Notas iniciais
Espero que goste. Não se esqueça de deixar seu comentário ao final. ;)

Por mais rápido que voasse, o Salão da lua era uma das varias salas no Castelo da Luz, uma fortificação gigantesca de torres e altos muros restrita á alta hierarquia dos Querubins. Construída desde os tempos primordiais no Vale das Rochas Suspensas, o lugar mais afastado da primeira esfera celeste, onde rochas que podem chegar até mesmo ao tamanho de montanhas flutuam pelo céu como lustres presos ao teto de uma sala.

Iris sobrevoava acima das nuvens, observando todo o cenário abaixo dela. Onduladas planícies de gramados se estendiam até o horizonte, e atrás dela a grama dava lugar a um chão mais fofo e seco, onde ficava a base do seu batalhão, próximo ao maior lago da primeira esfera.

Enquanto voava, ela acabou imaginando o motivo da reunião, que só poderia ser devido ao desaparecimento de sua general, e agora, sem a companheira de posto, os demais generais fariam de tudo para encontrá-la. Não fariam? Mesmo com todos os incontáveis anos que se passaram desde a criação do primeiro anjo, todos tinham suas tarefas e companheiros de classe e até mesmo um “irmão” que foi feito da mesma chama que ele. Porém, os anjos são criaturas muito fechadas e centradas no que fazem, não conhecendo a intimidade e as características de alguém que pode até mesmo ser bem próximo a eles. Isso não era diferente naquele momento. Apesar de seu posto e de seu bom relacionamento com os mais próximos, Iris só conhecia três dos doze generais: Hemã, sua própria comandante, atualmente desaparecida. Laoth, general da primeira tropa de infantaria, conhecida como a mais ofensiva, e, por coincidência, general de Ourie. E Uriel, que há muito tempo, lutou ao lado de Iris em algumas batalhas e após ter o seu general morto, herdou seu posto. Todos os outros generais , Iris, havia visto ao longe e outros ela mesma só tinha ouvido rumores. Uriel com certeza ajudaria, em contrapartida, talvez Laoth não fizesse a menor questão de colaborar, mas talvez ele nem mesmo estivesse presente na reunião.

Enquanto pensava em como poderia ser o desfecho daquela reunião de resgate, Iris só notou que chegara ao vale quando precisou desviar de uma grande pedra que pairava à sua frente. Iris subiu ainda mais e acima de uma gigantesca rocha a magistral construção surgiu tão imponente quanto poderia ser, com suas estruturas sendo em rochas brancas que quase refletiam a luz das duas estrelas que iluminavam o céu. Assim como era uma prática dos anjos jamais entrar em algum lugar sem se apresentar a seus companheiros, Iris anunciou altamente enquanto pousava diante dos portões do lugar.

— Tenente-general do 9º Batalhão, Iris. Compareço ao chamado que me foi feito pelos generais. – Após um segundo, os portões se abriram sozinhos para que ela pudesse entrar.

Caminhando pelas ruas e corredores do lugar, Iris viu arcontes, anjos de elite, treinando e trabalhando em suas funções de guardas ou mensageiros. Ela continuou seguindo sem falar com ninguém até os fundos do castelo, até novamente encontrar Ouriel, encostada em um pilar.

— Devagar como sempre.

Ignorou a provocação da rival e seguiu para a entrada do salão. Ouriel acompanhou seu andar e se anunciou ao entrar em uma grande abóbada de paredes lisas com pequenas janelas que circulavam o seu topo, decorado com pinturas de batalhas antigas, com representações perfeitas dos arcanjos.

— Tenente-general do 1º batalhão, Ouriel. Retornando.

— Tenente-general do 9º batalhão, Iris. Apresentando-se.

À sua frente uma espécie de tablado erguia a bancada para os doze generais. Uma espécie de véu foi posto sobre os acentos deles, para impossibilitar que quem estava abaixo pudesse ver qual dos generais falava, mas ainda assim era possível de se ver que dez deles se faziam presentes, Iris estremeceu quando não notou a aura de seu companheiro Uriel.

— Trabalho rápido, Ouriel.– Foi possível reconhecer a voz do general Laoth.

— Obrigada, senhor. – Ela o respondeu com uma reverência, em seguida tomando postura militar.

Iris se juntou ao lado dela com a mesma postura, aguardando as ordens dos superiores.

— Muito bem, tenente Iris. – Disse uma voz desconhecida que vinha do meio dos generais.

— Sim, senhor.

— Você já deve saber dos motivos para te chamarmos até aqui. Porém, acredito que você não saiba dos detalhes.

— Senhor?

— Já faz algum tempo desde que investigamos algumas ações do submundo na Haled. E já faz algum tempo que elas começaram a se tornar mais frequentes. Alguns agentes de campo já estão investigando e relataram que os caídos estão criando uma espécie de seita entre os humanos, mas que eles pretendem com isso ainda é incerto. Quando nossos agentes tentaram se infiltrar, acabamos perdendo o contato com eles. Em outra reunião, Hemã era a única de nós com um pupilo forte o suficiente para sustentar seu espírito e ela mesma se propôs a descer a Haled para encontrar aqueles que desapareceram e continuar com a investigação. Ela de fato nos trouxe resultados, aparentemente a seita está sendo criada para que os humanos consigam trazer um demônio de alto nível do inferno sem a limitação do véu ou de um pupilo. E desde então perdemos o contato com Hemã.

Após alguns instantes de silêncio, Iris pergunta:

— E o que devemos fazer agora, general?

— Você também possui um pupilo na Haled, já conseguimos encaminhá-lo para bem próximo do lugar da seita e ela já aceitou a posse, você entregará seu espírito para ela e dará continuidade à missão junto de mais três soldados.

— Sim, senhor. Posso saber o nome de meus companheiros, senhor?

— Dois deles são meus soldados, Ruman e Hemiel. Ambos já estão lhe aguardando em campo. – Respondeu uma voz mais à esquerda.

— E o último? – Perguntou Iris.

— A última está bem ao seu lado e será sua líder nessa missão. – Disse Laoth.

A notícia acerta Iris como um golpe em cheio em sua cabeça, mas mantendo-se firme e sem reação, Iris olhou para Ouriel, que sorria de canto de boca para ela.

— Entendido, senhor.

— As ordens já foram repassadas para os agentes de campo, Ruman e Hemiel. E o mesmo vale para vocês, identifiquem e eliminem.

“Identifiquem e eliminem”. A frase se repetiu por mais algumas vezes na mente de Iris, “identifiquem e eliminem”. Eles falavam da seita e de seus responsáveis “Identifiquem e eliminem”... Onde estava Hemã no objetivo da missão?

— Perdão, senhor, mas e quanto aos desaparecidos? – Ela perguntou.

— Nossa prioridade é proteger os humanos dos caídos. Estão dispensadas.

“Dispensada”. Não. Não poderia ser somente isso.

— Desculpe-me novamente senhor, mas a general Hemã pode ter mais informações, ela pode ainda estar infiltrada e não podendo entrar em contato. Além disso, se encontrarmos aqueles que estão desaparecidos nós teremos mais chances de obter sucesso na missão. Afinal os perigos da missão já estão claros que são altos e ficamos muito incapacitados quando estamos em nossos pupilos. Se uma general estiver conosco com certeza... – Foi interrompida com o grito de uma general desconhecida a direita.

— Silêncio! Iris, ousa questionar nossos métodos?

— Mas...

— Já basta!A ordem já foi dada, lembre-se que você só está incluída nesta missão devido à sua pupila, mas não é impossível lhe substituirmos.

— Entendido.

— Estão dispensadas.

Caminhando a passos firmes e rápidos para fora do salão, Iris sentia um misto de raiva e angústia por seus superiores. Como poderiam ser tão indiferentes à sua companheira? À sua líder? E onde estava Uriel? Justamente em um momento como aquele ele desaparecera também. Só podia ter alguma coisa de muito estranho por ali, mas o que ela poderia fazer? Evitar a missão não ajudaria em nada, e tomar atitudes por conta própria naquele momento seria uma afronta direta a todos os outros generais. Não tinha escolha, teria que ir para a Haled, lá encontraria Hemã. Tinha que encontrar Hemã.

Alguns metros à frente do portão, Iris avistou Ouriel. Tudo que ela não precisava naquele momento era mais uma de suas provocações, porém, antes de se aproximar o suficiente para que ela falasse qualquer coisa, outro anjo aterrissou ao lado dela, falando algo próximo de seu ouvido e ambos decolaram para longe.

— Ainda bem. – disse baixinho.

Atravessou o portão já abrindo suas asas para voltar à sua base enquanto esperaria o sinal para descer a Haled, mas foi interrompida quando ouviu uma voz ao longe chamando por ela.

— Tenente Iris, aguarde.

Avistou outro anjo caminhando em sua direção, soube ser um dos generais pela auréola metálica que flutuava sobre sua cabeça, sinal que aquele era um anjo poderoso. Assim como qualquer soldado, ele trajava sua armadura prateada assim como a cor de seus cabelos e dos olhos. Ele se aproximou dela com uma expressão alarmante.

— General. – Iris o cumprimentou, esperando o que mais ele poderia vir a falar da missão.

— Tenente Iris, sou o general Orch. Acho melhor você não voltar, gostaria que me acompanhasse.

Sem falar nada, Iris apenas olhou desconfiada para o general, estranhando suas palavras, ela recuou um passo buscando tempo para compreender o motivo dele falar daquela forma.

— Compreendo seu receio, ainda mais após o que acabou de ouvir na reunião. Mas este não é um bom lugar para conversarmos. Acompanhe-me.

Receosa, Iris o acompanhou, caminhando até a biblioteca nos fundos do castelo. Ao entrar o general fechou a porta e fez menção para que ela se sentasse em uma das cadeiras de leitura espalhadas por ali. Ela se manteve de pé esperando.

— Tudo bem. Você já ouviu o objetivo da missão e não seria surpresa para nenhum dos generais caso você nos desobedecesse e fosse à procura de Hemã.

Iris se espantou com aquelas palavras, mas antes de tentar falar qualquer coisa foi novamente interrompida.

— Calma, nós já sabíamos disso quando a convocamos, conhecemos sua relação com Hemã, tudo isso já estava nos planos e não te chamei aqui por isso.

Desconcertada sobre como suas ações eram visíveis aos generais, Iris não teve como desmentir o fato que ela iria atrás de sua amiga. Mas se não fora chamada por causa disso...

— Então, por que me chamou aqui?

Bufando, Orch responde:

— Suspeito que temos um traidor entre os generais.

— Traidor? Como assim um traidor? E como você chegou a isso?

— Acalme-se Iris. – A tenente não percebeu o tom de voz que falava. – Não tenho dúvidas que os desaparecimentos fossem ações dos caídos. E concordo que especular qualquer razão sobre isso seria um erro, e que precisávamos de agentes de campo para investigar. Porém, nós enviamos anjos experientes e poderosos para essa missão e ficamos esperando e observando como estavam ao decorrer dela, e de repente eles desapareceram, sumindo misteriosamente da nossa visão. Caso eles tivessem sido mortos em combate sentiríamos a energia se esvair, mas ao invés disso, simplesmente desapareceram. Perdi quatro bons soldados em campo e eu mesmo já quis descer a Haled para investigar, mas você sabe o quão raro é termos um pupilo digno. Em meu lugar, sua general se propôs a descer e surpreendentemente também perdemos qualquer vestígio dela. Esse fato em si já seria mais do que o suficiente para o próprio Príncipe entrar em ação, mas o que não lhe foi passado é que tudo isso está sendo mantido em segredo dos grandes.

— Por que não os avisamos então?

— Já tentei, mas é simplesmente impossível entrar em contato. Como se alguém estivesse dando ordens para impedir que qualquer um falasse com eles.

— Teremos que agir sozinhos então?

— Infelizmente! Ainda não sei quem é que está por trás disso, mas só alguém de posto general teria tamanha influência para isso.

— Compreendo. – Iris respondeu enquanto se lembrava da forma indiferente que repassaram a missão para ela. Também se lembrou de Ouriel, sabia que o amigo jamais faria qualquer coisa de ruim, ele era um dos anjos mais honrados que conhecia, mas sua dúvida era se algum outro general o havia pegado por isso.

-Meu plano é o seguinte, Iris. O pupilo de Ruman é conhecido da sua pupila, já lhe dei ordens para que ela faça todos os preparativos para sua invocação. Logo mais você já irá ouvir ela te chamando. Ao chegar peço que haja com naturalidade e siga o objetivo da missão. Eu lhe asseguro que vou buscar quem está tramando contra nós, e a manterei informada caso encontre o culpado. Assim que isso acontecer vamos resgatar sua general e acabaremos com aquela seita.

— Entendido, general. – Iris agradeceu o general, fazendo uma curta reverência e começando a sentir algo em sua cabeça. – Acho que ela já deve ter começado com o ritual.

— Então chegou á hora, boa sorte, tenente. – Despediu-se o general, mas só deu alguns passos para trás enquanto observava Iris.

— Obrigada senhor, conto com você. – Iris respondeu enquanto se sentava no chão de pernas cruzadas, se preparando para a invocação. Aquela não foi a primeira vez que estava sendo invocada, mas aquilo nunca era uma tarefa fácil. Tinha que relaxar e buscar se sintonizar mentalmente enquanto a pupila a chamava, por sorte a garota parecia ser forte. Não demorou muito para Iris sentir algo quente lhe descendo pelo corpo e tomando conta de seus sentidos. O general Orch viu a tenente brilhar e desaparecer de sua frente. A invocação havia sido um sucesso.

Notas finais
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