O que é isso? — A mulher perguntou, achando a embalagem muito similar a uma de evidências criminais. Esse instinto a fez abrir uma gaveta na mesa ao lado e tirar luvas descartáveis de lá, calçando um par na mão.

— Evidência. É um chip, mas os circuitos eletrônicos estão queimados. Não consigo acessar ele com minhas habilidades, mas ainda preciso saber de onde veio, então agradeço uma análise química.

Eupraxia estreitou os olhos. E ele estava pedindo isso para ela por quê...? Fora a usual animosidade entre os dois, onde trocas de favores não eram nada frequentes, ela era física quântica. Dali pra química havia um espaço enorme, algo de que com certeza Aurelius estaria ciente.

Ele também estaria ciente de que várias máquinas no laboratório faziam análises químicas de forma tão simples, apenas com o apertar de alguns botões, que até uma criança poderia fazer, embora não fosse necessariamente poder interpretar os resultados. No fim das contas, ele não precisava do conhecimento dela. Precisava do acesso que ela tinha aos equipamentos do laboratório de forma geral. Ela não duvidava que ele pudesse forçar esse acesso com os maravilhosos poderes de stalker digital dele, então, ainda não entendia, por que ela?

— Eu sou física, Aurelius.

— Eu sei — ele respondeu, as mãos nos bolsos, ainda parado no mesmo lugar.

— O que você precisa de mim? Não consegue mandar o computador analisar sozinho?

— Consigo. Mas acredito que se eu fizer isso, vão saber. Não quero ninguém sabendo o que eu achei antes de ter terminado.

— Terminado o quê? — Eupraxia perguntou, levantando-se com o saquinho em mãos e indo até uma máquina próxima.

Ela despejou o conteúdo do saquinho em uma gaveta e a fechou. Ligou a máquina, começando a apertar algumas configurações. As máquinas eram configuradas para detectarem acesso externo, e embora, talvez, Aurelius pudesse contornar isso, ele claramente não queria correr o risco. Preferia pedir a ajuda dela em vez de arriscar deixar pistas de sua investigação para trás.

A máquina começou a processar a análise na gaveta, e Eupraxia cruzou os braços, virando-se para ele. Ainda estava esperando suas respostas.

— É confidencial — ele disse.

— Excelente. Então o resultado da máquina também vai ser.

Aurelius revirou os olhos, apertando a ponte da nariz do jeito que fazia quando estava com dor no local. E ele ficava com dor ali quando usava os poderes demais, então é claro que devia estar estressado e sobrecarregado. Talvez fosse até por isso que tinha decidido pedir ajuda para ela em vez de invadir as máquinas ele mesmo. Talvez tivesse cansado suas habilidades.

— Não é meu segredo. Foi uma ordem não contar pra ninguém.

E ela com isso? A máquina apitou, indicando o final do processamento, e Eupraxia deu um passo para o lado, colocando-se na frente do leitor e segurando a tomada. Qualquer coisa ia desligar direto no cabo, mas não ia ficar fazendo favor assim de graça para Aurelius sem saber para quê. Sinceramente, quem ele achava que ela era?

— Ok, que seja! — O homem exclamou, dando-se por vencido. — O rei e a rainha me colocaram para investigar o sumiço de terrígeno. Satisfeita?

Praxis tentou muito não sorrir. Por alguns milímetros, sua boca se curvou um pouco, e ela se perguntou se seria perceptível. Não faria diferença se fosse. Não estava nem aí. Ainda poderia pedir muitos detalhes, é claro, tinha certeza de haver muita informação extra nessa situação toda que ela poderia recolher, mas por hora, bastava. Praxis se afastou do leitor, inclinando-se sobre ele para ler os resultados.

— Bastante sílica, um pouco de ouro, cobre...

Mesmo ela sabia que esses componentes eram comuns em um chip de computador, tinha conseguido esse conhecimento por osmose de tanto conviver com Aurelius. Não era isso que ele estava procurando, com certeza. Ele estava querendo a novidade.

— Um pouco de ferrugem — ela continuou. — Hum, certamente teve contato com umidade. E traços de cloro, flúor, e… sulfato de alumínio?

Hum. Interessante. Eupraxia franziu a testa, enviando os resultados para seu computador e voltando para ele. Ela lançou um olhar para Aurelius, quase interrogativo, mas ele não tinha nada a falar ou a reagir. Era provável que aquela lista randômica de componentes significasse tanto para ele quanto para ela: nada, e ele ainda estava esperando por respostas.

Normalmente, Eupraxia seria suficientemente egocêntrica para deixar Aurelius com essa lista e deixar que ele se virasse com o resto do problema sozinho. Mas ela não pôde deixar de sentir uma ponta de interesse muito forte na boca do estômago. Ele estava investigando o desaparecimento do terrígeno, o que queria dizer que, inevitavelmente — porque ela o conhecia o suficiente para saber que Aurelius jamais deixaria um pedido desse escalão sem ser completamente resolvido — ele entraria em contato com alguém que sabia como traficar cristais terrígenos para algum lugar. Quando isso acontecesse, ela queria saber quem era essa pessoa. Então, quem sabe, se fosse um pouquinho mais solícita agora, Aurelius não se sentiria mais motivado a dividir qualquer detalhe com ela no futuro?

Ela abriu um banco de dados de registros de pesquisas químicas do laboratório, e mandou procurar por combinações que batessem com aquela lista encontrada por eles. Enquanto isso, a mulher abriu a gaveta da máquina, colocou o chip de volta no saquinho plástico e devolveu a Aurelius.

Ele parecia desconfiado. Ótimo, era só o que precisava. E não dava nem para culpar. Ela conseguia perceber como seu súbito surto de benevolência deveria estar soando esquisito.

Precisava inventar uma desculpa.

— Está me olhando assim por quê? — Ela questionou, cruzando os braços e levantando o queixo de leve, tentando se manter em algum nível de superioridade. Qualquer que fosse.

— Você está me ajudando. Não é de graça. O que você quer?

Bem, ao menos ele tinha sido direto em perguntar o que ela queria. Algo no formato daquela pergunta a deu liberdade e inspiração para pensar em uma desculpa. Qualquer uma. Mas tinha que ser o tipo que fosse colar com Aurelius. Algo que ele esperasse dela, algo que ela de fato faria, ou apenas um fruto da imagem que ele tinha dela.

Felizmente, a mulher conseguiu pensar em algo.

— Eu quero estar do seu lado quando você for entregar a vitória pro rei e pra rainha. Eu quero colher os frutos disso também. Eu quero algum tipo de agraciamento que não venha atrelado a esta merda de casamento e aí, quem sabe, um dia eu não vou ser respeitada o suficiente só por ser eu mesma em vez de por ser sua esposa? Se bobear, a gente consegue até um divórcio.

Aurelius riu, sarcástico, e Eupraxia soube que a resposta tinha colado com ele. A parte do divórcio era claramente uma piada, não poderiam se separar depois de uma análise genética tão impecável tê-los colocado juntos. O pedido jamais seria aceito, principalmente antes de terem filhos. E depois de terem, aí que ela não poderia se separar dele mesmo. O que a alta sociedade de Attilan pensaria, aquele bando de enxeridos, vendo a criança sendo criada por pais separados por pura pirraça de não quererem viver no mesmo espaço?

Pelo Rei, como era exaustivo ser nobre naquele lugar. Que inferno.

O computador terminou de processar a análise, mostrando uma lista na tela. Ela se inclinou para ler, logo vendo Aurelius se inclinar ao seu lado por trás dela, com a boca perto demais de seu pescoço naquela posição, embora ele não parecesse ter se dado conta disso.

Ela sentiu um arrepio. Decidiu ignorar, e se focou na lista.

Não havia tantas respostas assim, e umas tantas eram dispensáveis. Estavam procurando por algo que fizesse sentido, algo que apontasse um culpado. Algo ali teria de ser uma resposta precisa, em vez de uma alusão solta a fábricas de pasta de dente, coisa que nem existia em Attilan. Ela foi rolando a lista devagar, sentindo que chegou ao final depois de apenas umas duas rolagens, e de repente a mão de Aurelius voou na direção do monitor, parando embaixo de um dos elementos.

— Isso. Isso aqui, o que é?

— Hum… Tratamento de água?

— Sim… Os aquedutos, Eupraxia.

Oh. Oh! Isso fazia muito sentido! Os aquedutos eram um local de trabalho braçal, havia muitos inumanos marginalizados lá. Eupraxia não era nada boa em formar perfis criminais, para ela tanto o tráfico podia ser coisa de gente rica querendo mais dinheiro, como poderia ser coisa de gente pobre querendo revolução. Mas Aurelius devia ter um pensamento diferente, pois seus olhos ficaram dourados no mesmo instante, e ela o viu pegar o próprio celular e começar a fazer uma série de pesquisas em velocidade assustadora.

Bem, ok, seu marido estava sendo bem esquisito agora parado do lado dela com os olhos acesos e fazendo as telas do celular passarem numa velocidade impossível de se acompanhar. Ela virou a cadeira devagar, voltando-se para a própria tela e deixando o ciborgue ambulante terminar o trabalho por conta própria. Já tinha ajudado demais, e já tinha trabalhado demais também por um dia. Era hora de ir para a casa.

A mulher desligou os computadores e juntou sua bolsinha, ainda precisando esperar alguns segundos antes de Aurelius terminar a tal pesquisa dele e enfim começar a guiá-la para fora do local. Ela deu o braço a ele, um costume dos dois quando estavam em público para manter as benditas aparências, e foi seguindo com o homem até a saída do prédio.

Ele ficou todo o caminho calado. Isso não era incomum da parte dele, os dois não falavam muito a não ser que fosse para discutirem, mas aquela ruguinha na testa, aquela expressão muito pensativa, ela tinha visto poucas vezes. Estava certa em sua dedução inicial, ao receber a mensagem do homem. Ele estava se sentindo pressionado.

E uma pessoa pressionada, mesmo resistindo a princípio, eventualmente aceitaria ajuda.

Os dois entraram na limousine os esperando na saída do laboratório e Eupraxia apertou um botão, fechando a janela entre eles e o motorista e os mergulhando em silêncio e privacidade na parte de trás. Ela abriu o cooler do veículo, preparou rapidamente uma água com gelo e limão para si e um martíni para o marido, seco como o tinha visto gostar de pedir.

— Você parece estar precisando disso — mencionou, entregando a taça para ele.

— Isso ainda é uma conversa de negócios? — Ele perguntou, dando um gole no martíni e afrouxando a gravata. Ótimo, ele estava começando a relaxar. Aos poucos.

— É claro, o que mais seria? — A mulher perguntou, desabotoando as sandálias dos pés e cruzando as pernas para cima do assento. — Vou ser bem direta. Eu quero metade do que quer que seja que vão dar a você.

Dessa vez, Aurelius sequer soltou a risada de descrença dele. Apenas bebeu outro gole do martíni, pensativo por alguns segundos, antes de dar sua resposta.

— Isso é você assumindo que eu vou receber algo quantitativo pelo trabalho.

— Ah, convenhamos Aurelius, é a Família Real. Eles vão te dar alguma coisa. Se não for exatamente divisível por dois, tenho certeza de que podemos pensar em alguma forma de me incluir no brinde. Eu te ajudo com seu problema, você divide o prêmio comigo depois, e ninguém precisa saber que eu participei até já termos terminado com tudo. Não é assim uma ideia tão ruim, é?

Não, era uma ideia excelente. Ela conseguia ver as engrenagens girando na cabeça dele, combatendo o pedido de confidencialidade com a necessidade de uma ajuda de qualquer tipo. E ele sabia que ela não contaria nada a ninguém, tinha certeza disso. Se ela revelasse sua participação, estaria se prejudicando também, e por que raios iria querer uma coisa dessas?

— Digamos que eu concorde — ele disse, colocando o martíni em um porta-copos. — O que me garante que você não vai tentar me passar a perna em dado momento, de alguma forma?

Ouvir aquela pergunta não deveria ter doído, mas doeu mesmo assim. É claro que ele esperava isso dela, seria muito burro ou inocente se não esperasse. E considerando que era exatamente o que planejava fazer, algum sub instinto de culpa deveria estar atacando agora, pois ela ficou muito desconfortável com a pergunta. Tentou não demonstrar, não sabia se tinha conseguido. Ela colocou seu copo de lado, inclinando-se para a frente e levantando uma sobrancelha para ele.

— Passar a perna como? Eu não devia nem estar envolvida. Se você não conseguir terminar a investigação, eu também não termino. Sem ganho pra você, sem ganho pra mim. Eu sei que você me acha egoísta, mas por favor, não ofenda minha inteligência, eu não sou idiota. Temos um acordo? — Ela perguntou, estendendo a mão para ele.

Aurelius hesitou por um instante, ela pôde ver. Mas por fim ele estendeu a mão, apertando a dela, embora ainda parecesse assustado como se tivesse fechando um pacto com o diabo. Eupraxia manteve a expressão neutra e tentou não pensar muito nisso, até porque, no fim das contas, era exatamente isso que Aurelius estava fazendo.

Notas finais
Link pro grupo de whatsapp: https://chat.whatsapp.com/DrHNqXKPp8cBfLb7UGgbAL Considere favoritar essa fic e Homem de Gelo também. Vai deixar meu coração bem quentinho ♥ Além dessa, tenho vagas também para uma interativa original sobre revoltas civis. Acesse aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-rosa-do-tempo--interativa-19350882/ Considere também dar uma olhada nas minhas outras histórias? :D Eu tenho coisas para vários gostos ^^ Leia a duologia Hunters! Comece aqui: https://fanfiction.com.br/historia/771022/Hunters_Hunters_1/ Leia minha original de fantasia urbana, Carmim! https://fanfiction.com.br/historia/787245/Carmim/ Leia minha fanfic de Harry Potter! https://fanfiction.com.br/historia/781763/Marcas_de_Guerra_Historias_de_Bruxos_1/ Fanfic 2 atualizando atualmente: https://fanfiction.com.br/historia/799894/Amargos_Recomecos_Historias_de_Bruxos_2/