Só Mais Uma História
13 Adeus, pelo menos por enquanto.
Notas iniciais
Uma senhora em sua idade avançada tenta com dificuldade sair de sua poltrona para trocar de lugar comigo. Um homem barbudo, com um grande nariz e uma cara feia, reclama baixinho sobre estarmos atrapalhando a passagem. Jesse e eu tomamos café, juntamente daquela amiga dela, combinamos de sentar juntos. E agora estou eu a dez minutos esperando a velha andar, com um escroto resmungando baixinho.
— Fale para todo mundo ouvir ou cala essa merda de boca! — Digo me virando para traz nervoso. Ele me olhou assustado — Ninguém é obrigado a escutar seus resmungos!
Logo que eu termino de falar a velhinha sai e eu posso finalmente sentar ao lado de Jesse. Ela ficou meio distante no café da manhã, acho que tem haver com a ligação de ontem.
Foi bom dormir com ela, ainda que eu nem a conheça. Acho que é verdade o que dizem: desgraças atraem pessoas. Me surpreendi quando a vi fumar, para mim ela iria dar um piti e sair brava como ontem.
Ela brinca com o meu colar, uma espada cruzada com outra envolta por rosas e espinhos unindo-se. Mãe, Pai...
— Ele é lindo, aonde você comprou? — Seus grandes olhos negros me interrogam com curiosidade.
— Meus pais me deram quando eu era menor. Diziam que em tudo na vida temos que unir nossas forças, e sempre qualquer união terá momentos bons e ruins, cabe a nós decidirmos como responderemos à cada um.
Sua mão desliza novamente pelo colar, porém depois sobe para o meu rosto, acariciando-o, eu fecho o olho. É bom ter carinho novamente. Seu toque lembrava o de minha mãe, quando eu chegava a noite e recostava a cabeça em seu colo.
— Me conte sobre seus pais. — Abro o olho, sua feição é genuína e me garantindo uma troca de informações.
— Minha mãe era bastante carinhosa, sempre fazia carinho em mim, era bastante bonita também, sua voz era calma, dengosa, mas cantava muito mal. Uma vez eu caí escalando com eles e quebrei o pulso, ela olhou para mim e disse: “Meu pequeno, parabéns, o primeiro machucado e o último, eu disse para ter cuidado. Vamos! Vou te levar em um hospital.” Ela não saiu do meu lado por dois dias, sempre fazia carinho se eu reclamava, eu era bastante mimado — Jessica está vibrada, e penso o que irá acontecer no Brasil. Contínuo contando:
— Já meu pai era o oposto, apesar de ser bastante amável era um homem mais firme. Seu principal lema é que eu não devia chorar na frente de ninguém, ainda mais por ser um homem, pois homens não choram. Porém, no dia que eu quebrei o pulso ele ia me checar de uma e uma hora. Era engraçado até. — Soltei uma risada fácil e espontânea lembrando do passado. — Agora chega de falar de mim. Me conte sobre seus pais.
— Não têm muita coisa para falar. Minha mãe é advogada, então já sabe, ela tem aquele jeito meio duro de ser, meio advogada — Ela ri da piada sem graça — Mas ela é bastante forte, cuidou de mim e da minha irmã sozinha desde sempre. Regina também é bastante medrosa, o que é bem irônico já que ela trabalha pro governo. Um dia entrou um rato em casa, eu estava entrando pela porta e ela saindo de toalha pra rua gritando que tinha um demônio em casa. Quando fui ver era o hamister da vizinha que tinha fugido. Apesar de tudo eu amo ela.
Jessica puxa o ar, incrível como seus olhos brilham enquanto ela captura uma lembrança dolorosa.
— Já meu pai, eu não me lembro do meu pai, só sei que se chama Roberto. Ninguém sabe dele na verdade. Seus pais, meu avós me negaram depois do divórcio. Isso é tudo que eu sei.
No final acabamos dormindo, como no voo anterior. Sinto meu ombro sendo balançado, e sinto o mesmo perfume de ontem à noite.
— Vamos biel, acorda. Já chegamos.
Lentamente abro meus olhos, decorrência do sono, olho para janela e vejo o aeroporto internacional Alejandro Valasco. Minha visão se perde em meio ao tráfego de pessoas querendo pegar as malas. Observo essa pequena e estranha morena procurar por suas malas, tentando ao máximo ficar na ponta do pé para enxergar algo.
Seria estranho gostar de alguém de um dia para o outro? Realmente existe essa coisa? Não como vai ser no Brasil, na verdade não sei como vai ser a partir do momento em que cruzarmos as portas de saída e nos despedimos. Porque sinceramente, nenhum dos dois prometeu nada, nem trocamos aliança.
Estou há dez minutos parado com a minha bagagem quando Jes chega, finalmente com as suas três malas e aquela amiga atrás dela com o dobro de malas. Caminhamos tranquilos até a saída, onde tem uma fila para o táxi.
— Eu vou ajudando o motorista com as malas. É... então adeus Gabriel — A ruivinha diz me abraçando sem jeito.
— Já vou indo Linda — Então é esse o nome dela, é pelo menos ela faz juz ao nome. — Então... eh... A gente se vê? Tipo você tem o meu celular.
— Claro... — Eu não sei o que fazer. Jesse me abraça sem graça e eu beijo sua testa. Então bem lentamente se desvencilha para longe de mim. Fico olhando-a seguir em direção ao carro e quando começa a adentra-lo ela vira e corre em minha direção.
Para bem na minha frente e me beija. Eu aperto sua cintura puxando-a mais para perto.
— Já vi romances demais para saber que não poderia sair sem o último beijo — Rimos e então ela simplesmente se vira e corre para o carro.
E eu? Fico parado com cara de bobo querendo saber quem é a Jessica Obran. Desencane amigo, semana que vem isso vai ter sido só mais uma garota e você mais um garoto para ela. Acorde.
Portanto como um bom garoto fico só parado tentando imaginar e se, somente e se a gente saísse junto de verdade. Eu a levaria para conhecer minha mãe, que me envergonharia na frente da sua futura nora. Mas a vida não é assim, não existe e se, porque se existisse meus pais estaria vivos. Balanço a cabeça e entro dentro do táxi. O mundo é mesmo uma droga.
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