S.H.I.E.L.D.: Guerreiros Secretos (Marvel 717 2)
23 Últimos Desejos
Toda a situação deveria ser familiar para Theo. Não era tão diferente de uma das suas muitas rotinas de treinamento, tanto como Purificador quanto como agente em treinamento, e até uma ou outra missão oficial de Purificador nas poucas vezes nas quais tinha se juntado a elas. Ainda assim, muita coisa era diferente.
Não era comum para ele sentir medo de morrer. Não que não tivesse sido acompanhado de um sentimento inerente de medo antes, uma sensação na boca do estômago o deixando em estado permanente de pânico e alerta para qualquer menor sinal de risco ao seu redor. Mas isso era diferente. Dessa vez, sentia-se muito atento aos perigos da situação de forma consciente, e sua mente continuava dando voltas e mais voltas em todas as coisas as quais deixaria de fazer caso morresse ali.
Sua casa. Sua vida pessoal. Seus hobbies. Damon. Sua casa. Sua vida pessoal. Seus hobbies. Damon. Damon.
A cada dia, Theo vinha sentindo seus pensamentos sobre Damon mudarem. Antes eram saudosistas, quase um sonho distante adolescente, a ilusão de uma história de amor. Ultimamente, por mais que a paixão ainda estivesse viva, vinha se dado tempo para pensar mais em si mesmo enquanto assistia ao seu curso de carpintaria, e percebeu, era mais que isso. Não eram apenas seus sentimentos por Damon, muito existentes e verídicos, não. Era sobre si mesmo também. Era sobre o que seu relacionamento conturbado com Damon representava: a vergonha e relutância as quais tinha sentido consigo mesmo por tanto tempo.
Theo costumava ter vergonha até da própria sombra. Cada pensamento subconsciente sobre Damon, cada desejo enterrado relacionado a ele fazia Theo entrar em uma espiral de negação doentia o suficiente para afetar sua auto-confiança. Não à toa, tinha se apegado tanto a Damon. Vinha se odiando o suficiente para qualquer sinal de afeto se tornar não apenas um ramo de oliva, mas sim a oliveira inteira.
Não mais. Sabia quem era, e queria colocar sua vida no lugar, uma coisa de cada vez. O primeiro passo era muito simples: fazer seu trabalho e sair dali vivo.
Ele e Piper tinham entrado na sala de servidores enquanto o restante do time se encaminhou pra a sala do lado. Theo segurava uma pistola na mão esquerda e uma lanterna na direita, a lanterna posicionada bem em cima do cano da pistola. Eles entraram na sala e ele a piscou, fazendo uma varredura muito rápida do local para se certificar de estarem sozinhos. Estavam.
— Limpo — ele anunciou, seguindo para a direita enquanto Piper ia para a esquerda.
— Limpo — ela respondeu, acendendo a lanterna de vez no instante seguinte.
Theo acendeu a sua também, olhando em volta para o local onde estava. Era uma espécie de escritório, com uma mesa, armários de arquivos com gavetas abertas e vazias e um bocado de livros em alemão cujo conteúdo não conseguiu decifrar. Mirando a lanterna na mesa, viu marcas na poeira da mobília, indicando que algo grande tinha sido retirado dali depois de ter ficado muito tempo no mesmo local. Pelo formato, arriscaria se tratar de alguma escultura ou decoração. Um objeto pessoal. Alguém tinha saído rápido o bastante para pegar objetos de valor emotivo, mas não rápido o bastante para desmantelar toda a organização.
Já tinha visto esse comportamento antes. Os Purificadores costumavam esvaziar suas bases exatamente nesse padrão quando os mutantes estavam chegando. Uma vez, teve de sair às pressas e se lembrou de ter seguido Niko e Damon para a papelaria da organização, onde Damon quase tinha morrido eletrocutado.
Credo, ele passava por experiências de quase-morte demais. Talvez fosse mesmo verdade essa história de se atrair o que se exala.
Theo balançou a cabeça devagar, tentando se focar no presente. Base agora, passado depois. Foco.
— Ei, Wayland. Tem uma escada aqui — Piper chamou.
Theo se virou para a mulher, mirando a lanterna em sua direção. Havia mesmo uma escada no canto da sala, presa à parede e quase escondida, ao lado de uma porta dos fundos também bastante discreta. Os dois trocaram um olhar breve, e Piper decidiu ser a primeira a subir, fazendo-o em seguida.
Theo decidiu ir logo atrás. Ele subiu os degraus, esperando no meio da escada quando Piper terminou de subir. Aguardou enquanto ela fazia sua vistoria até anunciar que o local estava limpo, e subiu até o andar de cima.
A sala era totalmente diferente. Para a esquerda, Theo viu uma enorme janela de vidro, aproximando-se dela devagar para ver onde dava: era possível ver a sala de operações onde o resto de seu time estava conversando, Bobbi mexendo em algumas coisas e Mack falando com ela. A parede do fundo da sala possuía quatro computadores alinhados e desligados, com certeza algum tipo de servidor.
Estavam prontos para isso. Theo enfiou a mão no bolso da jaqueta, tirando um dos pendrives oferecidos a ele por Mack. Tinham sido programados por uma amiga dele, uma agente Johnson, com um vírus certamente capaz de extrair informações dos sistemas mais protegidos possíveis. Theo esperava que sim. Ele se abaixou, ligando a máquina mais do canto e enfiando o pendrive na primeira porta disponível.
No lado direito da sala havia uma janela e outra escrivaninha, esta completamente vazia, e por fim, na parede de trás ao lado da porta onde havia entrado, outra janela. Esta dava visão para o armazém como um todo e, olhando por ali, Theo teve uma boa visão dos corpos de soldados da I.M.A. apagados pelo esforço conjunto de Bobbi e Yo-Yo. Aquela era uma posição curiosa para se colocar janelas, ele pensou. De frente para um armazém vazio. De frente para uma sala de operações.
Ele parou no meio da sala, olhando para as janelas e para a posição da mesa. Não era acaso. Nada disso era. As janelas estavam posicionadas em local de vigia. A pessoa a quem aquele escritório pertencia tinha uma posição perfeita para assistir qualquer cirurgia na sala de operações e qualquer teste na área geral do armazém, de um local consideravelmente seguro. Somando à porta dos fundos no andar de baixo, não deixava dúvidas. Aquela era a sala para alguém comandar um experimento com segurança. Mas qual...
— Isso é bizarro — Piper comentou. — Minha pele tá formigando. A sua também tá? Quer dizer, que negócio esquisito essas mesas todas na sala aqui de baixo… Perturbador.
Sim. Parecia coisa saída de um filme de terror médico. Não tinha gostado de nada daquilo, mas estava tentando não pensar muito no assunto para não atacar sua sanidade.
— Avise a eles que encontramos uns computadores aqui — Theo pediu, franzindo a testa enquanto observava o matagal nas imediações dos fundos do armazém. — Alguma coisa está me incomodando sobre isso. O vírus dessa amiga sua é bom mesmo?
— Daisy? Não conheço ninguém melhor que ela pra computador. Mas Agnes também não parece ser pouca coisa, não é?
Não, não parecia. Theo se perguntou se haveria algum tipo de guerra de malwares acontecendo naquele instante no pendrive, e se isso traria problemas para eles. Talvez tivessem denunciado sua posição, mas por outro lado, a quantidade de soldados derrubados também não era muito discreta. Eventualmente, a I.M.A. saberia de sua presença. Era só uma questão de quando. Mas seria em breve. Conseguia sentir.
Era quase como ter alguém apertando seu estômago para aumentar seu desespero. Ele sentia esse aperto, e desviou o olhar para o pendrive na máquina, onde uma luzinha vermelha piscava, indicando que o processo ainda estava em andamento. Ele olhou para a tela, onde uma série de janelas abriam e fechavam indicando cópias de procura de arquivos no computador.
Não… Não tinha como Agnes não saber que estavam ali. Theo conseguia sentir, o instinto de preservação dos Purificadores continuava muito vivo em si. Tinha aprendido a estar sempre em estado de alerta, a identificar nos menores sinais de mudança a aproximação dos X-Men. Um segundo poderia ser a diferença entre ser capturado ou não. E não seria estúpido o suficiente para assumir que seu instinto era um talento especial só dele; certamente todos os outros agentes tinham a mesma habilidade e sentiam o mesmo.
Piper se aproximou dele em silêncio, conferindo a munição de sua pistola e olhando pela janela com ele. Então, tão simples e repentino como poderia ser, um grupo de soldados vestidos de amarelo começou a caminhar para fora do matagal que circulava o armazém. E, no meio deles, ali estava.
— Agnes — Theo resmungou, apertando a pistola.
Se sentia tão furioso quanto qualquer outra pessoa no time, tinha certeza. Ele olhou para o pendrive e a luzinha vermelha ainda piscava. Não estava pronto. Poderia tirar agora de qualquer jeito e ficar com o que tinha nele, ou arriscar mais um pouco de tempo.
— Acha que conseguimos tempo? — Ele perguntou.
— Só se tiver alguma distração.
Distração. Distração…
Theo nunca soube dizer se a ideia que se manifestou em sua mente em seguida era muito genial ou muito estúpida, mas no momento, foi a única coisa na qual conseguiu pensar. Ele ligou outra máquina, colocando um pendrive nela, e desconectou os cabos do monitor da máquina anterior, a qual estava de fato hackeando. Depois, empurrou a lixeira ao lado da escrivaninha um pouco para a esquerda, só um pouco, o suficiente para cobrir o pendrive daquela máquina. Com sorte. Talvez.
Então se sentou na cadeira de frente para o computador o qual tinha acabado de ligar.
— O que está fazendo? — Piper perguntou, assistindo a situação com a expressão um tanto embasbacada.
— Uma distração. Agnes vai entrar aqui e ficar puta o suficiente comigo para não conferir o outro computador. Ou assim espero. E se ela tentar conferir, você pega o pendrive de lá e sai correndo, ok?
— Theo, só tira aquele treco de uma vez e esconde.
Ele negou.
— Agnes vai me revistar se eu fizer isso. Ela precisa achar que me pegou no flagra. O ego precisa subir na cabeça dela.
Piper suspirou, parecendo cansada e se colocando atrás dele com a arma em riste.
— Isso é uma péssima ideia e a gente vai morrer. Eu sento aí no seu lugar, anda.
— É? Você sabe mexer com servidor desse tipo? Agnes vai ter lido nossas fichas. Eu tenho muito mais experiência com computador que você, se você sentar aqui no meu lugar, ela vai achar que tem algo errado e…
Não terminou. A porta dos fundos da sala de baixo foi arrombada, e Theo respirou fundo, pegando a pistola no coldre e a apontando para a escotilha de onde vinha a escada. Depois de alguns segundos, a primeira cabeça coberta da veste amarela da I.M.A. despontou pelo buraco, e ele e Piper começaram a atirar.
Não era nada difícil acertar alguém naquela posição, e aquele era o lado bom. O lado ruim foi só terem acertado dois tiros antes de pararem de subir.
— O que aconteceu? — Piper perguntou em um sussurro.
Theo ia responder que não sabia, e levou a mão ao comunicador para avisar ao restante do time do problema atual naquela sala, mas uma granada de gás foi atirada para dentro do cômodo em seguida.
O garoto abaixou o rosto, cobrindo-o com o braço e apontando a pistola para a escotilha com uma mão. Mas o gás ardia seus olhos, estavam lacrimejando e não conseguia mirar com precisão ou reagir de forma decente. Acertaram mais dois guardas quando eles finalmente conseguiram entrar no local. Theo viu um borrão amarelo passar em sua frente, e algum golpe em seus joelhos o jogou no chão. Então ele abaixou o rosto, chorando enquanto o gás atacava seus olhos e tentando não puxar lufadas muito grandes de ar.
Havia passos. Vozes. Muitas vozes, e então ouviu algo abafado parecido com “prendam” e “saiam”; era claramente a voz de Agnes. Alguém o puxou pelos braços e Theo ainda piscava, agora sentindo a garganta também arder, atacada pelo gás. Mais passos.
— Inacreditável. Você tem que ser mesmo muito corajoso, pirralho. Ou muito burro.
Um ruído indicou que Agnes tinha arrancado com força o pendrive da máquina ligada. Ela não parecia ter notado o outro computador ainda. Não teria como notar, a menos que tirasse a lixeira do lugar, e ela não ia tirar. Precisava pensar que não. E todo aquele gás também deveria servir de camuflagem e comprar algum tempo.
Os passos se afastaram para trás e ele ouviu um ruído de estática. Erguendo a cabeça com dificuldade, ele viu Agnes parada na frente do vidro que dava visão para a sala de laboratório, segurando nas mãos um microfone antes preso à parede, provavelmente o que usava antes para dar ordens durante os experimentos.
— Ora vejam só, se vocês não são uns belos de uns enxeridos… O que é que eu vou fazer com vocês?
Inferno… Theo ouviu um barulho de pancada muito abrupto e viu que tinham batido a cabeça de Piper contra a parede. Ela estava desacordada. Olhando para o lado, em meio a névoa do gás que começava a se dissipar, viu Agnes acenar com a mão, dispensando a maior parte dos guardas, restando apenas um ao lado dela.
— Vocês realmente pensaram que sua melhor chance de conseguir algo das minhas coisas era usando um pirralho adolescente? Quase me sinto ofendida.
Ela tinha um sorriso falso no rosto. O estômago de Theo embrulhou, mas ao menos os olhos estavam melhorando um pouco. Ainda não conseguia se levantar, com o guarda da sala o segurando pelos pulsos, mas conseguia visualizar a situação. Piper tinha caído bem entre a escrivaninha e a parede da máquina a qual queria esconder. Se a chance de Agnes achar aquele pendrive era reduzida antes, agora então era mesmo pequena. Ela não se aproximaria de Piper desacordada quando estava muito preocupada com os agentes ainda acordados.
Só precisava conseguir pegar aquele pendrive de alguma forma. Mas como faria isso?
Não teve muito tempo para pensar. Agnes caminhou até ele, pegando-o pelo pescoço e o colocando de pé. Perfeito. Poderia lutar, não é? Não tinha como Agnes ganhar dele em combate.
Mas tão rápido quanto formulou aquele pensamento, sentiu algemas se fecharem em seus pulsos e o cano gelado de uma arma pressionada contra seu abdômen, por baixo do colete à prova de balas que vestia. O guarda fez o favor de afrouxar as arreias do colete de Theo e, de repente, ele se deu conta do que estava acontecendo.
Agnes o empurrou contra o vidro da janela, e ele ouviu um grito de Mack e um impropério muito pesado vindo de Hunter. Não conseguia mexer as mãos, então começou a se debater e tentar chutá-la, mas o metal frio da arma se pressionou contra sua camisa, passando também a sensação gelada para sua pele.
Theo já havia sentido pânico algumas vezes na vida, e sempre tinha aprendido a ter sangue frio e controlar a sensação. Mas nunca alguém tinha colocado uma arma contra si daquela forma, e o garoto sentiu um arrepio descer por sua espinha. Estava amarrado, mas, mesmo se não estivesse, duvidava que seria capaz de reagir de alguma forma. O que o paralisava não eram só as algemas em seus punhos, ou a arma em seu abdômen. Era o medo.
Ele tentou virar o rosto para ver a sala através do vidro, ou qualquer pedaço do andar de baixo, mas não conseguiu. Conseguia apenas imaginar uma horda de soldados parados na frente da porta para impedir a entrada de qualquer um, e sabia, Mack não forçaria a entrada com Agnes apontando uma arma para ele.
— Agnes! O que você quer? — Ouviu a voz do homem perguntar. — Solte o garoto e resolva isso comigo!
— Eu tenho o que eu quero, Mackenzie! Vocês estão exatamente onde eu gostaria. E isso aqui… Bem, leve como uma vingança pessoal. Eu não gosto que mexam nas minhas coisas.
Então Agnes apertou o gatilho.
Theo tinha levado alguns tiros antes, a maioria de raspão; certa vez, um em cheio no braço direito. Mas nunca desse jeito, à queima-roupa. Primeiro, queimou por um milésimo de segundo, e logo a dor excruciante começou. Theo gritou, vendo o sangue se espalhar pelo seu peito e começar a escorrer para as pernas. Seu corpo tremeu e seus olhos se encheram de lágrimas.
Doía. Não, não era apenas dor, era queimação também, tudo misturado enquanto sangrava e começava a tremer numa reação involuntária. Agnes soltou seu pescoço e, agora, ela era a única coisa o mantendo de pé, de forma que caiu no chão no mesmo instante.
Olhando para cima, viu uma enorme mancha de sangue no vidro da janela, e o rastro continuava até o chão. Até ele.
Ia morrer. Devia ter ouvido Piper, devia ter tirado o bendito pendrive antes. Agnes não atiraria nele se não o pegasse no flagra daquele jeito. E de que adiantaria o pendrive completo se estivesse morto e não pudesse entregá-lo para o resto da equipe?
Ouviu vozes, discussões e gritos, mas sua cabeça começou a girar e não conseguia mais distinguir as palavras. Em dado momento, virou o rosto para o lado e viu Piper caída, ao lado da lixeira, e uma luzinha muito fraca e quase imperceptível, apenas um reflexo suave no plástico da lixeira.
Uma luzinha verde.
O pendrive tinha completado o hack.
Theo sentiu uma onda de calafrio se espalhar por sua sua coluna, e não sabia se era efeito do tiro, de sua tontura ou da constatação. Agnes ainda falava alguma coisa no microfone, mas, eventualmente, ela o largou e deixou a sala pela escada.
Agnes e seus capangas tinham ido embora. Estava sozinho com Piper.
Theo se virou de bruços, mordendo o braço para se impedir de gritar com o movimento. Então começou a se arrastar bem devagar, em direção a Piper e o pendrive escondido.
Suas mãos tremiam, mas ele continuou, alcançando enfim a perna de Piper e a balançando devagar. A mulher não acordava nem reagia. Theo temeu que ela sequer estivesse viva até perceber o peito dela subindo e descendo.
Ou talvez fosse ilusão sua, uma vez que sua própria visão estava ficando turva. Infernos, logo agora… O pendrive estava bem ali, a poucos centímetros de seus dedos, conseguia ver… Só precisava conseguir pegá-lo, só precisava pegar…
A visão de Theo escureceu.
[...]
Não importava o quão experiente se fosse no ramo. Não importava todos os anos de Hunter como tenente nas Forças Armadas Britânicas, ou como mercenário, ou como agente. Ver um colega de time cair sempre era doloroso e brutal, mas conseguia ser incomparavelmente doloroso ao se tratar de um garoto que nem tinha dezoito anos ainda.
Ele sentiu o sangue fugir do rosto. Agnes tinha um sorriso muito satisfeito, e limpou o cano da pistola em um lenço oferecido para ela pelo guarda ao seu lado. Então enfiou a arma no coldre novamente e voltou a pegar o microfone.
— Entendam, eu não tolero palhaçada pro meu lado. Vocês só estão aqui porque eu deixei vocês virem. Preciso de alguma coisa pra usar de teste pro M.O.D.O.K. Vocês não são lá grandes coisas, mas vão servir. E estou satisfeita com o excesso de diálogo que essa situação exigiu, então vou me retirar agora. Obrigada por comparecerem ao meu pequeno evento.
Agnes desligou o rádio e saiu. Hunter ficou parado por alguns segundos, encarando a mancha do sangue de Theo no vidro da janela da sala. Então o sangue o qual tinha fugido de seu rosto voltou de uma vez: o homem ficou vermelho, sacou sua arma — a de balas, ignorou a I.C.E.R. no outro coldre de propósito naquele momento — e saiu do laboratório improvisado na mesma hora.
Como tinha imaginado, a quantidade de guardas da I.M.A. era preocupante. Um mar deles, todos de amarelo, ocupando metade do armazém em turba. Eles todos levantaram as armas, apontando-as para Hunter ao mesmo tempo em um movimento robótico e instantâneo, quase como se tivessem recebido uma ordem, apesar de não ter ouvido nada. Hunter levou o dedo ao gatilho, mas não atirou. Eram muitos. Sabia que se apertasse o gatilho, eles todos atirariam, e ele morreria. E então não poderiam ajudar Theo.
— Mack — Hunter murmurou. — Isso é estranho. Que tipo de comportamento de colmeia é esse?
Ele sentiu um cutucão nas costelas vindo de Bobbi, e levantou o rosto para o fundo do armazém.
Já tinha visto coisa esquisita na vida, mas se tivesse de fazer uma lista, com certeza aquilo estaria muito perto do topo. Em uma cadeira flutuando no fundo do armazém, estava sentado um homem, ou o que deveria ter sido um homem um dia. Ele parecia estar desacordado, e tinha a cabeça do tamanho de um carro esporte convencional. Havia uma enorme quantidade de eletrodos presa ao cérebro dele, e o homem apertava os braços da cadeira com energia demais para alguém inconsciente.
— M.O.D.O.K… deve ser aquilo — Hunter disse. — Bem, o projetinho de ciências dela não está funcionando muito bem, está? Ainda estamos vivos. Não estão atirando na gente.
— Às vezes, ela está testando tempo de resposta. Esperando que nós façamos algo — Bobbi murmurou, guardando os bastões nas costas e pegando uma I.C.E.R.
Era gente demais para um corpo-a-corpo.
— Uma coisa de cada vez — Mack murmurou. — Yo-Yo, leve Bobbi até Theo. Ajude ela no que for necessário para cuidar dele, e vá atrás de Agnes depois. Bobbi, fique com Theo até ele estabilizar, Hunter e eu vamos cuidar das coisas por aqui. Vão.
Hunter viu Yo-Yo pegar Bobbi pelo braço e, em um piscar de olhos, elas não estavam mais ali. Eram apenas ele e Mack agora.
— Precisamos de gás — Mack sussurrou. — Ou qualquer outra coisa que ataque em massa.
— Tem uma infinitude de guardas caídos lá no fundo da sala, mas não acho que esses aqui vão deixar a gente chegar lá.
— Eles seriam imunes ao próprio gás de qualquer forma, estão vestidos para isso.
De repente, os soldados firmaram as miras das armas mais uma vez, mudando de uma posição mais passiva para uma de agressividade. Hunter percebeu com um segundo de vantagem o que ia acontecer.
— Abaixe!
Ele e Mack se jogaram ao chão. Os soldados começaram a atirar em sua direção e ele voltou para trás com Mack, arrastando-se para dentro da sala de operações e fechando a porta. Os dois avançaram até o armário mais próximo e o empurraram para barricar a porta, mas com aquela quantidade de guardas do lado de fora, a única coisa a qual ganhariam com isso era tempo. E nem tanto assim.
— Alguma ideia? Rápido? — Hunter pediu, ouvindo o barulho das balas atingindo a porta e a parede e apontando a I.C.E.R. para a porta sem saber o que fazer. Mack olhava em volta e Hunter começou a rezar apesar de ser ateu, porque não fazia ideia de como iam sair dessa.
— Sim! — Mack exclamou de repente, tirando a tira de cartuchos de sua escopeta do ombro e a colocando sobre a mesa de centro. — Pegue três balões de oxigênio e faixas cirúrgicas.
O que carambas Mack queria com aquelas coisas, Hunter não fazia ideia, mas Mack era engenheiro. Tinha aprendido há um bom tempo a não desconfiar das ideias dele, ou da forma dele de lidar com problemas e soluções. Hunter encontrou os balões de oxigênio no canto da sala e as faixas dentro de uma das gavetas, e levou tudo a Mack. Começaram a ouvir pressão na porta de entrada da sala, e Hunter pensou se os guardas estariam tentando ir atrás de Bobbi também. Tentou não pensar muito nisso. Precisava se salvar primeiro se quisesse salvá-la depois.
Mack abriu a faixa cirúrgica, enrolando todos os cartuchos de sua escopeta nela e fazendo um bolo de faixa e balas. Então colocou os três balões de pé, pedindo a Hunter para segurá-los no lugar, formando um círculo com eles e colocando as balas no meio. Depois, ele enrolou tudo com mais faixa, formando um grupo de três balões amarrados com as balas no meio.
E então Hunter entendeu o que o outro queria fazer.
— Como vamos jogar isso no meio deles?
— Só um instante...
Hunter franziu a testa e correu até o armário na porta, ficando na ponta dos pés para olhar através da janelinha para o que acontecia do lado de fora da sala. O grupo de soldados se comportava como uma horda de zumbis treinados, todos parados a certa distância da porta da sala, atirando com pausas temporárias muito calculadas.
— Pronto. Abra a porta, Hunter. E fique com a arma em mãos.
Hunter respirou fundo, já odiando a ideia antes mesmo de ser posta em prática, mas fazendo o que tinha sido dito. Ele afastou o armário da porta, pegou a arma de balas comuns do coldre e se afastou para o fundo da sala, o mais distante da porta possível, e, felizmente, era uma sala bem grande.
A porta se abriu. Mack tinha colocado sua bomba caseira em cima de um carrinho de remédios, e o empurrou com força para fora da sala, o usando de cobertura para se proteger e chegando alguns metros para frente, bem próximos da horda.
— Hunter!
O homem se virou de frente para a porta, apontou a pistola para os balões de oxigênio e atirou.
Mal teve tempo de se abaixar e pegar cobertura atrás da parede antes da explosão acontecer. Mack fechou a porta com força, ambos se protegendo dentro da sala enquanto os balões de oxigênio explodiram, espalhando fogo e dendrotoxina no ar. Pouco a pouco, Hunter e Mack ouviram o barulho de corpos caindo no chão, mas era assustadora e perturbadora a falta de resposta vocal. Ninguém gritou, ninguém deu ordens. Mack e Hunter esperaram alguns segundos e então Mack abriu a porta devagar para ver o lado de fora.
A explosão tinha pego a maior parte deles, jogando-os no chão, pegando fogo e inconscientes. Tinha sido forte o bastante para ultrapassar as roupas protetoras deles, ao menos uma vantagem em toda essa situação, mas ainda restavam uns dez guardas de pé.
Dez. Dez eles conseguiam derrubar.
— Brilhante — Hunter elogiou, tirando a outra pistola do coldre e segurando uma em cada mão. — Ainda tem munição aí?
— Isso aqui também é um machado, Hunter.
E era o suficiente.
Os dois saíram da sala, e Hunter mirou suas pistolas, uma no guarda mais à esquerda e outra em um dos sujeitos mais no meio. Atirou, um deles levando uma bala de I.C.E.R. e caindo de uma vez no chão, e o outro levando uma bala comum no ombro e se desequilibrando por um instante.
Hunter virou a arma, acertando o soldado no rosto com o cano, e girou, dando-lhe um chute na cabeça e o derrubando. Logo ouviu o barulho de tiros, e se abaixou, puxando um dos guardas caídos pelo ombro e o colocando como um escudo humano em sua frente.
Apontou a arma para a frente, por cima do ombro do guarda, mirando na direção da cabeça do que atirava nele, e disparou. A bala rebateu no faceshield da roupa, provavelmente à prova de balas, e Hunter grunhiu, abaixando um pouco a arma para mirar entre o pescoço e as clavículas do soldado.
Acertou, mas ao mesmo ponto em que levou um tiro no ombro.
— Ah, mas vá pra puta que pariu! — Ele esbravejou. Ao menos, a bala não tinha se alojado, tendo sido um tiro de raspão. Uma raspada funda, mas uma raspada ainda assim.
Hunter segurou seu escudo humano mais para perto e esticou o braço, agora avançando enquanto atirava.
Pegou o segundo guarda no abdômen, e completou com mais um tiro na cabeça, por trás. Mack tinha derrubado três, Hunter mais três, faltavam dois para cada. O mercenário apontou a arma para o joelho de um e atirou, derrubando-o, e depois para a cabeça dele.
Percebeu na mesma hora em que apertou que não adiantaria nada, estava sem balas. Hunter grunhiu, irritado, virou para o soldado ainda de pé e atirou o que usava de escudo sobre ele. Virou-se para o caído no chão, chutando a cabeça dele com o calcanhar e a batendo no chão. Então saltou contra o último, quem ainda se desvencilhava atrapalhado do corpo atirado contra si, e o deu uma chave de pescoço pelo lado.
O soldado ergueu a arma, pronto para atirar no rosto de Hunter, mas o mercenário foi mais rápido. Ele forçou o aperto, puxando o braço para cima e ouvindo o crec indicativo de que tinha quebrado o pescoço do cara.
Assim que soltou o corpo no chão, viu Mack acertando o último com as costas da escopeta. E agora só sobrava M.O.D.O.K.
Hunter levantou a arma para atirar nele, mas sentiu a mão de Mack sobre a sua, impedindo-o.
— Não mata aquilo ali não, precisamos de respostas.
— Ah, pro inferno. Quer fazer o quê, então? E pensa rápido, ou ele pode acabar convocando mais minions pra cá.
Mack pegou a I.C.E.R. de seu coldre, mirando em M.O.D.O.K., mas ao apertar o gatilho algo aconteceu. Uma crosta marrom, muito similar aos casulos terrígenos, propagou-se sobre a pele do homem, protegendo-o do tiro.
É claro, por que não?
— Agnes usou terrígeno nesta merda — Hunter resmungou, apontando para a coisa na frente deles. — Eu odeio essa mulher.
— Você e eu também. Não sei se podemos desligar a cadeira, pode estar funcionando como suporte à vida. Precisamos descobrir como desligar a rede neural que ele usa para transmitir ordens. Pode ter algo assim nos arquivos da base.
Hunter cruzou os braços, impaciente, apertando o comunicador em seu ouvido enquanto Mack tentava entrar em contato com a base. Não estava gostando daquilo. Parte do armazém estava em chamas, os soldados estavam todos mortos ou desacordados, mas era muito perturbador pensar em como M.O.D.O.K. tinha conseguido controlar todos eles.
— Bobbi, me ouve?
— Ouço. Ouvi uma explosão, Yo-Yo disse que vocês conseguiram vencer.
— Vencer é debatível. Como estão as coisas do lado de vocês?
— Um pouco... enroladas.
Hunter sentiu o sangue gelar.
— Enroladas?
Elas não responderam imediatamente. Hunter decidiu ir até lá ver por conta própria, mas antes de fazê-lo, sentiu a mão de Mack se fechando em seu pulso com força. Hunter se virou para o homem para vê-lo igualmente pálido, e começou a pensar o que raios teria acontecido agora.
— Mack…
— Ninguém responde na base. Eu tentei um acesso remoto e ela está em estado de alerta. Alguma coisa aconteceu por lá.
— Como assim “alguma coisa aconteceu”? Cacete, eu mato o Barton quando voltar…
Hunter poderia ter xingado por muito, muito tempo, mas ouviu um grito misturado com grunhido soar com força no fundo da sala e, levantando a arma por instinto, viu M.O.D.O.K. erguer a cabeça gigante e apontar o braço na direção deles.
— Vocês… Morrem…
Foda-se.
Hunter atirou duas vezes por esporte, e a crosta de terrígeno instantânea protegeu o homem na mesma hora. O mercenário xingou, pensando em pegar o machado de Mack, ir até lá e serrar a cabeçona dele fora na brutalidade mesmo, quando uma horda de gritos e murmúrios soou atrás dele.
— Morte… Você morre… Você morre…
Hunter se virou a tempo de ver alguns dos soldados levantarem, independente do quão queimados ou feridos estavam, e pegarem suas armas, tropeçando para ficar de pé, mas tentando ainda assim.
— Mack…
— Só pode estar me tirando. Zumbis? Ah, não…
— Continue tentando a base, Mack — Hunter pediu, levantando as armas e engolindo em seco. — Vamos precisar de ajuda.
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