Só

1 Único


Os pés encolheram-se dentro do sapato desgasto, as mãos suaram frio e os olhos recaíram sobre todos os vagões vazios do expresso de Hogwarts. Sentiu o silêncio lhe apunhalar como o traidor Sirius Black havia feito. Sentiu seu estômago debulhar-se, da mesma maneira que fazia o estômago de Peter com sua grande e incessante fome. Sentiu um sorriso pequeno apossar-se de seu rosto, de maneira exata a James quando o perfume de Lily penetrava suas narinas.

Sentiu-se zonzo.

Procurou uma cabine de imediato e aprochegou-se da melhor maneira possível. Fechou os olhos e esperou o sono bater, mas a única coisa que fazia questão de lhe atordoar eram as lembranças de tempos felizes.

O acento vago a sua frente costumava ser preenchido pelo corpo espaçoso de Sirius e o seu próprio, enquanto James comprava um amontoado de doces. Conversavam sobre diversas coisas, de quadribol a política e de exames finais a Hogsmeade.

Aquela cabine era a mesma dos seus anos mais antigos; onde faziam inúmeros planos e traçavam suas brincadeiras futuras, era também onde James contava sobre suas férias, principalmente as maneiras que havia pensado para fazer com que Lily se apaixonasse. Era ali que em que sabia que enfrentaria mais um ano difícil, mas com seus melhores amigos.

E se alguém lhe dissesse que estaria anos depois no mesmo vagão em que conheceu as pessoas que mais amou em toda sua vida, ele obviamente não acreditaria. Afinal, em que vida havia se imaginado lecionando em Hogwarts? Sempre soube que não havia lugar para um homem como ele, mas mais uma vez Dumbledore havia mostrado que ele podia pertencer a algum lugar.

Era bom estar de volta no único lugar que conseguiu lhe acolher e que pode chamar de casa.

Porém, dessa vez, mais silencioso e perturbador. Afinal, não haveria Sirius, James ou Peter. Somente ele. Sozinho, enquanto o silêncio parecia seu maior desagrado.

E, não me entenda mal, estar sozinho não era uma surpresa para Remus. Mas permanecer sozinho onde passou a adolescência com os marotos parecia surpreendentemente assustador.

Encostou a cabeça no trem e fechou os olhos, essa parecia a coisa mais sensata a ser feita em situações apavorantes e solitárias como aquela. As mãos suavam frio e o corpo parecia menos tencionado agora. Manteve-se na posição por horas, sentindo a inquietude do silêncio lhe socar, enquanto os fantasmas do passado lhe acompanhavam.

Então de repente ouviu vozes questionadoras e risadas abafadas, ouviu os lugares ao seu lado e a sua frente serem preenchidos e as vozes das crianças pareciam lhe abraçar prontamente, enquanto o expresso finalmente movia-se para seu destino. E quando todo o silêncio fora embora e só restavam conversas infantis, foi quando Remus Lupin finalmente conseguira dormir tranquilamente.

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