Só Existe o Agora

3 “Tudo pode ser melhor, sim”


Notas iniciais
Boa Leitura!

São Paulo amanheceu tranquila, nem parecia que na noite passada houve um temporal que trouxe transtornos à toda a cidade. O ar gelado matinal deixava a Mansão Khoury em um falso estado de paz e tranquilidade.

Os trabalhos naquela casa já haviam começados faz um tempo. Wagner estava servindo o café da manhã como sempre. Mas sua cabeça estava bem longe. Desde que havia conseguido voltar para a casa depois da chuva, ele e Maciel não haviam trocado uma palavra sequer. Mal se olharam, não interagiam. Totalmente distantes.

O tatuado se sentia tão culpado. Mas ele até aquele momento não sabia o que havia lhe dado à cabeça em beijar seu melhor amigo. Pois talvez depois dessa, nem melhor amigo pudesse chamar. Aquilo não poderia ficar do jeito que estava. Precisava falar com ele, mesmo nem sabendo o que dizer.

Terminado o café da manhã, Wagner correu até à área externa da casa. Encontrou Maciel próximo ao carro. Estava sentado em um banco, mais um entre tantos naquele imenso jardim. Com o olhar distante, parado.

— Maciel. Escuta. Eu preciso falar com você.

Maciel apenas assentiu, tímido. Continuou sentado, quieto. Com o mesmo olhar triste capaz de dar agonia à qualquer um. Principalmente à Wagner, naquele momento.

— Eu preciso falar com você, é sério.

— Você não tem nada pra falar comigo. — Respondeu em um tom falsamente sereno.

— Claro que tem. Eu tô muito mal por tudo aquilo ontem.

— Não precisa ficar mal. A gente já combinou que aquilo que aconteceu ficou lá atrás.

— Eu sei, mas… eu vi como você ficou e eu, bem… não sei o que deu em mim. Sei que está chateado.

— Não estou chateado. É só que…

— Pode falar.

— É que eu também não sei o que deu em mim naquela noite. Eu deixei aquilo acontecer e… não fiquei irritado. Nem sei o que eu tô sentindo.

— Eu também não. É tudo tão estranho, né? Mas acho que eu sei o que deve ter acontecido.

— O que?

— Seria carência?

— Carência?

— É. Tanto a minha vida quanto a sua estão uma merda. Só fazendo papel de trouxa. Nós dois estávamos mal, sozinhos. E aí aconteceu, não foi culpa nossa. Não quer dizer nada demais.

— Deve ser isso mesmo. — Forçou um sorriso fraco.

— Olha, você tem razão, Maciel. Melhor deixar essa história pra lá. Foi só um momento. Eu gosto muito de você e eu não queria que a gente terminasse essa amizade que nós temos.

— Eu também não. Você é um parceiro sensacional, não queria perder isso.

— Verdade. — Sorriu. — Vamo esquecer isso e seguir em frente, pode ser?

— Claro. Tranquilo.

Os dois deram um curto abraço. Não tinham vergonha de fazer isso, todos naquela casa sabiam que eles eram muito ligados. Depois disso Wagner voltou para a mansão enquanto Maciel continuou sentado. Parecia mais tranquilo. Um pouco.

Foi uma conversa necessária. Os dois até se sentiram melhor e não havia mais motivos para aquele clima ruim. Pelo menos na teoria.

Depois de três semanas, as coisas continuaram surpreendentemente as mesmas de antes. A relação de Wagner e Maciel esfriou de vez. Os momentos juntos, as conversas, elas sumiram. Pareciam dois estranhos, como se aquela parceria tão bonita nunca tivesse existido.

Coragem. Era o que faltava tanto em um, quanto em outro. Uma falta que foi o motivo de tudo isso se prolongar por todos esses dias. Enquanto fingiam que nada havia acontecido, fingindo mal aliás, eles esperavam que as coisas melhorassem. Que um dia, tudo voltaria a ser como antes. Mas sabiam que isso nunca aconteceria.

Maciel evitava falar com Wagner. Evitava qualquer diálogo, qualquer olhar. Como alguém que carrega um forte segredo, e que tenta esconder de todos, até de si mesmo. Mas aquilo o tomava, era inevitável. O olhar triste estava visível em seu rosto. A postura contraída ficava escondida sob o terno grosso. Quem o via naquela mansão todo dia, já sabia que ele estava mal. Mas ninguém quis ir até lá perguntar. Ninguém se importava.

E Wagner sofria com esse gelo. Sentia um aperto no coração toda vez que o parceiro lhe virava a cara. A cada dia aumentava o desejo de ir lá falar com ele e tentar acabar com isso? Mas cadê a coragem? Um certo medo lhe dominava, e lhe segurava. Ele ainda temia pela relação. A amizade tão bonita, que já estava abalada e poderia terminar.

“Beijo idiota”

Era de tarde quando o mordomo mais uma vez preparava o jantar. Seu cansaço de espirito se refletia em seu corpo. Já não estava mais ágil como de costume, mas conseguia levar seu trabalho a diante. Como de costume, estava junto de suas fiéis “escudeiras”. Solange e Ademirtes eram muito eficientes, mas o defeito de serem intrometidas acabava irritando, sobretudo Wagner.

— Tá pensando na morte das bezerras, Wagner? — Solange chegou perto ao ver que o copeiro estava distante.

— O que? — Se virou. — Ah. Nossa, Solange. Me deixa. Que coisa?

— Tá com essa cara aí por que? Tá acontecendo alguma coisa?

— Tá. Tá acontecendo que eu estou focado no meu trabalho. Coisa que as duas senhoritas deveriam fazer. Ou as madames não tem nada melhor pra fazer além de ficar fuxicando a minha vida.

— Nossa, você falando desse jeito, até parece que a gente não gosta de você.

— Sei. Vocês gostam é de se intrometer, que eu sei.

— Ué? A gente tá vendo que você não tá bem e só quer ajudar. Vai, se abre pra nós. Conta o que tá acontecendo.

— Olha, o dia que eu foi me abrir pra vocês vai chover canivete de ouro no céu. — Ironizou.

— Ah, vai. — Deu um leve empurrão no ombrio dele. — Depois não reclama que está mal.

— Eu reclamo das duas não fazerem o trabalho.

— Ah, Solange, dá um tempo. — Ademirtes que estava só observando, se pronunciou. — Você sabe que o clima aqui nessa casa não tá dos melhores.

— Ah, é mesmo. Mas também, menina. Com o tanto de babado que tem acontecido aqui. Tá parecendo uma novela mexicana.

— É. E esse clima ruim tá até contaminando os funcionários. Não vê o Maciel?

— O que tem ele?

— Ué? Cê não tá sabendo que ele pediu demissão pra Dona Pilar?

— Pera. Como é que é? — Wagner que estava tentando fugir do papo desconfortável se assustou com a declaração. — O Maciel se demitiu? É isso mesmo?

— Você não sabia? Logo você que é tão grudado nele. Foi semana passada. Parece que no mês que vem, ele não vai estar mais aqui.

— Isso que você tá me falando, é sério? — O tatuado já estava nervoso.

— Por que eu mentiria? É a pura verdade. Se tiver coragem, pergunta à patroa.

— Nossa. — Disse Solange. — Eu até entendo ele sair, mas que vai ser uma pena vai. Ai que tristeza eu não poder ver aquele monumento de homem todo dia. — Brincou.

Wagner nem prestava atenção em mais nada. Ele largou o que estava fazendo e saiu correndo da cozinho. Não podia mais esperar, precisava falar com ele urgentemente.

O motorista, mais uma vez, estava cuidando do carro. Daquela vez, ele abrira o capô para verificar as peças do veículo. O moreno tinha um bom conhecimento sobre mecânica. Era necessário, fazia parte do seu trabalho. Não bastava apenas dirigir bem. Maciel estava com a cabeça e a mente no automóvel, até ouvir os gritos de Wagner lhe chamando.

— Ah. É você. — Maciel respondeu desanimado.

— Escuta. Que palhaçada é essa de que você se demitiu?

— Então você ficou sabendo.

— Quer dizer que é isso mesmo. Você vai embora assim do nada, e nem pra me avisar?

— Eu ia te contar?

— Ia mesmo? Porque nem falando comigo você tá.

— Eu preciso de um tempo. Só isso.

— Eu sei. Precisa de um tempo, de mim. — Depois disso, abaixou o tom de voz. — Depois daquilo que aconteceu, você deve me odiar, né? Por isso que tá indo embora.

— Não é por causa disso. Eu te juro que não é por tua causa. Nunca que eu vou te odiar.

— Então me diz, por que tá indo embora?

— Porque eu tô cheio de tudo isso aqui. Eu só me fodi trabalhando aqui. Não faço parte dessa família, mas eu já tô envolvido até a cabeça com tudo o que acontece aqui. Eu não aguento mais.

— E é por isso mesmo que você pediu as contas?

— Não tenho outro motivo. Olha, Wagner. Eu sei que você tá chateado e eu gosto muito de você, é sério. Mas eu sinto que só vou sair desse buraco se eu me mandar de vez desse lugar. Eu sinto que eu preciso mudar.

— Tudo bem. — Disse cabisbaixo. — Mas, você poderia ficar mais um tempo. Sei lá, tem como você dseistir.

— Eu já falei com a Dona Pilar e acertei tudo. Eu só estou aqui ainda porque eu tô no aviso prévio.

— E quando você vai embora.

— No final do mês. Ou melhor, do ano. Deu o dia primeiro e eu já tô livre. Só não saí antes porque achei que eu teria… esquece. Sei que é perda de tempo.

— Entendi. — Colocou a mão em seu ombro. — Eu não posso falar nada mesmo. Sei exatamente o que está sentindo. Eu acho. Tem vezes que essa casa me sufoca também. Mas tem certeza que você tá me falando a verdade?

— Claro que eu estou.

— Então tá certo. Só quero te pedir uma coisa. Vamos acabar com esse gelo, cara? Pelo menos nesses últimos dias, vamos continuar se falando. Voltarmos a ser amigos. Eu sinto falta.

— Eu também sinto. Esperava que você não me dissesse isso.

— Achava que você não se importava.

— Tá bom. Eu não quero discutir. Só quero ficar bem com você. E então? Amigos de novo? — Estendeu sua mão.

— Amigos. — Estendeu sua mão e os dois se abraçaram. — Mas eu não tô sumindo do mundo. Eu só vou embora daqui. A gente pode se ver, não pode?

— Não sei. Do jeito que eu trabalho tanto, vai ser um pouco difícil.

— Entendi. — Abaixou a cabeça. — Olha, cara. Me desculpa por ter te ignorado. Fui um babaca mesmo. É que é tanta coisa acontecendo que eu tô confuso. Não sei no que pensar.

— Tranquilo. Não quero te forçar. Tudo ao seu tempo. Mas tô feliz que voltamos a ser parceiros. Espero que dessa vez seja pra valer.

— Com certeza vai ser. — Sorriu.

Mais um abraço, e Wagner voltou para a cozinha. Finalmente estava tudo certo entre os dois. Parecia estranho como tudo se resolveu assim, do nada. Quase como se aquele clima pesado não tivesse existido. Ambos estavam cansados daquilo tudo, queriam acabar com aquilo. Só faltava um empurrãozinho.

Estavam se sentindo mal, mas não nutriam ódio um do outro. Isso nunca aconteceria. Era uma sintonia perfeita. Uma relação forte que dificilmente se abalaria muito. Uma típica relação entre homens. Brigam, se estranham, e tudo acaba bem no final.

Mas ainda assim, restavam algumas questões. Aquela mágoa não era uma mágoa comum. Foi por causa de um beijo. De uma atitude impensada que Wagner tomou e que Maciel assentiu, pois também não pensava em seus atos. Não tinha como apagar aquele momento. Impossível esquecer, um momento tão forte, e tão confuso.

Confusão que continuou nos dias que se seguiram. Porém desta vez, não abalou a amizade deles. Por incrível por pareça, conversavam normalmente. Era uma afinidade que não dava para se explicar. Um nutria sentimentos pelo outro, e isso era o suficiente para deixar qualquer rusga de lado. Só que isso também aumentava mais ainda o sentimento de dúvida.

Pois Maciel nunca esqueceu aquele beijo, e não conseguiu deixar de ficar mexido com aquilo. Não era um sentimento normal e isso o desorientava. Queria poder sentir repulsa daquele momento, tudo seria mais fácil. Mas não conseguia. Queria poder ficar com raiva do amigo, mas não era capaz. Só conseguia sentir afeto. Além de não conseguir tirá-lo de sua cabeça.

Uma fixação que também atingia Wagner. Era tão triste pensar que seu amigo estava magoado com ele. Mas pior ainda era os pensamentos que lhe vinham a cabeça. Um mais estranho que o outro. Ele sempre sabia o que sentia e do que gostava. Mas parecia um adolescente com aqueles sentimentos tão confusos.

Sempre viu Maciel como um grande amigo, quase como um irmão naquela casa. Depois disso, ele já não sabia mais como via ele. E como Wagner gostaria de vê-lo.

Notas finais
E então, gostaram? Se puder, deixe um comentário. Se preparem que o próximo capítulo vai ferver. Quem quiser, me siga no Twitter: @eumarkgarcia Até a próxima!