Eu tenho orgulho de quem eu me tornei. Todos os meus passos em falso acabaram por me levar em uma direção correta e eu não poderia me orgulhar mais dos meus plantios. Não sou dada a grandes elogios a mim mesma, sequer reconheço minhas qualidades verdadeiramente, sou tão amarga quanto ao meu próprio reflexo que consigo transformar até mesmo um singelo texto referente as minhas boas práticas em um complexo de confissões de falhas, mas aqui estamos: Eu estou orgulhosa de quem eu me tornei, porquê eu estive lá. Eu estive lá em cada decisão que já tomei na minha vida, em cada frase mal colocada que já proferi, eu estava lá. Eu me acompanho desde a fusão de óvulo e espermatozoide que me trouxe ao mundo. Eu sei quem eu sou e isso é o suficiente.

Eu sabia quem era muito antes de formar uma consciência. Onze anos, uma paleta de sombra preta, batom bordô, seiscentos alunos me dizendo para tirar, todos tão mais velhos do que eu. Fotos minhas postadas sem meu consentimento nas redes sociais, tão jovem, uma criança, na realidade. Eu me lembro de matar a aula de religião pra conseguir chorar em paz enquanto lia os comentários que faziam sobre mim. Eu me lembro de sentir o meu estômago afundar quando me zoavam pessoalmente, mas eu nunca tirei. Eu não parei de fazer aquilo que eu gostava, quando ninguém ao meu redor não gostou. Eu não deixei de ser quem eu queria me tornar só por todos ao meu redor acharam que isso era uma vergonha. E aqui estou eu hoje, vinte e três anos, eu ainda não me envergonho de ser quem eu sou, ou defender o que eu acredito.

Durante alguns anos isso ficou tão perdido dentro de mim, essa pequena voz que me dizia para ser mais parecida com eles cresceu exponencialmente, e eu nem percebi. Mas não posso. Eu não quero. Eu não vou ser como eles. Essa é a melhor parte que eu tenho e não posso deixar que tentem destruir. A minha parte que sente profundamente com a dor de terceiros, a parte que quis estudar a cultura mulçumana mesmo quando era evangélica por que eu sabia que o amor era o maior elo que os seres humanos podem ter uns pelos outros. Essa minha parte, que se eu não tomo cuidado me faz amar imensamente pessoas que eu não conheço e têm me custado algumas das minhas cinquenta milhões de cicatrizes que eu tenho em meu coração desde que eu aprendi a respirar. Essa parte é a melhor parte que eu tenho, o melhor de quem eu sou, o melhor de quem eu sempre serei. Não posso deixar que isso morra dentro de mim.

E temos a minha lealdade. Você precisa ver o que sou capaz de fazer por aqueles quem eu amo. Você precisa ver quão longe eu posso ir pelo amor. Isso já me custou tão caro tantas vezes que até parece burrice listar essa habilidade como amor. Eu me lembro de chorar com as costas de encontro com a porta da minha casa depois de dar banho na minha mãe doente, eu me lembro de chorar nua no chão de um banheiro sujo pela falta de dinheiro para passar o mês, mas ao menos eu havia ajudado uma amiga. Todas às vezes em que eu se sacrifiquei em nome do sofrimentos dos outros sem nem piscar, isso é o que nunca poderiam tirar de mim. Nem todas as facadas que eu já levei nas minhas costas conseguiram tirar, então não se assuste caso eu lhe pareça dura demais, é porquê eu preciso ser.

Eu me orgulho de quem eu sou. Todo o meu amor, toda a minha lealdade, toda a verdade de quem eu sou é o meu grande reconforto. Eu sei que não importa o que me aconteça, eu vou ficar bem, porquê eu sou uma boa pessoa, mesmo quando eu precise ser má. O dom do envelhecimento que nos ensina os pesos e as medidas, nos mostra quem merece compaixão, quem merece indiferença e quem merece destruição. A maturação feminina é tão sutil como o gosto de um vinho seco na ponta da nossa língua quando o nosso humor já está alterado e as alças do nosso vestido de cetim estão caindo pelos ombros. Constatar a verdade e a significância de envelhecer sendo mulher não é mais ver o mundo com aqueles doces e ingênuos olhos de adolescentes, felizes e ávidos pelo que está por vir. Nós sabemos o que está por vir, nos foi avisado, sutilmente sussurrado para nós, mas ignoramos quando jovens. Isso não acontece quando envelhecemos. Nós não construímos mais casas em terrenos com históricos de avalanche, como não passamos do nosso horário no sábado, como também não gastamos mais nossas salivas preciosas com pessoas que não nos conhecem e não nos têm apreço. Tudo isso que antes nós não compreenderíamos, agora temos como mantra. O silêncio pode nos ser o nosso melhor amigo, principalmente quando não se há nada a dizer. Quando saias longas e bolsas de paetês podem compor as mesmas estéticas confortavelmente por você gostar do que vê no espelho tanto quanto gosta de ouvir aquela música que você indicou para todos os seus amigos. O bondoso dom do envelhecimento têm me aberto tantas portas e janelas dentro de mim que eu nem sequer sabia que existiam, e sou grata a ele. Ele me trás novos pontos de vistas sobre o mesmo por do sol que vi desde quando abri meus olhos pela primeira vez e pela primeira vez em muitos anos eu me encontro feliz por estar respirando, sendo carne, ossos e água.

Eu fico orgulhosa que eu aprendi a escolher as batalhas das quais eu quero participar. Feliz por não me imaginar mais sendo presa em detenção por algo desmedido que eu viesse a fazer em meus cinco minutos de insanidade. Eu aprendi quando me calar e quando falar, e isso não significa que eu parei de me colocar em defesa das pessoas que precisam. Eu ainda sou a voz que diz que não vai aceitar que crianças brinquem de humilhar uns aos outros e que não vai deixar com que as crueldades passem batido, mas agora sou prudente. No final eu não estava ficando covarde, afinal. Eu estava crescendo.

Fico feliz e orgulhosa que comigo morrerá a tradição de esconder os problemas psiquiátricos de toda uma dinastia. Você não têm ideia de quanta coragem eu tive que ter pra chegar até onde eu estou hoje.