S L Y T H E R I N

4 III - Solidão.


Notas iniciais
Olá, amores! Olhem só quem apareceu por aqui de novo, rs Ah, eu estou tão feliz com os feedbacks que estou recebendo na fanfic que simplesmente não consigo me controlar e quero postar logo os capítulos para vocês ♥ Saibam que esses comentários maravilhosos que tenho recebido estão me motivando muitíssimo ♥ [observações importantes para o entendimento do capítulo] —- Lily é sangue-puro, logo sua irmã, Petunia Evans também é bruxa e sangue-puro; —- Como já foi dito antes - mas não custa repetir - Bellatrix Black é 10 meses mais velha que Narcissa. Deste modo, ambas são colegas no mesmo ano em Hogwarts; —-------------------------------- PS: cada capítulo contém sua "playlist" e eu vou deixar as músicas linkadas no decorrer do texto, então para quem quiser ouvir enquanto lê, cliquem nos "•", ok? Músicas do capítulo: • Rammstein - Mutter: https://goo.gl/HoCqNQ • Arctic Monkeys - Do I Wanna Know?: https://goo.gl/mihpe8 • Trading Yesterday - Shattered: https://goo.gl/QwVBzA Ah, e para quem quiser o link da playlist completa (com as músicas sendo adicionadas no decorrer da fanfic), aqui está o link do spotify: https://goo.gl/sLVvgL Espero que gostem, amores! ♥

CAPÍTULO III

Solidão (ou sobre beijos em corredores vazios e lembranças dolorosas)

[SÁBADO – 17 DE SETEMBRO, 1977]

O que você estava pensando, Lily Evans? Era o que se perguntava enquanto caminhava rapidamente em direção ao castelo. Sentia o coração bater descompassado, rápido demais dentro do peito, deixando-a ofegante.

Quando finalmente adentrou as portas e cruzou pelo corredor em frente ao Salão Principal, decidiu que o que havia acontecido fora causado por conta de sua fragilidade momentânea. Ela não havia pensado direito. E o fato de ter estado tão desnorteada, tão triste, fora o que a fizera agir daquela maneira tão inesperada com James Potter. Afinal não havia nada que justificasse o fato de que pedira para que ele a abraçasse.

— Droga. — Resmungou sob a respiração, estacando no meio do corredor que a levaria para as masmorras.

Não podia ir por ali, percebeu e então suspirou, sentindo-se cansada. Se ela fosse para sua Sala Comunal, provavelmente encontraria com Snape e sua trupe de aspirantes a comensais. E tudo o que Lily não precisava naquele momento era encontrar com eles, principalmente depois do que acontecera.

Dando meia volta, decidiu que iria até a cozinha para conseguir alguma coisa para comer antes da janta e, assim, quando todos estivessem no Salão Principal para fazer a refeição, ela poderia finalmente ir para seu dormitório sem que ninguém a incomodasse.

Sentindo-se estremecer, Lily colocou os braços em volta do peito ao passar em frente a uma janela por onde o vento noturno adentrava, frio. Não havia percebido o tanto que a temperatura havia caído enquanto estivera chorando nos braços de Potter.

Chorando nos braços de Potter. Por culpa de Snape.

Snape que sempre havia sido seu melhor amigo, desde a infância. Aquele que, dentre tantas pessoas, era o único que parecia conhece-la. O único que a conhecia. No passado. Pois, em algum momento no decorrer dos anos, eles haviam se perdido.

Lily sentiu a cabeça como um grande e apertado nó. Como tudo aquilo havia acontecido? Quando acontecera? Qual tinha sido o momento em que finalmente havia desistido de Snape? Por que não conseguia lembrar exatamente de onde toda aquela mágoa viera ou de quando tinha começado?

Fora por causa das brigas constantes entre eles nos últimos dois anos? Ou por conta dos erros dele? Dos erros dela? Fora por causa da voluntariedade de Snape em relação às coisas as quais estavam fadadas a transformá-lo em algo que ela jamais conseguiria aceitar? Por que ela simplesmente não conseguia entender o que o levara a querer se tornar um monstro, a querer continuar por aquele caminho?

Estaria ela sendo fraca por desistir de alguém que estivera ao seu lado por mais da metade de sua vida?

Lily não conseguia encontrar resposta para todas aquelas perguntas. Tudo o que ela sabia era que queria esquecer. Esquecer que aquela briga ocorrera. Esquecer a dor que sentira ao magoá-lo daquela forma. Esquecer o quanto se sentira fraca por chorar ao vê-lo ir embora, mesmo que soubesse que estava fazendo o certo.

Apenas esqueça, Lily, a parte racional de sua mente insistia em dizer, mas como ela conseguiria fazer aquilo se a cada segundo que passava se pegava mais agoniada que no anterior, imaginando que o perderia para sempre? Que, ao abandoná-lo, ele finalmente deixaria de ser o Sev que conhecera para se tornar o Snape, Comensal da Morte, seguidor de Voldemort. Um monstro.

Um suspiro escapou de seus lábios e seus ombros caíram, indicando o cansaço que se abatia sobre ela.

Sabia que, mesmo que sua mente estivesse tentando encontrar porquês e soluções, nada mudaria o que estava fadado a acontecer. Lily havia se recusado a aceitar os fatos por muito tempo, ignorando o que Snape fazia, as pessoas com quem andava... banalizando suas escapadas durante a noite e projetos suspeitos nas orelhas de seus livros.

Ele já estava perdido muito antes de ela desistir. E, muito antes de ela desistir, ela havia tentado demais.

Snape fizera a escolha muito tempo atrás, mesmo que ela vivesse lhe dizendo que não deveria, que o que estava fazendo era errado. Ele optara por seguir algo no qual ela jamais conseguiria apoiá-lo. O afastamento entre ambos nos últimos anos era prova suficiente daquilo... e ela retardara aquele momento, de ruptura, o máximo que pudera. Mas, por fim, o cansaço falara mais alto. A dor falara mais alto. A perda falara mais alto. E ela já não mais conseguia fingir que tudo estava bem. Porque não estava.

Sentindo um aperto inexplicável no peito, os olhos de Lily se encheram de lágrimas e somente com muito esforço que ela não as deixou cair. Odiava chorar. Odiava o fato de que, ao deixar-se levar pelo choro, acabava deixando à mostra tudo o que lutava diariamente para esconder. Odiava a fraqueza que ficava exposta a cada maldita lágrima que descia por seu rosto, pois a fraqueza já havia lhe causado danos suficientes por uma vida inteira.

Ao pensar naquilo, lembranças sobrevieram sua mente, importunando-a. Ela fechou os olhos, apoiando-se contra a parede do corredor, sentindo-se estremecer novamente só que daquela vez não era por conta do frio.

“Mamãe, me desculpe, eu...” A pequena garotinha ruiva dissera enquanto lágrimas grossas desciam por seu rosto ao encarar a jarra que havia quebrado por descuido.

A mulher alta e loira baixara os olhos para ela, encarando-a com irritação antes de agitar a varinha e murmurar um feitiço, fazendo com que tudo se recompusesse.

“Você não consegue fazer nada certo? Nunca?” Ela perguntara ao abaixar-se para pegar a jarra reparada do chão e, por mais que seu tom de voz fosse baixo, Lily podia ouvir a decepção em cada sílaba pronunciada. “Quando fazemos algo errado nós tentamos consertar. Chorar não melhora nada, só demonstra que você é fraca” prosseguira, rígida como sempre, fazendo com que a criança mordesse os lábios para segurar o soluço que sabia estar por vir. “Você é fraca, Lily?”

“Eu...” Ela havia começado a responder, mas o soluço que ela estivera tentando segurar escapara por seus lábios, fazendo-a calar-se, envergonhada.

“Você é fraca, Lily?” A mulher tornara a perguntar, seus olhos azuis perscrutando-a, frios e reprovadores.

“Não” Lily respondera tentando parecer o mais firme que seus dez anos permitiam, mas sabia que estava mentindo, pois, no momento em que a mãe se afastou, uma lágrima desceu por seu rosto.

E pensar que, naquela época, quando era apenas uma garotinha cheia de sonhos infantis, jamais teria imaginado que se tornaria quem era. Jamais teria imaginado que as palavras duras de sua mãe continuariam perseguindo-a mesmo depois de tanto tempo.

“Não é justo, Lily” Severus havia comentado quando, ao subir até seu quarto, deparara-se com ela aos prantos, escondida embaixo da cama. Lembrava de sentir suas mãos quentes puxando-a para fora, segurando-a com a confiança de alguém que jamais a magoaria daquele jeito. “Não é nada justo”.

“Logo eu vou para Hogwarts, Sev. E então ela vai me amar”

Jamais teria imaginado que se enganaria tanto. Tanto com relação à própria mãe, quanto a Snape.

A dor que as memórias causaram era quase física e a atingia como adagas pontiagudas, fazendo-a gemer em protesto. Quando Lily abriu os olhos, ofegante, sentiu-se perdida ao deparar-se com o corredor frio e cheio de quadros de Hogwarts e não o amadeirado de sua casa, e precisou de alguns instantes até conseguir acalmar a respiração.

— Eu não sou fraca. — Murmurou consigo, sentindo-se tola por deixar-se afetar por algo que havia ouvido tanto tempo atrás.

Com muito esforço, desencostou-se da parede, imaginando se havia ficado o que lhe pareceram anos ali ou se não passara sequer um minuto. Afastou a mecha rebelde de cabelo de seu rosto, limpando os resquícios de lágrimas que haviam nos cantos de seus olhos.

O frio parecia atingi-la com mais força, mesmo que já estivesse distante de qualquer janela. Prosseguiu em direção à cozinha, caminhando lentamente. Não havia qualquer lugar para o qual ela quisesse ir que não estivesse cheio de pessoas que ela não queria ver. Entre Elfos Domésticos e a trupe de comensais fajutos, Lily não precisava pensar duas vezes.

— Senhorita Lily, em que Mike pode ajudar, senhorita? — Mike, o Elfo Doméstico de quem Lily mais gostava, foi o primeiro a prostrar-se em sua frente quando ela entrou no recinto. Sorrindo diante da felicidade do Elfo ao vê-la, Lily sentiu-se levemente melhor do que segundos atrás e então acenou para os outros que se amontoavam à sua volta.

— Algo para comer seria muito bom, Mike. Estou com fome demais para esperar até a hora do jantar. — Disse-lhe, amigável, sorrindo um pouco mais ao vê-los se refestelarem, felizes demais por ter alguém a quem servir. Ao escutarem-na, alguns Elfos Domésticos bateram palmas de alegria, como se ela tivesse dito exatamente o que queriam ouvir e então a empurraram contra um banquinho próximo à uma das quatro grandes mesas posicionadas exatamente abaixo das do Salão Principal, antes de correrem em direção à panelas e tachos cheios das delícias que estavam preparando para a janta.

Wendy, uma Elfa extremamente falante e que tinha enorme fascinação pelos cabelos de Lily, aproximou-se dela, observando-a com atenção.

— A senhorita Lily parece triste. — Disse e então se retesou, arregalando ainda mais seus grandes olhos. — Não que seja da conta de Wendy, é claro. Wendy foi muito intrometida. Wendy sente muito...

— Está tudo bem, Wendy. — Lily apressou-se a acalmá-la antes que ela começasse a se castigar. — Eu estou mesmo um pouco triste. Mas logo vai passar. — Disse, amenizando o próprio sofrimento. Sabia que demoraria mais do que “logo” até que a dor que sentia no peito passasse, mas ninguém mais precisava saber.

— Aqui, senhorita Lily, nós pegamos comida para você. Mike espera que goste. Mike escolheu as melhores. — O Elfo caminhou até ela, trazendo duas travessas cheias do que Lily sabia ser comida o suficiente para alimentar um time inteiro de quadribol.

— Obrigada, Mike. Obrigada. — Acrescentou, abrangendo a todos os outros Elfos que pareciam prestes a explodir diante do agradecimento.

Percebendo-se faminta ao sentir o perfume maravilhoso de comida quentinha, Lily começou a comer, apreciando cada mordida lentamente, deixando que seus sentidos se concentrassem apenas sobre as texturas e gostos do que estava ingerindo, impedindo-os de vagarem para qualquer lugar mais longe que aquilo.

Quando estava finalmente saciada – o que aconteceu bastante tempo depois – Lily agradeceu e precisou ser bastante definitiva ao dizer que não precisava de quatro pedaços de bolo de chocolate nem mais um copo de suco de abóbora antes de finalmente sair da cozinha com apenas um pedaço de bolo e o estômago estufado.

Mordiscando as beiradas do doce, Lily moveu-se lentamente de volta pelos corredores, sabendo que a escola inteira deveria estar no Salão Principal jantando àquela hora e que, por conta disso, teria mais liberdade de andar sem acabar esbarrando em alguém que ela não precisava ver.

Ou, bem, foi o que pensou até dobrar à sua direita em uma passagem escondida por uma grande cortina, e deparou-se – é claro que sim— com James Potter.

— Hey!

Franzindo o cenho, Lily ergueu os olhos para vê-lo correndo em sua direção, com seus cabelos negros mais bagunçados do que ela jamais imaginou ser possível enquanto guardava o que parecia ser um pedaço de pergaminho amassado dentro das vestes.

— Potter. — Ela cumprimentou-o e tentou parecer indiferente mesmo que suas entranhas se revirassem; se por conta do nervosismo ou pelo excesso de comida, não saberia dizer.

— Você tem algum distúrbio de personalidade? — Ele indagou de supetão assim que a alcançou, encarando-a com a expressão curiosa. — Ou você é algum tipo de siamesa, só que uma das gêmeas fica aí dentro do seu cérebro e só aparece quando tem vontade? — Continuou, sem parecer se importar com o fato de que estava falando absurdos.

Lily encarou-o boquiaberta, sem saber se ele estava mesmo perguntando aquilo ou se era apenas uma brincadeira sem graça. Como a expressão no rosto do garoto era a de genuína curiosidade, ela meneou a cabeça, incrédula.

— Você sempre fala asneiras desse jeito ou é só quando estou por perto, Potter? — Ela perguntou, irônica, antes de voltar a caminhar, terminando de comer o pedaço de bolo que ainda tinha em mãos.

Acompanhando seus passos, Potter respondeu de imediato:

— Não. Normalmente sou assim, mas confesso que piora um pouco quando você está por perto. — Ele respondeu, sincero, pegando-a de surpresa. Tentando disfarçar a expressão, Lily balançou a cabeça em negativa. — Mas você ainda não respondeu a minha pergunta, Evans. — Insistiu.

Sabendo que ele não iria deixa-la em paz – e também porque havia uma parte dela que queria dar continuidade àquela conversa, mesmo que não entendesse o porquê – terminou de mastigar o bolo e então suspirou antes de parar de andar e voltar-se de frente para ele.

— O que você quer, Potter? — Ela perguntou, séria.

Os olhos castanho-esverdeados perscrutaram-na por alguns instantes, parecendo avaliá-la profundamente e então, depois do que pareceram longos minutos nos quais Lily havia prendido a respiração sem nem mesmo perceber, ele sorriu. Mão não era o sorriso maroto habitual de James Potter.

Havia algo ali, em seus lábios, que fazia com que o estômago de Lily se apertasse de tal forma que a deixou quase sem ar.

— Não quero nada, Evans. — Ele disse, ainda sorridente, fazendo-a sentir-se levemente atordoada. — E você? O que você quer? — A pergunta dele parecia muito mais séria do que ele deixava transparecer.

Sentindo-se estranhamente pressionada, Lily fechou a cara, forçando-se a não demonstrar a revolta de sentimentos que a acometiam em seu interior.

— Eu quero ir para a minha sala comunal. — Disse-lhe tentando parecer fria e então desviou-se dele, retomando a caminhada que havia sido interrompida.

Parecendo não ter entendido a direta de Lily sobre querer ir para a sala comunal sozinha, Potter voltou a caminhar ao seu lado, silencioso.

Ou, bem, tão silencioso quanto ele podia ser.

Ele começou a cantarolar. E, a princípio, Lily se irritou com aquilo. Não conseguia entender como alguém conseguia ser tão estupidamente irritante, mesmo quando não estava falando alguma coisa. Estava prestes a manda-lo calar a boca quando percebeu que reconhecia a música que ele estava cantarolando.

— Como você conhece essa música? — Pelo que parecia ser a milésima vez nos últimos minutos, Lily parou de andar e voltou-se para encará-lo.

Parecendo confuso sobre o questionamento, Potter passou as mãos pelos cabelos, também parando de caminhar. Encarou-a perplexo antes de responde-la.

— Bem, você sabe o que é um rádio? Pois então, eu liguei e...

Potter! — Ela bufou, sentindo as bochechas corarem diante da idiotice. — Eu sei como funciona um rádio. Só estava perguntando como você conhece essa música porque ela é de uma banda trouxa.

Pego de surpresa, foi a vez de Potter parecer incrédulo.

Você conhece The Beatles? — Indagou, encarando-a de uma maneira que ela não soube ler.

Você conhece? — O tom de voz de Lily era quase tão descrente quanto o dele.

— Sirius adora essas coisas trouxas... acabei gostando também. — Ele deu de ombros, como se o fato de ter lhe contado algo tão banal – e pessoal – não fosse assim tão chocante. — E você?

— Moro num bairro predominantemente trouxa. Minha vizinha tem gostos musicais interessantes. — Lily acabou deixando escapar. Sentindo-se estranhamente desnudada por ter revelado aquilo, percebeu suas bochechas esquentaram ainda mais, fazendo-a xingar-se mentalmente pela falta de controle sobre seu corpo que insistia em agir daquela maneira nada convencional em frente a ele.

Mais uma vez Potter a perscrutou como se ele estivesse vendo-a pela primeira vez. Como se houvesse algo nos olhos verdes de Lily que somente então ele havia conseguido captar.

Sentindo um constrangimento anormalmente grande e inexplicável, Lily baixou os olhos sem querer dar continuidade àquela troca de olhares estranha, tentando fazer com que sua face esfriasse e sua expressão demonstrasse a indiferença que ela não estava conseguindo sentir.

Quando voltou a fitá-lo – o que pareceu um longo tempo depois – percebeu que o sorriso estranho havia voltado para os lábios dele.

Irritada por não saber o que aquilo significava, Lily estreitou os olhos para o garoto.

Que é? — E sua indagação pareceu diverti-lo ainda mais.

— Merlin, Evans, você precisa aprender a demonstrar alguma emoção antes que acabe congelando desse jeito. — Potter respondeu, descontraído, como se aquela conversa estivesse mesmo o divertindo. Lily preferiu não o responder, apenas rolando os olhos para o garoto indicando o quanto sua afirmação fora estúpida. Parecendo não se importar com o comportamento dela, ele prosseguiu: — Imagine só, Evans: você é uma senhora e tem netos — e então fez uma careta para dar ênfase — e vai sempre estar com essa expressão. As crianças passarão a vida pensando que você as odeia quando, na verdade, seus músculos apenas calcificaram pela falta de uso.

Por alguns segundos, Lily tentou processar o que ele havia dito, tão chocada com a sua idiotice que não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Entretanto, quando tudo fez sentido em sua mente e ela compreendeu, de forma totalmente surpreendente e inesperada, começou a rir.

Não foi algo sobre o qual ela tivesse controle, talvez pelo fato de ser uma das maiores asneiras que ouvira na vida ou, quem sabe, pela expressão extremamente engraçada que tomara conta do rosto de Potter.

Ela sentiu as gargalhadas, fortes, tomarem-na e a deixarem sem fôlego e então percebeu que aquilo era algo que não fazia com tanta frequência quanto deveria. Lily não conseguia lembrar de qual havia sido a última vez em que havia rido tanto por um motivo tão bobo, da última vez em que ela havia se dobrado de rir, sentindo a barriga doer devido ao esforço de tentar controlar a respiração em meio às lágrimas de riso.

— Merlin, Potter! — Ela conseguiu falar, a voz tremula e fraca. — Como você consegue... falar tanta estupidez? — Indagou e fechou os olhos por alguns instantes, imaginando que não deveria ter comido aquele último pedaço de bolo, pois se continuasse rindo daquele jeito acabaria colocando tudo para fora.

Quando voltou a abrir os olhos, estranhando a falta de resposta de Potter, Lily deparou-se com a expressão totalmente pasmada do garoto.

— Que é? — Ela tornou a perguntar, mas ainda tinha algumas lágrimas de riso no canto de seus olhos, portanto não pareceu tão ríspida quanto queria.

Parecendo não encontrar palavras, Potter ficou mais alguns instantes apenas a encarando, até que finalmente disse:

— Você riu.

Foi a vez de Lily encará-lo, pasma.

— Francamente, Potter. Isso é o que qualquer ser humano faz quando alguém fala uma idiotice. — Rolou os olhos para ele, mas não pôde evitar sentir-se levemente constrangida.

— Você... — Ele meneou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos. — Você me confunde, Evans.

— Por quê? — Não conseguiu evitar a pergunta que escapou de seus lábios com muito mais curiosidade do que ela gostaria de transparecer.

— Oras, por quê! Em um momento você está lá, mais fria do que um iceberg e me dando detenções até mesmo quando respiro, dizendo-me que não se importa comigo... e então você está chorando e me pedindo para que eu a abrace... — Seguido das palavras dele, até mesmo as orelhas de Lily coraram, fazendo-a sentir-se quente de vergonha. — E agora você ri, por Merlin, Evans! — Havia algo intenso nos olhos dele, indicando a sua confusão e algo mais. Quando ele se aproximou dela, baixando o rosto para encará-la da mesma forma que havia feito na noite anterior, Lily sentiu algo quente remexer em seu interior, uma vontade quase incontrolável de... O quê? — Céus, Evans! Você vai ser a culpada se eu acabar enlouquecendo!

— Potter... — Lily pretendia dar uma resposta inteligente às suas idiotices, mas o tom de voz que escapou de seus lábios a surpreendeu. Sua voz estava rouca e baixa e transparecia algo que ela não sabia identificar. Ele também pareceu ter notado, pois baixou o olhar para os lábios dela, encarando-os firmemente, fazendo-a estremecer e dar um passo em sua direção sem qualquer comando visível.

O que estava acontecendo com ela, por Merlin? Indagava-se, tentando compreender o que eram todas aquelas emoções intensas demais que a atingiam.

Potter – que estava ainda mais perto do que antes – prosseguiu:

— Você acabou de dizer que é um ser humano. — Ele disse lentamente, a rouquidão também presente em sua voz. Lily sentiu o coração acelerar e as bochechas, já quentes, aumentarem a intensidade de calor. — Então, por favor, como qualquer ser humano com sentimentos, retribua. — E então, sem que Lily pudesse pensar em qualquer resposta, ele a beijou.

Ele já havia feito aquilo uma vez antes, ela sabia, mas daquela vez Lily não havia estado com as defesas tão baixas como naquele momento. Por poucos segundos ela ficou completamente estática devido ao choque, as reações explodindo por toda a extensão de seu corpo de forma totalmente revolucionária.

Contudo, instantes depois de sentir os lábios dele sobre os seus, os braços de Lily ergueram-se até os cabelos dele como se estivessem esperando por aquele momento desde sempre. Sentiu os fios sob os dedos, mais macios do que ela teria imaginado, a sensação de quentura em seu estômago aumentando de intensidade, vagando por cada parte de seu corpo, deixando-a ofegante.

E por fim os lábios dela, ávidos, retribuíram o beijo, deixando-o aprofundá-lo, sentindo-o mover-se ainda mais para perto dela, fazendo-a gemer baixinho com a intensidade das emoções que a tomavam. Um calor massivo, fervente. Latente. Algo que não conseguia controlar e compreender – assim como o riso de minutos atrás – alastrou-se por ela, instigando-a, fazendo-a apertar-se ainda mais contra ele.

Foi a vez de James gemer, zonzo demais com os sentimentos que se instalavam em seu peito, totalmente entregue àquele momento. Exatamente como ela.

Pelo que pareceu ser uma eternidade – ou apenas alguns poucos segundos – eles se beijaram. E então, como se aquela fosse uma das coisas mais difíceis que ele jamais havia feito, Potter se afastou, ofegante.

Abrindo os olhos, colocou-os sobre os dela por alguns segundos, parecendo procurar ali respostas para o que havia acabado de acontecer. E então, sem dizer qualquer outra palavra, deu as costas para ela, saindo pelo corredor e deixando-a sozinha e com o coração acelerado, sem saber exatamente o que, por Merlin, havia acabado de acontecer.

Muito tempo parecia ter passado antes de ela ter qualquer reação que não fosse a de observar o final do corredor por onde James Potter havia sumido. Somente quando começou a ouvir o som de vozes e passos se aproximando – indicando que o jantar deveria estar acabando – é que voltou a caminhar.

— Maldito seja! — Resmungou consigo mesma quando finalmente havia conseguido amenizar a respiração.

Apressando o passo, sabendo que seus planos de evitar a Sala Comunal cheia haviam ido pelo ralo, Lily terminou de descer as escadas que a levariam para as masmorras, sem parecer ser capaz de se concentrar em nada que não fossem seus lábios inchados e as pernas que continuavam trêmulas. Uma irritação infundada se abateu sobre ela, fazendo-a amaldiçoar Potter mais algumas vezes pelos metros que a distanciavam da entrada de sua Sala Comunal.

Não saberia dizer pelo que exatamente – se pela forma com a qual ele parecia mexer com ela nos últimos dias ou se apenas porque ele era um estúpido arrogante – mas somente lembrar do garoto a fazia ter vontade de correr até a Torre da Grifinória – ou onde quer que ele estivesse – e azará-lo pela eternidade.

Seus passos ecoavam pelo corredor ainda vazio, não que naquele momento ela conseguisse se importar com algo tão trivial quanto deparar-se com Snape ou os imbecis com os quais ele adorava partilhar o tempo. Se Snape ousasse se enfiar em seu caminho naquele momento, Lily provavelmente o amaldiçoaria. Estava tão irritada consigo mesma que até mesmo sua voz ao pronunciar a senha, “Merlin”, soou ríspida. Como se tentasse descontar a raiva sobre a parede de pedra.

Não que fosse ajudar muito.

Tudo o que ela queria era deitar em sua cama e dormir até esquecer todas as coisas absurdas que haviam ocorrido durante aquele dia. Lily queria poder fechar os olhos e apagar de sua mente todas as sensações que a boca de Potter sobre a dela haviam causado.

E então, como se não bastasse, ele havia ido embora, deixando-a mais confusa do que jamais lembrava de ter estado em toda sua vida. Não que ela não o merecesse, pensou.

Afinal de contas, ainda na noite anterior, havia dito a ele que não se importava o suficiente com ele para sentir qualquer outra coisa a não ser indiferença. E talvez ela tivesse sido um pouco maldosa.

Contudo, apesar de todos aqueles sentimentos conflitantes serem bastante irritantes, o que realmente a estava amolando era o tanto de reações impróprias que tivera ao beijá-lo. O sentimento incômodo ao receber sua rápida rejeição, a sensação de seus lábios sobre os dela que parecia nunca passar. O sentido de seu toque sobre ela e a aceleração incessante de seu coração. Coisas que jamais havia vivenciado antes. Coisas que, de forma totalmente assustadora, pareciam arraigarem-se em seu peito.

E aquilo não era nada bom.

Quando finalmente adentrou sua sala comunal, precisou conter um gemido ao encontrar o local cheio. O burburinho de conversas à sua volta parecia deixa-la ainda mais irritada do que já estava e tudo o que ela quis naquele momento era descer as escadas para o seu dormitório e esconder-se entre as cobertas quentinhas e aconchegantes de sua cama. Contudo, não foi o que aconteceu.

Elphias, ao vê-la adentrar, acenou para ela, fazendo com que Elisa e Anne erguessem os olhos em sua direção e abrissem sorrisos de boas-vindas antes de chama-la para perto, assim como faziam em todos os finais de tarde. Lily simplesmente não podia ignorá-los. Mesmo que uma parte malvada de sua mente o quisesse.

— Hey. — Ela cumprimentou-os, sorrindo fracamente ao se aproximar.

— Lily! — Anne cumprimentou-a sorrindo. — Estávamos debatendo entre jogar Xadrez ou Snap Explosivo essa noite, o que acha? É sábado e podemos ficar acordados até tarde.

— É, Lily, vai ser legal. — Elphias disse e então suspirou de forma teatral antes de inclinar-se para Lily e dizer em um sussurro audível: — Elas estão insuportáveis hoje, Lily. Por Merlin, fique aqui comigo, você é a única sonserina legal nisso daqui.

— Ei! — Elisa esticou-se para bater no ombro do garoto e então bufou para ele, fingindo irritação. — Você é que é um idiota. Poderia ter ido para a Lufa-lufa, você sabe.

— O que seria relativamente melhor do que passar o dia ouvindo vocês reclamarem de tudo. — Ele rolou os olhos e então voltou a olhar para Lily. — Socorro.

Sentindo-se levemente culpada, Lily negou com a cabeça.

— Ah... me desculpe, Elph, mas eu tive um longo e exaustivo dia hoje. Os grifinórios parecem estar competindo para ver quem leva mais detenção.

— Até posso imaginar alguns que realmente fariam isso. — Anne disse e havia um brilho em seus olhos que deixavam bastante claro que ela estava pensando na mesma pessoa que Lily.

Sentindo uma pontada de algo não identificado em seu peito, Lily assentiu antes de suspirar.

— Eu preciso mesmo de algumas horas de sono antes de acabar desmaiando por aí. — Disse. — Boa noite, pessoal!

Embora parecesse levemente decepcionado com a recusa, Doge assentiu. Anne e Elisa desejaram um “boa noite, Lily” e então – mantendo os olhos distantes do lado oposto da sala, onde sabia que Snape, Avery e Rosier estavam sentados – Lily se afastou em direção às escadas que a levariam ao dormitório.

Quando finalmente chegou lá, precisou segurar-se para não acabar dando meia volta: Narcissa e Bellatrix estavam sentadas na cama que pertencia a Anne, provavelmente conversando sobre qualquer coisa que envolvesse o fato de que eram pessoas superiores por serem Black.

Ao ouvirem-na entrar, ambas ergueram os olhos para encará-la.

Bellatrix a fitou com arrogância, como sempre o fazia. Narcissa por outro lado, cumprimentou-a com um aceno leve de cabeça, o qual Lily retribuiu sem muito entusiasmo. A diferença mais notável entre as irmãs Black – além da aparência, que era bastante destoante – era o fato de que, enquanto Bellatrix parecia adorar depreciar qualquer um que cruzasse seu caminho – Lily tendo sido seu alvo por mais vezes do que poderia contar – Narcissa era neutra. Ela tinha aquela aura de arrogância característica dos Black, contudo Lily nunca havia conseguido desprezá-la como fazia com a sua irmã.

A verdade era que o relacionamento entre ela e Narcissa era bastante cordial, apesar de não serem exatamente amigas ou qualquer coisa perto daquilo.

Contendo um suspiro e querendo evitar o sarcasmo de Bellatrix a todo custo, Lily encaminhou-se silenciosamente até sua cama, abaixando-se para buscar algumas mudas de roupa de seu malão perfeitamente organizado enquanto sentia o olhar das garotas queimarem sobre ela. Pelo canto do olho podia ver que a garota tinha aquela expressão de desdém que reservava para toda e qualquer pessoa que não fosse de seu agrado. Lily sabia que Bellatrix estava apenas esperando por um motivo para irritá-la.

Só que Lily não estava nada disposta a qualquer discussão, portanto, ainda sem falar nada, foi até o banheiro, fechando a porta com um pouquinho mais de força que o necessário ao cruzar.

Tomou um banho rápido, escovou os dentes e o cabelo sem prestar muita atenção no que estava fazendo, os pensamentos totalmente perdidos entre beijos e sentimentos estorvantes. Ao terminar, Lily sentiu olhos pesarem de sono. Merlin, ela estava tão cansada.

Quando finalmente voltou para o dormitório, as irmãs haviam saído – provavelmente querendo conversar em algum outro lugar mais privativo – deixando-a com o dormitório inteiro apenas para ela.

Não que ela estivesse reclamando, é claro. Lily adorava ficar sozinha. Gostava de ter um tempo para si, para pensar.

Ou, bem, era do que tentava se convencer ao deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos, todos os acontecimentos do dia parecendo preencher sua mente, espocando como fogos mágicos sob suas retinas.

Ela havia brigado com Severus.

O único amigo de verdade que tivera pelos últimos anos. A única pessoa com quem havia compartilhado seus piores segredos. Aquele que, enquanto eram crianças, sempre esteve com ela quando as coisas ficavam difíceis demais para que suportasse sozinha.

E, no entanto, lá estava ela, sentindo-se vazia, sabendo que a dor em seu peito era maior do que podia suportar. Só que, daquela vez, não haveria conforto. Não haveria alguém a quem recorrer.

Não teria os braços de Potter ao seu redor, apertando-a contra si e aquecendo-a daquela vez. Nunca mais.

Virando-se de lado na cama, ajeitou as cobertas sobre si, sentindo-se tremer e sabendo que não conseguiria se esquentar. Apertou ainda mais os olhos, sabendo que o sono demoraria a vir, apesar do cansaço. Sabendo que, por mais que odiasse, teria de suportar aquilo.

Sozinha. Exatamente como sempre temera estar. Exatamente como sempre havia estado.

[FRANÇA – SÁBADO – 17 DE SETEMBRO, 1977]

Petúnia encarava seu reflexo no espelho, triste. As vestes azuis de Beauxbatons pareciam ainda mais bonitas naquele dia.

— Você tem certeza? — Ele perguntou e ela reconheceu o pesar em sua voz.

Sentindo-se estremecer, Petunia fechou os olhos, sabendo que o que diria a seguir partiria o seu coração.

Sim.

Notas finais
E aí, gente, o que acharam? Capítulo cheio de Jily como vocês queriam haha ♥ E, para quem estava perguntando: PETUNIA APARECEU, pois é. A partir de agora as coisas vão começar a esquentar - ou seria esfriar? - e, bem, espero que vocês continuem me mandando esses comentários lindos e maravilhosos, me contando o que estão achando, sim? Isso me deixa super feliz - vocês não têm ideia do quanto - e me deixa ainda mais motivada a continuar a escrever ♥ Sejam bonzinhos que vou tentar continuar atualizando rapidinho, sim? To respondendo todo mundo com muito amor ♥ Dúvidas, sugestões, etc, estou sempre nas redes sociais: Twitter: @wolfistar Facebook: https://www.facebook.com/groups/millerfics/ Beijinhos e até breve ♥