Saí da escola como todos os alunos: feliz. Nunca fui mau aluno, sempre obtive excelentes notas, mas a sensação de liberdade e consequentemente felicidade são inevitáveis ao término das aulas.

Parei do outro lado da rua e observei o restante dos alunos saindo.

Meu olhar se perdia entre eles, cada um com seu próprio estilo. As roupas eram idênticas, o uniforme azul-escuro com a camisa branca, e saia para as meninas. Mas o uso do uniforme não nos deixava iguais, muito pelo contrário.

Cada aluno buscava sua própria forma de se mostrar diferente dos demais. Eu mesmo era um destes. Meu cabelo loiro tem um corte moicano e uso uma faixa sobre meu nariz horrivelmente achatado.

Um garoto loiro-mel se despediu de mim com um aceno de mão. Uruha. Ele fazia justiça ao apelido. Possuia uma beleza capaz de mexer com o mais tímido dos garotos e a mais recatada das garotas. Era realmente divertido e interessante sair com ele.

Voltei a olhar dentre os outros alunos. Sorri ao encontrá-lo.

Ele caminhava lentamente, acompanhando alguns colegas, o menor dentre estes. Despediu-se deles e olhou ao redor. Eu sabia que estava me procurando, era assim todos os dias.

Ainda sorrindo, me aproximei dele.

- Vamos Taka?

- Onde estava? Por que eu nunca te encontro?

- Porque você sempre é o último a sair.

- Eu não sou o último a sair, você que é apressado.

Sorri mais abertamente.

- Vamos. — chamei indicando o caminho que há anos seguíamos.

Todos os dias seguíamos a mesma rotina, desde que ele se mudou para a casa ao lado, ele me esperava na porta de manhã. Vinhamos juntos para a escola e depois, a tarde, eu o esperava para voltarmos.

Há uns cincos anos é assim. Eu o vi crescer de perto. Observei ele mudar seu estilo de roupas, seus gestos, suas bandas favoritas, a cor do cabelo...

- Tudo bem Reita?

- Hm? — perguntei fitando-o.

Ele me sorriu, sem imaginar o quanto aquele sorriso mexia comigo.

- Está tudo bem com você?

- Hai. Nande?

- Você está tão quieto.

- Eu sou quieto Ruki.

Ele fez uma careta. Uma linda e adorável careta.

- Mas hoje você está mais quieto que o normal. Aliás, há alguns dias você está assim.

Estou assim desde que percebi, ou melhor, desde que assumi que te amo. Como eu gostaria de falar isso para ele, mas falar significava correr o risco de perder sua amizade. E eu não estou disposto a correr esse risco.

- Rei-chan, fala alguma coisa. — pediu após alguns instantes. — Não gosto de ficar quieto.

- Mas você não está quieto.

- Eu não gosto de falar sozinho.

- Estou te ouvindo.

- Mas não está conversando comigo.

- E o que estamos fazendo?

- Eu estou falando e você está retrucando.

- E uma conversa não é assim?

- Iie!

Ele cruzou os braços e fechou a cara, fazendo um bico.

Se ele soubesse o quanto isso me deixa louco... Coloquei as mãos nos bolsos, buscando controlar a vontade que me deu de agarrá-lo e enchê-lo de beijos.

Senti um alívio enorme quando chegamos em frente a sua casa.

- Então ta. Até amanhã, mudinho.

- Espera.

Antes que eu pudesse me controlar, ou pensar no que estava fazendo, segurei seu braço, fazendo-o recuar um pouco, aproximando-se mais de mim.

- Nani?

Seus olhos brilhavam intensamente.

Um arrepio percorreu minha espinha enquanto minhas mãos ficavam extremamente frias.

- Eu...

Seus olhos não desviam dos meus um segundo sequer.

- Você...?

- Eu... Nada... Gomen.

Lentamente soltei seu braço.

Ruki desviou o olhar, ouvi-o inspirar profundamente.

- Sabe, Aki... Sou seu melhor amigo, não sou?

- É claro que sim...

- Então me diz o que está te incomodando.

Fitei-o por um instante.

Céus... Como ele era lindo... E como ele me intimidava...

Se eu parasse para pensar, veria que já havia dito coisas mil vezes mais contrangedoras para ele. Mas isso é diferente... Eu não quero... Correr nenhum tipo de risco.

Por mais que eu acordasse de mau humor e não quisesse falar com ninguém, quando eu o encontrava, tudo mudava. Ele sempre foi mais forte que eu, sempre teve mais poder sobre meus sentimentos do que eu próprio. Suas vontades sempre foram mais importantes que as minhas.

Toquei seu rosto gentilmente, acariciando-o de leve. Ele fechou os olhos.

- Eu...

Ele abriu os olhos, forçando-os a me encarar.

- Eu quero ser amigo para sempre. — disse com sinceridade.

Desviou o olhar enquanto soltava um suspiro levemente... Frustrado?

- Chibi...?

- Eu também. — respondeu voltando a me fitar. — Eu também quero ser seu amigo para sempre.

- Que bom.

Ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas nos encarando. Eu estudava todos os seus traços, tentando memorizá-los.

- Tchau, Aki.

Controlei-me para não segurar-lhe o braço outra vez quando ele se virou para entrar em casa. Vi-o correr para o interior desta.

Mas uma vez não me declarei.

Notas finais
Notas:

Essa oneshot é muito velha (foi escrita ano passado) e não a reeditei, portanto ela está com a forma de escrita que eu utilizava naquela época.

Espero que tenham gostado. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!