SEKIREI: Liberdade e Ascensão
1 Capítulo 1 (parte um) - Passado: Ilha de Kamukura
Ilha de Kamukura.
13 anos e 5 meses antes do Plano Sekirei começar.
Uma figura feminina sentada a beira de um precipício. Tal qual as construções humanas que avistavam suas costas, a mulher estava em vestes militares. Seu olhar pairava sobre o horizonte, ao mar que quebrava nas rochas abaixo, a um mundo para além daquela ilha que um dia já foi livre para tantas e tantas voarem... Uma visão indiscutivelmente pacífica para com certeza, mas os sons de tiros e gritos afastados por dentro das matas revelavam um cenário paradoxal.
O sorriso gentil e singelo em sua face expressava a paz que a moça estava a sentir. Uma pessoa comum vendo esta imagem talvez temeria por ela, que com um simples deslize ou falta de atenção poderia desfalecer atravessada pelas pontiagudas pedras abaixo. Ou então que algum projétil, fosse aliado ou inimigo, a atingisse e ceifasse sua vida. Mas isso nem passou pela sua cabeça. Seu estado era de completa aceitação daquele momento, onde ela conseguia encontrar beleza mesmo em circunstâncias tão atípicas.
Ela sentia o cheiro do sal do oceano. Observava sete, podiam até ser oito, gaivotas a voar no céu. Sentia o sol em apogeu esquentando tudo a sua volta. Até mesmo o caótico som dos combates fazia parte da composição que era a pintura perfeita que sua mente formava daquele instante, de um pedaço do tempo e do espaço atravessados pela sua percepção de todos esses eventos simultâneos em cadeia... até que, de maneira súbita, toda a troca de tiros cessou.
— Pensando no futuro mais uma vez, Yume? – uma voz surgiu em questão de segundos, como se sua origem fosse o próprio ar. Era uma outra mulher, a poucos passos das costas daquela que seria sua mais querida irmã. Seus uniformes eram os mesmos, com seus casacos carregando o mesmo brasão da Alvéola. Suas aparências ligeiramente análogas, com uma tendo curtos cabelos pretos, escuros como a noite, presos em uma única e fina trança, enquanto a outra, que carregava também uma espada, tinha um longo rabo de cavalo platinado, branco como algodão. Eram duas mulheres indiscutivelmente muito bonitas, ainda que excêntricas em suas presenças.
O contraste entre as duas não era apenas físico, suas auras também não poderiam ser mais diferentes. Ao mesmo tempo que uma era leve e expansiva, tão grande quanto a própria ilha ás vezes, a outra representava um peso invisível capaz de rachar o próprio chão.
O silêncio já explicava tudo que Yume precisava saber. Karasuba havia dado um trato neles todos – mais um massacre da Sekirei Das Trevas. A De Luz somente esperava que dessa vez ela tivesse ao menos poupado os agentes da Organização. Era uma tecla que as duas já haviam batido muitas vezes no passado, no entanto Yume conseguia sobrepor toda a discrepância entre seus valores – ela via sua companheira por quem ela era, e sabia que mesmo se perguntasse, a própria agente de atos tão facilmente julgáveis como vis se tornava incapaz de diferenciar. A violência que alimentava a sua força a fazia ter poderosos lapsos de memória onde os inimigos, os aliados, e os insetos no chão só se tornam alvos a se externar difíceis sentimentos.
Para Yume, tudo isso, e muito mais, faz parte de uma grande essência cósmica e enigmática.
Ela virou seu pescoço, e afastou com a mão o cabelo que os ventos traziam para sua face. Longas e pesadas lágrimas escorreram por sobre seu alegre rosto, que ainda carregava um leve e sereno sorriso.
— Você não acha maravilhoso? Uma irmã nossa um dia irá alcançar o que nenhuma outra jamais conseguiu... Isso tudo é tão... Luminoso! Eu não consigo não achar lindo. – Ela mais uma vez descansa seu olhar ao vislumbrar a poeira aos pés de Karasuba. – Eu até me pergunto se essa irmã não poderia até mesmo ser você!
— Se você diz... – Respondeu ela, em completo desinteresse. Elas duas, mesmo tão próximas, muitas vezes se perdiam uma na outra. Nunca se desentendiam de verdade, mas era uma constante que viviam em diferentes mundos, mesmo que atravessados. Karasuba não queria saber sobre ascensão alguma, e toda a sua contribuição para com a Organização não significava nada além de uma forma de romper com seu tão enfadonho tédio. – ...Mas porque você assume que não poderia atingir também esse lugar tão distante, hein, Yume?
Se elas tinham momentos em que com diversas palavras e argumentos as duas simplesmente não se encontravam, haviam também circunstâncias onde a completa falta de som traduzia tudo. A resposta de Yume foi o som distante do mar. Por mais que talvez no passado diversos pontos traçados lhe despertassem certa melancolia, ela agora de maneira quase sacerdotal já traduzia melhor os sinais. Entendia seu papel no escopo de tudo. Os eternos instantes representavam tudo o que tinha, e isso já era luz o bastante para ela.
Até que a ponta de uma lâmina entra no seu campo de visão. Ao levantar o queixo e olhar no fundo de seus olhos, a Sekirei percebe aquilo que também fazia parte do instinto natural de outra Sekirei.
Karasuba estava dispondo a sua lendária espada. E queria lutar. Ela não parecia querer apenas se divertir dessa vez, estava séria ao mesmo tempo extasiada só de propor a ideia. Yume conseguia sentir em sua aura que fazia parte de suas intenções ir até o fim do combate.
Ela se levantou e ficou de costas finalmente pro precipício. A espada ainda em completa posição, lhe afrontando ao ser apontada para seu tão belo rosto. Com um só dedo, ela seca suas lágrimas e continua a sorrir para sua eterna rival. Era inegável que a ideia de manifestar tal possibilidade era empolgante para as duas e suas presenças externavam isso...
Karasuba olha para Yume com uma determinação penetrante. Yume olha para Karasuba como quem admira com poesia um pássaro sem asas. Mesmo animada, Yume sabia que não haveria como elas terem essa luta em tais circunstâncias. Ela não só temia pela preservação da ilha que tanto estimava, como também não pensava que fosse do interesse de nenhuma das três partes que essa disputa delas acabasse atraindo a intervenção de forças ainda maiores...
A única reação ao convite foi estender sua mão direita aos céus. Um longo rabo de cavalo platinado brilhando ao vento. Uma curta trança ao balançar. Dois casacos militares em movimento. Dois polos se entrelaçando. Luz e trevas. Um olhar terno. Azul. Ela estica ainda mais o seu braço.
Yume estava a tocar o infinito.
FIM DA PARTE UM DO PRIMEIRO CAPÍTULO
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