SEXO, PODER & ARTE

1 Capítulo Único: Quem Você é Quando Ninguém Vê?


S • P • A

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A escola de Dora ficava num prédio antigo da Bela Vista, daqueles com escada estreita, corrimão de ferro e janelas altas demais para qualquer pessoa alcançar sem subir numa cadeira. À noite, quando as salas comerciais ao redor já estavam fechadas, era possível ouvir a música antes mesmo de chegar à porta.

Maurício subia os últimos degraus quando reconheceu as primeiras notas do piano. Parou por meio segundo. Tango.

— Ah, não.

Fernando, dois passos à frente, virou o rosto.

— O quê?

— Nada.

— Você faz essa cara toda vez que diz "nada".

— Vai entrando.

Fernando deu de ombros e empurrou a porta.

A sala estava mais cheia do que o normal. Dora tinha afastado os bancos contra a parede e acionado o ar condicionado ao máximo, mas ainda assim o calor permanecia preso ali dentro, misturado ao cheiro de madeira antiga, perfume barato e desodorante de gente que tinha passado o dia inteiro trabalhando antes de chegar para dançar.

Maurício largou a mochila perto do espelho e só então o viu.

Felipe estava no outro extremo da sala.

É claro que estava.

Nas últimas semanas, aquilo tinha se tornado uma espécie de rotina desagradável. Maurício chegava, encontrava Felipe. Felipe chegava, encontrava Maurício. Um cumprimentava Dora, o outro fingia procurar alguma coisa dentro da mochila. Um ria com alguém, o outro aumentava o volume da própria conversa.

Era um acordo silencioso.

Eles existiam na mesma sala desde que não reconhecessem a existência um do outro.

Naquela noite, porém, Felipe parecia especialmente impossível de ignorar.

Vestia uma camiseta preta simples, calça larga e o cabelo, que Maurício ainda lembrava ridiculamente arrumado seis anos antes, caía sobre a testa sem qualquer esforço aparente de permanecer no lugar.

Carol estava ao lado dele, reclamando de alguma coisa.

Felipe ria.

Maurício desviou os olhos.

— Você tá olhando pra quem? — Fernando perguntou.

— Pra ninguém.

— De novo o ninguém.

— Fernando.

— Tá bom. Não digo mais nada.

Maurício amarrou o cadarço com força demais. Quando levantou, Felipe também olhava.

Foi rápido.

Rápido o suficiente para qualquer pessoa fingir que não tinha acontecido. Os dois fingiram.

— Muito bem! — Dora bateu palmas no centro da sala. — Hoje eu quero propor algo diferente.

— Começou — alguém murmurou.

— Ouvi, Rafael.

Risadas.

Dora esperou o silêncio voltar.

Tinha quarenta anos, cabelos loiros muito bem cuidados, presos num coque e a irritante habilidade de perceber qualquer insegurança num raio de dez metros. Maurício suspeitava que ela escolhia as aulas com base exatamente nisso.

— Tango — anunciou.

Alguns comemoraram. Outros reclamaram.

Maurício cruzou os braços.

— Antes de vocês transformarem isso naquela caricatura de rosa na boca e cara de sofrimento...

— Eu trouxe uma rosa — Rafael disse.

— Joga fora.

Mais risadas. Dora caminhou entre os alunos.

— O tango não começou como uma dança de romance bonito. Era tensão. Disputa. Provocação. Em muitos espaços, homens praticavam entre si antes de dançar com mulheres. Então parem de pensar em sedução como delicadeza.

Ela bateu a ponta do sapato no chão.

— Tango é conflito.

Maurício teve uma sensação ruim.

Dora sorriu.

A sensação piorou.

— Troquem de parceiros.

A sala imediatamente se movimentou.

Fernando se aproximou.

— A gente faz junto.

— Não. — Dora apareceu entre os dois. — Você vai com Rafael.

— Dorinha...

— Fernando.

— Já tô indo.

Maurício acompanhou o amigo se afastar.

Então virou devagar.

Dora estava olhando para Felipe.

— Você.

Felipe ergueu as sobrancelhas.

— Eu?

— Você mesmo.

Maurício soltou uma risada sem humor.

— Nem pensar.

— Ótimo — Dora respondeu. — É exatamente essa energia que eu preciso.

Algumas pessoas olharam.

Felipe respondeu, passando a língua pelo interior da bochecha:

— Por mim, tudo bem.

Maurício encarou-o.

— Claro que tá.

— Algum problema?

— Nenhum.

— Então ótimo.

— Ótimo.

Dora suspirou.

— Vocês têm cinco anos?

— Ele talvez — Maurício disse.

Felipe sorriu.

Aquilo foi pior do que se tivesse respondido.

— Posição — Dora ordenou.

Maurício não se mexeu. Felipe atravessou a distância entre eles. Havia algo profundamente irritante naquela calma. Talvez porque Maurício ainda guardasse na cabeça outra versão dele.

Um garoto de camisa clara demais para uma tarde de verão, cabelo impecavelmente penteado, expressão entediada numa mansão onde Maurício não sabia sequer qual porta levava ao banheiro.

Você pode levar isso pra cozinha?

Seis anos. E ainda lembrava.

Felipe parou diante dele, estendeu a mão, Maurício olhou para ela.

— Tá esperando o quê? — Felipe perguntou.

— Você pedir por favor.

— Quer que eu me ajoelhe também?

— Não faz meu tipo.

Alguma coisa mudou no rosto de Felipe.

Quase nada.

Um segundo de silêncio.

— Pena.

Maurício ergueu os olhos, Felipe ainda estava com a mão estendida.

Dora bateu palmas.

— Maumau.

Ele aceitou. O contato foi pequeno demais para causar qualquer coisa. Ainda assim, causou. Maurício odiou isso imediatamente. A mão de Felipe estava quente.

— Agora chega mais perto — Dora disse.

— Já tá bom — Maurício respondeu.

— Não tá.

Felipe deu meio passo à frente. Maurício permaneceu no lugar.

O espaço entre os dois diminuiu.

— O abraço do tango precisa ter intenção — Dora continuou. — Vocês não estão carregando uma caixa juntos.

Felipe ergueu o braço, a mão pousou nas costas de Maurício. Outra coisa que não deveria significar nada. Maurício sentiu todos os dedos.

— Relaxa — Felipe murmurou.

— Eu tô relaxado.

— Parece uma porta.

— Tira a mão então.

— Dora?

— Nem tente me envolver nisso, preciso que se resolvam, faz parte do exercício. — ela respondeu de longe.

Felipe riu pelo nariz. Maurício apertou a mão dele.

— Ai.

— Relaxa.

Felipe olhou para ele, Maurício sustentou.

A música começou. Nos primeiros passos, foi um desastre. Maurício avançava quando Felipe esperava que recuasse. Felipe antecipava um giro. Maurício resistia. Os sapatos se chocaram duas vezes.

Na terceira, Dora interrompeu.

— Vocês estão tentando vencer um ao outro.

— Ele começou — Felipe disse.

— Eu não tenho oito anos.

— Tem certeza?

— Chega. — Dora apontou para os dois. — O problema é exatamente esse. Nenhum quer ouvir o corpo do outro.

Silêncio.

Maurício quase riu.

— Não começa — Dora avisou.

— Eu não falei nada.

— Sua cara falou.

Ela se aproximou, reposicionou a mão de Felipe nas costas dele. Mais baixa. Maurício prendeu a respiração sem querer, Dora percebeu. Felipe também.

— Você conduz — disse ela a Felipe. Depois olhou para Maurício. — E você deixa.

— Isso parece injusto.

— A vida é injusta.

Ela se afastou. A música recomeçou. Dessa vez, Felipe esperou. Nenhum comentário. Nenhuma provocação. Apenas pressão suficiente na mão de Maurício para indicar a direção. Maurício seguiu.

Dois passos.

Três.

Um giro simples.

Quando voltou, percebeu que estavam mais próximos. Felipe não sorria mais. Isso tornou tudo pior. Maurício conseguia sentir a respiração dele próxima ao rosto. O movimento do peito. A firmeza da mão em suas costas.

E havia alguma coisa naquele olhar, algo que Maurício conhecia sem saber de onde. Ou talvez soubesse. Talvez só nunca tivesse permitido que o pensamento terminasse.

— Para de me olhar assim — murmurou.

— Assim como?

— Você sabe.

— Não sei.

— Felipe.

— Maurício.

O nome dito baixo provocou uma irritação completamente diferente. Maurício desviou os olhos.

— Olha pro parceiro — Dora disse do outro lado da sala.

Felipe quase sorriu.

— Ouviu ela.

— Cala a boca.

Maurício tornou a encará-lo. A música cresceu. E alguma coisa entre eles acompanhou. A dança deixou de parecer uma sequência de passos. Felipe avançava, Maurício recuava.

Maurício atacava o movimento seguinte, e Felipe precisava responder. Dora tinha razão, parecia uma luta. Só que não havia espaço suficiente entre os corpos para fingir que era apenas isso. Num cruzamento, a perna de Maurício encontrou a de Felipe, os dois hesitaram. Um erro mínimo.

Felipe apertou sua mão.

— Continua.

Maurício continuou. A mão nas costas o puxou ligeiramente mais perto.

— Tá se divertindo? — Maurício perguntou.

— Na real, tô bastante.

— Eu imaginei.

— Você sempre acha que sabe muito sobre mim.

A frase entrou errado. Maurício perdeu o passo.

— Não começa.

— Você começou seis anos atrás.

Maurício soltou uma risada curta.

— Eu comecei?

Felipe percebeu o erro.

Mas já era tarde.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Engraçado. Porque eu lembro bem de quem começou.

— Maurício...

Você pode levar isso pra cozinha?

Felipe ficou imóvel.

A música continuou ao redor deles.

— Você ainda lembra.

— Infelizmente.

— Eu tinha dezessete anos.

— Parabéns.

— E eu era um idiota.

Maurício ergueu uma sobrancelha.

— Era?

Felipe respirou fundo.

— Você continua sendo insuportável.

— Melhorou.

Dora surgiu perto deles.

— Por que pararam?

— Mágoa ancestral — Maurício respondeu.

— Resolva dançando.

E foi embora, Felipe balançou a cabeça.

— Ela é sempre assim?

— Você tá aqui há quase um mês.

— Você nunca falou comigo.

— Eu não tinha nada pra dizer.

— Agora parece ter bastante.

Maurício deveria ter se afastado. Não fez isso. A música mudou de frase, Felipe retomou a condução. Maurício acompanhou, dessa vez havia menos resistência. Talvez por cansaço. Era o que decidiu pensar. Felipe conduzia melhor do que Maurício esperava.

Não havia arrogância nos movimentos. Não tentava exibi-lo, nem apressá-lo, nem corrigia cada erro. Prestava atenção. Esse era o problema.

Felipe prestava atenção demais.

Quando Maurício mudava o peso do corpo, ele percebia. Quando hesitava, esperava. Quando errava, ajustava sem comentar. Era impossível conciliar aquilo com o garoto da mansão, então Maurício fez o que sempre fazia quando alguma coisa ameaçava ficar complicada.

Atacou.

— E a sua irmã?

— O que tem ela?

— Não era por causa dela que você começou aqui?

— Era.

— Então já pode parar.

Felipe estreitou os olhos.

— Tá me expulsando?

— Tô sugerindo.

— Que gentil da sua parte.

— Você devia aceitar. Não faço muito isso.

— Eu percebi.

Felipe girou Maurício. No retorno, ficaram próximos demais, nenhum dos dois corrigiu. Por um instante, Maurício esqueceu a próxima provocação. A mão de Felipe permanecia nas costas dele, o rosto estava perto. Muito perto.

E então Maurício percebeu uma coisa absurda. Felipe estava olhando para sua boca. Foi rápido, talvez nem tivesse acontecido. Mas aconteceu. Maurício sentiu o próprio corpo endurecer. Não de medo. A constatação surgiu como um susto, desviou o rosto.

— Que foi? — Felipe perguntou.

— Nada.

— Você ficou estranho.

— Eu sempre fui estranho.

— Isso é verdade.

— Vai se foder.

— Aí voltou ao normal.

A música terminou. Maurício afastou-se depressa demais, Dora bateu palmas outra vez.

— Melhor.

— Melhor? — Felipe perguntou.

— No começo parecia que queriam se matar.

— E agora? — Maurício disse.

Dora olhou para os dois.

Sorriu de um jeito que Maurício não gostou.

— Agora parece outra coisa.

— Dora...

— Intervalo.

Maurício foi direto até a água. Não olhou para trás, bebeu metade da garrafa sem respirar. Fernando apareceu ao lado.

— Então.

— Não.

— Eu nem falei.

— Mas vai.

— Ia perguntar se vocês já marcaram casamento ou se ainda tão na fase de ameaça.

Maurício fechou a garrafa.

— Eu odeio ele.

— Hum.

— Que "hum"?

— Nenhum.

— Fernando.

— Você tá muito defensivo.

— E você tá muito interessado.

Fernando ergueu as mãos.

— Só observando.

Maurício empurrou o ombro dele.

— Vai cuidar da sua vida.

— Tô tentando. Mas é mais divertido cuidar da sua.

Maurício olhou para o outro lado da sala. Felipe conversava com Dora, a expressão dele tinha mudado. Estava sério. Dora cruzou os braços, Felipe disse alguma coisa. Maurício não ouviu. Não precisava.

Dora respondeu:

— Tem certeza?

Felipe assentiu.

— Acho melhor.

— Você tava indo bem.

— Não é pela dança.

Maurício se pegou prestando atenção. Felipe olhou na direção dele. Os olhos se encontraram, virou o rosto imediatamente. Quando olhou novamente, Felipe já estava pegando a mochila.

Carol protestou.

— Você já vai?

— Vou.

— Felipe.

— Amanhã eu te ligo.

Ele beijou a testa da irmã e passou pela porta sem se despedir de mais ninguém. Maurício ficou olhando para o corredor vazio.

— Ele vai sair? — perguntou.

Fernando pareceu surpreso.

— Achei que você fosse comemorar.

Maurício recolheu a própria mochila.

— Eu vou.

— Tá com cara de festa mesmo.

— Cala a boca.

A aula terminou vinte minutos depois. Maurício desceu sozinho. Na rua, o ar estava mais frio do que esperava, enfiou as mãos nos bolsos e começou a caminhar em direção ao metrô.

Teria sido fácil culpar o tango. A música. O calor daquela sala. A proximidade forçada.

Qualquer coisa.

Na rua, o vento frio cortava o rosto, obrigando-o a enfiar as mãos nos bolsos e apertar o passo em direção ao metrô. Mas enquanto atravessava a calçada escura, Maurício percebeu que, por baixo do casaco, ainda conseguia sentir o calor exato da mão de Felipe queimando em suas costas.

E isso o irritou mais do que deveria.

São Paulo tinha um jeito particular de ficar vazia sem nunca ficar em silêncio.

Maurício percebeu isso quando deixou para trás as últimas ruas mais movimentadas da Bela Vista e seguiu em direção ao metrô. Os carros ainda passavam pelas avenidas próximas, ônibus suspiravam nos pontos, uma sirene cortava algum lugar distante, mas nas calçadas havia cada vez menos gente.

Pegou o celular para conferir as horas. Guardou imediatamente.

A mãe já tinha dito umas quinhentas vezes para não ficar dando bobeira com telefone na mão àquela hora.

A mãe.

Fernando.

O Avô.

Todo mundo parecia ter alguma instrução sobre como Maurício deveria viver. Só Felipe aparentemente tinha instruções sobre como ele deveria dançar.

Relaxa.

Maurício apertou o passo.

— Filho da puta.

Uma mulher que caminhava no sentido contrário lançou um olhar para ele. Maurício fingiu que estava falando ao telefone. Seguiu.

Ainda conseguia sentir o toque de Felipe. Aquilo era ridículo, tinha sido uma aula. Uma dança. Só isso.

Duas pessoas eram obrigadas a ficar próximas durante um tango. Era literalmente o objetivo daquela merda. Não significava absolutamente nada. Muito menos o jeito como Felipe tinha olhado para sua boca.

Maurício chutou uma tampinha caída na calçada, talvez nem tivesse olhado. Provavelmente não. E, mesmo que tivesse, Felipe era Felipe. Esse pensamento deveria encerrar o assunto. Durante seis anos tinha funcionado muito bem.

Maurício enfiou as mãos nos bolsos. O problema era que aquele Felipe não combinava direito com o que ele se lembrava. Não apenas porque o cabelo agora caía na testa ou porque tinha perdido aquele jeito irritante de garoto criado dentro de um apartamento planejado. Era outra coisa.

A maneira como tinha dito:

Eu era um idiota.

Sem desculpa ou justificativa. Sem tentar explicar que Maurício tinha entendido errado. Apenas aquilo.

Eu era um idiota.

Maurício odiava quando as pessoas complicavam as coisas. Era muito mais fácil odiá-las quando colaboravam.

Virou numa rua mais estreita. As lojas estavam fechadas. Portas de aço cobertas de tinta e cartazes velhos ocupavam os dois lados da calçada. Mais adiante, a iluminação diminuía.

Maurício conhecia o centro. Sabia andar por ali. Sabia quais ruas evitar, onde guardar o celular, quando atravessar para o outro lado, quando não olhar para alguém. Não era medo, era atenção. Pelo menos foi isso que disse para si mesmo quando olhou por cima do ombro pela primeira vez.

Ninguém.

Continuou. Dez passos. Olhou novamente.

Um homem tinha virado a esquina atrás dele. Maurício não conseguiu lembrar se já estava ali antes, talvez estivesse. Apertou o passo. O homem também.

O coração acelerou.

— Merda.

A entrada do metrô não estava longe. Era só continuar, não correr. Correr dizia que estava com medo. Maurício atravessou a rua, o homem atravessou. Agora não havia dúvida. O corpo percebeu antes da cabeça, o estômago contraiu. As mãos ficaram frias.

Maurício olhou em volta procurando qualquer estabelecimento aberto. Uma porta. Um bar. Uma farmácia.

Nada.

Ouviu passos atrás dele. Mais rápidos.

Acelerou.

A alça da mochila escorregou do ombro. Quando tentou ajeitá-la, perdeu alguns segundos. Foi o bastante.

— Ei.

Maurício continuou andando.

— Ei, irmão.

Mais perto.

Ele virou.

O homem estava a poucos metros.

— Tem hora?

— Tô sem celular.

A resposta saiu automática. O homem olhou para o bolso da calça de Maurício.

— É mesmo?

Maurício sentiu o sangue desaparecer do rosto. Não respondeu, deu um passo para trás. O homem avançou.

— Passa a mochila.

— Beleza.

Maurício já começou a tirá-la.

Não discute.

Não reage.

Entrega.

A mãe repetia isso desde que ele era pequeno.

Nada vale a vida.

— Calma aí.

— A mochila.

— Tô tirando.

Os dedos de Maurício prenderam na alça. Ele puxou. O homem olhou para os dois lados da rua, então mostrou o canivete. Não fez nenhum movimento exagerado. Nem precisava. A lâmina pequena brilhou sob a luz fraca do poste.

Maurício parou de respirar.

Por um instante, tudo ficou absurdamente nítido. A rachadura na parede atrás do homem. Uma sacola presa numa grade. O som distante de um ônibus. O próprio coração.

— Celular também.

— Tá.

Maurício ergueu uma das mãos.

— Eu vou pegar.

O homem se aproximou, perto demais. Maurício recuou. O calcanhar bateu contra alguma coisa. Parede. Tinha entrado sem perceber numa espécie de recuo entre dois prédios.

Merda.

— Passa logo.

— Eu tô passando.

Maurício levou a mão devagar até o bolso. Então ouviu um barulho, algo bateu contra o chão.

O homem virou.

— Que porra—

Aconteceu rápido.

Uma figura saiu da lateral e atingiu o braço do homem com alguma coisa que Maurício não conseguiu identificar. O canivete caiu, raspando no asfalto. O homem xingou, tentou se virar. Levou um empurrão. Perdeu o equilíbrio e caiu de lado, soltando um gemido.

— Corre!

Maurício ficou imóvel.

— Maurício!

Conhecia aquela voz, não fazia sentido. A figura segurou sua mão e puxou. Maurício correu. Só depois de alguns metros conseguiu olhar para o lado.

Felipe.

— Que porra?!

— Corre!

— Felipe?!

— Depois!

Felipe estava de capuz.

Um moletom enorme escondia quase todo o corpo, e uma bolsa preta atravessava seu peito, batendo contra a lateral da perna a cada passada.

Maurício quase tropeçou.

— Olha pra frente, caralho!

Olhou. Correram. Viraram uma esquina, depois outra. Maurício não sabia para onde estavam indo. Só sabia que Felipe continuava segurando sua mão.

Em algum momento, percebeu que estava apertando de volta.

Passaram por uma avenida mais iluminada, atravessaram antes que o sinal fechasse e ouviram uma buzina furiosa.

— Vai, vai!

— Eu tô indo!

— Então corre mais!

— Vai tomar no cu!

— Não agora!

Maurício teria rido se tivesse ar suficiente. Não tinha.

Quando Felipe finalmente diminuiu, estavam perto de uma rua com movimento. Um bar ainda funcionava na esquina, algumas pessoas ocupavam mesas de plástico na calçada e dois entregadores conversavam perto de motos estacionadas.

Felipe olhou para trás. Esperou. Mais alguns segundos. Então soltou a mão de Maurício.

Foi estranho.

Maurício só percebeu que ainda estavam de mãos dadas quando deixaram de estar. Apoiou as duas mãos nos joelhos. Tentou respirar.

O peito doía.

— Caralho.

Felipe também estava ofegante.

Abaixou o capuz. O cabelo caiu completamente desarrumado sobre a testa.

— Você tá bem?

Maurício ergueu o rosto.

— Quê?

— Ele fez alguma coisa?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Felipe aproximou-se.

— Deixa eu ver.

— Ver o quê?

— Se você se machucou.

— Eu não me machuquei.

— Maurício.

— Eu tô bem.

Felipe parou. Ficaram olhando um para o outro. Maurício ainda sentia o coração tentando atravessar as costelas. Felipe também respirava rápido. O suor fazia alguns fios de cabelo grudarem na testa dele.

Por algum motivo, Maurício lembrou da aula. Da respiração perto do rosto. Da mão nas costas.

Sentiu irritação imediatamente.

— Qual é o seu problema, cara?

Felipe piscou.

— Meu problema?

— É.

— Eu acabei de te salvar de um assalto.

— Eu sei.

— E essa é a primeira coisa que você me diz?

— Eu não pedi pra você bancar o Batman.

Felipe abriu a boca.

Fechou.

Olhou para o céu por um instante.

— Impressionante.

— O quê?

— Você.

— Ah, vai se ferrar.

— Eu devia ter continuado andando.

— Então por que não continuou?

A pergunta saiu antes que Maurício pudesse impedir. Felipe ficou quieto. O barulho da rua voltou a existir entre eles. Um ônibus passou na avenida. Felipe desviou o olhar.

— Porque eu te vi.

Simples assim. Maurício não tinha preparado nenhuma resposta para aquilo. Felipe ajeitou a bolsa atravessada no corpo, foi quando Maurício realmente olhou para ele. Moletom largo, capuz, calça escura e um tênis velho.

A bolsa preta parecia pesada. Havia uma mancha escura perto da manga. Aquilo não combinava em absolutamente nada com a imagem que Maurício carregava dele.

— Tá — Maurício disse.

Felipe ergueu uma sobrancelha.

— Tá o quê?

— Valeu.

— Nossa, que lucidez.

— Não estraga.

— Desculpa. É que eu achei que nunca fosse viver pra ver esse momento.

— Felipe.

— Tá bom. Parei.

Maurício respirou fundo. O tremor nas mãos começava a diminuir.

— Sério.

Felipe olhou para ele.

— Valeu.

Dessa vez não houve piada.

— De nada.

Maurício assentiu, Felipe tocou seu ombro.

Pronto. Era isso. Agora cada um seguiria para o seu lado e na próxima aula.

A próxima aula. Felipe não estaria lá.

Maurício empurrou o pensamento para longe.

— Bom.

— Bom — Felipe repetiu.

Felipe colocou o capuz novamente e virou. Maurício deveria deixá-lo ir. Deu dois passos na direção contrária. Parou.

Olhou para trás. Felipe já estava quase na esquina.

Aquela bolsa, aquelas roupas. O centro de São Paulo no meio da noite. Maurício franziu a testa.

— Felipe!

Ele parou. Virou.

— O quê?

Maurício voltou alguns passos.

— Que porra você tá fazendo aqui?

— Como assim?

— Aqui, caralho.

Felipe olhou em volta.

— São Paulo?

— Você sabe o que eu tô perguntando.

— Não, não sei.

Maurício apontou para ele.

— Isso.

Felipe olhou para o próprio corpo.

— Isso o quê?

— Você tá vestido assim.

Silêncio.

— Assim como?

Maurício fez um gesto da cabeça aos pés.

— Assim.

— Muito esclarecedor.

— De moletom, capuz, essa bolsa aí... no meio do centro a essa hora.

Felipe estreitou os olhos.

— E?

— E que você não parece você.

A frase escapou. Felipe ficou imóvel.

— Você não sabe como eu pareço.

— Sei, sim.

— Não. — Felipe soltou uma risada pequena. — Você sabe como eu parecia seis anos atrás.

Maurício não respondeu.

Felipe continuou:

— E decidiu que já era suficiente.

Aquilo incomodou. Talvez porque tivesse alguma verdade. Maurício apontou para a bolsa.

— O que tem aí?

Felipe soltou uma gargalhada curta.

— Você é da polícia agora?

— Eu só perguntei.

— Não é da sua conta.

— Tá bom.

Felipe virou.

— Tá bom — repetiu Maurício.

Começou a andar atrás dele. Felipe percebeu depois de alguns metros. Parou. Maurício parou também.

— O que você tá fazendo?

— Indo embora.

— Pra onde?

— Metrô.

— O metrô é pro outro lado.

Maurício olhou para trás, depois para Felipe.

— Eu sei.

— Então por que você tá me seguindo?

— Não tô.

Felipe encarou-o. Maurício sustentou por três segundos.

— Tá, tô.

— Por quê?

Maurício não sabia. Curiosidade era a resposta mais fácil, então escolheu essa.

— Quero saber o que tem na bolsa.

— Meu Deus.

— Vai que você tá metido com alguma coisa.

— Tipo?

Maurício hesitou.

Felipe percebeu.

— Não.

— Eu nem falei.

— Você acha que eu tô com droga.

— Eu não disse isso.

— Você acha que eu sou traficante?

— Traficante é uma palavra forte.

Felipe ficou alguns segundos olhando para ele. Então começou a rir.

Rir de verdade. Maurício sentiu-se ofendido.

— Qual a graça?

— Nada.

— Fala.

— Você.

— Todo mundo resolveu me achar engraçado hoje.

Felipe passou a mão pelo rosto. Ainda sorria. E Maurício teve outra sensação estranha, nunca tinha visto aquele sorriso. Não daquele jeito.

Sem deboche ou arrogância. Sem alguém da família por perto. Felipe parecia simplesmente... Felipe.

Fosse lá quem isso significasse.

— Quer saber tanto assim? — perguntou.

Maurício olhou para a bolsa, depois para ele. A decisão inteligente era ir embora. Já era tarde. Tinha acabado de quase ser assaltado. A mãe provavelmente estava a poucos minutos de começar a mandar mensagens. E aquele era Felipe.

Felipe.

De todas as pessoas possíveis.

— Quero.

Felipe assentiu lentamente.

— Então vem comigo.

— Pra onde?

— Você queria saber.

— Eu queria saber o que tem na bolsa.

— E eu vou te mostrar.

Felipe começou a andar.

Maurício permaneceu parado.

— Você não vai me sequestrar, né?

Felipe virou sem parar de caminhar.

— Você é insuportável demais pra alguém pagar resgate.

— Filho da puta.

— Vai pro metrô, então.

Maurício poderia. Deveria. Em vez disso, correu alguns passos até alcançá-lo.

— Se eu aparecer morto amanhã, vou te assombrar o resto da eternidade.

— Finalmente uma ameaça que me preocupa.

Andaram lado a lado. Por alguns minutos, nenhum dos dois disse nada. Maurício não percebeu exatamente quando deixaram a rua movimentada. Só percebeu quando Felipe parou diante de um prédio antigo, espremido entre duas construções igualmente abandonadas.

As janelas dos primeiros andares estavam cobertas. A fachada carregava décadas de tinta descascada, cartazes rasgados e marcas que Maurício não conseguia distinguir no escuro.

Felipe olhou para os dois lados, depois para ele.

— Última chance.

Maurício encarou o prédio, depois encarou Felipe.

— Isso definitivamente parece lugar onde eu encontraria drogas.

Felipe fechou os olhos.

— Eu devia ter te deixado naquela viela.

E empurrou a porta.

A porta abriu com um rangido que não ajudou em nada. Maurício permaneceu do lado de fora.

Felipe entrou.

— Você vem?

Maurício olhou para o prédio, depois para a rua, depois novamente para o prédio.

— Não sei.

— Você me seguiu até aqui.

— Curiosidade não anula instinto de sobrevivência.

— Você acabou de me acusar de tráfico. Seu instinto de sobrevivência claramente não funciona.

Felipe desapareceu na escuridão.

— Felipe.

— Quê?

— Não tô vendo nada.

Uma luz se acendeu. Maurício piscou. Felipe estava alguns metros à frente segurando o celular com a lanterna ligada.

— Princesa.

— Vai tomar no cu.

Maurício entrou.

O lugar cheirava a poeira, umidade e alguma coisa antiga que não conseguiu identificar. O piso era irregular, coberto por pedaços de reboco. Havia uma recepção destruída logo na entrada, algumas cadeiras empilhadas e uma placa caída no chão.

— Isso aqui era o quê?

— Um prédio comercial.

— Eu percebi.

— Então por que perguntou?

Maurício lançou um olhar. Felipe sorriu.

— Não sei exatamente. Escritório, confecção, alguma coisa assim. Tá vazio há anos.

— E você simplesmente entra?

— Sim.

— Isso é invasão.

— Você pode chamar a polícia.

— Talvez eu chame.

— Depois do que você falou da minha roupa, acho que eles prendem você primeiro.

Maurício riu contra a própria vontade. Foi pequeno, mas Felipe ouviu. Não comentou.

Subiram uma escada.

A luz do celular atravessava paredes cobertas de marcas, assinaturas e desenhos. Alguns eram simples rabiscos; outros ocupavam superfícies inteiras. Maurício passou a mão por um corrimão enferrujado.

— Se eu pegar tétano, você vai pagar minha internação.

— SUS.

— Claro que o herdeiro descobriu o SUS hoje.

Felipe parou no degrau seguinte. Virou.

— Você vai fazer isso a noite inteira?

— Isso o quê?

— "Herdeiro". "Mauricinho". "Arrumadinho". Qualquer outra coisa que você inventar.

— Te incomoda?

— Não. Mas é meio infantil. Acho que já superamos isso.

— Então pronto.

Felipe continuou subindo. Maurício percebeu que tinha incomodado. Subiram mais um andar, depois outro. No terceiro, Felipe empurrou uma porta de metal.

Dessa vez, a claridade entrou antes deles. A sala era enorme. Ou tinha sido.

Não havia quase nenhuma divisão interna, apenas algumas colunas sustentando o teto e pedaços de parede onde antigas salas pareciam ter existido. Janelas quebradas ocupavam uma lateral inteira e deixavam entrar a iluminação dos prédios vizinhos.

Mas Maurício quase não percebeu a arquitetura. As paredes estavam cobertas de cor.

Azul.

Vermelho.

Amarelo.

Roxo.

Verde.

Rostos enormes, animais, letras que se atravessavam, formas geométricas, frases parcialmente cobertas por pinturas mais recentes. Maurício entrou devagar.

— Caralho.

Felipe passou por ele.

— Cuidado com o chão.

— Isso tudo é seu?

Felipe soltou uma risada.

— Claro que não.

— Sei lá.

— Tem gente que pinta aqui há anos.

Maurício aproximou-se de uma parede. Um rosto feminino ocupava quase toda a superfície, dividido em três cores. Mais adiante havia um pássaro enorme saindo de dentro de uma televisão.

— E ninguém liga?

— Pra quê?

— Pra vocês entrarem aqui.

Felipe deu de ombros.

— Alguém deve ligar.

— Ótimo.

— Você tá livre pra ir embora.

Maurício olhou para a porta. Não se mexeu. Felipe largou a bolsa sobre uma mesa velha.

Finalmente.

Maurício se aproximou.

— Agora mostra.

— Você tá muito interessado.

— Depois dessa novela toda?

Felipe abriu o zíper. Maurício esperou. Felipe colocou a mão dentro da bolsa, tirou uma lata, depois outra. Outra.

Maurício olhou.

— Tinta spray?

Felipe continuou retirando latas.

— É.

— É isso?

— É.

— Só isso?

Felipe parou.

— Você tá decepcionado?

— Não.

— Não é o que parece.

Maurício pegou uma das latas.

Felipe imediatamente tirou da mão dele.

— Não mexe.

— Calma.

— Você acabou de perguntar se eu traficava droga. Não confio no seu julgamento.

Maurício cruzou os braços.

— Você tava vestido feito um trombadinha, se esgueirando pelas ruas escuras do centro com uma bolsa misteriosa.

— "Trombadinha"?

— Foi a primeira coisa que veio.

— Você tem algum preconceito que queira revelar logo ou prefere distribuir ao longo da madrugada?

Maurício apontou para ele.

— Não distorce.

— Eu?

— Você sabe muito bem a imagem que passa.

Felipe olhou para o moletom.

— Roupa?

— Não é só a roupa.

— Então o quê?

Maurício hesitou.

Felipe abriu os braços.

— Vai. Tô curioso.

— Você parecia um crackudo.

Silêncio. Felipe ficou completamente imóvel. Maurício mordeu o interior da bochecha.

— Talvez eu tenha exagerado.

— Talvez?

— Um pouco.

Felipe apontou para a porta.

— Vai embora.

Maurício começou a rir.

— Ah, qual é.

— Vai.

— Eu quase fui assaltado hoje.

— E eu quase deixei você ser.

— Mentira.

Felipe encarou-o.

Maurício sorriu.

— Você não ia conseguir.

A expressão de Felipe mudou. Por um instante, nenhum dos dois brincou. Maurício percebeu tarde demais o que tinha dito, desviou os olhos para as latas.

— Então você picha.

Felipe respirou fundo.

— Grafito.

— Mesma coisa.

— Não é.

— Spray numa parede.

— Não é a mesma coisa.

— Parece.

Felipe colocou a lata sobre a mesa.

— Pixação tem linguagem, estética e história próprias. Grafite é outra coisa.

Maurício ergueu as mãos.

— Tá bom.

— Não, você perguntou.

— Eu não perguntei.

— Agora vai ouvir.

Maurício sorriu.

— Ih.

Felipe ignorou.

Começou a organizar as latas por tonalidade.

— Grafite não é só chegar numa parede e escrever qualquer coisa?

— Mais respeito com os colegas pixadores.

— Eu acabei de explicar.

— Tô brincando.

Felipe olhou para ele.

— Você é irritante.

— Você já falou isso.

— Porque continua sendo verdade.

Maurício encostou-se na mesa.

— E desde quando você faz isso?

— Alguns anos.

— Quantos?

— Quatro, mais ou menos.

Maurício franziu a testa.

— Quatro?

— É.

— Então você começou depois...

Parou. Felipe também.

Depois da morte, depois de Adriana, depois de tudo.

O silêncio durou pouco. Felipe pegou outra lata.

— Comecei depois.

Maurício percebeu que não queria entrar naquele assunto. Ainda.

Caminhou pela sala. Agora que sabia o que procurar, começou a observar as pinturas de outro jeito.

— Qual é o seu?

Felipe apontou para uma parede ao fundo.

Maurício seguiu a direção.

— Aquilo?

— É.

Foi chegando mais perto.

A pintura ocupava boa parte da parede.

Um garoto estava sentado no topo de um prédio, mas no lugar da cabeça havia uma espécie de janela aberta. De dentro dela escapavam pássaros coloridos que se dissolviam conforme subiam. A cidade abaixo era quase toda cinza.

Maurício ficou em silêncio.

Felipe permaneceu atrás dele.

— Você fez isso?

— Fiz.

— Sozinho?

— A maior parte. Um amigo ajudou no fundo.

Maurício aproximou-se.

Havia muito mais detalhe do que percebia de longe. Pequenas janelas. Antenas. Fios. Pessoas minúsculas andando pelas ruas.

E, no meio de tudo aquilo, o garoto.

— O que significa?

— Nada.

Maurício virou.

— Ah, vai se ferrar.

Felipe riu.

— O quê?

— Você faz um negócio desse tamanho, um cara com uma janela no lugar da cabeça, passarinho saindo e vem falar que não significa nada?

— Talvez eu só goste de passarinho.

— Mentiroso.

Felipe pegou uma lata.

— Arte não precisa vir com manual.

— Fugiu da pergunta.

— Talvez.

Maurício voltou a olhar para a pintura. Não sabia por que aquilo o incomodava. Talvez porque fosse bom. Seria muito mais fácil se fosse ruim.

— Não sabia que você desenhava.

Felipe ficou quieto.

Maurício percebeu a frase. Não sabia. Claro que não sabia.

Sabia que Felipe vinha de uma família rica.

Sabia quem era a mãe.

Sabia quem era o padrasto.

Sabia quem tinha sido o tio.

Sabia onde tinham se conhecido.

Sabia o que aquela família tinha feito com a dele.

Mas aquilo?

Não.

— Você não sabe muita coisa sobre mim — Felipe disse.

Maurício olhou para ele.

— Você também não sabe sobre mim.

— Eu sei algumas.

— Tipo?

Felipe respondeu rápido demais:

— Você trabalha de manhã.

Maurício franziu a testa.

— Como sabe?

Felipe pareceu perceber o erro.

— Você comentou.

— Quando?

— Sei lá.

— Eu nunca conversei com você.

— Você conversa com Fernando.

— Você fica ouvindo minhas conversas?

— A sala não é tão grande.

Maurício estreitou os olhos.

— Estranho.

— Você perguntou.

— Mais alguma coisa?

Felipe continuou organizando as latas.

— Você pega a linha vermelha.

— Isso você viu hoje.

— Você sempre chega com uma mochila diferente quando vem direto do trabalho.

Maurício parou.

Felipe também.

— Você reparou nas minhas mochilas?

— Não especificamente.

— Parece bem específico.

— Quer pintar ou não?

Maurício sorriu.

— Mudou de assunto.

— Sim.

— Admitiu.

— Maurício.

— Tá.

A pergunta levou alguns segundos para alcançá-lo.

— Espera. Eu posso?

Felipe pegou uma lata e jogou na direção dele.

Maurício quase deixou cair.

— Caralho!

— Reflexo ótimo.

— Você quer que eu pinte o quê?

Felipe apontou para uma parede menor, coberta de camadas antigas.

— O que quiser.

Maurício olhou para a lata. Sacudiu.

A esfera metálica bateu lá dentro.

— E como faz?

— Aperta.

— Obrigado, Picasso.

— Você perguntou.

Maurício apontou a lata para a parede. Apertou. O chiado alto foi seguido imediatamente pelo cheiro forte e químico da tinta invadindo o ar. Um cheiro de solvente e cor que Maurício, de repente, associou à presença de Felipe.

Felipe começou a rir.

— Cala a boca.

— Ficou lindo.

— Eu nunca fiz isso.

— Claramente.

Maurício tentou novamente. Outra linha. Pior.

Felipe riu mais.

— Vai tomar no cu.

— Você tá muito longe.

— Então ensina, artista.

Felipe se aproximou.

Pegou outra lata.

— Você tem que controlar a distância.

Fez uma linha limpa.

— Mais perto fica concentrado. Mais longe espalha.

Maurício tentou.

— Assim?

— Devagar.

— Assim?

— Você tem algum problema em seguir instrução?

— Tenho quando você dá.

Felipe ficou atrás dele.

Estendeu a mão por cima do braço de Maurício.

— Segura reto.

Maurício ficou imóvel. A proximidade voltou de repente. Dessa vez não havia música, nem Dora. Nem ninguém olhando. Só a mão de Felipe sobre a dele.

— E movimenta o braço inteiro — Felipe disse.

A voz estava próxima ao ouvido. Maurício sentiu novamente aquela reação irritante.

— Eu consigo.

Felipe soltou.

— Então faz.

Maurício pintou. A linha saiu melhor.

— Viu?

— Não é tão difícil.

— Você quase desenhou um eletrocardiograma cinco segundos atrás.

— Evolução muito rápida.

Felipe sorriu. Maurício também.

Demorou um segundo para perceber, desfez o sorriso. Felipe percebeu isso também. Nenhum comentou.

Maurício continuou.

Depois de algumas tentativas, começou a entender a pressão.

— E você vem aqui toda noite?

— Não.

— Quando?

— Quando quero. Quando dá.

— Sozinho?

— Às vezes.

— A Fábia sabe?

Felipe soltou uma risada.

— Claro que não.

— Por quê?

— Porque ela acharia uma idiotice.

— Você é adulto.

— Explica isso pra ela.

Maurício olhou para ele. Havia alguma coisa ali. Uma rachadura pequena. Felipe percebeu o interesse e imediatamente pegou outra lata.

— Faz uma curva.

— Tá fugindo de novo.

— Faz a curva.

Maurício decidiu deixar por enquanto.

Tentou. Ficou horrível.

— Merda.

— Não para no meio.

— Eu não parei.

— Parou.

— Você é um professor insuportável.

— E você é um aluno péssimo.

Maurício apontou a lata para ele.

— Cuidado.

Felipe arregalou os olhos.

— Nem pensa.

Maurício apertou. Um jato curto atingiu a lateral do moletom. Silêncio. Maurício congelou. Felipe olhou para a mancha, depois para Maurício.

— Você não fez isso.

Maurício começou a rir.

— Foi sem querer.

— Mentiroso.

Felipe pegou outra lata.

— Felipe.

— Corre.

— Nem fodendo.

Felipe apertou, Maurício desviou. A tinta passou longe.

— Seu filho da puta!

Maurício correu para trás de uma coluna. Felipe veio atrás.

— Vem cá.

— Você vai estragar minha roupa!

— Engraçado.

— A sua já tava uma merda!

— Repete.

Maurício colocou a cabeça para fora.

— Mauricinho grafiteiro.

Felipe disparou outro jato. Maurício se escondeu.

Riu.

Dessa vez não tentou impedir. Por alguns minutos, correram pelo espaço como dois idiotas. Maurício conseguiu acertar o braço de Felipe que deixou uma pequena mancha na camiseta de Maurício.

— Essa camisa era nova!

— Dramático.

— Você vai pagar.

— Achei que você não queria meu dinheiro.

Maurício parou. Felipe também. A frase permaneceu entre os dois. O sorriso desapareceu primeiro do rosto de Maurício.

Felipe baixou a lata.

— Foi mal.

Maurício olhou para a mancha na camiseta.

— Tanto faz.

— Não, eu...

— Eu disse tanto faz.

Felipe assentiu. O silêncio voltou. Mas era diferente agora, mais pesado. Maurício caminhou até a parede. Observou as linhas que tinha feito. Pareciam ainda piores depois da brincadeira.

— Você tem dinheiro pra comprar quantas dessas quiser — disse.

Felipe encostou numa coluna.

— Tenho.

A resposta direta surpreendeu Maurício.

— Pelo menos admite.

— O que você quer que eu faça? Finja que não tenho?

Maurício não respondeu.

— Eu sei que tenho dinheiro, Maurício.

— Da sua família.

— Sim.

— Daquela família.

Felipe olhou para ele.

Agora tinham chegado perto demais de alguma coisa.

— Sim.

Maurício passou a língua pelos dentes.

Poderia continuar. Talvez quisesse. Mas não sabia se queria ouvir as respostas. Ainda não. Então apontou para a pintura do garoto com os pássaros.

— Isso aí foi você que escolheu fazer?

Felipe franziu a testa.

— O quê?

— Isso.

— Claro.

— Ninguém mandou?

— Não.

— Ninguém pagou?

— Não.

— Ninguém escolheu as cores?

Felipe começou a entender.

— Não.

Maurício assentiu.

— Então talvez seja a primeira coisa sua que eu conheço.

Felipe ficou completamente quieto. Maurício imediatamente se arrependeu de ter dito. Parecia íntimo demais. Voltou para a parede.

— E continua meio pretensioso.

Felipe soltou uma risada baixa.

— Aí está você.

Maurício sorriu.

— O quê?

— Nada.

— Fala.

— Nada.

Felipe pegou duas latas e caminhou até a parede.

Entregou uma a Maurício.

— Vem.

— Pra quê?

— Você ainda não fez nada.

— Fiz várias linhas.

— Exatamente. Nada.

— Filho da puta.

Felipe sacudiu a lata.

— Vamos fazer alguma coisa de verdade.

Maurício olhou para a parede, depois para a lata em sua mão.

— O quê?

Felipe deu de ombros.

— Não sei.

— Você é o artista.

— A parede também é sua agora.

Maurício ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi profundo.

— Cala a boca.

Maurício riu. Começaram. No início, Felipe fazia quase tudo. Maurício seguia instruções, preenchia espaços, errava contornos e reclamava quando Felipe corrigia, depois começou a sugerir.

— Faz isso aqui maior.

— Vai ficar desproporcional.

— Confia.

— Por que eu faria isso?

— Você me trouxe.

Felipe pensou.

Aumentou. Ficou melhor.

— Não fala nada — Maurício disse.

— Eu não ia.

— Ia, sim.

— Talvez.

O tempo começou a passar de outro jeito. Maurício esqueceu de olhar o celular. Esqueceu o metrô. Esqueceu por alguns minutos que deveria odiar estar ali. Até que, enquanto Felipe trocava uma lata vazia, Maurício percebeu uma mancha amarela nos próprios dedos.

Ficou olhando.

— Sai?

— Eventualmente.

— Eventualmente quanto?

— Uns dias.

— Felipe.

— Você queria pintar.

— Minha mãe vai achar que eu virei criminoso.

— Fala que conheceu más influências.

Maurício olhou para ele.

— Isso não seria mentira.

Felipe sorriu. E ali, cercado por paredes que não pertenciam a nenhum dos dois, Maurício percebeu alguma coisa que não gostou. Estava se divertindo com Felipe.

O mesmo Felipe.

Isso deveria ser impossível. Mas a madrugada, aparentemente, ainda tinha algumas coisas para destruir.

A primeira coisa que Maurício perdeu foi a noção das horas.

A segunda foi a vontade de ir embora.

Nenhuma das duas pareceu particularmente inteligente.

O desenho tinha crescido muito além do que planejavam. Começou como um conjunto de linhas sem sentido numa parede lateral e, em algum momento, Felipe decidiu que aquilo parecia uma janela. Maurício disse que não parecia porra nenhuma. Felipe mandou que ele tivesse imaginação.

Agora havia uma janela. Ou alguma coisa próxima disso.

— Mais pra esquerda — Felipe disse.

Maurício ergueu a lata.

— Aqui?

— Mais.

— Aqui?

— Mais.

— Se você falar "mais" outra vez, eu vou embora.

— Aí.

Maurício apertou o spray.

— Finalmente.

Felipe estava sentado no chão, observando.

— Ficou torto.

Maurício virou devagar.

— Você quer morrer?

— Posso ser sincero?

— Eu posso ajudar.

Felipe sorriu. Maurício voltou para a parede.

O estranho era como aquilo começava a parecer normal.

Uma hora antes, Felipe era uma pessoa que Maurício evitava até nos reflexos do espelho da escola. Agora estava sentado a poucos metros dele, escolhendo cores e reclamando porque Maurício tinha usado amarelo onde, segundo ele, obviamente deveria ser laranja.

Obviamente.

— Me dá o vermelho.

— Qual?

— O vermelho.

— Tem três.

Maurício olhou para as latas.

— Pra que alguém precisa de três vermelhos?

— Pra diferenciar os vermelhos.

— Isso não faz sentido.

Felipe pegou uma lata.

— Esse é mais quente.

Pegou outra.

— Esse é mais fechado.

A terceira.

— E esse...

— É vermelho.

Felipe suspirou.

— Você não tem salvação.

Maurício pegou a primeira.

— Esse.

— Escolheu o pior.

— Agora vai ser esse só pra te irritar.

Felipe deitou a cabeça contra a coluna.

— Você toma todas as decisões assim?

— As que envolvem você, sim.

— Percebi.

Maurício pintou parte do contorno.

— Você também não facilita.

— Eu?

— Você.

— O que eu fiz?

Maurício riu.

— Quer em ordem cronológica ou alfabética?

— Cronológica.

— A gente não tem a madrugada inteira.

Felipe olhou pela janela quebrada.

— Tecnicamente, temos.

Maurício acompanhou o olhar. A cidade continuava acesa do lado de fora. Pegou o celular, duas e dezessete.

— Caralho.

— O quê?

— Olha a hora.

Felipe conferiu o próprio telefone.

— Achei que fosse mais tarde.

— Mais tarde?

— Costumo perder a hora aqui.

Maurício guardou o celular. Havia mensagens da mãe.

Chegou?

Depois:

Maurício?

E outra, vinte minutos mais tarde:

Me avisa quando chegar.

Ele digitou rapidamente.

tô bem mãe. tô com um amigo. daqui a pouco vou embora

Ficou olhando para a palavra. Amigo. Apagou.

tô bem mãe. tô com o pessoal da dança. daqui a pouco vou embora

Enviou.

— Mentindo pra sua mãe?

Maurício ergueu os olhos.

— Não enche.

— "Pessoal da dança"?

— Você tava lendo?

— Você escreve com o celular na altura da minha cara, com brilho no máximo.

— Você é o pessoal da dança.

— Achei que eu fosse o filho da puta.

— Também.

Felipe riu.

Maurício guardou o telefone.

— Minha mãe ia ter um infarto se soubesse onde eu tô.

— Minha mãe provavelmente também.

— Por motivos diferentes.

— Todos justos.

Maurício voltou a sacudir a lata.

— A sua deve achar que você tá onde?

Felipe demorou um pouco.

— Não sei.

— Como não sabe?

— Ela não perguntou.

Maurício olhou para ele. Felipe continuava sentado.

— Você mora com ela?

— Moro.

— E ela não pergunta onde você tá?

— Às vezes.

— Você saiu da dança e veio direto pra cá.

— Sim.

— No meio da noite.

— Maurício.

— Tô perguntando.

— Eu percebi.

Felipe levantou.

Pegou uma lata.

— Ela deve achar que eu tô com alguém.

— Alguma garota?

Felipe olhou para ele.

Um segundo. Dois.

— Alguma pessoa.

Maurício desviou os olhos primeiro.

— Tanto faz.

Felipe aproximou-se da parede.

— Você perguntou.

— Eu sei.

Pintaram em silêncio por alguns minutos. Maurício não sabia por que aquela resposta tinha ficado na cabeça.

Alguma pessoa.

Talvez porque não respondesse nada. Ou talvez respondesse, decidiu que não queria pensar.

— Segura aqui.

Felipe estendeu uma lata. Maurício pegou. Os dedos encostaram, nenhum dos dois comentou. Felipe recuou alguns passos para observar a parede.

— Tá faltando alguma coisa.

— Talento.

— Além disso.

— Engraçadinho.

Maurício se afastou também.

O desenho parecia uma janela aberta para alguma coisa que nenhum dos dois tinha decidido ainda. Felipe havia feito a estrutura. Maurício tinha preenchido boa parte do interior com formas coloridas que, para sua surpresa, não estavam tão ruins.

— Você planeja antes? — perguntou.

— Às vezes.

— E hoje?

— Hoje eu não planejava trazer ninguém.

— Que honra.

— Não se acostuma.

Maurício olhou para ele.

— Você sempre vem sozinho?

— Já perguntou isso.

— E você não respondeu direito.

Felipe pegou outra lata.

— Às vezes venho com umas pessoas.

— Amigos?

— É.

— Burgueses rebeldes?

Felipe parou.

Maurício percebeu.

— Pronto.

— O quê?

— Começou de novo.

— Eu fiz uma pergunta.

— Não. Você já decidiu a resposta e colocou um ponto de interrogação no final.

Maurício cruzou os braços.

— Tá defendendo seus amigos agora?

— Nem são meus amigos.

— Então por que tá irritado?

Felipe largou a lata com mais força do que precisava.

— Porque é cansativo.

— O quê?

— Isso.

— Isso o quê, Felipe?

— Ter que passar por uma prova toda vez que eu abro a boca porque você decidiu quem eu sou seis anos atrás.

Maurício soltou uma risada.

— Eu decidi?

— Sim.

— Interessante.

— Maurício...

— Não. Interessante mesmo.

Felipe percebeu para onde aquilo estava indo.

— Eu não quis...

— Você me confundiu com um garçom.

— Eu sei.

— Na casa onde minha irmã ia casar.

— Eu sei.

— Você nem perguntou quem eu era.

— Eu sei.

— Então não vem falar que fui eu que decidi quem você era.

Felipe ficou quieto.

E a parede desapareceu.

──────── × ────────

A casa parecia grande demais para ser de verdade. Maurício tinha passado os primeiros vinte minutos do casamento tentando não tocar em nada.

Adriana ria disso.

— Para de ser besta.

— Se eu quebrar alguma coisa aqui, você vai ter que vender um rim.

Ela ajeitou a gola da camisa dele.

— Você tá bonito.

— Pareço garçom.

— Parece meu irmão.

— Isso não ajuda.

Adriana deu um tapa leve no peito dele.

— Vai procurar alguma coisa pra beber. Eu preciso terminar de me arrumar.

Maurício saiu.

Tinha dezesseis anos e a sensação insuportável de que todo mundo sabia que ele não pertencia àquele lugar.

As pessoas falavam baixo. Riam baixo.

Até os copos pareciam caros.

Ele estava olhando para uma mesa tentando descobrir se podia pegar um refrigerante quando ouviu:

— Ei.

Virou. Um garoto estava parado perto da escada.

Devia ter mais ou menos sua idade, talvez um ano a mais. Camisa clara, cabelo perfeitamente penteado. Um copo vazio na mão.

Bonito.

Maurício percebeu isso antes de qualquer outra coisa e odiou ter percebido. O garoto estendeu o copo.

— Você pode levar isso pra cozinha?

Maurício olhou para o copo, depois para ele.

— Posso.

Pegou. O garoto já tinha virado quando Maurício chamou:

— Ei.

Ele olhou. Maurício colocou o copo de volta na mão dele.

— A cozinha fica pra lá.

Apontou. O garoto franziu a testa.

— Tá.

— Vai lá.

Silêncio.

Uma garota ao lado começou a rir.

— Felipe, ele é irmão da noiva.

A cor desapareceu do rosto dele.

Maurício sorriu.

— Prazer.

Felipe abriu a boca.

— Eu achei que—

— Eu sei o que você achou.

Maurício virou.

— Espera.

Não esperou.

──────── × ────────

— Você não esperou — Felipe disse.

Maurício piscou.

Estavam novamente no prédio.

— O quê?

— Eu fui atrás de você.

— Não foi.

— Fui.

— Eu lembraria.

— Você entrou numa sala com sua irmã.

— E?

— E eu fiquei do lado de fora feito um idiota.

Maurício soltou uma risada incrédula.

— Quer alguma medalha?

— Não.

— Porque continua sendo uma história onde você me tratou como seu empregado.

— Eu sei.

— Então pronto.

Felipe passou a mão pelo cabelo.

— Eu ia pedir desculpa.

— Seis anos atrasado.

— Eu sei.

Maurício esperou alguma justificativa.

Não veio.

Felipe apenas respirou fundo.

— Eu era um babaca.

— Era?

Felipe quase sorriu.

— Ainda sou, aparentemente.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

A tensão cedeu um pouco.

Só um pouco. Felipe voltou à parede.

— Você também não era exatamente simpático.

— Ah, desculpa se não agradeci por você ter me dado seu copo.

— Não tô falando disso.

Maurício sabia.

— Então tá falando do quê?

Felipe pegou uma lata azul.

— Da escola.

— O que tem?

— Primeira vez que você apareceu.

Maurício riu.

— Ah.

— "Ah".

— Aquilo foi você sendo ridículo.

— Foi você chegando com aquele cara.

Maurício virou.

— Aquele cara tem nome.

— Eu sei.

— Fernando.

— Eu sei o nome dele.

— Então usa.

Felipe apertou o spray com força demais.

— Fernando.

Maurício sorriu.

— Você ainda não gosta dele.

— Eu não tenho nada contra ele.

— Claro.

— Não tenho.

— Você quase arrumou briga com ele.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

──────── × ────────

Três semanas antes, Maurício tinha entrado na escola de Dora puxando Fernando pelo braço.

— Para de reclamar.

— Eu não sei dançar.

— Por isso é uma aula.

— Você também não sabe.

— Mas eu tenho coragem.

— Você tem falta de vergonha.

Dora veio recebê-los. Maurício falava quando percebeu alguém próximo ao espelho. Reconheceu imediatamente.

Felipe.

Mais velho.

Diferente.

Mas Felipe.

Os olhos dos dois se encontraram. Maurício parou de falar, Felipe também. Fernando acompanhou o olhar.

— Conhece?

— Infelizmente.

Felipe ouviu.

— O sentimento é recíproco.

— Ótimo.

Carol apareceu atrás dele.

— Vocês se conhecem? Espera, acho que lembro dele.

— Não — os dois responderam ao mesmo tempo.

Fernando riu.

— Parece que sim.

Felipe olhou para ele.

— E você é?

— Fernando.

— Perguntei pra ele.

Fernando ergueu as sobrancelhas. Maurício franziu a testa.

— Qual é o seu problema?

— Nenhum.

— Então para de falar assim com ele.

— Eu só perguntei quem ele era.

— Não parecia.

Felipe cruzou os braços.

— E o que parecia?

Fernando entrou no meio.

— Gente, eu posso me apresentar sozinho.

Felipe olhou para a mão de Fernando ainda apoiada no ombro de Maurício.

— Imagino.

Maurício deu um passo à frente.

— Eu cheguei tem dois minutos e você tá procurando problema?

Dora surgiu entre eles.

— Algum problema aqui, meninos?

──────── × ────────

Maurício começou a rir antes mesmo de a lembrança terminar.

— Não sei por que você ficou tão incomodado.

Felipe não respondeu. Maurício arregalou os olhos.

— Caralho.

— Cala a boca.

— Você tava com ciúme?

— Não tava.

— Felipe.

— Eu não conhecia ele.

— Exatamente!

— E daí?

— Você nem falava comigo.

— Porque você me odiava.

— Eu ainda odeio.

Felipe virou para ele.

— Percebi.

Maurício sorria.

— Você ficou com ciúme do Fernando.

— Você vai repetir isso quantas vezes?

— Até parar de ser engraçado.

— Então a noite inteira.

— Provavelmente.

Felipe pegou uma lata e apontou.

— Eu posso te pintar inteiro.

— Isso foi uma ameaça estranhamente sexual.

O silêncio veio rápido. Maurício percebeu o que tinha dito. Felipe também.

Os olhos se encontraram. Dessa vez, nenhum desviou imediatamente. Felipe baixou a lata.

— Você fala muita merda.

— Às vezes.

— Às vezes?

Maurício voltou para a parede.

— Continua pintando.

Felipe obedeceu. Mas alguma coisa tinha mudado, novamente. A madrugada parecia fazer isso o tempo inteiro. Abrir alguma coisa, fechar outra. Aproximar. Afastar.

Maurício tentou se concentrar na pintura.

— Então por que você voltou?

Felipe perguntou.

— Onde?

— Na escola.

— Eu faço aula lá.

— Não. Na semana seguinte.

Maurício olhou para ele.

— Porque eu tinha pago o mês.

— Mentira.

— Você tá muito curioso, parece criança.

— Você podia ter pedido dinheiro de volta.

— Eu não fujo de lugar porque você tá nele.

Felipe assentiu.

— Eu sei.

— E você?

— O quê?

— Por que continuou indo?

Felipe virou para a parede.

— Carol.

— Mentira.

— Ela precisava.

— E agora não precisa mais?

Felipe não respondeu.

Maurício lembrou da conversa com Dora.

Tem certeza?

Acho melhor.

Você tava indo bem.

Não é pela dança.

— Hoje você falou pra Dora que ia parar.

Felipe ficou imóvel por um instante.

— Depois a gente fala disso.

— "Depois" quando?

— Depois.

— Tá.

Maurício conhecia aquela palavra. Era a palavra que as pessoas usavam quando não pretendiam responder. Felipe voltou a pintar.

O silêncio se estendeu.

E Maurício, talvez porque estivesse cansado, talvez porque aquela noite já tivesse atravessado limites demais, fez a pergunta que não deveria.

— Você acreditava mesmo que ela tinha feito aquilo?

Felipe parou. Não perguntou quem, isso já era uma resposta. A lata permaneceu suspensa na mão. Maurício sentiu o peito endurecer.

— Minha irmã.

Felipe colocou a lata no chão.

— Não.

Uma palavra. Maurício esperava muitas coisas, não aquela.

— Não?

Felipe virou.

— Não.

— Nunca?

— Nunca.

Maurício riu.

Não havia humor.

— Você tá mentindo.

— Não tô.

— Todo mundo da sua família dizia que ela matou.

— Eu não.

— Você não dizia nada.

Felipe ficou quieto.

— É diferente.

Maurício sentiu alguma coisa quente subir pelo peito.

— Diferente?

— Maurício...

— Você achava que minha irmã era inocente?

— Achava... Quer dizer, acho.

— E ficou quieto?

Felipe respirou fundo.

— Eu tinha dezessete anos.

— E depois fez dezoito.

Silêncio.

— Dezenove.

Felipe abaixou os olhos.

— Vinte.

— Eu sei contar.

— Então conta.

Felipe ergueu o rosto.

Maurício não reconheceu a própria voz.

— Seis anos.

O prédio pareceu enorme.

— Minha irmã perdeu seis anos.

— Eu sei.

Maurício deu um passo na direção dele.

— Não.

Felipe não recuou.

— Você sabe contar até seis.

Aquilo atingiu. Maurício viu, Felipe desviou os olhos.

— Eu não sabia o que fazer.

— Qualquer coisa.

— Não era tão simples.

— Claro que não.

— Eu dependia da minha mãe. Eu dependia deles pra tudo. Eu não sabia nem pensar por conta própria.

— E a Adriana dependia de quê?

Felipe ficou quieto.

— Ela tinha acabado de entrar naquela família — Maurício continuou. — O marido dela tava morto. O velho apareceu morto. Todo mundo precisava de alguém pra culpar e pronto. A garota que veio de fora serviu.

— Eu sei.

— Para de falar que sabe.

Felipe fechou a boca. Maurício sentiu as mãos tremerem, não de medo daquela vez.

— E sabe o que é pior?

Felipe esperou.

— Vocês ganharam.

— Eu não...

— Ganharam.

Maurício apontou para ele.

— Sua mãe. Seus tios. Todo mundo. O patrimônio foi dividido e ninguém precisou olhar pra cara dela nunca mais.

— Você acha que eu queria aquilo?

— Eu acho que foi conveniente.

Felipe ficou pálido.

— Foi.

Maurício parou, não esperava. Felipe respirou.

— Foi conveniente.

A voz saiu baixa.

— E eu fui covarde.

Nenhuma defesa.

Nenhuma explicação.

— No começo eu dizia que não tinha idade, que ninguém ia me ouvir. Depois eu dizia que não sabia o suficiente. Depois... — Felipe engoliu em seco. — Depois ficou mais fácil não falar.

Maurício encarou-o.

— Pra você.

— Sim.

Aquilo desmontou alguma coisa. Não o ódio.

Talvez fosse pior se desmontasse. Mas a necessidade de atacar encontrou pela primeira vez alguém que não estava tentando se defender.

Felipe sentou no chão, encostou as costas na parede. Maurício permaneceu de pé.

— Eu sinto muito — Felipe disse.

Maurício fechou os olhos.

— Não.

Felipe assentiu.

— Tá.

— Não faz isso.

— O quê?

— Não pede desculpa como se resolvesse.

— Eu não acho que resolve.

— Então não pede.

Felipe assentiu novamente.

— Tá.

Maurício virou de costas, olhou pela janela. São Paulo continuava lá. Milhares de apartamentos, milhares de janelas. Gente dormindo, trabalhando. Gente vivendo vidas que não tinham nada a ver com a deles.

Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.

Felipe não tentou tocá-lo. Não tentou explicar. Maurício agradeceu silenciosamente por isso. Quando voltou para a parede, pegou uma lata, sacudiu. Felipe ergueu os olhos.

Maurício começou a pintar.

— Vai deixar essa parte vazia? — perguntou.

Felipe demorou a entender. Olhou para o desenho.

— Achei que você queria.

— Tá feio.

Felipe levantou devagar.

Pegou outra lata.

— Qual cor?

Maurício apontou.

— O vermelho.

— Qual?

Maurício olhou para ele.

Felipe quase sorriu.

— Nem começa.

Escolheu um. Pintaram.

Sem conversar.

E talvez aquela tenha sido a primeira coisa verdadeiramente gentil que fizeram um pelo outro naquela noite.

Não transformar tudo em palavras.

──────────────╱─────────

Mais tarde, Maurício estava sentado no chão tentando limpar tinta dos dedos com um pedaço de papel quando seu estômago roncou. Alto.

Felipe olhou.

Maurício fechou os olhos.

— Não.

Felipe começou a rir.

— Não fala nada.

— Eu nem...

O estômago roncou novamente. Felipe riu mais. Maurício jogou o papel nele.

— Vai se ferrar.

— Quer pedir alguma coisa?

— A essa hora?

— São Paulo.

— Eu tô sem dinheiro pra gastar quarenta reais num hambúrguer gourmet às três da manhã.

Felipe levantou.

— Quem falou em comprar?

Foi até a bolsa. Maurício acompanhou com os olhos.

— O que você tá fazendo?

Felipe abriu um compartimento lateral. Tirou um pacote embrulhado em papel-alumínio, depois outro. Maurício ficou olhando.

— Não.

Felipe jogou um na direção dele.

— Sim.

Maurício segurou.

— Você trouxe sanduíche?

— Trouxe.

— Na bolsa do grafite?

— Tem compartimento.

— Felipe.

— O quê?

— Você anda com comida?

Felipe sentou ao lado dele.

— Às vezes.

Maurício abriu o papel. Pão, queijo e presunto. Nada sofisticado.

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Aquilo, por algum motivo, o surpreendeu mais do que deveria.

— Você sempre traz tudo nessa bolsa?

Felipe abriu o próprio sanduíche.

— Quase tudo.

— Spray, comida...

— Carregador.

— Claro.

— Água.

— Meu Deus.

— Uma camiseta.

Maurício começou a rir.

— Você tá preparado pra uma emergência pós apocalíptica.

Felipe deu uma mordida. Mastigou.

Então respondeu como se não fosse nada:

— Nunca sei quanto tempo vou ficar longe de casa.

Maurício parou, Felipe continuou comendo. A frase tinha sido simples. Casual. Mas alguma coisa nela não era, Maurício olhou para a bolsa aberta.

Havia coisas suficientes para alguém desaparecer por algumas horas ou por uma noite inteira. Olhou para Felipe.

— Você não gosta de voltar pra casa?

Felipe demorou a mastigar.

— Eu não disse isso.

— Também não respondeu.

Felipe abaixou os olhos para o sanduíche.

Dessa vez, quando o silêncio apareceu entre eles, Maurício não sentiu vontade de preenchê-lo com uma provocação.

Esperou.

E Felipe, pela primeira vez naquela noite, pareceu não saber para onde fugir.

Felipe continuou olhando para o sanduíche. Maurício esperou.

Pela primeira vez naquela noite, não havia barulho, tinta sendo agitada dentro de uma lata ou uma provocação pronta para salvar os dois de uma conversa difícil.

Só o prédio.

A cidade entrando pelas janelas quebradas. E Felipe sentado ao lado dele, com os joelhos dobrados, parecendo subitamente muito mais cansado do que algumas horas antes.

— Não é que eu não goste de voltar — disse enfim.

Maurício mordeu o sanduíche.

— Hum.

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Esse "hum".

— Eu só fiz "hum".

— Exatamente.

Maurício mastigou.

— Então termina.

Felipe passou o polegar pela borda do papel-alumínio.

— Minha casa é complicada.

Maurício soltou uma risada curta.

Felipe virou o rosto.

— O quê?

— Desculpa.

— Pode falar.

— É só que... — Maurício gesticulou vagamente. — Você mora numa casa que provavelmente tem mais banheiro do que a minha rua inteira e tá me falando que é complicado voltar pra casa.

— Eu sabia que você ia fazer isso.

— Fazer o quê?

— Transformar tudo em luta de classes.

— Todos os meus problemas seriam resolvidos com dinheiro, Felipe.

Felipe riu sem humor.

— Dinheiro ajuda.

Maurício fez uma pausa.

— Muito — Felipe acrescentou. — Eu sei disso.

Aquilo desmontou a resposta que Maurício preparava. Felipe apoiou a cabeça na parede.

— Mas dinheiro não deixa ninguém menos dentro da própria cabeça.

Maurício riu.

— Essa foi horrível.

— Você entendeu.

— Infelizmente.

Felipe sorriu de leve.

— Minha mãe tem uma ideia muito específica da vida e isso envolve não fazer nada. O que importa é somente quanto dinheiro um sobrenome pode carregar.

— Pobre menino rico.

Felipe fechou os olhos.

Maurício se arrependeu quase imediatamente.

— Foi mal.

Os olhos abriram.

— Você pediu desculpa?

— Não se acostuma.

— Vou registrar mentalmente isso.

— Felipe.

— Tá.

Maurício terminou o sanduíche.

— Continua.

Felipe pareceu surpreso.

— Você quer ouvir os lamentos de um mauricinho?

— Se não quisesse, tinha ido embora umas três horas atrás.

Felipe olhou para ele.

Maurício percebeu.

— Não olha assim.

— Assim como?

— Não começa.

Felipe desviou os olhos, sorrindo.

— Eu faço isso — disse. — Saio.

— De casa?

— É.

— E vem pra cá.

— Às vezes.

— Por quê?

Felipe olhou para as paredes. Maurício acompanhou.

As cores pareciam diferentes agora. Mais escuras sob a luz da madrugada.

— Aqui ninguém tem uma ideia formada sobre mim. Nem mesmo eu.

Maurício não respondeu.

— Não tem reunião de família. Não tem ninguém falando do que vai acontecer quando isso ou aquilo ficar no meu nome. — Felipe apontou para a parede. — Se ficar ruim, ficou ruim porque eu fiz ruim. Se ficar bom, fui eu também.

Maurício lembrou da pergunta que tinha feito antes.

Ninguém escolheu as cores?

Não.

Ninguém pagou?

Não.

Ninguém mandou?

Não.

Agora entendia.

— Então é por isso.

— O quê?

— O desenho.

Felipe olhou para a figura na outra parede. O garoto com uma janela no lugar da cabeça.

Os pássaros escapando.

— Talvez.

— Sabia que significava alguma coisa.

— Não se empolga.

— Eu sempre tô certo.

— Essa é provavelmente a coisa mais errada que você já disse.

Maurício empurrou o ombro dele. Felipe empurrou de volta, fraco. Quase automático. E ficaram assim, ombro contra ombro. Maurício percebeu primeiro. Poderia ter se afastado, não se afastou.

A temperatura tinha caído ou talvez o suor da tinta tivesse secado. Esfregou os braços. Felipe notou.

— Tá com frio?

— Não.

Felipe olhou para ele.

— Você é incapaz de responder uma pergunta normalmente?

— Não tô com frio.

Felipe tirou o moletom.

— Eu não quero.

— Não perguntei.

Jogou sobre as pernas de Maurício.

— E você?

— Tô de camiseta.

— Eu também.

— Então devolve.

Maurício segurou o moletom.

— Agora é meu.

Felipe riu.

— Ladrão.

— Rico falando de propriedade é sempre complicado.

Felipe soltou um gemido.

— Tá bom, Karl Marx.

Maurício vestiu. Era grande demais. As mangas cobriram parte das mãos. E cheirava a Felipe, o cheiro que Maurício já havia admitido que era só dele. Essa percepção veio tão rápido que Maurício imediatamente tentou pensar em qualquer outra coisa.

Tinta. A parede. O sanduíche.

— Ficou horrível — Felipe disse.

— Inveja.

— Parece uma criança usando roupa do pai.

— Vai se foder.

Felipe riu. Maurício também.

Quando o riso acabou, continuaram próximos. Próximos demais. Outra vez. Aquilo parecia acontecer sempre que paravam de brigar. Talvez por isso brigassem tanto.

Maurício olhou para frente.

— Posso perguntar uma coisa?

— Você vai perguntar de qualquer jeito.

— Verdade.

— Então manda.

Maurício puxou as mangas sobre os dedos.

— Mais cedo, ouvi você falando com a Dora.

Felipe ficou quieto.

Nenhuma resposta.

— Vai mesmo sair?

Felipe passou a língua pelos lábios.

— Vou.

Maurício assentiu. Esperou. Felipe não continuou.

— Por quê?

— Não importa agora.

— Pra mim importa.

A frase saiu antes que pudesse ser impedida. Felipe virou o rosto.

Maurício continuou olhando para a frente. Merda.

— Quer dizer... — tentou corrigir. — Ela tava dizendo que você tava indo bem.

— Você acha?

— Não exagera. Quer dizer, você ao menos parece ter consciência dos seus pés.

Maurício sorriu.

— Você não é horrível.

— Nossa.

— É o máximo que vai conseguir.

— Vou guardar pra sempre.

Silêncio.

— Então?

Felipe respirou fundo.

— Na real, eu não tô mais dando conta.

Maurício finalmente olhou para ele.

— De aprender?

— Não.

— Dora nem pega pesado com a gente...

— Não é a dança.

Maurício franziu a testa.

— Então o quê?

Felipe levantou.

— Esquece.

— Ah, não. Você começou, agora termina.

Maurício levantou também.

— Você não pode fazer isso.

— Fazer o quê?

— Passar a noite inteira me arrastando pra sei lá onde, me fazer quase morrer subindo esse prédio, me obrigar a pintar uma parede, confessar metade da sua vida e aí mandar um "esquece".

— Eu não te obriguei a nada.

— Você entendeu.

Felipe começou a recolher os papéis.

— Tá tarde.

— Você tá fugindo.

— Não tô.

— Tá.

— Maurício.

— Felipe.

Felipe largou o papel.

— Você quer mesmo saber?

— Quero.

— Tem certeza?

— Por que todo mundo acha que precisa me perguntar isso duas vezes?

Felipe riu sem humor.

— Porque você não faz ideia do que tá perguntando.

— Então me explica.

Felipe olhou para ele e Maurício soube. Não exatamente o quê, mas alguma coisa dentro dele percebeu antes. Como durante o tango, como quando Felipe olhou para sua boca. Como todas as vezes em que os dois entravam na mesma sala e Maurício sabia onde Felipe estava sem precisar procurar.

Aquela velha sensação.

O corpo reconhecendo alguma coisa que a cabeça se recusava a nomear.

— Eu não tô dando conta disso — Felipe disse apontando para si e para o outro.

Maurício ficou imóvel.

— De mim?

— É.

— Eu fiz alguma coisa?

Felipe riu.

— Você existe.

— Desculpa?

— Você aparece naquela sala e eu viro um idiota.

— Mas você já era um idiota antes.

— Eu tô tentando falar sério.

Maurício fechou a boca. Felipe andou alguns passos, passou a mão pelo cabelo. Voltou.

— Eu entrei naquela escola por causa da Carol.

— Eu sei.

— Aí você apareceu.

— E?

Felipe encarou-o como se estivesse diante da pessoa mais estúpida do planeta.

— E eu não quero continuar indo.

— Porque você me odeia?

Felipe fechou os olhos.

— Meu Deus.

— O quê?

— Você é muito lerdo.

— Vai se ferrar.

— Seis anos, Maurício.

Aquilo o calou.

Felipe continuou:

— Seis anos.

Maurício sentiu alguma coisa mudar dentro do peito.

— Do que você tá falando?

Felipe aproximou-se. Um passo. Maurício não recuou.

— De que te vi pela primeira vez.

Agora estavam perto, assim como durante o tango. Só que Dora não estava ali para mandar ninguém continuar.

Maurício sentiu a própria respiração mudar.

— Felipe...

— Eu tentei ficar longe, mas você sempre aparece.

— Você nem gosta de mim.

— Esse é o problema.

— Isso não faz sentido.

— Pra mim também não.

Felipe estava perto o suficiente para Maurício sentir o calor dele.

— Então por qu...

Felipe tocou seus lábios, as mãos subiram pela nuca de Maurício. Foi rápido, quase brusco, com a coragem necessária para acontecer e curto demais para Maurício compreender qualquer coisa antes de terminar.

Felipe se afastou imediatamente.

Maurício ficou imóvel. O prédio inteiro pareceu ficar silencioso.

Felipe também parecia assustado com o que tinha acabado de fazer.

— Perdão, eu não dever...

Maurício levou alguns segundos para responder.

— Você me beijou.

— É.

— Você me beijou.

— Maurício.

— Qual é o seu problema?

Felipe riu, incrédulo.

— Voltamos pra isso?

Maurício passou a mão pela boca. O coração batia rápido demais. Não era repulsa. Isso teria sido mais fácil. Era exatamente o contrário e esse era o problema.Todas as razões para que isso jamais acontecesse saltaram a sua mente. Tudo apareceu ao mesmo tempo.

— Isso não pode acontecer.

Felipe ficou sério.

— Tá. Eu sei.

A resposta imediata confundiu Maurício.

— Tá?

— Você disse que não pode.

— E você só vai falar "tá"?

— O que você quer que eu faça?

Maurício não sabia.

Felipe recuou.

— Eu não devia ter feito isso sem saber se você queria. Me desculpa.

— Eu não falei isso.

— Você acabou de dizer que não pode acontecer.

— É diferente.

— Como?

— Eu não sei!

A voz ecoou. Felipe ficou quieto.

Maurício respirou fundo.

— Você é... VOCÊ!

— Tá, não faz sentido.

— Não brinca agora.

Felipe assentiu.

— Tá.

— Você é daquela família.

A expressão dele mudou.

— Eu sei.

— Minha irmã.

— Também sei.

— Não fala que sabe.

Felipe fechou a boca. Maurício começou a andar, precisava sair dali. Precisava de ar. Precisava ficar longe dele.

Pegou a mochila.

— Eu tô caindo fora dessa merda toda.

Felipe não tentou impedir.

Isso irritou Maurício por algum motivo absurdo.

— Tá.

Felipe se jogou no chão com as mãos na cabeça, exausto.

— Para de falar "tá".

— O que você quer que eu diga?

— Nada.

— Então eu não vou dizer nada.

— Ótimo.

Maurício caminhou até a porta. Cinco passos, talvez seis. A mão encontrou a maçaneta. Parou.

Atrás dele, nenhum movimento.

Nenhuma tentativa de segurá-lo.

Nenhuma ordem.

Nenhuma provocação.

Felipe estava deixando que fosse. Maurício fechou os olhos. E foi ali que a verdade finalmente conseguiu alcançá-lo.

Não começou naquela noite.

Não começou no tango.

Nem sequer no reencontro.

Tinha dezesseis anos quando seus olhos encontraram Felipe naquela mansão e, antes de descobrir que ele era arrogante, antes do copo, antes de saber sequer o nome dele, pensou uma coisa.

Lindo.

Lembrava disso. Tinha enterrado a lembrança debaixo de tudo que veio depois. Era mais fácil. Depois, na escola, soube que Felipe estava na sala antes mesmo de vê-lo. Sabia quando ele chegava. Quando ria. Quando conversava com alguém. Quando olhava.

Sabia até quando Felipe faltava.

Maurício tinha chamado aquilo de raiva tantas vezes que se convenceu. Mas raiva não explicava tudo. Principalmente não explicava por que sua boca ainda parecia guardar aquele beijo curto demais.

— Merda.

Felipe ouviu.

— O quê?

Maurício virou. Felipe permanecia no mesmo lugar. Não havia arrogância no rosto dele, parecia apenas inquietação. Talvez fosse a primeira vez que Maurício o via com medo.

— Você é um filho da puta.

Felipe franziu a testa.

— Eu sei.

Maurício atravessou a sala.

Felipe mal teve tempo de reagir. Dessa vez foi Maurício quem tocou seu lábio. Sem acidente, sem impulso, sem ninguém conduzindo.

A mão de Felipe encontrou seu braço e parou ali, como se ainda esperasse alguma confirmação. Maurício não se afastou. Então Felipe correspondeu e aquilo foi diferente.

Seus corpos pareciam disputar o mesmo espaço. Os dedos de Felipe percorriam cada aresta do corpo de Maurício com a urgência de quem esperou uma vida inteira por aquilo.

Durante alguns instantes, nenhum dos dois tentou transformar aquilo em outra coisa. Nem ódio, culpa ou disputa. Quando se afastaram, os dois respiravam rápido. Maurício manteve a testa encostada na dele.

— Isso continua sendo uma péssima ideia.

Felipe soltou uma risada pequena.

— Provavelmente.

— Eu ainda tô com raiva de você.

— Eu sei.

— Muita.

— Ficou claro.

Maurício quase sorriu.

— E amanhã isso vai ser uma merda.

Felipe olhou para ele.

— Provavelmente.

— Para de concordar comigo.

— Você quer que eu minta?

Maurício finalmente sorriu.

— Idiota.

Felipe sorriu também.

Foi o bastante.

Maurício o empurrou contra uma das mesas velhas. Ela rangeu sob o impacto, arrastando alguns centímetros pelo chão. Felipe abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Maurício não lhe deu tempo. Beijou-o outra vez.

Dessa vez não havia hesitação.

Havia pressa.

Os anos de implicância, as provocações na escola, o tango, a corrida pelas ruas do centro, tudo parecia ter desembocado naquele instante. Beijavam-se como se ainda estivessem brigando, cada um se recusando a ser o primeiro a recuar.

Felipe segurou Maurício pela cintura.

— Tá certo disso?

Maurício afastou o rosto apenas o suficiente para encará-lo.

— Cala a boca antes que eu me arrependa.

Felipe quase riu.

— Você sabe estragar um momento.

— Felipe.

— Calei.

Maurício voltou a beijá-lo.

As roupas foram ficando pelo caminho sem que nenhum dos dois prestasse muita atenção em onde. Uma camiseta caiu sobre uma cadeira quebrada. Um tênis foi parar perto das latas de spray. Alguma coisa bateu no chão e rolou pela sala.

Nenhum deles foi procurar.

A madrugada inteira tinha sido feita de aproximações interrompidas. Agora, pela primeira vez, não havia motivo para manter distância.

Ainda assim, Felipe parou.

— Posso?

A pergunta mudou alguma coisa.

Maurício encontrou os olhos dele.

Ali estava o mesmo homem que poucas horas antes representava tudo aquilo que ele aprendeu a desprezar. O sobrenome. O dinheiro. A família.

Mas também estava o Felipe que pintava escondido no meio da madrugada. Que carregava sanduíches numa bolsa cheia de tinta. Que o tinha tirado de uma viela sem pensar duas vezes. Que admitia ser covarde quando teria sido muito mais fácil inventar uma desculpa.

Maurício sabia que desejá-lo não apagava nenhuma dessas contradições.

Talvez fosse justamente isso que o assustasse.

— Pode — sussurrou.

Depois disso, a noite se tornou fragmentos.

O rangido da mesa. Uma lata de tinta derrubada no escuro. Risadas abafadas quando alguma coisa saiu diferente do esperado. Beijos que começavam urgentes e, sem aviso, ficavam lentos. O frio entrando pelas janelas quebradas e deixando de importar sempre que voltavam a se aproximar.

Não foi como Felipe tinha imaginado.

E ele tinha imaginado.

Mais vezes do que gostaria de admitir.

Nas fantasias, tudo acontecia direito. Talvez houvesse um jantar. Talvez Maurício descobrisse aos poucos que ele não era exatamente o garoto que vislumbrou naquela mansão. Talvez fossem amigos primeiro. Talvez Felipe tivesse tempo de pedir desculpas pelas coisas certas, do jeito certo, antes de sequer pensar em beijá-lo.

Na realidade, estavam num prédio abandonado, cobertos de tinta, cansados, com roupas espalhadas pelo chão e uma história entre eles complicada demais para caber naquela madrugada.

Era imperfeito.

Talvez por isso parecesse tão verdadeiro.

Quando a urgência finalmente passou, nenhum dos dois falou imediatamente.

Ficaram ali.

Ofegantes. Exaustos. Próximos demais para fingir que nada tinha acontecido.

Maurício foi o primeiro a rir.

Felipe virou o rosto.

— O quê?

— Nada.

— E esse sorriso safado aí?

— Tô pensando.

— Isso nunca acaba bem.

Maurício riu outra vez. E Felipe percebeu que aquela talvez fosse a parte que jamais tivesse imaginado.

Não o desejo ou os beijos. Aquilo.

Maurício ficando.

— Espera.

— O quê?

— Você ia mesmo sair da dança por minha causa?

Felipe soltou um gemido.

— Não começa.

Maurício começou a rir.

— Meu Deus.

— Maurício.

— Você não aguentava me ver?

— Eu retiro tudo.

— Seis anos, sério?

— Vou embora.

Felipe tentou passar.

Maurício segurou o braço dele.

— Ah, não.

Felipe virou.

— Você queria respostas.

— E agora eu tenho várias perguntas.

— Amanhã.

— Você não acabou de falar que queria que eu...

Felipe o beijou outra vez apenas para interrompê-lo.

Quando se separaram, Maurício continuava sorrindo.

— Covarde.

— Funcionou.

— Dessa vez.

O resto da madrugada perdeu a pressa.

As provocações continuaram, mas já não serviam para esconder exatamente a mesma coisa. Entre conversas interrompidas, silêncios e a intimidade inesperada daquele lugar, a distância que tinham defendido durante anos finalmente deixou de parecer obrigatória.

Mais tarde, quando voltaram a procurar as próprias coisas espalhadas pelo chão, Maurício encontrou uma mancha de tinta no rosto de Felipe.

— Você tá ridículo.

— Não é como se você também não estivesse.

Felipe passou o polegar pela bochecha dele.

— Você também tá sujo.

Maurício segurou o pulso antes que ele afastasse a mão. Ficaram olhando um para o outro, ainda parecia impossível. Talvez continuasse parecendo pela manhã.

Felipe apontou para uma porta no fundo da sala.

— Vem.

Maurício estreitou os olhos.

— De novo?

— Confia em mim.

— Essa frase já me trouxe pra um prédio abandonado.

— E foi tão ruim assim?

Maurício olhou para a parede que tinham pintado. Para as latas espalhadas e para o papel dos sanduíches. Depois para Felipe.

— Ainda tô decidindo.

Felipe sorriu.

— Vem.

Estendeu a mão, Maurício olhou para ela.

Na escola, algumas horas antes, também tinha hesitado antes de aceitar. Dessa vez não.

Entrelaçou os dedos nos dele.

— Pra onde?

Felipe começou a puxá-lo em direção à escada.

— Pro melhor lugar daqui.

— Se tiver mais quinze andares, eu te odeio de novo.

— Você nunca parou.

Maurício apertou a mão dele.

— Não se empolga.

E começaram a subir.

A escada parecia não acabar. No quarto lance, Maurício soltou a mão de Felipe.

— Você falou que era aqui em cima.

— E é.

— Isso foi três andares atrás.

— Eu não disse quanto em cima.

— Filho da puta.

Felipe riu e continuou subindo.

Maurício foi atrás.

As pernas estavam cansadas. O corpo inteiro, na verdade. A madrugada pesava nos ombros agora que a adrenalina começava a desaparecer. Havia tinta seca nos dedos, uma mancha vermelha na camiseta e outra que ele ainda não tinha conseguido identificar perto do joelho.

Felipe estava pior.

O cabelo completamente bagunçado, uma marca azul perto do pescoço, a camiseta amassada e aquela expressão satisfeita de quem, por algum motivo, achava tudo aquilo divertido.

Maurício odiava aquela expressão.

Ou tinha odiado.

As coisas estavam ficando confusas.

— Falta muito?

— Não.

— Você falou isso no último andar.

— Dessa vez é verdade.

— Se tiver uma cobertura com piscina, eu te empurro.

— Por que teria uma piscina num prédio abandonado?

— Rico sempre encontra uma forma de enfiar piscina onde não precisa.

Felipe parou no degrau.

— Tá bem, Che Guevara.

— Anda.

Mais um lance. No topo, havia uma porta de metal coberta de ferrugem. Felipe precisou empurrá-la com o ombro. Nada. Tentou outra vez.

A porta gemeu.

— Quer ajuda?

— Não.

— Orgulho masculino é uma coisa triste.

— Você pode abrir, então.

Maurício colocou a mão, Felipe empurrou ao mesmo tempo. A porta abriu de uma vez. Os dois quase caíram. Maurício começou a rir.

— Você é muito idiota, velho.

— Você tava empurrando também.

— Mas a culpa é sua.

— Claro.

Felipe passou primeiro. Maurício foi atrás. E parou.

O vento foi a primeira coisa que sentiu. Frio. Limpo de um jeito que parecia impossível depois de horas respirando poeira e tinta, depois veio a cidade.

São Paulo se estendia diante deles numa confusão interminável de prédios, antenas, janelas acesas e luzes que alcançavam o horizonte. De cima, o centro parecia diferente. Menos ameaçador. Até organizado, se Maurício apertasse um pouco os olhos.

As ruas onde tinham corrido algumas horas antes agora eram apenas linhas luminosas. Carros pequenos, faróis baixos, algum ônibus começando uma rota que provavelmente terminaria quando o resto da cidade estivesse acordando.

Maurício caminhou até o parapeito.

— Caralho.

Felipe não respondeu. Maurício olhou para trás.

Ele estava observando Maurício.

— O quê?

— Nada.

— Você fica me olhando e depois fala "nada".

— Você faz a mesma coisa.

— Não faço.

Felipe sorriu.

— Tá.

Maurício apontou.

— E para com esse "tá".

Felipe passou por ele.

O terraço era maior do que Maurício imaginava. Havia uma caixa-d'água, algumas estruturas de concreto e, protegido por uma parede mais alta, um colchão velho no chão.

Maurício olhou, depois encarou Felipe, notou o colchão.

— Não.

— O quê?

— Você dorme aqui?

— Às vezes.

A resposta veio simples demais.

Maurício parou de brincar.

— Sério?

Felipe sentou no colchão.

— Eu sou crackudo, esqueceu?

Maurício permaneceu de pé rindo.

— Sua mãe não fica preocupada?

Felipe deu de ombros.

— Eu mando mensagem.

— Dizendo o quê?

— Que não vou voltar.

— E ela aceita?

Felipe soltou uma risada pequena.

— Ela tem bolsas mais valiosas pra se preocupar do que eu, acredite.

Maurício aproximou-se.

O colchão definitivamente já tinha conhecido dias melhores.

— Isso aqui deve ter umas sete doenças.

— O chão lá embaixo onde a gente acabou de transar era muito mais higiênico, né?

Maurício olhou para ele.

Felipe percebeu o que tinha acabado de dizer.

— Não foi isso que...

Maurício começou a rir.

— Cala a boca.

— Eu ia falar do prédio.

— Sei.

— Maurício.

— Relaxa.

Sentou.

O colchão afundou.

— Se eu pegar alguma coisa aqui, você vai pagar o Sírio-Libanês.

— Você tá muito preocupado com doenças hoje.

— Eu tenho planos pro futuro.

Felipe se acomodou ao lado.

— Quais?

Maurício abriu a boca.

Nenhuma resposta veio.

Felipe percebeu.

— Você não sabe?

— Sei.

— Então fala.

— Não quero.

— Por quê?

— Porque você vai rir.

— Não vou.

— Vai.

— Prometo.

Maurício olhou para a cidade.

— Quero ter dinheiro.

Felipe ficou quieto.

Maurício virou.

— Você prometeu não rir.

— Eu não tô rindo.

— Tá pensando.

— Todo mundo quer dinheiro.

— Não do jeito que você tá pensando.

Felipe esperou.

Maurício esfregou uma mancha de tinta no dedo.

— Eu quero não precisar pensar nele.

— Como assim?

— Quero entrar num mercado e não fazer conta antes de colocar as coisas no carrinho. Quero minha mãe parar de esconder boleto quando acha que eu tô preocupado. Quero poder pegar um táxi se for tarde em vez de ficar pensando se vinte e poucos reais vão fazer falta no fim da semana.

Felipe baixou os olhos.

Maurício continuou:

— Quero que quando alguma coisa quebrar em casa seja só uma coisa quebrada. Não uma reunião.

Felipe sorriu de leve.

— Uma reunião?

— Lá em casa tudo vira reunião.

Maurício imitou a voz da mãe:

— "Bom, a geladeira quebrou. Vamos avaliar nossas opções."

Felipe riu.

— Aí minha mãe pega um caderno.

— Um caderno?

— Com as contas.

— Isso é muito organizado.

— Isso é aterrorizante. Você vê sua vida inteira escrita em parcelas.

Felipe riu novamente. Maurício também.

Depois ficou sério.

— Eu quero tirar minha mãe daquela casa.

— Por quê?

— Porque ela merece.

Fez uma pausa.

— E quero a Adriana bem.

O sorriso de Felipe desapareceu.

Maurício percebeu.

— Não precisa fazer essa cara.

— Que cara?

— Essa.

— Eu não sei qual.

— De culpa.

Felipe olhou para frente.

— Não sei fazer outra quando você fala dela.

— Vai ter que aprender.

Felipe virou para ele.

Maurício deu de ombros.

— Se isso...

Apontou entre os dois. Parou.

Felipe acompanhou o gesto.

— Isso o quê?

— Isso.

— Muito específico.

— Você entendeu.

— Quero ouvir você falar.

— Não força.

Felipe sorriu.

— Covarde.

Maurício empurrou o ombro dele.

— Se isso for alguma coisa, você vai ter que aprender.

O sorriso de Felipe desapareceu novamente.

Mas dessa vez por outro motivo.

— Alguma coisa?

— Não começa.

— Você acabou de...

— Eu posso ir embora.

— Não pode.

Maurício ergueu uma sobrancelha.

Felipe corrigiu imediatamente:

— Quer dizer, pode. Claro que pode. Mas seria muito dramático descer oito andares agora.

— Quantos?

— Seis.

— Eu sabia que você tava mentindo.

Felipe riu.

O vento aumentou.

Maurício encolheu os ombros.

— Cadê meu moletom?

Meu moletom.

— Você me deu.

— Emprestei.

Felipe levantou e desapareceu pela porta.

— Onde você vai?

— Dois segundos.

— Se você me abandonar aqui...

— Você vai me assombrar. Eu lembro.

Maurício ficou sozinho.

Olhou novamente para São Paulo. Havia alguma coisa estranha em ver a cidade daquela altura. A algumas ruas dali, tinha acreditado que uma noite ruim estava prestes a ficar muito pior. Agora estava sentado num colchão velho esperando Felipe voltar.

Felipe.

Se contasse aquilo para Fernando, nunca teria paz novamente. Se contasse para a mãe... Não. Nem pensar nisso.

Ainda não.

A porta abriu.

Felipe voltou com a bolsa.

— Você trouxe ela?

— Eu não deixo as tintas lá embaixo.

— Claro.

Sentou novamente. Abriu a bolsa, Maurício esperou. Felipe tirou uma garrafa.

Maurício encarou.

— Não acredito.

— O quê?

— Você realmente carrega uma casa inteira aí dentro.

— Quase.

— De onde saiu isso?

— Tava guardada.

— Aqui?

— É.

Maurício pegou a garrafa.

— Você tem comida, roupa, tinta...

— Carregador.

— ...e ainda guarda vinho branco no terraço.

— Planejamento.

— Você é a pessoa mais estranha que eu conheço.

Felipe tomou a garrafa de volta.

— E mesmo assim tá aqui.

Aquilo encerrou a discussão. Felipe abriu, tomou um gole. Estava terrivelmente quente. Estendeu.

Maurício olhou para a garrafa.

— Você sabe que isso é muito clichê?

— O quê?

— Dois caras num terraço dividindo uma garrafa olhando São Paulo.

— Quer que eu pegue duas taças?

— Você tem?

Felipe hesitou.

Maurício arregalou os olhos.

— Não.

Felipe começou a rir.

— Não tenho.

— Por um segundo eu acreditei.

Maurício aceitou a garrafa apenas para segurá-la por um instante antes de devolver.

— Então é aqui que você vem pensar na vida que quer ter?

Felipe ficou quieto. Maurício lembrou do mural. Dos pássaros escapando da cabeça do garoto, da bolsa preparada para horas longe de casa, da escola de dança, de Felipe dizendo que não conseguia mais vê-lo.

— É — respondeu Felipe.

— E qual é?

— Qual é o quê?

— A vida.

Felipe olhou para ele.

— Que você quer ter.

A pergunta pareceu pegá-lo desprevenido. Talvez ninguém perguntasse aquilo.

Felipe apoiou os braços nos joelhos.

— Uma que seja minha. Genuína.

Maurício esperou mais.

— Só isso?

— Parece pouco?

— Pra alguém que pode fazer praticamente qualquer coisa, parece.

Felipe soltou uma risada sem humor.

— Esse é o problema.

— Poder fazer qualquer coisa?

— Ter um monte de opções que parecem fazer muito sentido pra outras pessoas.

Maurício franziu a testa.

— Isso foi muito frase de burguês em crise.

— Eu sei.

— Tipo muito.

— Eu sei.

— Daria uma ótima legenda de Instagram.

Felipe riu.

— Vai se ferrar.

Maurício sorriu.

— Mas eu entendi.

Felipe virou.

— Entendeu?

— Um pouco.

O silêncio voltou, dessa vez não pesava. Maurício percebeu que a noite estava mudando.

O céu ainda era escuro, mas já não completamente. Havia uma faixa quase imperceptível de azul atrás dos prédios.

— Tá amanhecendo.

Felipe olhou.

— Merda.

— O quê?

— Nada.

— Felipe.

Ele demorou.

— Eu só queria que essa madrugada não acabasse.

Maurício sentiu alguma coisa apertar dentro do peito. Não era uma frase grandiosa. Felipe nem tinha dito olhando para ele. Talvez por isso funcionasse.

Maurício encarou o horizonte.

— E agora?

— Agora o quê?

— O que a gente faz?

Felipe soltou o ar devagar.

— Não sei.

Maurício esperou uma piada.

Não veio.

— Excelente.

— Você queria que eu tivesse um plano?

— Você tem sanduíche de emergência. Achei que tivesse plano pra tudo.

Felipe sorriu.

— Pra isso não.

— Nem eu.

— Então pronto.

— Pronto o quê?

Felipe deu de ombros.

— Pela primeira vez nenhum de nós sabe mais que o outro.

Maurício pensou.

— Isso te incomoda?

— Muito.

— Ótimo.

O céu clareava devagar. Os prédios começaram a ganhar contorno. A cidade perdia aquela aparência distante e voltava a ser São Paulo. Cinza. Gigante. Barulhenta.

O mundo estava voltando.

Maurício sabia o que vinha junto.

Seis anos que uma noite não tinha como desfazer. Talvez por isso sentisse uma vontade quase infantil de impedir o sol de nascer.

Felipe levantou o moletom que trouxe junto com a bolsa.

Abriu.

— Vem.

— O quê?

— Tá frio.

Maurício aproximou-se. Felipe colocou o moletom sobre os dois como uma manta improvisada. Era ridículo, pequeno demais. Maurício precisou se encostar nele para caber.

— Isso não funciona.

— Para de reclamar.

— Metade das minhas costas tá pra fora.

— Chega mais.

Maurício chegou. A cabeça encontrou o ombro de Felipe. Ficou ali. Nenhum comentário, nenhuma provocação. Felipe passou um braço ao redor dele. Maurício sentiu o corpo inteiro perceber de novo, mas agora não tentou chamar aquilo de raiva.

O primeiro raio de sol atravessou o espaço entre dois prédios.

Bateu no rosto de Felipe, depois no dele.

Maurício fechou os olhos.

Quente.

Depois de uma noite inteira de frio, tinta, corrida e coisas que nenhum dos dois deveria ter dito, o calor pareceu quase absurdo.

Felipe mexeu ligeiramente o braço.

— Tá confortável?

— Não estraga.

Ele riu.

— Tá.

Maurício abriu os olhos.

A garrafa permanecia esquecida na mão de Felipe. O moletom sujo cobria mal os dois. O colchão provavelmente era uma ameaça sanitária. Tinham tinta nas roupas, nos dedos e, Maurício suspeitava, em lugares que só descobriria quando chegasse em casa.

Nada daquilo combinava com Felipe. Ou talvez fosse exatamente esse o problema. Maurício tinha passado tempo demais supondo quem Felipe era.

Naquela madrugada descobriu que não sabia porra nenhuma.

Felipe encostou a cabeça na dele.

— Maurício?

— Hum?

Demorou tanto para continuar que Maurício pensou que tivesse desistido.

— Nada.

Maurício sorriu. Dessa vez não perguntou.

Lá embaixo, São Paulo acordava.

Ônibus enchiam as avenidas. Portas começavam a se abrir. Gente atravessava ruas segurando café, mochila, pressa. Em algum momento, Maurício teria que descer aquelas escadas e voltar a pertencer à própria vida.

Felipe também.

E os mundos dos dois continuariam esperando no térreo. Por enquanto, nenhum se mexeu.

O sol avançou mais um pouco e aqueceu seus rostos.

Maurício fechou os olhos outra vez, a cabeça apoiada em Felipe, enquanto o braço dele permanecia ao redor de seus ombros.

Não fizeram promessas.

Não pediram perdão.

Não decidiram o que seriam quando levantassem daquele colchão.

Em silêncio, decidiram apenas uma coisa:

por enquanto, não enfrentariam os mundos que os dividiam.

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🌆

Fim.

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