S L Y T H E R I N
6 V - Interlúdio.
Notas iniciais
CAPÍTULO V
Interlúdio (ou sobre receber apoio de onde menos se espera)
[DOMINGO – 18 DE SETEMBRO, 1977]
— Ugh. — James se atirou junto ao banco à mesa da Grifinória, a expressão cheia de um mau-humor velado, bocejando enquanto puxava algumas coxas de frango para o seu prato.
— Boa tarde, Prongs. Dormiu bastante? — Remus sorriu para ele, divertindo-se com a aparência amassada do amigo. Quando saíra do quarto, horas mais cedo, não quisera acordar James ou Sirius, sabendo do hábito dominical sagrado de seus amigos: dormir até a cama expulsá-los.
James resmungou uma resposta abafada em meio à uma garfada particularmente grande. Estava faminto, principalmente porque, no dia anterior, com tantas coisas na cabeça – ou apenas uma— acabara por se esquecer de jantar, o que, francamente, deveria ser considerado um atentado contra sua saúde.
— Onde está o Sirius? — Remus prosseguiu, observando com interesse o comportamento selvagem do amigo com a comida.
— Ffmindo... — James resmungou uma resposta, que saiu ininteligível devido a comida em sua boca, levemente irritado com o comportamento simpático do amigo logo cedo (afinal qualquer hora antes das duas da tarde em um domingo era considerado muito cedo para James). — Por que essa animação toda? — Indagou após engolir, encarando-o com as sobrancelhas arqueadas.
Nunca fora capaz de compreender o bom humor de Remus, principalmente àquela hora em um Domingo. Era simplesmente anormal alguém ficar tão disposto em dias como aquele – que obviamente tinham sido criados para o descanso e postergação.
— Apenas aproveitando os últimos dias de normalidade. — Disse e deu de ombros. James percebeu de imediato que ele estava se referindo ao fato de que, no final daquela semana, seria Lua Cheia, o que significava que por todo o tempo até lá, Remus ficaria mais e mais fatigado até a transformação.
Pensar naquilo fez com que ele se sentisse culpado por estar irritado com o amigo, contudo, o sentimento benevolente se apagou quase de imediato diante das próximas palavras dele:
— James, quando você pretende falar sobre o que está acontecendo entre você e a Evans? — Os olhos de Remus pareciam perscrutá-lo, penetrantes.
James suspirou, sentindo o mau-humor aumentar ao ouvi-lo. Não se encontrava disposto para falar sobre aquilo naquele dia. Francamente, não sabia se estaria disposto a falar sobre aquilo em qualquer dia. A verdade era que nem mesmo conseguira dormir direito, revirando-se de um lado para o outro sobre o colchão, sem em momento algum conseguir desviar os pensamentos para longe dela. Ou dos planos que tramara para tentar descobrir as armações dos projetos de comensais. Ou de Peter e do fato de que ele parecia passar a maior parte dos dias confabulando com Snape. Ou dela de novo, junto dele de milhares de maneiras diferentes e nos mais variados lugares fazendo coisas inimagináveis e, em certos casos, totalmente impróprias. Quando acordara – se é que poderia chamar assim, afinal não tivera mais do que um cochilo – parecia como se sua cabeça estivesse cheia d’água.
Até mesmo tentara voltar a dormir ao perceber que era apenas meio-dia, contudo sentia-se faminto demais para que conseguisse.
Portanto, ali estava ele. E ali estava Remus, esperando por sua resposta, curioso e cheio de bom humor matinal.
— O que está acontecendo...? — Repetiu, tentando parecer desentendido enquanto pensava em qualquer subterfúgio para desviar-se daquele assunto tão agonizante.
— Qual é, James, você não vai mesmo fingir que nada está acontecendo, vai? — Remus rolou os olhos para ele, voltando-se para as salsichas em seu prato e colocando patê de abóbora por cima. James estremeceu ao vê-lo fazer aquilo: por mais que convivessem há anos e que soubesse de sua mania de colocar patê sobre tudo, ainda assim não conseguia evitar sentir-se levemente enojado.
— Fingir?
Remus parou o garfo cheio daquela mistura nojenta à meio caminho da boca, voltando-se para James e arqueando uma sobrancelha.
— Francamente, James! — Bufou. — Está para nascer o dia em que você vai me fazer de idiota. Anda, fala logo. Eu sei que aconteceu alguma coisa entre você e a Evans. E não me diga que foi apenas aquela detenção. Eu estava lá com você, vi a sua cara. E você não pode negar que seu interesse pela garota cresceu consideravelmente nos últimos dias, você fica todo... agitado cada vez que alguém pronuncia o nome dela.
— Eu não fico agitado merda nenhuma! — James rebateu infantilmente, fazendo com que o amigo rolasse os olhos de novo.
Eles ficaram em silêncio por algum tempo, enquanto Remus comia suas salsichas com aquela expressão de “eu-sei-que-estou-certo” estampada em sua cara, fazendo com que James resmungasse de segundo em segundo. Por fim, sabendo que era inútil resistir, suspirou. Odiava demais aquele lobisomem por ser tão bom em perceber as coisas.
Estava abrindo a boca para começar a contar o que o estava atormentando nos últimos dias, quando a voz de Dumbledore retumbou pelo salão.
— Boa tarde! — O diretor disse, fazendo com que todos silenciassem. James e Remus, assim como todos os alunos ali contidos, voltaram-se para ele. — Estávamos esperando vocês terminarem de encher a barriga antes de irmos para as novidades. — Ele sorriu, mas, diante de suas palavras e, James percebeu, por conta da garota loira que estava logo ao lado do diretor e que era seguida por McGonagall, os murmúrios retornaram. — Hoje é um dia diferente: estamos recebendo uma aluna nova, transferida da Academia de Magia Beauxbatons. — Os murmúrios aumentaram de volume e, diante destas palavras, James voltou-se para Remus, encarando-o com uma sobrancelha arqueada. — Deem as boas-vindas à... — Mas James não estava mais prestando atenção, aproveitando-se da balbúrdia para comentar com Remus algo que o incomodava naquilo tudo de modo que mais ninguém ouvisse.
— Já é a décima terceira pessoa que se transfere para Hogwarts desde o ano passado. Será que eles têm ideia de que temos uma seita adoradora de você-sabe-quem aqui? Não imagino que os pais desses alunos os mandariam de boa vontade caso soubessem. — Passou as mãos pelos cabelos. — Era de se esperar que eles fossem informados sobre os ataques na escola antes...
— Acho que não é culpa do Dumbledore. O Ministério com certeza está por trás disso. — Remus argumentou, mas também parecia incomodado. — Meu pai comentou que o foco principal do Ministério e, consequentemente do Profeta Diário, é desinformar a população. Está tudo tomado, James. As pessoas têm essa falsa sensação de segurança e, tudo bem, eu me sinto realmente seguro em saber que Dumbledore está aqui..., mas isso não fez muito pelos nascidos-trouxas e mestiços, fez? Quero dizer, no ano passado tivemos o caso da Mary e tudo o mais... e agora eles estão quietos e eu tenho certeza de que estão tramando alguma coisa.
— Bem, é o que iremos descobrir. — James anuiu. — Hoje à noite, depois da detenção do Sirius, enquanto você vai para a sua reunião superchata com os monitores, nós dois vamos ficar de olho no mapa. Estaremos à postos diante de qualquer movimentação suspeita. — Sorriu, satisfeito, pensando em como era bom ter alguma coisa para fazer, algo com o que se preocupar, alguma marotice. Fazia com que James não se sentisse tão inútil e tolo ao ficar pensando em coisas estúpidas como... — Evans! Mas que merda! — Resmungou, irritado, fazendo com que Remus o encarasse confuso.
— Quê?
— Ela está com a minha capa! Aquela maldita sonserina! Eu-
— CORVINAL! — O brado do Chapéu Seletor fez com que James se assustasse. Ao voltar-se para a mesa principal, observou enquanto a “caloura” sorria, erguendo-se do banquinho e devolvendo o chapéu para a Professora McGonagall. A mesa da casa selecionada bradou e James tinha suas desconfianças de que, grande parte dos rapazes que tinham aquele olhar excitado, estavam contentes daquele jeito por conta da beleza da garota.
Ela tinha cabelos loiros e longos, olhos azuis que combinavam perfeitamente com o brasão que aparecera magicamente em suas vestes enquanto se direcionava até a mesa da Corvinal. Seu andar era leve e fluído, dando a impressão de que flutuava. James tinha certeza de que teria reconhecido aquele ar “francês” mesmo que Dumbledore não tivesse comentado que a garota estava sendo transferida de Beauxbatons.
— Quirrell parece que vai ter uma coisa, olha lá. — James comentou com Remus, indicando o sextanista corvinal que estava completamente vermelho por ter a garota nova sentada bem ao seu lado. — Daqui a pouco ele começa a gaguejar.
— Não seja tão malvado, James. — Remus bufou para ele, embora seus olhos brilhassem em diversão.
— Ah, qual é, Moony, você sabe que estou brincando. — James sorriu, complacente, e voltou para sua comida.
— Vocês viram a cara do Quirrell? Parece que vai colocar a comida toda para fora a qualquer minuto. — Sirius comentou, assim que chegou aonde os amigos estavam. Recebendo um sorriso maroto de James, ele sentou entre os dois. — É realmente uma pena que eu não goste de francesas. Quem sabe sem eu estar no páreo vocês tenham alguma chance. — Adicionou em seu tom arrogante, embora não tenha parecido muito convincente devido ao sono que ainda estava presente em suas feições e voz. Esticando-se para a comida, parou no meio do caminho ao observar o prato de Remus, fazendo uma careta para as salsichas cheias de patê do garoto.
James acenou em aprovação para a reação do amigo, feliz em perceber que não era o único que achava aquilo nojento. E, assim como James, Sirius não parecia de muito bom humor: seus ombros estavam tensos e sua testa vincada.
— O que aconteceu com vocês no caminho para cá? James chegou com essa mesma expressão de infelicidade. — Remus comentou quando terminou de mastigar, voltando-se para Sirius.
— Essa expressão, Moony querido, é a que os injustiçados têm quando precisam fazer coisas injustas.
— Tais como?
— Acordar antes das duas horas num domingo... — Sirius disse, no que recebeu total concordância de um James cheio de batatas na boca. — E, no meu caso, ter de aturar a encarnação do mal, que também atende como Lily Evans, por várias horas enquanto padeço em uma detenção totalmente injusta.
— Você socou alguém na frente dela, Sirius. Seria injusto se ela não te punisse. — Remus rolou os olhos para ele antes de puxar seu copo com suco de abóbora e terminá-lo. — Vocês dois dão mais trabalho para essa garota do que o resto da escola inteira.
— Ela é que me dá trabalho. — James comentou de forma impensada, recebendo olhares dos amigos, embora o de Remus fosse, sem dúvidas, o mais desconcertante. — Quero dizer, desde que ela foi promovida a monitora e, depois, a monitora-chefe, eu passei mais tempo em detenções do que praticando quadribol.
— Impossível, Prongs. — Sirius riu para o exagero do amigo. — Embora eu concorde de que ela é bastante vil com você quando quer. Acho que ela nunca vai superar o fato de que você a convidou para sair. Suponho que, no Guia Definitivo para Sonserinos, receber um convite de um grifinório deve ser o pior tipo de humilhação pública.
— Vocês sabem que eu não estava falando sério. Foi apenas um surto repentino de...
— Coragem. — Remus disse.
— Loucura. — Sirius retrucou.
— Imbecilidade. — James acrescentou. — De qualquer forma, Sirius, eu estava falando para o Remus que a Srta. Encarnação do Mal está com a minha capa da invisibilidade. — Bufou, irritando-se novamente com a lembrança. — Teremos de utilizar os métodos tradicionais.
Sirius sorriu ao ouvir aquilo, sentindo a excitação diante da possibilidade de ser pego aumentar; jatos de adrenalina pareciam percorrer seu corpo somente de imaginar ter de se esgueirar por corredores escuros enquanto descobria segredos sujos de sonserinos mais sujos ainda.
— Ótimo. — Respondeu, deliciado.
X—X
A poucos metros de distância, Peter Pettigrew observava os três garotos com uma expressão ilegível. A comida em seu prato estava praticamente intocada e ele não tinha qualquer vontade de continuar a comer, sentindo seu estômago totalmente revoltoso depois de deparar-se com aquela cena tão familiar.
Fazia pouco menos de um ano desde que ele havia parado de fazer parte daquilo: conversas e risadas sonolentas pelos domingos, troca de olhares intensos em que nenhuma palavra precisava ser dita e a sensação de que, por mais ruim que fosse o dia, sempre tinha os melhores amigos com quem podia contar para deixar tudo melhor; e, apesar de que deveria estar acostumado depois de tanto tempo, havia algo que ainda se remexia dentro dele toda vez que lembrava o que havia feito e o que perdera.
Sempre soube, é claro, que, no momento em que fizesse sua escola, Sirius, Remus e James o deixariam para trás. Por mais inteligentes e espertos que os três garotos fossem, nenhum deles compreenderia as motivações – e ambições – de Peter. Não. Eles sempre haviam sido preto no branco quando o assunto se referia às Artes das Trevas. E, Peter – percebera um pouco tarde – era cheio de tons de cinza.
Lembrava do Chapéu Seletor e de sua indecisão ao tentar decidir sobre a casa em que deveria colocá-lo: Grifinória ou Sonserina? Não que Peter reclamasse da escolha – apesar de que, no momento atual, não sentisse se encaixar na casa dos leões. Talvez tivesse sido mais fácil se ele fosse um sonserino. Mas, percebeu, se ele fosse um sonserino, não teria tantas informações acumuladas durante anos para compartilhar de modo que fosse aceito por ele.
Não que concordasse totalmente com a visão purista, entretanto, se havia algo que Peter gostava, era de estar do lado vitorioso. E, pelo modo como as coisas estavam indo, sabia ter feito a escolha certa. Era apenas um infortúnio que seus ex melhores amigos não fossem capazes de compreendê-lo e ajuda-lo. Não que ele precisasse deles, é claro.
Já passara o tempo em que Peter dependia da atenção dos garotos mais pretenciosos de Hogwarts para que pudesse se sentir poderoso. Não... agora faltava pouco, muito pouco para que ele finalmente pudesse demonstrar suas conquistas e glórias a todos aqueles que um dia o repudiaram, e, no caso dos marotos, o diminuíram – mesmo que não intencionalmente, embora Peter não pudesse deixar de notar que sua magia, charme ou inteligência, não eram tão admirados quanto os dos outros três. Até mesmo os atributos de Remus, que era um lobisomem, pareciam receber mais prestígio do que os dele – o que somente contribuíra para que ele tivesse tomado aquela decisão, afinal aceitar que era menos do que um mestiço... não, ele não se conformaria com tão pouco.
Com esse pensamento em mente, Peter afastou o olhar dos três garotos, sabendo que deveria parar de se afetar. Puxando o garfo e a faca para perto, movimentou-os em direção ao seu bife, imaginando se conseguiria colocar algum pedaço para dentro sem acabar vomitando.
Estava em meio a um debate mental acirrado – imaginando se deveria ou não se dar ao trabalho de tentar engolir qualquer coisa – quando percebeu o olhar de Snape sobre si.
Os olhos negros do garoto o perscrutavam, sérios e ilegíveis como sempre. Ao perceber que Peter o havia visto, ele moveu minimamente a cabeça, indicando a saída do Salão Principal. Suas intenções eram bastante claras e, assim que observou o garoto esgueirar-se pelo local que havia indicado, Peter soltou novamente os talheres sobre a mesa, erguendo-se e apressando-se na mesma direção.
X—X
— O que vocês vão fazer? — Sirius indagou assim que saíram do Salão Principal.
— Vou espiar a seleção do time da Lufa-Lufa. Fiquei sabendo que Edgar Bones é o novo capitão. O cara é bom. — James comentou, lembrando-se do apanhador lufano que constantemente bloqueava suas jogadas.
— E você, Moony?
— A Dorcas e a Marlene me pediram para auxiliá-las com a redação sobre Aparições Espirituais Não-Humanas. Depois, como você sabe, tenho reunião com os monitores.
— Que tédio. — Sirius fingiu um bocejo, fazendo com que o outro rolasse os olhos.
— Melhor do que estar em detenção. — Remus retrucou.
— Nisso você tem razão. Ninguém merece ter de aturar a rainha da Sonserina me encarando com aquela expressão imutável e entediante por horas. — Sirius estremeceu de modo teatral, fazendo com que os dois amigos bufassem. — Até porque ela não parecia de muito bom humor hoje. Merlin, eu vou padecer nas chamas do inferno.
— O que você quis dizer com “ela não parecia de muito bom humor hoje”? — James perguntou, ignorando deliberadamente o arquear de sobrancelhas de Remus.
— Sei lá, cara, quando cheguei para o almoço ela estava parada na entrada do Salão, observando a seleção da novata com cara de espanto. Parecia como se tivesse comido algo estragado. E então ela esbarrou em mim e nem se deu ao trabalho de brigar. — Deu de ombros. — Com sorte, quem sabe ela continue me ignorando.
James estava prestes a continuar o interrogatório – imaginando o que poderia ter causado o comportamento estranho de Evans – quando a voz de Flitwick soou atrás deles.
— Sr. Lupin! — O homenzinho chamou, fazendo com que os três voltassem-se em sua direção, as expressões idênticas de surpresa ao perceberem que o professor vinha acompanhado da novata. — Srs. Potter, Black.
— Boa tarde, Professor Flitwick. — Os três o cumprimentaram quando este os alcançou. — Olá. — Adicionou Remus para a garota, no que foi acompanhado de um acenar de cabeça de Sirius e James.
— Oi. — Ela os cumprimentou, as bochechas coradas.
— Boa tarde, meninos. — Flitwick, ofegante de sua corrida até eles, disse antes de voltar-se para Remus. — Sr. Lupin, como você deve saber, hoje teremos a primeira aula de Aparatação em Hogsmeade e, por conta disso, a maioria dos nossos monitores não estarão à disposição, assim como os sextanistas e alguns setimanistas.
— Sim senhor, professor. Em que posso ajudá-lo? — Remus perguntou, simpático como sempre.
— Tenho uma reunião com Dumbledore daqui a pouco e não poderei acompanhá-la — indicou a garota — para que conheça a escola. Como não encontrei a Srta. Evans... a outra. — Sorriu, apologético. — E você é o monitor-chefe, será que poderia acompanhá-la?
— É claro, Professor. — Remus assentiu, prestativo como sempre, voltando-se para a garota logo em seguida. — Hm...?
— Petunia. — Ela disse, sorrindo para ele. — Petunia Evans.
— Evans? Como Lily Evans? — Sirius apressou-se a perguntar, franzindo o cenho em confusão. James não estava muito diferente, sentindo-se levemente atordoado ao observá-la erguer as sobrancelhas e encará-los com uma expressão ilegível.
— Oh, mas é claro. — Flitwick quem respondeu. — Elas são irmãs! — E então voltou-se para Petunia. — Tenho de ir para a reunião agora, mas o Sr. Lupin aqui, junto dos Srs. Potter e Black, estão mais do que qualificados para ajudá-la. — E, acenando, se afastou, apressado.
— Então você é irmã da Evans? — Sirius prosseguiu com o questionamento, como se não houvesse sido interrompido, observando a garota com atenção, como se buscasse alguma característica física que indicasse o parentesco.
— Sim. — Petunia respondeu, seus olhos brilharam com alguma coisa que nenhum deles conseguiu compreender. — Vocês a conhecem?
— Ugh. — Sirius estremeceu. — E como.
— Ela tem algumas aulas conosco. — Remus adicionou. — Ah, prazer, sou Remus Lupin. — E esticou a mão para cumprimentá-la. — Estes são James Potter — James imitou o amigo, esticando-se para apertar sua mão, tentando parecer simpático, embora a avaliasse, procurando algo que remetesse à outra Evans em sua face muito branda e seus cabelos muito loiros. — E Sirius Black.
Sirius não se deu ao trabalho de estender a mão, apenas inclinando a cabeça, ainda muito surpreso e intrigado com a novidade.
— Então, você e ela são muito próximas? — Indagou, direto, fazendo com que Remus o encarasse, irritado com a falta de tato. Não que Sirius lhe tenha dado atenção.
— Ahn... — Petunia começou a falar, parecendo desconfortável com o rumo da conversa. Percebendo isto, Remus interrompeu:
— Mas então... porque você decidiu sair de Beauxbatons? — Ignorou deliberadamente o olhar furioso de James que, claramente, queria continuar o assunto sobre a sonserina. Remus, entretanto, lembrava do que Sirius havia dito: sobre Lily estar estranha ao observar a seleção, o que podia significar muito bem que tanto ela quanto Petunia talvez não gostassem muito daquele tópico de conversação.
A garota estava prestes a responder, quando, novamente, foi interrompida:
— Remus! — A voz de Marlene McKinnon ecoou pelo corredor, fazendo-os voltarem-se na direção oposta para observá-la se aproximar. Ao seu lado, Dorcas estava ofegante, acompanhando o passo apressado da amiga. — Será que podemos deixar o tema de Aparições Espirituais Não-Humanas para mais tarde? Dorcas acabou dormindo demais...
— Ei, isso foi porquê... oh! — Dorcas parou em meio à sua frase quando seus olhos pousaram sobre Petunia. — Você é novata? — Sorriu, simpática.
— Sim. — Petunia retribuiu o sorriso. — Meu nome é Petunia Evans.
— Dorcas Meadowes. — Dorcas estendeu a mão para ela. — E essa é Marlene McKinnon.
— Olá. — Marlene sorriu.
— Você veio de onde? — O entusiasmo de Dorcas para com a garota era grande. Ela lembrava muito bem de como se sentira no primeiro dia na escola, sem conhecer ninguém, sentindo-se perdida, portanto podia entender a provável ansiedade da novata.
— Beauxbatons. — Petunia respondeu simplesmente.
— Oh! Meus pais quase me mandaram para lá antes de decidirem me colocar em Hogwarts. — Marlene comentou, o olhar nostálgico.
— Ainda bem que você não foi. — Dorcas bufou. — Quem iria me acordar quando eu me atrasasse? — Voltou a sorrir para Petunia. — Seja bem-vinda à Hogwarts!
— Obrigada! — Petunia retribuiu o sorriso. — Você, por acaso, é filha de John Meadowes? — Perguntou, relembrando de um dos grandes romancistas bruxos, autor de um de seus livros favoritos.
— Oh, não. — Dorcas meneou a cabeça. — Na verdade, meu sobrenome é trouxa. — Ela sorriu. — Meu pai é trouxa, minha mãe é bruxa, logo não temos nada a ver com o famoso autor de Caldeirão de Paixões.
— Ah... que pena. — Petunia murmurou e, embora ela tenha tentado claramente ocultar, Dorcas percebeu, tão observadora que era, a expressão de asco que perpassou por sua face ao ouvi-la.
Aquela irritação irracional que a afligia toda vez que alguém a julgava por conta de seu sangue, menosprezando – mesmo que não diretamente – seu pai, que era o melhor homem que conhecera, apenas porque ele não era mágico, tomou conta de Dorcas.
— Pena, não é? Mas, e você, é nascida-trouxa, sangue puro, mestiça...? — Ela adicionou, sentindo-se enfurecer com o que havia notado. Estava farta de pessoas julgando umas às outras por conta da descendência. Farta de receber aquele tipo de olhar toda vez que comentava sobre seus pais.
— Pai e mãe bruxos, assim como meus avós e os outros antes destes. Sou sangue puro. — E o orgulho na voz da garota era prova suficiente de que ela se sentia superior.
— Oh, que sorte não é mesmo? Quero dizer, nos tempos atuais, principalmente aqui em Hogwarts com todos os ataques e tudo o mais, é muito bom estar livre da raiva dos puristas. — O tom de Dorcas não podia ser mais jocoso.
Sirius, que também havia percebido a expressão de repúdio da novata, apreciou o comportamento intempestivo de Dorcas. Era sempre interessante ver a grifinória perder as estribeiras, principalmente quando possuía bons motivos.
— Na verdade, é sim. — Petunia, que notara o tom da outra, respondeu com seu melhor sotaque francês, como se aquilo aumentasse a sua superioridade.
Dorcas estava prestes a responder alguma coisa quando sentiu o aperto de Marlene em seu braço. Respirando fundo, mordeu a língua, impedindo-se de falar qualquer outra coisa. James e Remus observavam tudo com as mesmas expressões de apreensão, enquanto que Sirius piscava para ela.
— Mais tarde revisamos os livros, okay? — Remus disse para Marlene que apenas assentiu e então adicionou: — Hm, Petunia, se você quiser me acompanhar... — Falou, se intrometendo na troca de olhares cheios de raiva velada que Petunia e Dorcas trocavam, fazendo com que a novata se voltasse para observá-lo.
— Oh, bien sûr. — Sorriu para o garoto, simpática demais. — Ce fut un plaisir. — Adicionou, lançando um olhar malicioso para Dorcas antes de seguir pelo corredor junto dele.
James passou as mãos pelos cabelos, levemente surpreso com o desenrolar da cena à sua frente. Por mais que Evans fosse uma sonserina irritante, jamais havia pensado que a família dela pudesse concordar com o purismo – e, embora Petunia não tenha afirmado aprovar aquilo, ainda assim seu comportamento arrogante era indício suficiente. Não que todos os sangues-puros fossem a favor do purismo: a família de James era uma prova contundente daquilo.
Entretanto, apesar de muitos deles conviverem e interagirem com nascidos-trouxas de forma amigável, ainda assim havia aquela aura arrogante que era possível ver na grande maioria das pessoas de sangue puro. A superioridade vinha de berço para alguns, que acabavam se engrandecendo até mesmo sobre mestiços ou outros sangues-puros de famílias menores. Os Potter, como ele bem sabia, não integravam a lista dos Sagrados Vinte e Oito e, embora ele, assim como seus pais, não fizesse a menor questão de fazer parte daquilo, ainda assim era tratado por muitos como “menos importante”.
Era, como Sirius costumava dizer, a Hierarquia do Sangue. E, infelizmente, ainda haviam muitas pessoas dentro e fora daquelas listas que se importavam o suficiente com aquilo para fazer com que aqueles preconceitos totalmente infundados se transformassem em uma guerra por poder e soberania.
Suspirando, observou enquanto Sirius dava um tapinha nas costas de Dorcas, sorrindo para ela antes de encaminhar-se pela mesma direção de Remus. James acenou para as garotas e o seguiu, sabendo que sua curiosidade por saber mais sobre Evans e sua família – algo sobre o que ele não fazia a menor ideia, percebeu – era muito maior do que sua vontade de descobrir as táticas do time da Lufa-Lufa e o entrosamento com o novo capitão.
Quando alcançaram Remus, porém, perceberam que a conversa havia vagado para tópicos muito menos interessantes: como um guia turístico, o amigo começara a contar histórias e indicar lugares enquanto passavam pelos corredores, adicionando uma ou outra informação sobre fantasmas, casas ou pessoas.
Sem ter muito o que comentar – respondendo sempre com monossílabos quando Remus ou Sirius (que parecia tão entediado quanto ele) lhe dirigiam a palavra – James passou a analisar a garota. Petunia tinha mais ou menos a mesma altura da irmã, embora ele pensasse que a ruiva deveria ter uns dois ou três centímetros à mais. Sua forma de andar – fluída, como percebera após a seleção – fazia com que ele lembrasse do andar altivo de Lily Evans enquanto esta se afastava após lhe desferir uma detenção, embora Petunia fosse muito mais delicada, enquanto que a sonserina parecia muito mais intimidadora.
Havia, também, o formato do queixo – levemente pontudo, embora o de Petunia fosse mais pronunciado – e o arquear de sobrancelhas.
Nenhuma dessas características, entretanto, fariam com que James as ligasse como irmãs caso não soubesse que elas realmente eram.
— E aqui fica a entrada para a Torre da Corvinal. — Remus adicionou, arrancando-o de seus devaneios, fazendo-o perceber que se encontravam no lado oeste do quinto andar, em frente à uma grande porta com uma aldrava em formato de águia que James sabia dar para a sala comunal dos corvinais. — Você tem de bater e responder uma pergunta.
— Uma pergunta? — Petunia franziu o cenho, confusa.
— Rowena Ravenclaw, a fundadora da Corvinal, prezava a inteligência acima de tudo. — Sirius comentou com a garota, fazendo-a assentir. — Mas as perguntas geralmente são lógicas, portanto não deve ser muito complicado. — Deu de ombros.
— D'accord. — Ela sorriu, esticando a mão para a porta e ouvindo a pergunta com atenção. Não demorou muito até que ela respondesse de modo que a entrada para a Torre estivesse liberada. — Isso é legal.
— Acho que temos uma visão bastante diferente do que significa legal. — Sirius murmurou baixinho, de modo que somente James pudesse ouvir.
— Vou te esperar aqui, enquanto você olha, para depois eu te mostrar o resto do castelo. — Remus disse, recebendo um piscar de olhos da garota que o deixou imediatamente vermelho. Ela adentrou a sala, fazendo com que a porta se fechasse logo em seguida.
— Seria bem engraçado caso ela descobrisse que, além de mestiço, você também tem um probleminha peludo. — Sirius bufou para Remus, fazendo com que a vermelhidão diminuísse de imediato. — Sem ofensas, Moony, mas você viu a expressão que ela fez quando a Dorcas comentou sobre o pai.
— Mas não podemos julgá-la ainda, não é? — Remus deu de ombros, desconversando.
— Diga por você mesmo. — Sirius bufou, voltando-se para James. — E eu pensando que ter de passar algumas horas com a Evans seria um inferno... o destino decidiu intervir e trazer outra delas para cá. — Estremeceu de forma teatral. — Tente não convidar esta para sair, Prongs. Não queremos Srta. Encarnação do Mal 2, a vingança.
James não se deu ao trabalho de responder, sentindo-se estranhamente cansado. Sabia que havia acabado de acordar, contudo parecia que seus olhos, assim como todo seu corpo, estavam pesados. Talvez ele aproveitasse o tempo em que Sirius estaria na detenção para dormir um pouco mais e, quem sabe desta forma, ele estivesse mais disposto antes da missão noturna.
Estava tão perdido em pensamentos, devaneando sobre colchões e travesseiros e horas de sono que nem percebeu que Petunia estava de volta e que haviam recomeçado a caminhar.
— Bem, Remus, vou ter de deixá-los por aqui. — Sirius disse, trazendo-o de volta à realidade, fazendo-o perceber que se encontravam em um dos corredores do segundo andar. — Tenho um compromisso inadiável com a outra Evans. — Disse.
Petunia arqueou as sobrancelhas, interessada.
— Vocês estão saindo? — Indagou.
— Oh, é claro. Temos um romance sórdido. — Sirius sorriu, divertindo-se com a ideia, pensando que precisaria nascer mil vezes de novo antes de cogitar a possibilidade de namorar com aquela garota. Lily Evans não era o seu tipo. Não quando um de seus amigos tinha um interesse muito particular sobre ela, pelo menos.
— Ele tem detenção. — James respondeu, rolando os olhos para o amigo, sem entender porque ficara incomodado com a sugestão de Petunia. — Evans é a monitora-chefe.
— Ah... — Petunia começou a dizer, contudo o som de passos provindos do corredor à direita fez com que ela se voltasse, sendo imitada pelos outros três.
A apenas alguns metros de distância, Marlene McKinnon e Dorcas Meadowes conversavam enquanto se afastavam pelo corredor. Aquela cena toda não seria nada estranha se – e somente se – Lily Evans não as estivesse acompanhando, falando com elas de modo quase amigável.
— Lily? — A novata chamou.
— Petunia. — A ruiva murmurou, voltando-se para encarar a irmã.
James percebeu o instante exato em que ela o avistou: seus olhos arregalaram em surpresa, embora, apenas alguns instantes depois, sua face já estivesse totalmente recomposta e com a habitual expressão de tédio em seu lugar. Ela não mais olhou para ele, embora ele a observasse com atenção.
— Olá. — Lily conseguiu se pronunciar, embora sentisse suas entranhas se remexerem nervosamente dentro de si, deixando-a levemente enjoada.
A verdade era que Lily não havia esperado por aquele confronto tão cedo. Estivera com esperanças de que pudesse postergar aquele momento, adiá-lo até que fosse totalmente inevitável. Mas, ali estava sua irmã, encarando-a com aquela expressão de falsa simpatia. E ali estava James Potter, apenas mais uma das pessoas que ela estivera procurando evitar desde que acordara.
Poderia ter rido da ironia daquela cena se não estivesse tão malditamente nervosa.
Parecia como se aquele momento, em que as duas irmãs se encaravam, estava durando uma eternidade. Lily sentia como se todos os olhos estivessem sobre elas naquele momento – o que era a mais pura verdade, afinal as únicas pessoas naquele corredor, além dela e de Petunia, eram os três marotos e Marlene e Dorcas que, obviamente, estavam as observando.
Começara a se perguntar por quanto tempo ficariam ali, apenas se estudando, quando Petunia sorriu para ela, seus olhos azuis brilhando em algo que Lily só podia reconhecer como falsa alegria, e se adiantou, jogando os braços em volta dela, abraçando-a fortemente, puxando-a para si.
Tomada pela surpresa, Lily não conseguiu fazer nada além de continuar parada, emoção atrás de emoção parecendo se acumular dentro dela, imobilizando-a quase como se lhe houvessem lançado um Petrificus Totalus.
Por entre os braços da irmã, conseguia ver a surpresa estampada no rosto dos três garotos, assim como podia imaginar as expressões apreensivas de McKinnon e Meadowes logo atrás de si. Não podia estar mais certa: ambas observavam Petunia, que havia fechado os olhos enquanto a abraçava, parecendo verdadeiramente contente em fazê-lo, com expressões quase iguais, um misto de surpresa e depreciação.
Após alguns instantes – ou, para Lily, o que pareceu ser uma eternidade – Petunia se afastou, o sorriso ainda em seus lábios enquanto observava a irmã mais nova. A imobilidade de Lily passou quase no mesmo instante em que a vontade absurda de bater em seu rosto recaía sobre ela, fazendo com que cerrasse os punhos para não acabar dando vazão àqueles sentimentos tão extremados.
Respirando fundo, Lily deu um passo para trás, não conseguindo retribuir o sorriso – e tampouco querendo retribuir.
— O que está fazendo em Hogwarts? — Foram as primeiras palavras que lhe escaparam, diretas e sem qualquer sentimentalismo.
Petunia arqueou as sobrancelhas ao ouvi-la, exatamente como Helena sempre fazia quando ela dizia algo impertinente, fazendo com que Lily franzisse os lábios ao reconhecer o comportamento familiar.
— É muito bom te ver, irmã. — Petunia disse, ignorando deliberadamente sua pergunta. — Estava com saudades.
— Eu posso imaginar. — Lily retrucou, feliz ao notar que seu tom era tão indiferente quanto quisera demonstrar. — Mas então, o que está fazendo aqui?
— O programa de treinamento pós-escolar para medibruxos ofertado por Hogwarts é muito melhor do que os de lá. Achei que seria uma boa. — A loira disse, concisa e, embora Lily tivesse certeza de que estava dizendo a verdade, podia perceber, ao encarar aqueles olhos azuis que nunca haviam conseguido lhe esconder nada, que havia muito mais por trás daquilo.
Petunia sempre fora apaixonada pela França. Desde pequena cobiçara a chance de mudar para lá e, uma vez, quase havia conseguido. Se a mãe delas não houvesse recebido uma proposta muito boa do St. Mungus, dando a ela o cargo de chefe de setor e várias outras regalias e compensações, Lily muito provavelmente estaria estudando em Beauxbatons naquele momento.
Era apenas muito suspeito que, de repente, Petunia tivesse optado por mudar-se para a escola que, por anos, repudiara. Lily tinha quase cem por cento de certeza de que havia a manipulação de Helena Evans por trás daquela mudança súbita, embora não fizesse a menor ideia do porquê.
— Certo. — Lily disse, por fim, estreitando minimamente os olhos. — Seja bem-vinda. Espero que aprecie a estadia.
A irmã franziu os lábios ao perceber a clara conotação depreciativa em seu tom de voz, mas apenas assentiu.
— Vejo que já conseguiu alguns amigos. — Novamente, as palavras escaparam da boca de Lily quando ela lançou um olhar rápido para cima dos três garotos inquietos.
— Oh, bem, o Professor Flitwick pediu para que Remus me guiasse pela escola. James e Sirius estão sendo muito queridos por nos acompanhar. — Petunia sorriu para os três, de modo interessado.
— Queridos é basicamente o nome do meio desses dois quando há meninas envolvidas. — Foi Marlene quem comentou, lançando um olhar depreciativo em direção aos dois garotos que havia citado.
Sirius rolou os olhos para ela.
— Não seja tão megera, Marlene. Sabe que posso ser querido com você também, é só pedir. — E sorriu, galante.
— Vocês são todos colegas? — Petunia indagou.
— Sim. — Remus e Marlene responderam, enquanto que James e Lily diziam quase ao mesmo tempo:
— Não exatamente.
A garota loira arqueou uma sobrancelha.
— Temos algumas aulas juntos, embora não sejamos colegas de casa. — Lily respondeu e imediatamente sentiu os olhos de Petunia baixarem de seus olhos para sua gravata e, logo em seguida, para o símbolo da serpente sobre seu peito.
— Ah, certo. — Ela disse, arregalando os olhos de forma teatral. — Eu sempre esqueço... — Meneou a cabeça, sorrindo levemente. — Estou tão acostumada com a família Grifinória que...
Oh, pensou Lily, é claro que ela não perderia aquela oportunidade.
— Família Grifinória? — Foi James Potter quem interrompeu e, sem conseguir controlar, Lily finalmente o encarou. Sentiu um calafrio percorrer por toda extensão de sua coluna ao sentir os olhos castanho-esverdeados dele sobre os dela.
— Sim. Nossos pais, avós e bisavós foram da Grifinória. — Petunia comentou orgulhosamente.
— Bem, não os bisavôs maternos. Eles foram de Ilvermorny. — Lily comentou, relembrando sobre a porção americana da família, a qual tanto Helena quanto Petunia pareciam constantemente esquecer. — Wampus e Thunderbird, creio eu. — Recebeu o olhar astuto da irmã como resposta. Sorriu. — E nós duas, é claro. Parece que quebramos a tradição.
As bochechas de Petunia esquentaram imediatamente, dando a ela uma coloração rosada e manchada.
— Suponho que sim. — Concordou, voltando a encarar a gravata de Lily, como se esta houvesse lhe feito alguma desfeita. E então sorriu e ela soube que suas próximas palavras seriam cheias de maldade. — Embora eu imagine que o choque não vai ser tão grande para os nossos pais quando souberem que fui para a Corvinal... não tanto quanto quando você foi selecionada para a Sonserina. Afinal, Inteligência e sabedoria sempre foi algo que eles presaram...
— O que nos leva a indagar o que é que ela está fazendo na Corvinal. — Lily ouviu o sussurro de Meadowes, tão baixo que somente ela e McKinnon seriam capazes de ouvir. Precisou conter-se para não acabar sorrindo.
— Agora, uma Sonserina... — Petunia continuou, totalmente alheia ao fato de que estava sendo ridicularizada pelas grifinórias. A vontade de rir de Lily sumiu quase imediatamente ao ouvir aquelas palavras, fazendo com que aquele aperto no estômago voltasse, muito mais forte do que antes.
Lily sentiu uma vontade quase incontrolável de pular em seu pescoço, mas se conteve. Os punhos que ainda mantinha cerrados se fecharam ainda mais, fazendo com que as unhas de Lily se cravassem fundo contra a pele, a dor clareando seus pensamentos.
— Ah, isso é verdade. — Lily disse com doçura, surpreendendo todos com a sua mudança súbita de tom. — Lily, a varinha defeituosa da família. — Disse e, aproveitando-se da situação, sentindo que em breve perderia totalmente o controle, voltou-se para Black que a observava, surpreso. — Creio que você me entende muito bem, não é, Black? — Piscou para ele, sorrindo antes de voltar-se novamente para a irmã. — De qualquer forma, Tuney, estou muito feliz por ter você aqui. Tenho certeza de que nossos pais ficarão orgulhosos. Mamãe vai dar pulinhos de felicidade. — Sorriu ainda mais ao perceber o cenho franzido e a indicação de raiva brilhando nos olhos azuis da irmã. — É surpreendente saber que, depois de tanto tempo dizendo que odeia Hogwarts, você decidiu vir para cá para seguir o seu antigo sonho de ser uma medibruxa renomada. Parece que o tempo te fez amadurecer, Tuney.
— Eu quis vir para cá. — A irmã disse, entredentes, perdendo um pouco da compostura que havia mantido até então. — E, sim, tenho certeza de que a nossa mãe ficará muito feliz...
— É claro que vai. Como diz mamãe: “qualquer casa é melhor do que a Sonserina”, certo? Já que todos nós, sonserinos, estamos fadados a nos tornar adoradores de Voldemort quando somos selecionados. — Lily não se importou em proferir o nome do bruxo, assim como não se importou com o fato de todos eles terem se retesado ao ouvi-lo. — Vocês não sabiam? No dia da seleção, o Chapéu Seletor faz uma lavagem cerebral em todos os sonserinos, varrendo qualquer valor moral de nossas cabeças para que, desta forma, possamos nos tornar ótimos Comensais da Morte. Não é genial? — E, dizendo aquilo, tendo despejado todo o seu sarcasmo sobre suas palavras, Lily deu as costas, apressando-se para o final do corredor da forma mais digna que podia, sentindo o coração acelerar em seu peito, fazendo com que sua respiração se tornasse difícil e viesse em ofegos trêmulos.
Começou, ela pensou. Começou a tortura. Seu inferno particular estava de volta e, daquela vez, não havia para onde fugir. Toda sua luta em parecer forte, toda sua dedicação em parecer indiferente; tantos anos impondo uma máscara a si mesma, para que, em apenas algumas horas, ela a desestabilizasse por completo.
Pela segunda vez naquele dia, Lily sentiu as lágrimas de raiva e frustração descerem por seu rosto. Parando de caminhar, ela se apoiou contra a parede, imaginando quanto tempo tinha para se recompor antes que alguém a avistasse. Infelizmente, não parecia ser capaz de conter o choro – que somente aumentava, fazendo-a soluçar a cada minuto mais alto – e foi encontrada naquela situação lamentável muito antes do que teria esperado.
— Lily? — Foi a voz de McKinnon que a chamou, fazendo-a erguer os olhos, chorosos, para encará-la e deparar-se, não apenas com ela, mas com Meadowes também.
— Está... tudo bem. — Forçou-se a dizer, de forma patética, sabendo que jamais conseguiria convencer qualquer pessoa de que estava bem enquanto chorava daquele jeito. — Só estou... cansada.
Meadowes, sem dizer uma única palavra, foi até onde ela estava, apoiando-se na parede logo ao seu lado enquanto tocava em seu ombro de modo confortador. Lily gostaria de dizer que não precisava daquilo, que elas podiam ir embora, que não tinha necessidade de preocupação, contudo ela estava gostando da atenção. Sentia-se menos sufocada ao chorar na frente das duas, menos frustrada, como se a situação tivesse diminuído em proporção com a companhia delas.
— Não precisa contar o que está acontecendo. — McKinnon comentou e deu alguns passos até que estivesse em sua frente. — Mas eu queria dizer que, apesar de não nos conhecermos muito... — Lançou um olhar rápido para Meadowes que acenou com aprovação. — Nós estamos aqui, caso você precise conversar. Ou apenas chorar. Ou o que for...
Lily assentiu, não achando sua voz para responder. Como era possível que aquelas duas garotas, que até então não passavam de meras conhecidas, pudessem estar sendo tão amigáveis e compreensivas? Como era possível que, de todas as pessoas no mundo, justamente aquelas as quais nunca teria imaginado, estavam ali, naquele momento, confortando-a?
Fechando os olhos, sentindo mais algumas lágrimas descerem por seu rosto, Lily respirou profundamente, esperando enquanto as reações violentas de seu corpo diminuíam até estarem quase completamente controladas.
— Obrigada. — Disse, por fim, após reabrir os olhos e voltar-se para encará-las. — Muito obrigada. Eu...
— Tudo bem. — Meadowes disse, ainda com a mão sobre seu ombro.
— Não precisa agradecer. — McKinnon disse e, como se fosse algo recorrente, puxou Lily para um abraço, apertando-a contra si, exatamente como Petunia havia feito. Mas, diferente daquele momento, Lily retribuiu o aperto com emoção. — Posso imaginar o quanto deve ser difícil ter uma irmã como ela.
— Você não faz ideia. — Lily suspirou quando finalmente se afastaram.
Um silêncio estranhamente reconfortante caiu sobre as três enquanto estas se observavam como se estivessem se vendo pela primeira vez. E, Lily pensou, talvez fosse exatamente o que estava acontecendo.
Estava prestes a comentar algo de cunho sentimental e totalmente piegas quando percebeu a movimentação no final do corredor. Erguendo os olhos, Lily deparou-se com Sirius Black que se aproximava com a expressão ilegível.
— Black? — Ela indagou, fazendo com que as outras duas voltassem para encará-lo, tão confusas quanto Lily. — O que está fazendo aqui?
— Além de estar exercendo o meu direito irrevogável de andar pelos corredores da escola? Bem, eu estava te procurando para a minha detenção. Isto é, se você ainda quiser continuar com isso. Se não, eu particularmente não ficaria nada incomodado...
— Não seja tolo, Black. — Lily bufou para ele, desencostando-se da parede e erguendo a mão para limpar dos olhos os últimos resquícios das lágrimas que haviam parado de cair. — Se você puder me acompanhar... — Disse, indicando o lado oposto do corredor. O garoto, resignado, a acompanhou. Antes, porém, que estivessem muito longe, Lily voltou-se para as duas garotas que a observavam e sorriu, acenando para elas.
— Até mais, Lily. — Meadowes disse, sorrindo de volta.
— Não seja um imbecil, Black. — McKinnon acrescentou, arqueando a sobrancelha para o garoto.
— Como se isso fosse possível. — Ele rolou os olhos e então eles voltaram a caminhar.
Lily sentia suas bochechas coradas e quentes, constrangida por ter sido pega naquele estado pelo grifinório. Esperava tolamente que ele não comentasse nada com o Potter, embora soubesse que suas esperanças eram vãs.
— Dia difícil, Evans? — Ele comentou, após alguns corredores de caminhada silenciosa. Alguns alunos os observavam, estranhando o fato de estarem caminhando lado a lado, mas logo desviavam o olhar, provavelmente chegando à conclusão correta: Sirius Black estava indo para mais uma detenção.
— É o que parece. — Lily murmurou uma resposta e então parou em frente à entrada da sala dos monitores. — Amargor. — Sussurrou e a porta se abriu.
— Que senha inspiradora. — Black comentou, adentrando o recinto e atirando-se na primeira poltrona livre. — Foi você que escolheu?
— Talvez eu deva mudá-la para insuportável. — Lily retrucou ao fechar a porta e encaminhar-se para um dos armários contra a parede esquerda. Puxou três caixas lá de dentro, levando-as com um feitiço flutuante até a mesa em frente ao garoto. — Black, hoje você vai me ajudar a organizar estes papéis. — Disse e pegou mais duas caixas, fechando o armário logo em seguida. — São detenções. — Respondeu à pergunta muda do garoto. — Logo você verá o seu nome por aí. Estas caixas são do Filch e ele pediu ao Dumbledore que fossem organizadas.
— E então Dumbledore passou o trabalho para você... e agora você está passando para mim? — Black arqueou as sobrancelhas. — Terceirizando serviços, Evans?
— Desde quando você sabe o que é terceirizar? — Lily franziu o cenho, sentando-se à poltrona do outro lado da mesa, em frente ao garoto.
— Desde que me interessei pela história da Segunda Guerra Mundial dos trouxas e descobri que os Estados Unidos utilizavam este método para que pudessem se concentrar na produção de armamento, sem ter de se preocupar com os outros serviços “menos importantes”. — Ele comentou, despreocupado. Lily se surpreendeu com a resposta direta. Jamais teria imaginado que alguém como Sirius Black fosse dado àquele tipo de leituras, embora ela mesma vivesse dando uma folheada em livros, jornais e revistas trouxas enquanto estava em casa. Mas, ela lembrou, Potter havia comentado que o garoto gostava de músicas trouxas. Então por que não gostar da história deles também? — Parece surpresa, Evans.
— Eu estou. — Respondeu, também direta. — Não pensei que você fosse chegado em informações e histórias dos trouxas.
— Então estamos empatados, porque eu não pensei que você fosse a renegada da família grifinória. — Black deu de ombros, embora seus olhos cinzentos a perscrutassem com atenção.
— E isso se deve ao fato de que nós não nos conhecemos o suficiente para fazermos suposições. — Ela finalizou, puxando uma das caixas para si e pegando alguns papéis. — Filch quer que reescrevamos as detenções e as datas, mas, como não estou disposta a perder tanto tempo fazendo algo tão trivial, digo que devemos utilizar o feitiço de geminação para copiar as sentenças em pergaminhos novos.
— Okay. — Black concordou, também pegando uma das caixas e separando alguns pergaminhos.
Eles trabalharam em silêncio por algum tempo, utilizando feitiços não-verbais para agilizarem o serviço, enquanto que suas mentes vagavam.
Sirius a observava pelo canto dos olhos. Podia ver as olheiras profundas contra sua pele pálida, o inchaço em seus olhos que indicavam choro; seus olhos verdes pareciam distantes enquanto ela trabalhava, totalmente alheia a ele ou qualquer coisa ao seu redor. Evans parecia, diferente da imagem que sempre tivera da garota em sua mente, exausta. Exausta e completamente deprimida.
— O que foi? — A voz dela o arrancou de seus devaneios, fazendo-o perceber que a estivera encarando.
— O que...?
— Por que está me olhando com essa cara, Black?
— Você não parece bem. — Sirius disse, suspirando enquanto largava outro pergaminho novo dentro de uma caixa.
Ela não disse nada quanto àquilo, apenas estreitando os olhos minimamente antes de voltar a prestar atenção às detenções. Sirius, por outro lado, estava muito interessado no comportamento da garota para que continuasse com aquele trabalho entediante.
— Petunia e você são muito diferentes. — Comentou novamente, fazendo com que ela também largasse seus pergaminhos e o encarasse com irritação.
— Aonde pretende chegar com esse assunto, Black?
— A lugar algum, Evans. É só que, agora, você faz mais sentido para mim. — Inclinou a cabeça para a garota. — Você talvez não saiba, mas eu sempre fui um ótimo juiz de caráter. Possivelmente por este motivo que eu nunca tenha desgostado totalmente de você. Você não é uma má pessoa, Evans.
— Nossa, Black, me sinto aliviada por saber que pensa isso de mim. Neste momento, minha vida voltou a ter sentido. — Ela colocou a mão sobre o peito de forma teatral e então rolou os olhos para o garoto, mesmo que sentisse as bochechas esquentarem.
— Sabe, eu poderia ficar muito irritado com o seu comportamento caso não fizesse exatamente a mesma coisa quando quero esconder os meus sentimentos: uso o sarcasmo. — Ele apoiou o rosto em uma mão, fixando seus olhos cinzentos sobre os dela, perscrutando-a firmemente. — É engraçado, não acha? Que sejamos tão parecidos?
Lily riu, sem humor.
— Não vejo nada de engraçado nisso, Black.
— Tem razão. Ter uma família infernal não tem graça para ninguém.
Ela voltou a encará-lo, surpresa com as palavras dele. Surpresa pela forma como ele parecia realmente disposto a falar sobre aquilo. Como se, de repente, Lily fosse uma pessoa totalmente diferente diante de seus olhos.
— Como você consegue? — Lily indagou, exatamente como Dorcas havia feito mais cedo para ela, observando o garoto quase ansiosa. — Como você consegue andar pelos corredores sabendo que o seu irmão, com quem você não se dá bem, com quem você compartilha uma história horrível, está tão perto? Fica mais fácil com o passar do tempo? — O desespero era quase palpável em sua voz, mas ela não se importou. Ela queria saber. E tinha certeza de que Sirius Black era o único em uma situação razoavelmente parecida capaz de lhe responder.
Surpreso com a intensidade da garota, Sirius franziu o cenho, tentando pensar numa forma de responder. Não entendia exatamente o porquê de, repentinamente, sentir necessidade de dialogar com a Srta. Encarnação do Mal, mas era estranhamente reconfortante saber que poderia falar sobre um dos aspectos mais dolorosos de sua vida com alguém que realmente compreendia.
— Não. Não fica mais fácil. Na verdade, tem dias em que é simplesmente doloroso demais. Que é estressante demais. Que eu sinto vontade de pegá-lo pelo pescoço e tentar fazer com que ele pense... — Passou as mãos pelos cabelos, recostando-se contra a poltrona e fechando os olhos. — Mas eu tenho James e Remus. E, quando as coisas ficam difíceis demais de suportar, sempre posso contar com eles para me ajudarem a ser forte. — Voltou a abrir os olhos, encarando-a e deparando-se com a expressão cheia de decepção. — Tudo é mais suportável quando se tem amigos, Evans.
Sacudindo a cabeça, Lily riu, soturna.
— Bem, então suponho que em breve entrarei em depressão. — Riu mais um pouco, totalmente desvairada.
— O quê? Mas você tem o Doge, a Bulstrode e a Barnow. Eles são os seus amigos, não são? — Sirius comentou, arqueando uma sobrancelha em indagação. Tinha certeza de que Evans sempre estava acompanhada daqueles três, mesmo que, para seus padrões de amizade, não os achasse lá grandes coisas.
— Meu único amigo era o Snape, Black. — Evans praticamente cuspiu, fazendo-o bufar ao ouvir o nome de seu desafeto.
— Esqueci que você tem péssimo gosto para amizades, Evans. Pelo visto, nossas semelhanças acabaram por aí.
— Eu tinha um péssimo gosto para amizades, realmente. — Ela concordou. — Mas não somos mais amigos, Black. Na verdade, não somos nada além de conhecidos há muito tempo. — Seus olhos verdes se perderam em lembranças, fazendo com que Sirius percebesse sua inegável tristeza.
— Como você conseguia ser amiga dele? Você parece mais inteligente do que isso, Evans. — Ele disse, sem se preocupar em estar sendo indelicado. A verdade era que sempre quisera saber o que levava alguém de intelecto elevado como Evans a andar junto de um babaca asqueroso como Snape.
— Posso te perguntar a mesma coisa, Black: como você conseguiu ser amigo do Pettigrew? — Lily retrucou, sorrindo levemente ao perceber que o havia atingido em cheio.
— Você tem um bom ponto. — Sirius resmungou, apesar de não parecer gostar de admitir aquilo em voz alta.
O silêncio voltou a recair sobre eles, pesado e desconfortável. Lily baixou os olhos para as próprias unhas, tentando organizar os pensamentos enquanto que Sirius fazia o mesmo, observando seus sapatos.
Por fim, Lily suspirou, voltando a puxar os pergaminhos para si, forçando-se a prestar atenção à tarefa que ainda estava no início.
— Sabe de uma coisa, Evans? — Black finalmente se pronunciou, após retornar aos próprios pergaminhos. — Você deveria arranjar novos amigos.
Lily arqueou uma sobrancelha para ele, indagativa.
— Está se oferecendo, Black?
— Nah, eu não sou tão fácil de ser conquistado, Evans. Precisa mais do que algumas lágrimas e lamúrias compartilhadas para alguém ter a honra da minha amizade. — O garoto retrucou e rolou os olhos.
Entretanto, nenhum dos dois deixou de notar o sorrisinho que compartilharam antes de voltarem para as detenções.
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