Só Existe o Agora

2 “O tempo passa e ainda se ouve a voz”


Notas iniciais
Segunda parte da história. Boa leitura

Já havia anoitecido quando Maciel pegou o carro para pegar a encomenda. Wagner estava sentado no banco ao lado, prometeu que iria ajudá-lo. O mordomo vestia elegantemente como sempre, usando uma gravata roxa, a sua favorita, e uma camisa preta que ficava um pouco justa em seu corpo. Assim como sua calça escura, que realçava suas coxas fortes.

A tapeçaria ficava do outro lado da cidade, uma loja de luxo que só vendia artigos importados. Estava começando a trovejar fortemente, então Maciel teve que acelerar para chegar antes do temporal começar. De vez em quando umas conversas bobas no caminho, algumas piadas, comentários sobre futebol. As conversas entre os dois nunca eram chatas, sempre conseguiam se dar bem.

Longos minutos depois, chegaram à loja para pegar o tapete. Era realmente grande, Maciel não errou em sua intuição em ter que pedir ajuda à Wagner. Pois só os dois juntos poderiam pegar aquele tapete longo. Eles levaram para fora e colocaram no porta-malas do carro, com uma certa dificuldade pois tinham que tomar cuidado para não danificá-lo.

Começava a chuviscar quando eles terminaram o serviço e entraram no carro. Durante o longo caminho, a chuva ficou mais forte, e minutos depois já tinha uma tempestade. As ruas já estavam alagadas. E para piorar, inúmeros raios cortavam o céu causando trovões quase ensurdecedores.

— Olha cara. Não vai dar pra continuar não. — Disse Maciel.

— Sério mesmo?

— É sério, olha essa chuva. E também com esse monte de raio vai ficar complicado de passar por essas ruas aqui. — Respondeu olhando para a rua, que era de um bairro nobre, com árvores nos dois lados.

— Mas se for rápido a gente não chega a tempo, Maciel?

— A Marginal deve estar péssima com esse temporal. Acho melhor esperar. Depois eu explico pra Dona Pilar.

— Tá certo.

— Vou só achar um lugar mais seguro pra estacional.

Demorou alguns segundos para que Maciel encontrasse algum lugar bom para estacionar o carro. Até achar um lugar mais tranquilo, sem árvores por perto, próximo à um prédio. Ele desligou o carro e os dois esperaram a chuva passar.

Porém, passavam-se longos minutos e a tempestade não passava. Pelo contrário, ela só piorava. A água vinha com mais intensidade, e os raios também. Os dois foram obrigados a esperar dentro do carro. E não havia sinal de celular, então sequer poderiam avisar que demorariam.

Mais minutos passavam, a chuva continuava intensa. Estava ficando desconfortável ficar dentro daquele carro desligado, e também desconfortável. Por mais que o estofado daquele banco fosse da melhor qualidade possível, Wagner não estava acostumado à ficar sentado durante tantas horas. Sua coluna já estava incomodando-o.

— Inclina esse banco aí, Wagner.

— Pode fazer isso?

— Claro que pode, a não ser que você queria ferrar com suas costas.

— Mas não tem problema não, né?

— É só um pouco. Eu até faço isso de vez em quando e até agora nunca aconteceu nada.

— Tá bom, valeu.

— Vou aproveitar e inclinar o meu também. Tá complicado, viu?

Os dois ajeitaram os bancos onde estavam sentados para que ficassem inclinados e eles poderem ficar confortável. O motorista e o mordomo ficaram alguns longos segundos em silêncio, olhando para o teto do carro, Até Wagner quebrar o silêncio.

— Cê não tá nada bem, né Maciel?

— Dá pra perceber?

— Dá sim. Eu te conheço, eu sei que você deve estar mal por causa da patroa. Eu tô mentindo?

— Pior que não tá não.

— Cara, eu já falei pra você. Esquece esse negócio aí. Cê não tem que ficar esquentando a cabeça com essas coisas.

— Eu sei disso, mas me dá tanta raiva.

— Mas cá entre nós. Você não esperava que isso pudesse acontecer? Tipo, ela não querer nada com você.

— O pior é que não é isso que me deixa puto. É ela dar bola praquele medicozinho de merda.

— Você acha mesmo que o Doutor Jacques não presta?

— É um cafajeste de quinta categoria. Conheço mais do que ninguém esse tipo. Só não entendo como a Pilar pode achar que eu tô querendo enganar ela, e cai na lábia fuleira desse sujeito.

— Uma lábia fuleira que parece estar dando certo, né?

— Ele é médico, tem faculdade, sabe falar. Com isso fica fácil, também. Ele tem o que oferecer à ela, diferente de mim.

— Eu não vi muito ele, mas eu bem que senti que ele não era uma boa pessoa.

— Tá na cara que ele não presta. Só tá usando ela pra se promover no hospital, ou sei lá o que. Aí eu é que estou querendo me aproveitar dos outros.

— Mas convenhamos que você já deu motivos pra acharem isso de você.

— Eu sei disso… não sou um santo, nunca disse que era. Você sabe quantas merdas eu já fiz na vida, mas eu gostava mesmo da Pilar. Eu não queria nada dela, só queria estar ao lado. Sempre falei a verdade sobre isso.

— Eu sei como você gosta muito dela.

— Isso tudo faz com que eu me sinta um lixo. Pior coisa é se sentir um nada.

— Não posso falar muita coisa. Também me sinto um bosta.

— É o lance com a Edith?

— Lance… não tem nem lance mais. Acho que nunca teve.

— Desistiu dela?

— Acho que sim. Eu ate ligava pra ela, tentava marcar algum encontro, mas ela sempre inventava uma desculpa. Deveria saber que ela não queria nada comigo, só sexo.

— Mas bem que você curtiu, fala a verdade. — Riu.

— Não vou mentir. Gostei sim. Os meus momentos com a Edith foram sensacionais. Que mulher era aquela? Putz! Mas… eu queria mais. Queria tanto ter um lance de verdade com ela. Sei que não parece, mas eu queria ter alguém pra ter uma vida junto. Sabe, essas coisas.

— Entendo. — Assentiu. — No fundo eu também queria isso. Mas isso nunca vai acontecer.

— Por que você diz isso?

— Ué? Olha pra mim. Você acha mesmo que alguém vai querer um motorista pobre e fracassado?

— Também não precisa se esculachar, né?

— Mas é verdade, pô. Pelo menos você tem algum futuro, tem classe. Eu tenho o que? Nada.

— Eu acho que o maior problema é que você se menospreza demais. Sei que é meio tosco falar isso, mas tenho quase certeza de que você faria uma mulher feliz se ela estivesse com você.

— Você acha isso mesmo? — Riu, não acreditando muito na declaração do amigo.

— Acho. E também acho que a Pilar cometeu uma puta mancada em te desprezar.

— Brigado. — Deu um sorriso fraco. — E eu também acho que a Edith foi burra em não querer ficar com você.

— É sério?

— É sério. Com certeza faria ela mais feliz que o Felix, né? — Depois dessa os dois gargalharam.

— Nossa, nem fale desse daí. Eu só fico me perguntando como é que ela gostava de viver aquela vida com ele. Tipo, nem marido ele era.

— Tem gosto pra tudo, né? Fazer o que?

— Sempre soube que ele não gostava daquilo, mas mesmo assim quis ficar com um cara que era gay e traia ela na cara dura. E ainda tratava ela mal.

— Com o luxo que ela tinha, dava até pra entender porque que ela aceitava ser humilhada.

— É. Como é que pode existir pessoas que se rebaixam tanto por causa de dinheiro, de regalias? Juro que eu queria saber.

— Acho que eu nunca terei essa resposta. Sou suspeito demais pra falar.

Os dois trocaram olhares e ficaram em silêncio mais alguns minutos. A tempestade não dava trégua. E parecia que eles teriam que esperar mais um tempo.

— Wagner. Eu sempre quis saber uma coisa. Cê já sabia que o Felix era gay?

— Pra falar a verdade, Edith nunca me contou diretamente. Mas eu sempre desconfiei, quer dizer. Ele nunca escondeu de ninguém, né. Vamo falar a verdade.

— Isso é mesmo. — Riu. — A sorte é que por causa disso você ficava com a melhor parte. Eu ficava com a pior, né? — Disse se lembrando de quando tinha que ser cúmplice dos encontros secretos de Felix com seu amante.

— É mesmo. Você já me falou disso. Mas e esse tal amante aí? Você conhecia?

— Mais ou menos. Eu só sabia porque ele falava dele, um apelidinho. Mas a fuça eu nunca vi.

— Apelidinho?

— É. Anjinho. O nome eu não faço a menor ideia. E nem faço a questão de saber.

— Ele deve ter ganhando uma boa grana pra aguentar o Felix — Riu.

— Acho que só ganhando muito pra conseguir transar com outro cara. Com ele então…

— Por que você diz isso, Maciel? — Perguntou se virando para ele.

— Porque deve ser estranho, né? Isso de dois homens ficarem juntos. Se pegarem e tal.

— Ah, eu não acho que é tão estranho assim. Deve ter nada de mais.

— Cê acha isso?

— Eu acho, ué? Nós somos amigos, não tenho porque ficar mentindo e ficar de frescura.

— É mesmo. Mas sei lá. Não é uma coisa que eu consigo entender muito.

— Mas você faria só pra matar a curiosidade?

— O que? — Fez uma careta de estranhamento.

— É isso mesmo. Ah vai, Maciel. Nós já somos muito íntimo pra ficar se escondendo dessas coisas.

— Não tô me escondendo, Wagner. Mas tipo, eu não esperava que você me perguntasse isso.

— Vai cara, pode falar. Só estamos nós dois aqui. Nunca teve alguma curiosidade?

— Pra te falar a verdade, nunca pensei nisso? Mas por que você tá me perguntando isso agora?

— Sei lá. — Riu. — Aqui tá um tédio.

— Sei… não tinha nada melhor pra perguntar, não?

— Ah. É que a gente é muito amigo. Nós sempre falamos de algumas intimidades mesmo. Mais uma não deve fazer tanta diferença.

— Pode ser. Mas agora sou eu que quero saber. Você tem curiosidade.

— Bom. — Deu um sorriso malicioso. — Curiosidade eu não tenho. Não mais.

— Como assim?

— É… já rolou algo assim. Com outro cara.

— Pera. — Arregalou os olhos. — Você já ficou com outro cara?

— Eu não fiquei exatamente, mas é quase isso.

— Mas por que você nunca me contou isso?

— Não tinha importância. Era uma dessas coisas malucas que a gente faz quando é mais novo. Eu devo ter uns 20 anos quando aconteceu. Tava na balada com um amigo, a gente tinha bebido um pouco. Nós fomos pra um canto e demos uns amassos. Mas ficou só nisso.

— Quem diria. Quando você diz que foi porra louca no passado é porque foi mesmo.

— Eu não sou de mentir. — Os dois riram.

— E como que foi isso?

— Ah, normal. Eu acho.

— Normal?

— Ah, não teve nada de estranho. Foi só um beijo. Mas não dá pra explicar direito.

— Agora você é quem me deixou curioso.

— Ué? Pra matar a curiosidade, você tem que experimentar, né?

O motorista fez uma careta para o mordomo. Sabia que ele poderia ser indiscreto algumas vezes, mas não esperava que ele pudesse falar sobre aquele assunto justamente naquele momento.

— Cê tá querendo que experimente? É isso?

— Eu não tô querendo nada. Só tô falando que você não pode achar algo sobre uma coisa sem saber como é.

— Só se eu tivesse bêbado numa balada, como você fez. — Riu.

— Não necessariamente…

Os risos cessaram, os dois ficaram alguns segundos se olhando em silêncio. Apenas com a água da chuva em seus ouvidos.

— Wagner. — Disse falando baixo. — Você teria coragem de me beijar?

— Coragem é um termo meio forte. — Respondeu em voz baixa, se virando para o amigo.

— Mas você beijaria?

— É… sim, eu beijaria.

— Por que?

— Porque sim, ué? — Riu. — Você é meu brother.

Eles trocaram risos fracos e sorrisos durante alguns segudos até ficarem em silêncio.

— E você me beijaria? — Perguntou Wagner.

— Bom… — Ficou pensativo. — Talvez sim.

— Talvez sim? Eu sou tão dispensável assim? — Brincou.

— Não. Não é isso. É que… eu não sei.

— Eu sou feio?

— Claro que não. Você é um cara bonito e tal.

— Eu agradeço o elogio. — Respondeu com sarcasmo. — Você também é um cara bonito.

Mais um período de silêncio. Aquela situação estava bizarra demais. Mas nenhum dos dois parecia se importar com isso. Eles já estavam bem próximos um do outro, até demais. Não falavam nada, não conseguiam. Apenas se deixaram levar por algo involuntário que fazia com que se aproximassem cada vez mais.

Até que os lábios de ambos se colassem. Um beijo vagaroso, suave, que há muito tempo eles não tiveram, talvez nunca. Maciel poderia empurrar o amigo a qualquer momento, mas não o fez. Não estava com raiva, não se sentia enraivecido. Apenas uma sensação de se deixar levar por aquele momento, que nem ele estava se dando conta.

Foi quando o beijo se desfez que o barbudo voltou a realidade. E não foi uma coisa boa, pois lhe veio um súbito arrependimento. Ele virou o rosto e abaixou a cabeça.

— Tá tudo bem, Maciel?

— É… eu não sei.

— Nossa, Maciel. — O sentimento de culpa também invadiu Wagner. — Foi mal, desculpa. Que merda que eu acabei de fazer.

— Não. Tá tudo bom.

— Não acredito, caralho. — Colocou a mão no rosto. — Você vai me odiar depois dessa.

— Claro que não. A gente é brother. Tá tudo bem.

— Tá mesmo.

— Tá sim. Só tá nós dois mesmo. Vai ficar por aqui mesmo. — Durante toda essa conversa, ele sequer conseguia olhar na cara de Wagner. — E a chuva já deve estar melhor. Melhor a gente ir senão a Dona Pilar surte.

Wagner assentiu e Maciel ligou o carro. Eles ajeitaram os bancos e rapidamente o carro deu a partida. Os dois continuaram a desviar olhares. O prazer de conversar acabou por completo. Ficou apenas a vergonha, o arrependimento.

Enquanto o mordomo se sentia totalmente constrangido por ter chegado longe demais com o melhor amigo, o motorista não sentia raiva nenhuma por tudo aquilo. Quer dizer, sentia uma raiva, mas por não sentir raiva daquilo. O beijo fez com que ele tivesse um misto de sentimentos que ele — e nem Wagner — poderia explicar. E era isso o que mais aborrecia.

Notas finais
E então, o que acharam? E esse beijo, hein? O que vai rolar depois? Se puder, deixe um review. Me sigam no Twitter: @eumarkgarcia Até a Próxima!