SALVE O MORRO

1 O Príncipe destronado


Rio de Janeiro, 2018.

Ninguém nunca ira entender como é viver dentro do complexo de favelas mais temido do mundo. Chapadão! Carinhosamente apelidado pela quantidade de tráfico e mortes que ocorre aqui dentro. Número um em favelas mais perigosas do país. Localizado na zona norte do Rio de Janeiro. Este é um bom lugar de se listar onde nunca deveria ir.

Dizer que nasci aqui, seria ridículo, eu nasci em São Lucas, um hospital particular de Copacabana. Meu pai deu toda regalia possível ao parto de seu único filho e da mulher que amava. Porém nem todo dinheiro do mundo conseguiu trazer minha mãe de volta, quando ela deu parada cardíaca deitada na maca do hospital. Enquanto minha vida surgia em pleno Rio de Janeiro, a da minha mãe partia. Eu nunca iria tocá-la, ou vê-la sorrir ou ter uma mera lembrança dela. Não sei se a morte dela realmente valeu a pena.

Cresci ao lado do meu pai, sem irmãos. Embora meu pai sempre tivesse ao lado de várias mulheres, nenhuma ficou realmente ao lado dele por muito tempo.

— Charlie, o que você está fazendo?

Escutei meu pai gritar das escadas, fechei o computador rápido e esperei que ele abrisse a porta do quarto, o que foi imediato.

— Eu estava...

Meu pai deu um sorriso debochado e eu o encarei.

— O que quer?

— Preciso deixar uma encomenda na boca, a Judite vem arrumar a casa. Se for sair deixa a casa aberta.

— Claro.

Respirei fundo e me virei.

— Charlie?

— Oi?

Me virei encarando meu pai novamente.

— Estude.

Sorri.

— Claro.

E meu pai fechou a porta, pude ouvir aqueles últimos passos até ele terminar de descer as escadas.

Meu pai trabalhou todos os dias, desde que eu me lembre. Sabe quando dizem “dono do morro”? Na favela não tem um “dono”, tem um rei, aquele que tudo pode, aquele que tudo manda, aquele que acima dele naquele lugar, só Deus. O rei do tráfico, era assim que ele era conhecido por todo complexo. E pra mim ele sempre foi só o João, alto, forte e bom pai. Ele sempre me manteve longe do “trabalho” dele, mas sempre me manteve dentro de todo o luxo que aquele “trabalho” nos proporcionou.

Eu lembro exatamente, daquele dia.

Naquele mesmo dia, o rei do morro caiu. Uma grande operação foi montada por agentes internacionais e o levaram.

— Charlie?

— Sim?

— Está me ouvindo?

— Desculpe coordenadora.

— Pode me chamar de Flávia.

Balancei a cabeça positivamente observando aquela senhora baixinha de cabelo enrolado tentando separar os papeis para me entregar.

— Esses são os papéis.

Ela colocou quase um livro em cima do balcão.

— Aqui estão todas as regras da instituição. Seu dormitório é o 1322. Você vai dividi-lo com mais três garotos.

— Ok

— O dormitório das garotas é proibido, e o mesmo para elas.

Olhei por cima do óculos rapidamente. Eu não entrei pra uma faculdade particular cara preocupado com garotas

— Não será problema.

Peguei os papéis rápido antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, ia me virando até que ela me chamou.

— Charlie? Espere.

— Sim?

— Seu histórico é exemplar, mas se quer evitar conflitos, evite dizer quem você é tá bom?

Respirei fundo e tirei meu óculos escuros.

— Não acho que no meu histórico escolar ou nas minhas indicações esteja contando quem eu sou.

— Não, mas tem o nome do seu responsável aqui. E o seu sobrenome... Bom...

— Tá... Eu entendi. Não terá problemas comigo em relação a isso também.

Eu não queria que ninguém, absolutamente ninguém, soubesse quem eu era.