Só Existe o Agora
4 “Somente eu e você”
Notas iniciais
Mais dias se passaram. E na mansão da família Khoury, elas passam voando. Era dezembro, o Natal e as festas de fim de ano já estavam chegando. Toda a criadagem já estava se preparando para as festividades. Os jardineiros cuidavam das plantas, enquanto as arrumadeiras cuidavam da decoração. Enchendo o verde da área externa de pisca-piscas. Lá dentro, as empregadas já começavam os primeiros cuidados com a organização da comida.
Era a preparação para mais um Natal deslumbrante naquela casa, daquelas que estampam as revistas e sites de colunismo social. Com direito a lindas luzes e fartos banquetes. Uma celebração que só seria bonita nas fotos. Pois a casa estava triste.
Desde que Felix foi expulso, uma sensação de solidão invadia aquela casa. A enorme família que se reunia à mesa no jantar em outrora se dispersou. Não havia muitos motivos para se comemorar, mas Pilar fez questão de manter essa tradição. Seja pela imagem, ou apenas por uma tentativa de trazer alguma alegria àquela casa.
E cabia a Wagner chefiar toda aquela organização. Tinha que mais uma vez deixar seus problemas pessoais para fazer um trabalho eficiente. Isso estava sendo muito difícil naquele momento, sobretudo depois do derradeiro encontro com Edith. Ela foi direta e reta, anunciou que queria terminar com o mordomo.
Ele tentou falar, tentou convencê-la a mudar de ideia. Mas ela não queria saber. Disse com todas as letras que não via futuro em ficar com um homem que não tinha aonde cair morto. Mesmo ele prometendo se dedicar para dar uma vida boa, Edith queria mais que aquilo. Queria luxo, riqueza, coisa que o tatuado nunca poderia oferecer.
Wagner já conhecia a dor de ser usado, e depois dessa se intensificou. Sentia-se péssimo, alguém que ele tanto amou estava tratando-o como um mero lixo. Como um objeto descartável que se usa quando conveniente e dispensa.
Ele deveria ter esperado isso, deveria ter conhecimento de que isso iria acontecer. Mas não conseguiu se preparar. No fundo ele tinha uma ponta de esperança que ele pudesse ser feliz ao lado de alguém que o amava. Será que era uma coisa tão difícil assim?
Parecia que seu único destino era servir pra satisfazer os outros. Ser só um pedaço de carne, um consolo. Era mais fácil quando ele não se importava em ser apenas a segunda opção. Pena que isso era pouco para Wagner. Poderia ser cafona, mas ele só queria amar. Queria ter alguém para ficar junto e não por quinze minutos.
O tatuado só não desabou pois já era crescido demais para sofrer por amor. E seu foco no trabalho ocupava sua mente para não pensar besteira. Também, claro, tinha seu grande amigo ao lado. Mesmo Maciel também não estando em seus melhores amigos, ajudou o parceiro a sentir-se melhor.
O barbudo via Pilar assumindo seu caso com o Dr. Jacques. O cretino fazia questão de aparecer na mansão quase todo dia. Não desgrudava dela, como um urubu rodeando a carniça. Parecia que era pra tripudiar. E estava dando certo, pois só o aborrecia. Era triste ver que ela caiu direitinho na lábia ordinária dele, enquanto ele… tinha que aceitar a escolha feita.
E mais uma vez, a grande afinidade do motorista do copeiro fez ambos se sentirem melhor. As conversar e brincadeiras serviam como um alívio como sempre. Eram momentos que faziam eles fugirem da realidade dura que enfrentavam todo dia. Mesmo que eles também causavam outro sentimento que os deixavam desorientados.
A madrugada estava quase começando quando Wagner finalmente terminou seu trabalho. Foi direto para seu quartinho. Estava tão cansado que só queria saber de se jogar na cama e dormir bem pesado. Encontrou Maciel de olhos fechados em sua cama, com seu vestiário típico para dormir. Dormia de bruços como sempre. Assim que o tatuado começou a tirar a gravata, ele abriu os olhos e sentou-se na cama.
— Opa, Maciel. Foi mal eu ter te acordado. — Disse enquanto tirava a camisa.
— Não tem problema, eu não tava dormindo. Só fechei os olhos.
— Não tá conseguindo dormir?
— Pior que não. Tá puxado.
— Minha vontade é de dormir, mas não sei se consigo. — Tirou a calça e a jogou na cama. Já estava de cueca.
— Tá difícil parar de pensar naquilo, né?
— Muito. — Foi até a cama de Maciel e sentou-se ao lado dele. — Tô me sentindo o imbecil do ano.
— Fica tranquilo, cara. — Passou a mão pelo ombro dele. — Isso passa. Só não sei como.
— Só não me sinto pior porque, de uma forma ou de outra, eu sabia que esse lance não iria pra frente.
— Poderia te falar alguma coisa, mas não dá. Sou um bosta pra dar conselhos.
— Não precisa. Sabe que só de eu já estar conversando com você, eu já melhoro. — Deu um sorriso e passou a mão no ombro dele.
— E eu digo o mesmo. É engraçado essas coisas.
— Como assim engraçado?
— É. Nós dois sofrendo por causa dos outros. Aí quando nós estamos juntos, a gente fica bem.
— É verdade. As vezes penso que é uma coisa que a gente tem. Sabe, uma conexão?
— Pode ser. — Abaixou a cabeça.
— Que foi, Maciel?
— Errr… nada. Só uma coisa aqui que me veio à cabeça.
— Pode falar, cara. Só estamos nós aqui.
— Tá bom. Eu vou falar mesmo. Não vou conseguir ficar quieto então.
— Então diz.
— Aquele momento que a gente teve lá atrás. — Não conseguia falar de maneira direta. — Quando você me beijou. No carro. Lembra?
— Não tem nem como esquecer? Você não gostou nada, né?
— Não é isso.
— Ué? Como assim?
— Não sei nem como eu vou falar isso. Mas todo dia eu penso nesse momento. É algo que… não sei como explicar.
— Se você não sabe explicar, eu menos ainda.
— Sei que deve estar me achando um maluco.
— Pior que não. Por incrível que pareça, eu sei o que está sentindo.
— Sério?
— Sério. Não sei o que está acontecendo comigo. Mas em meio a tudo o que está rolando, você tem me feito bem. E isso me fez pensar em algumas coisas.
— Coisas… já entendi.
— Maciel. Uma hipótese. Se você pudesse, você ficaria comigo?
— Não sei. — Nunca imaginou que pudesse dar uma resposta dessa.
— Por que? Não gosta de mim?
— Claro que eu gosto. Mas eu não sei como é gostar desse jeito. Isso nunca aconteceu comigo.
— Nem comigo isso aconteceu. Só teve aquele momento quando eu era mais novo, mas não era nada.
— Eu sei. Mas eu tenho receio. Já me fodi tanto com isso. Me foderia de novo.
— Entendi. No fundo eu também tenho esse medo.
Os dois ficaram longos minutos em silêncio. Trocando olhares que nunca trocaram antes. As amarras estavam saindo. Um já sabia o que estava sentindo pelo outro. Poderia ser estranho, mas era recíproco.
— Tão estranho o que tá acontecendo. Essa conversa. — Disse Maciel.
— É. E vou falar uma coisa mais estranha ainda. Topa tentar?
— Tentar?
— É. Eu e você, juntos. Pra saber o que a gente tá sentindo.
— Não sei não.
— Eu sei que você tá com medo de que alguma merda aconteça. Eu também tô. Mas a gente pode enfrentar isso juntos.
— Sabe que você é um cara sensacional, Wagner. Mas de qualquer forma, eu não vou ficar por muito tempo. Esqueceu que eu vou embora?
— Não esqueci. Bom, já que vamos ter que nos separar, podemos aproveitar o tempo que resta. Pode ser?
Os dois trocaram mais olhares, com fracos sorrisos. Nunca antes os corpos deles estavam tão próximos. Nunca antes tantos sentimentos surgiram entre eles. Tudo isso contribuiu para que o mais esperado acontecesse. Aproximaram os rostos e selaram os lábios. Um beijo com o mesmo impulso que o anterior. Mas desta vez, eles sabiam o que estavam fazendo. E o desejo era diferente.
— Isso vai ser estranho. — Disse Maciel com a testa selada ao do parceiro. — É a primeira vez que eu tô fazendo isso.
— Fica tranquilo. Também é a minha primeira vez. — Sorriu. — Isso vai ser interessante pra nós dois.
— Pior que aqui nesse quarto não tem nada pra ajudar. Nem camisinha, nem nada.
— Não precisamos de nada disso. — Sorriu e voltou a beijá-lo.
O beijo foi bem longo. Parecia que o fôlego deles estava maior. Lentamente, Wagner tirou todas as vestes de Maciel, e depois foi a vez do barbudo contribuir, tirando a cueca do tatuado. Esse deitou o maior na cama e deitou-se por cima dele. Começou outro beijo, com os corpos colados, e despidos.
Aquela sensação era tão nova. Os desejos, os toques, cheiros. Tudo era diferente, e surpreendente.
O que eles sentiam enquanto estavam alí se curtindo daquela forma sem roupas ou qualquer coisa parecida era incrível. Não pela nudez em si. Foram tantas as vezes que se viram nus sem problemas. Era normal, fazia parte, coisa de homens. Porém era a primeira vez que eles desejavam o corpo um do outro. Era estranho, inexplicável. Mas isso não importava.
Wagner, que estava por cima, pode sentir o quanto Maciel era peludo. A pelugem grossa na virilha fazia uma gostosa carícia em seu membro, fazendo-o pulsar. A mesma carícia que sentia ao beijá-lo. Definitivamente, beijar um homem de barba não era tão ruim quanto falavam. Muito menos abraçar um.
— Possa fazer uma coisa que eu tô louco pra fazer?
Maciel apenas assentiu silencioso. O tatuado desceu seu rosto passando pelo torso dele, sentindo as curvas do abdômen e seus músculos. O homem parecia muito maior estando tão perto. Os pelos deixavam sua pele mais quente. Wagner desceu mais, até a virilha do parceiro, pegou em seu membro que já estava em ponto de bala. E meio tímido, começou a deslizar a língua.
Ficou passando a boca pelo tronco, grosso e quente, até abocanhar. O mordomo não sabia como fazer sexo oral em outro cara, só receber. Mas ele queria matar aquela curiosidade e saboreou à sua maneira. E mesmo desajeitado, foi o suficiente para Maciel se contorcer e morder os lábios de prazer. Por incrível que pareça, foi o melhor oral que ele recebeu. Que boca…
Minutos depois, o motorista puxou o rapaz e lançou mais um beijo. Era tão viciante sentir aqueles lábios. Lentamente, ele puxou as pernas do tatuado, envolvendo as em sua cintura. Ele fez o mesmo com as suas pernas, envolvendo-as nos quadris do parceiro. Com isso, os dois se aproximaram mais ainda. E quando os corpos ficaram colados, voltaram à se beijar.
Sentindo a respiração, as mãos de amos deslizavam um no corpo do outro. Fazendo movimentos vagarosos, seus membros se roçavam. Os corpos começavam a suar. Eles queriam mais que aquilo, mas não podiam. Davam suspiros silenciosos, pois não podiam fazer qualquer barulho. Aquelas paredes eram muito fracas.
Wagner passava a mão pela nuca de Maciel. Estava adorando sentir aquela cabeleira grossa e negra. O motorista, definitivamente, ficava mais bonito quando não encharcava os cabelos de gel. Ficaram se abraçando, um sentindo o outro por completo. Não estavam nem aí se estava sendo estranho dois grandes amigos chegarem à isso. Só queriam explorar aquele sentimento, que era tão maravilhoso.
Deslizava as mãos sobre os músculos do barbudo, Era como se ele estivesse mais forte estando tão perto. Wagner sempre admirou o porte robusto do amigo. Era algo bonito de se ver, nunca negou. E sentir aquele abraço estava sendo incrível. Enquanto cheirava o pescoço do motorista sentindo a sua leve colônia. Uma fragrância que ele já conhecia e que naquela noite o excitava mais ainda.
Maciel também estava em êxtase. Aquele abraço, aquela pegação. Não sabia como ele podia adorar aquilo, mas estava, e muito. Beijava o pescoço dele e fazia uma trilha de beijos até seus braços. O barbudo se perdia nas cores e desenhos cravados na pele de Wagner. Sempre achou bonito as tatuagens dele, aqueles símbolos que literalmente o cobria até os dedos. Mas ó admirava, nunca teria coragem de fazer igual.
Ele deitou Wagner e deslizou sua boca até a virilha do parceiro. Queria retribuir àquele oral que o tatuado lhe proporcionou. Abocanhou a glande vermelhinha e começou a fazer movimentos vagarosos de vai-e-vem. Também estava desajeitado, mas só queria saborear. Era tão linda, e bem limpinha. O tatuado abaixou a cabeça e via aquela cena. Nunca imaginou que chegaria um momento como aquele. Era tudo tão incrível.
Depois disso, os dois voltaram àquela posição tão viciante. O contato físico era o máximo possível. Um abraço forte, com muita pegação, muitos toques, e um beijo que parecia durar uma eternidade. Os membros se roçavam, e Wagner colocou sua mão neles e começou uma masturbação mútua. Poucos minutos depois, Maciel se contorcia, soltando um longo jato de esperma. Em seguida, foi Wagner que ejaculou.
Os dois, melados pelo leite, voltaram a se beijar. Estavam ofegantes e suados. A ficha ainda não havia caído. Eles transaram. Aquele sentimento que estava guardado e se acumulava durante dias, foi exposto da melhor forma. Um sentimento que nem eles sabiam como conseguiram, mas era tão bom.
— Acho que agora… a gente tá tentando. — Respondeu Maciel.
— É.
— Vou gostar dessa despedida.
— E eu vou gostar mais ainda. — Terminou beijando ele.
Mais uma vez demonstraram o que já era nítido à tempos. Um fazia o outro bem. Um afeto verdadeiro, puro. De parceiros, amigos.
Mas… amigos. Talvez eles não fossem mais só amigos.
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