Só Que Platônico
4 Capítulo 4 - Gentilezas ocasionais
Jared
— Quem é aquela dama, que dá a mão ao cavalheiro agora? Ah, ela ensina as luzes a brilhar! Parece pender da face da noite como um brinco precioso da orelha de um epíote!
Blue soltou um riso baixo, doce, e eu parei de falar, confuso. Chequei o roteiro novamente e enrubesci.
— Érrrr... Etíope, digo. O que isso significa, de qualquer forma? — sussurrei.
Ela abriu um sorriso misterioso, como se tivéssemos nossa pequena piada interna.
— Não sei!
Pigarreei e continuei falando:
— Ela é bela demais pra ser amada e pura demais pra esse mundo! Como uma pomba branca entre corvos, ela surge em meio às amigas. Ao final da dança, tentarei tocar sua mão, pra assim purificar a minha. Meu coração amou até agora? Não, juram meus olhos. Até esta noite eu não conhecia a verdadeira beleza.
* * *
— Oi! — uma garota um pouco mais nova do que eu, com cabelos escuros ondulados e grandes olhos castanhos se aproximou de mim depois do ensaio. — Eu sou a Kaya.
— Certo! — me lembrei. — A irmã da Blue. Eu sou Jared.
— Eu sei! Você gosta de Shakespeare?
— Olha, eu não costumava ser muito fã, mas até que o cara tem razão quanto a algumas coisas.
— Minha irmã é uma atriz muito boa.
— É, mesmo.
— Kaya, que diabos você está fazendo?! — ouvi a voz de Blue ressoar pelo auditório quase vazio. Ela se aproximou e puxou a irmã pelo pulso. — Vamos logo.
— Mas... Mas...
— Eu disse vamos.
— Blue — fitei-a, sério.
Ela suspirou e encarou a irmã mais nova.
— Dê o fora daqui. Eu já estou indo.
Kaya assentiu e se retirou do auditório.
— Você não deveria falar assim com ela, sabe — censurei.
— Tem razão. Deveria apenas ignorá-la. Seja lá o que ela falou sobre mim, ignore.
— Ela te elogiou, na verdade. Eu deveria ignorar isso também?
Blue cravou os olhos azuis em mim.
— É. Ignore tudo. Foi o que eu disse. Ei, você vai ao boliche sexta?
— Boliche?
— É, todo o pessoal do Teatro vai.
— Hm, ninguém me disse.
— Bem, eu estou dizendo — ela abriu um meio sorriso.
— Tudo bem. Estarei lá.
O sorriso dela se alargou.
— Legal. Te vejo lá, então, Jerry.
* * *
— O que isso quer dizer? Quer dizer que ela, tipo, quer me ver lá? Que ela está ansiosa para isso, ou ela simplesmente se sentiu na obrigação de me convidar?
— Cara, você está soando como uma garota, e isso não é punk — disse Akio, revirando os olhos. — Se você me perguntar o que vestir, vou definitivamente começar a achar que Shakespeare está afetando o seu cérebro.
— E está, mesmo. Aquilo é um trava-língua, não tem como decorar. Eu mal conseguia pronunciar uma palavra, e isso porque tinha o roteiro em mãos. Era... Epíofe, ou algo assim.
— Etíope? — Akio corrigiu. Asiáticos malditos. — É algo ou alguém que veio da Etiópia, cara.
— Sério mesmo?
— Sério.
— Só isso?
— É.
Eu senti meu cérebro explodindo lentamente.
* * *
E ali estava eu, no boliche, usando meus melhores jeans depois de ter lavado o cabelo com condicionador — o que nunca acontecia —, prestes a encontrar Blue Monroe e um bando de pessoas com quem eu jamais trocara duas palavras na vida — o que também nunca acontecia.
Era um lugar legal, mas eu não ia lá desde a festa de doze anos da minha irmã — e atualmente ela tinha vinte e um, mas eu não a via há mais de um ano.
Blue estava conversando com Brandon Carstairs, sentada naquele troço onde você pega as bolas para jogar. Como dá para perceber, eu não era exatamente especialista em boliche. Brandon também estava usando seus melhores jeans — ou talvez seus jeans normais fossem apenas melhores do que os meus, o que era provável — e havia arrumado o cabelo, o que achei bem digno. Imaginei se Blue sabia desse código secreto relacionado a ela, e depois imaginei se ele existia apenas em minha cabeça.
Os olhos dela sorriram ao me ver.
— Jerry! Você veio! — ela correu até mim. Enquanto eu decidia se deveria apertar a mão dela ou sei lá, ela beijou minha bochecha. — Phoebe foi vomitar no banheiro, pode ficar com o lugar dela.
— Ela disse que foi retocar a maquiagem — Brandon corrigiu.
Blue abriu um sorriso de canto.
— Ahã. Vamos, Brandon, sua vez.
Brandon pegou uma bola preta e deslizou-a pela pista, derrubando todos os pinos. O contador fez um barulhinho feliz. Depois o garoto me encarou, entediado, e disse:
— Sua vez, Dawson — Como se considerasse minha presença ou, você sabe, o fato de eu respirar, algo extremamente desnecessário.
Peguei uma bola preta — que pesava uma tonelada — e arrastei-a quase firmemente até a pista. Fechei os olhos por um segundo e rezei. Qual é. Eu nunca te pedi nada. Certo, exceto por aquela vez na prova de Matemática, mas era uma emergência. Mas vamos lá, só um pino. Um pino. Eu quase podia ouvir Please Please Please Let Me Get What I Want como música de fundo quando soltei a bola. Ela deslizou pela pista, quase caindo nas canaletas diversas vezes. Ela aguentou firme, por fim derrubando dois pinos.
Dois pinos! Eu soltei uma comemoração impulsiva um pouco alta demais, e percebi que Blue estava parada ao meu lado, e seus olhos me analisavam com certo entretenimento.
— Digo... Hum... — comecei, mas parei quando ela riu e começou a fazer uma dancinha da vitória.
— Dois pinos! — disse ela, da mesma forma que diria “Dez milhões de dólares!”. — O que tem a dizer sobre esse acontecimento esplêndido?
— “Crianças, aprendam, ‘esplêndido’ não é com ‘x’! Boa noite!” — anunciei como se houvesse uma plateia em frente a mim.
— Tenho certeza de que é — Phoebe Loveless apareceu, e cravou os olhos contornados com delineador preto em mim. — Ei, você jogou na minha vez? E fez esse desastre? Meu Deus, me dê licença. Agora.
Ela pegou uma bola e jogou na pista, acertando os oito pinos que faltavam. Golpe de sorte.
— Não seja má com o novato, Phoebe — Sloan apareceu, abrindo um leve sorriso.
Sloan era uma garota legal, mas eu jamais falara com ela. Geralmente ficava andando por aí com Blue e o resto do grupinho legal. Era um pouco mais alta do que Blue, mas mesmo assim bem menor do que eu. Os brincos compridos em forma de raio estavam parcialmente cobertos pelos cabelos castanho-escuros, mas mesmo assim se destacavam na pele um pouco morena.
Do grupo, ela parecia a mais... normal. Mais pé-no-chão. Eu ficava menos desconfortável perto dela.
Jogamos mais algumas rodadas, e Blue me deixava jogar no lugar dela vez ou outra, apesar de eu não saber por quê. Ela tinha essa coisa, de ser muito mais legal às vezes, mas eu não conseguia parar de pensar na frieza em sua voz ao falar com a irmã mais nova.
Fomos comer na lanchonete do boliche, onde o queijo era meio verde e grudento. Fingi comer, e depois apenas joguei no lixo discretamente e peguei uma Coca.
— Jerry, pode levar a Phoebe para casa? — pediu Blue, cravando os olhos azuis pidões em mim. — A guitarra do Brandon e o amplificador estão no banco de trás, então não cabe mais do que uma pessoa lá.
O semblante de Phoebe enrijeceu, mas ela não protestou. Suspirei.
— Claro. Vamos, Loveless.
Nós nos despedimos dos outros três e fomos até o meu Ford velho. Phoebe disse alguma coisa que ignorei sobre a pintura estar descascada e sentou-se no banco do passageiro. Liguei o rádio, que tocava My Songs Know What You Did In The Dark, e lancei a ela meu melhor olhar de "Não ligo para o que você acha".
— Eu gosto dessa música — disse ela, o que me surpreendeu.
Ficamos cantando baixinho, mas não conversamos, exceto por ocasionais "Vire à direita" e "Siga em frente até o semáforo".
Parei o carro em frente à casa de classe média-alta dela, de certo bem maior que a minha, e destravei as portas. Phoebe desceu do carro sem dizer nada e entrou na casa. Revirei os olhos e acelerei, chegando à minha própria.
Guardei o carro na garagem e abri a porta da sala, apenas para ser derrubado para trás pelo meu cachorro/dinossauro Freddie.
— E aí, garoto? — sorri, fazendo cafuné em sua cabeça. — Mãe, cheguei!
— Ah, oi querido! Como foi com os seus amigos? — minha mãe se aproximou, tirando o avental um pouco sujo de molho.
— Legal.
— Ah, que bom! Aposto que não comeu nada. Eu fiz macarrão, você...?
Sem dizer nada, saí correndo para a cozinha. Ela riu.
Blue
— Então... Aqui estamos — Brandon cravou os olhos claros em mim, parado na porta de minha casa. — Sã e salva.
— Aham.
Senti seu rosto se aproximando.
— Boa noite, Blue.
Ele tentou me beijar, mas virei o rosto e ele acabou afundando num amontoado de cabelo e bochecha.
— Boa noite, Brandon.
Ele me fitou por um minuto com um pequeno sorriso entretido e voltou para seu carro esporte.
* * *
— Apenas um brinquedo. Isso é tudo o que sempre fui para ti, e mesmo assim não me sinto tentado a ir embora — Jared apertou os lábios. — Talvez eu apenas a ame o suficiente por nós dois, ou talvez apenas mantenha a esperança de que um dia...
— Mas o amor, para ser verdadeiro, deve ser recíproco, não achas? — contrapus.
— Não se pode tratar o amor como uma via de mão dupla, Julieta Capuleto. Não se pode conceder esperando pela recompensa, pois o verdadeiro amante sempre se sentirá em dívida com aquela que ama.
Aquela era uma cena impressionante, percebi. Tina podia ser louca, mas tinha ideias brilhantes às vezes. E Jared parecia cada vez melhor e mais confiante.
— Mas, então, de que adianta?! Qual a vantagem do amor?! — fitei-o, exasperada.
Ele abriu um leve sorriso e afastou uma mecha de meu cabelo do rosto, colocando-a gentilmente atrás da orelha.
— Não vês o quanto me concedes, apenas por respirar?
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