Só Existe o Agora
1 "Nuvens que são só Nuvens"
Notas iniciais
“Imagina nós que não somos nada?
“Imagina nós...”
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Já passava da meia-noite quando o cansaço predominava. Não era um cansaço físico, e sim espiritual. A mansão dos Khoury não era nem de longe o lugar mais tranquilo para se trabalhar. Era praticamente impossível trabalhar lá sem estar envolvido em qualquer escândalo daquela família em um mês.
A noite deixava o exterior daquela casa mais linda do que já era. Dava uma breve sensação de tranquilidade, que poderia ser quebrada à qualquer momento.
Os dois homens que estavam naquela área, cercada pelo verde que contrastava com a arquitetura antiga e as cores pastéis das paredes, sabiam daquilo. Foi quando Wagner tentava dar algum respiro quando Maciel havia chegado, bem mais exausto que ele. Foi naquele momento que ele revelou ao copeiro que havia encontrado Félix, depois de dias sumidos. Ele estava na casa da Márcia, a vendedora de hot dog que apareceu na mansão dias atrás.
Era inacreditável como alguém estudado, fino e nascido em berço de ouro poderia ter terminado daquela maneira. Morando numa casa de subúrbio. Mas depois daquele momento que eles presenciaram noites atrás, e do dia seguinte quando ele foi expulso de casa e os dois tiveram que jogá-lo da escada, não era difícil que ele estivesse na pior.
Depois da pequena conversa ele foram até seus aposentos. Que nada mais era que um pequeno quarto numa edícula nos fundos da casa, para os empregados. era uma parte escondida e nada bonita da casa. Uma das portas dava direto para a cozinha. O lugar era justamente para os funcionários que tinham que dormir lá, como era o caso dos dois.
Eles dividiam um pequeno quarto ocupada por duas camas, uma luminária fraca e um guarda-roupa. Haviam três quartinhos no máximo. Então quem tinha que dormir lá teria que dormir no mesmo cômodo. Era o caso dos dois, que não se incomodavam. Conseguiam conviver muito bem juntos com isso.
Os dois tiraram seus uniformes e colocaram suas vestimentas para dormir, que eram praticamente iguais. Vestiam uma regata preta com um shorts que ia até os joelhos. Era a maneira mais confortável que encontraram para poder dormir. E mais comportada, caso precisassem sair para alguma emergência. E se tratando daquela mansão, sempre havia alguma emergência.
O tatuado notou o cansaço do motorista. Quando eles sentaram, cada um em sua cama, ele tentou voltar à conversa, falando baixo, pois aquelas paredes eram fracas demais para manter segredos.
— Escuta, Maciel. Tá tudo bem?
— Tô sim, só um pouco detonado. — Respondeu alongando as costas.
— Essa encontro com o Félix deve ter sido tenso, né?
— É, também. É meio estranho ver ele daquele jeito. Logo ele que sempre empinava o nariz pra falar com a gente. Agora tá lá, frágil, pedindo ajuda pra todo mundo.
— Se bem que, depois de tudo, meio que seria um idiota se ele continuasse com aquele ego dele.
— Pior. Mas por favor cara, não vai me contar nada pra Dona Pilar que eu encontrei ele. Ele quase me pediu de joelhos pra que eu não falasse nada.
— Pode deixar, não vou falar nada. E também, duvido que ela vá querer saber alguma coisa dele agora. — Observava o mais alto se aprumar em sua cama. — Mas você não me parece cansado só por isso, não?
— É por tudo, cara. Por tudo. As vezes dá vontade de berrar dizendo chega, de tão cheio que eu tô dessa porra toda.
— Pior que eu também me sinto. E as vezes penso que tudo só vai piorar. — Abaixou a cabeça. — Mas piorando ou não, a gente vai ter que continuar trabalhando. — Se aprumou. — Boa Noite.
— Boa Noite. — Assentiu.
A luz da luminária foi apagada e de imediato os dois foram dormir. O batente do próximo dia, como todos os outros, começaria cedo. Logo às seis da manhã e todos os empregados, sem exceção, deveriam estar prontos, cada um cuidando do seu serviço. Certamente que os dois não iriam ter uma boa noite de sono. Mas isso era um luxo que eles não poderiam pagar.
Já fazia um ano que os dois dividiam aquele cubículo chamado de quarto. Desde que Felix contratou Wagner para trabalhar de mordomo, Maciel já era o choffer da família fazia alguns anos. O envolvimento fez a dupla criarem uma relação muito forte entre eles. Um era o único amigo do outro naquela casa. O fato de serem os dois únicos funcionários homens que tinham mais contato com os Khoury facilitou pra que essa amizade se fortalecesse.
Um havia se tornado o “confidente” do outro. Wagner sabia de sua paixão com a Pilar e de sua relação com a matriarca da família. Já Maciel era o único que sabia que Wagner se envolvia com Edith no próprio quarto do Felix. Eles se entendiam e não havia julgamentos, pois sabiam que não eram perfeitos. Eles também sabiam dos dilemas que cada um passava com seus romances, que não eram nada tranquilos.
Wagner não sabia se teria algum futuro com Edite. Ele até acreditou que a relação dos dois melhorariam depois que ela havia se separado do Felix, mas eles se afastaram ainda mais. Edith estava cada vez distante. Não havia relação, se ele tiveram alguma transa nas últimas semanas era muito. Parecia que para ela, ele só servia para ser seu amante tatuado. E ainda tinha aquela mãe botando minhoca na cabeça dela e piorando mais as coisas.
As coisas para Maciel não estavam melhores, nem de longe. Quando achava que sua relação com a Pilar melhoraria, ela tratava de recuar. Não sabia se era por medo, ou simplesmente vaidade por parte dela. Ela fazia questão de botar obstáculos entre os dois. Ele se sentia um estúpido por achar que teria algum futuro feliz com a patroa. Talvez o idiota do Doutor Jacques atenda melhor os seus interesses ao invés de um motorista mal instruído como ele.
O Sol mal nascera por completo e a mansão já estava movimentada. Pelo menos para quem trabalhava. Todos já começavam as suas atividades do dia. As empregadas, o jardineiro, o segurança, o porteiro. A casa já não estava tão cheia quanto antes. Félix havia sido expulso pela mãe como todos já sabiam. Paloma já estava morando com Bruno e a filha há tempos, assim como o Dr. César com a Aline. O time de funcionários, que não era muito, parecia mais numeroso.
Wagner era sempre o primeiro a acordar. Após se arrumar ele iria direto para a cozinha. Era ele quem ficava encarregado em cuidar de tudo que as empregadas faziam. Tinha que cuidar para que a mesa de café da manhã ficasse com a melhor aparência possível, como uma mesa de novela. Tinha que atender as visitas e ficar em pé próximo à mesa servindo os moradores.
Era sua rotina todos os dias. De domingo à domingo, quase sem descanso. Mas ele não reclamava. As duas empregadas que o ajudavam eram sua companhia na maior parte do dia. Elas eram divertidas e engraçadas, mas eram bem intrometidas. Adoravam fazer fofocas sobre os moradores da casa, e principalmente se meter na vida pessoal e sentimental do tatuado. Elas não sabiam de seu caso com Edith, mas faziam questão de meter o bedelho.
Maciel podia ficar mais um tempo na cama. Coisa de uns dez minutos. Todos os dias ele tinha que se arrumar bem. Passava o gel que fazia seu cabelo parecer lambido pela vaca. Colocava o terno quente e grosso, que não era muito confortável, mas já se acostumara. Tomava um pequeno café na cozinha, que nada mais era do que um pão com margarina e uma xícara de café.
A primeira coisa que fazia todas as manhãs ao sair era dar uma bela polida no carro. O preto da lataria tinha que ficar impecável. Um pequeno arranhão sequer naquele veículo importado, e já valeria todo o seu salário de um ano. Após isso ele entrava no carro e ligava o rádio. Sempre na estação que informava sobre o transito. Era sua obrigação saber o que estava acontecendo nas ruas que ele sempre passava. Saber do rodízio e se precisará se preparar para enfrentar um engarrafamento. Fora o fato de que ele tinha que conhecer São Paulo como a palma da mão. O trabalho de motorista poderia não ser um dos mais difíceis, mas tinha suas exigências.
À tarde, depois do almoço, o trabalho ficava mais tranquilo para o copeiro. Nada além de atender as visitas e arrumar os lanchinhos. Dava até para descansar. Já para o motorista era mais agitado, quase sempre estava nas ruas, seja levando a Pilar ao San Magno ou trazendo o Jonathan da escola. Eram dois trabalhos que tinham seus momentos cansativos, mas não haviam reclamações sobre isso. Quando ao salário, os Khoury sempre pagavam os empregados bem, eles tinham todos os seus direitos. Os dois não recebiam uma mixaria, mas recebiam o que era compatível com o que faziam.
Maciel levou Pilar ao hospital e ficou por um bom tempo. O motorista teria que ficar esperando. Mais um dia entediante para botar na conta. Nesses momentos, ele ficava na lanchonete que ficava no térreo do San Magno, e até podia contar com a companhia do pessoal que trabalhava lá. Eram boas pessoas. Dava para tomar um café, e até comer um lanchinho. Já que a espera era longa.
A pior parte era realmente esperar Pilar terminar de fazer seja o que fosse na administração. Era irritante imaginar que ela estivesse tão perto do Doutor Jaques. O médico canalha deveria estar cortejando ela com sua lábia de quinta categoria. O motorista não podia sair dalí, era seu trabalho. Tinha que ficar lá caso ela saísse a qualquer momento.
Passou-se mais ou menos uma hora. Dona Pilar havia retornado do hospital. Era hora de voltar para a mansão, e enfrentar novamente o transito caótico da cidade. O céu estava nublado, uma tarde tipicamente paulistana.
— Não tenho paciência pra transito ruim. E o tempo também não tá ajudando nada. — Pilar resmungou no banco de trás do carro.
Maciel não falou nada, apenas assentiu friamente. Preferia focar no que estava à sua frente. Precisava de algo para lhe tomar a atenção.
— Está tudo bem, Maciel? — Ela perguntou, desconfiado.
— Está sim, Dona Pilar.
— Parece que tem alguma coisa te preocupando.
— Sempre tem. Mas a senhora não tem que se preocupar com isso. Só diz respeito a mim.
— Eu sei. Mas eu só queria te ajudar.
— Não precisa, Dona Pilar. Eu estou bem.
— Já falei que não precisa dessa formalidade pra falar comigo, Maciel.
— Eu prefiro dessa forma. Com licença.
— Tudo bem. — Respondeu desapontada. — Escuta, eu posso te pedir um favor?
— Claro.
— Eu estou esperando uma encomenda de um tapete persa, e eu não estou com clima para ir pra qualquer lugar. Você poderia lá na tapeçaria pegar pra mim.
— Claro. Dona Pilar.
— E se precisar de ajuda, pode chamar Wagner que eu libero.
— Tudo bem.
Fazia dias que ficar calado era a melhor coisa que Maciel podia fazer. Definitivamente, não estava em seu melhor momento. Estava tão cansado de tudo.
Longos minutos depois, o carro chegou à mansão. O tempo ficara mais nublado, anunciando a tempestade que logo viria em seguida. Finalmente o motorista teria algum descanso. Não faria nada além de cuidar novamente do carro, que sempre tinha que ficar em perfeito estado.
Já para Wagner, era começo de mais trabalho. Era naquela hora que ele já começava a preparar o jantar. Era ele que cuidava da comida, sempre cozinhou bem e oferecia os melhores pratos para a família. Além de supervisionar o trabalho das empregadas que uma vez ou outra faziam fofocas e quase deixavam a comida queimar.
Sua habilidade com as panelas era nítida, gastronomia era sua paixão desde jovem. Ele ainda pretendia fazer cursos para melhorar suas técnicas e realizar seu sonho que era abrir seu restaurante. O mordomo sabia que tinha um belo futuro pela frente. Mas quem não se importava com isso era Edith. Foram tantas as vezes que ele tentou convencê-la a assumir uma relação para viverem juntos de vez. Mas a ex do Felix só se importava com um padrão de vida que talvez ele nunca pudesse oferecer.
Definitivamente, Wagner também não estava em seus melhores dias.
O tatuado estava na cozinha, tentando cuidar das várias panelas quentes, enquanto as empregadas ajudavam, quando Maciel apareceu por lá, encostando o corpo na porta.
— Escuta, Wagner. Posso te pedir ajuda numa coisinha?
— Pode falar, cara. — Respondeu se afastando do fogão.
— A Dona Pilar me pediu pra pegar uma encomenda de tapetes lá no outro lado da cidade, você pode vir comigo. Só pra ajudar.
— Vixe, vai ser difícil. Tô cheio de coisa qui.
— Não vai ser agora, só mais tarde. E depois, Dona Pilar me disse que te liberaria caso precisasse de ajudar.
— Bom, sendo assim… se bem que eu tô precisando dar uma saída daqui mesmo. Só vou adiantar as coisas aqui, aí eu te aviso quando tiver pronto.
— Beleza, vou estar lá no terraço. — Disse e depois se afastou.
Como ele disse foi para a área externa, próximo do carro. Passou um pano pela lataria e depois entrou nele. Ligou o rádio em um volume médio para ninguém poder escutar. Só o rock podia lhe fazer relaxar. Talvez pegar um tapete encomendado pela patroa nem seja um grande trabalho, e realmente não era. Mas sempre achava bom ter Wagner por perto para ajudá-lo. Um ótimo momento para os dois estarem juntos para desabafarem e relaxarem. Estavam precisando.
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