Como se nunca tivesse havido começo, ela era ela. A mesma pessoa desde que o mundo começou. Aquele mesmo cabelo enorme, caindo pelas costas. As mesmas roupas. Os sentimentos sempre abafados, a voz que nunca saía. Vivia de acordo com a maré. Nunca tomou decisões por medo de errar. Por receio de perder algo, nunca desejou. Por não querer amar, sempre foi só. Para fugir do tempo, foi sempre a mesma. Eternamente ali.

Era um dia chuvoso, andava com seu guarda-chuva pela calçada, fazia o trajeto rotineiro casa-trabalho. Cada passo como se nunca saísse do lugar. Não sentia a água entrando em seus sapatos. Sua mente era um vazio. Evitando ver. Evitando sentir. Foi quando algo totalmente inesperado chamou sua atenção. Estava atravessando a rua com uma pequena multidão quando avistou um gato atropelado próximo ao cruzamento. Enquanto todos continuaram a caminhar como se nada existisse ali, ela parou. A chuva começou a cair mais pesada.

Foi então que notou seus pés molhados dentro dos sapatos. O ar entrou cortante em seu peito. Arrepiou-se a espinha. O braço estava cansado de segurar o guarda-chuva, que a protegia do mundo caindo sobre sua cabeça. Sentiu nojo ao ver as entranhas do gato expostas da forma violenta como estavam. Mas só teve ânsia de vômito quando percebeu que o gato morto não mudava em nada a vida de todos que passavam.

Um tipo todo novo de agonia de repente invadiu o corpo dela, e ela não sabia o que fazer com aquilo. Estava ali parada pelo que pareceram anos. Foi só quando ouviu o buzinar dos carros que voltou a si e, assustada, deixou seu guarda-chuva cair. E saiu correndo.

Saiu correndo na chuva, em uma direção que não sabia dizer qual era. Correu como nunca antes havia feito na vida. Com a urgência de uma eternidade. Não tinha lugar para chegar. Por isso simplesmente corria, com a sensação de que poderia deixar tudo, inclusive ela mesma, para trás. As gotas de chuva batiam em seu rosto cortantes como facas. Respirava áspero como se o ar estivesse desaparecendo da Terra.

Quando não aguentou mais, parou e tentou reconhecer onde estava. Não conseguiu. Sentiu medo. Era um lugar deserto. Seria deserto pela chuva ou por essência? Até que viu um banco. Ao lado, havia uma lata de lixo revirada. Lembrou-se das entranhas do gato e sentou-se mesmo assim. Tirou os sapatos e colocou os pés no chão.

Abriu a bolsa e pegou sua mini-tesourinha para unhas, daquelas dobráveis. Ela sabia que um dia a tesourinha seria útil. Olhou-a por um tempo. De repente, pegou uma pequena mecha de seu cabelo eterno, agora completamente molhado, e cortou. Olhou o cabelo cair e ser carregado pela água no vão da calçada. Pensou que seria bom se ela mesma desaparecesse. Sentiu-se cansada, como se tivesse vivido bilhões de anos.

Levantou-se bruscamente. Deixando os sapatos e um pouco de cabelo pra trás, voltou a correr sem direção. Corria tão desesperadamente que não percebeu a irregularidade da calçada e, de repente, ela estava deitada no chão. Assim ficou por um tempo imensurável.

Quando se sentou, olhou para as palmas de suas mãos, agora esfoladas, e viu que sangravam. Era de um carmim que nunca antes havia visto. Ardia como ela nunca havia sentido. Notou um calor escorrendo pelos seus dedos como não sabia que existia.

Foi então que, como um bebê recém-nascido, começou a chorar. Soluçava, faltava o ar. A boca escancarada, o rosto voltado para cima, os olhos apertados. A voz saía rouca. Chorava como se saísse de seu próprio corpo.

Mas não havia ninguém na rua. Seria a chuva? Ou seria ela?

Foi quando finalmente um pensamento tomou conta de sua mente, sussurrou as palavras como se fossem o segredo mais oculto da humanidade:"E quem não é um acaso na vida?".

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