Síndrome de Gaea.
13 Transtorno afetivo bipolar.
Notas iniciais
Existe um glamour diferente em toda a tristeza que eu sinto patologicamente como um estado gripal, eu estou sempre com febre, posso presumir. Minha febre é emocional, um estado de espírito, um gosto amargo como uma cerveja barata que desce garganta abaixo e me entorpece enquanto deixo fragmentos meus por todos os lados como fios de cabelo que caem pela casa e sujam o chão da minha cozinha. É um glamour diferente quando a melancolia me abate novamente, como porcos caminhando para as lâminas do açougueiro — Já que ela pontualmente sempre chega, às vezes, mais pontual que a minha menstruação, que as estações do ano, mais pontual do que o ponteiro do meu relógio, de todos os relógios do mundo. É algo sistêmico, eu notei. Ela chega devagar e silenciosamente como gotas de chuvas discretas que caem sob nosso solo nas tardes de inverno, dando sinais pelos céus de que chegará para me encharcar. E eu nunca consigo desviar dela. Ela não é casual — A tristeza. — Ela é esporádica. Como um parente indesejado, ela não pede licença pra entrar, só entra. Entra e me põe de joelhos, como a droga de uma escriba. Pronta pro dia em que eu vou ceder, e me matar. Eu tenho que disfarçar ela, e eu sou especialista nisso. De viver de aparências, eu entendo. De esconder hematomas, também.
Acho que sou hipócrita quando digo aos meus amigos que os quero vivos e que eles deveriam lutar pela vida deles, já que para ser sincera, sei que eu mesma não tenho muito apreço por estar aqui na terra, respirando esse ar maldito que invade meus pulmões, cambaleando pelos propósitos imaginários que eu estabeleci no meu subconsciente que me impedem de findar minha vida. Lugarzinho pavoroso, este em que estamos. Aqui é a divina comédia, em live action. Imagino que Boca do inferno deu risada quando faleceu, finalmente, deixou seu calvário. Me pergunto quando eu deixarei o meu. Às vezes, durante o trânsito, fantasio que um caminhão esmaga o carro em que estou, morte imediata e indolor. Às vezes, acendo um cigarro que eu nem trago direito apenas para queimar o lado direito do meu pulso esquerdo e pra me lembrar que esse é o máximo de dor que eu deveria sentir, que eu deveria aguentar. Isso evita que eu saia me picotando por aí. Eu tenho vinte e um anos e infinitas paixões por coisas terrenas das quais são difíceis de administrar ou deixar ir. Eu amo as palavras, brincar com elas, sobre elas, entre elas. Eu amo pintar, desenhar, ler e apreciar qualquer tipo de expressão sentimental e cultural. Amo filmes, séries, livros. Sou uma fã das coisas patológica. Isso me mantém viva. Acho que a arte e a ciência são as únicas coisas boas que a humanidade conseguiu conceber e ainda assim, as corrompemos com gana e nossos hábitos ruins.
Eu já teria morrido, mas não é o tempo. O ponteiro do meu ser gira ao avesso. Ele anda pra trás e eu não gosto da minha retrospectiva. É uma espécie de desalento para mim, com meus complexos de grandeza ter tido uma vida tão inútil quanto sou. Não me imagino casada, nem acho que exista alguém no mundo que encaixe em mim, como sou. Não me imagino em nada, tenho planos, mas eles são como promessas pro vento, só pra eu ter mais ou menos um norte do que esperar de mim e minha existência mequetrefe, numa rua qualquer de uma cidade pequena às 21 da noite juntando sílabas tentando traduzir o quanto eu quero, desesperadamente, o descanso eterno disso tudo que é sentir que não se é nada. Um oco metafísico. Um conjunto de carne e órgãos com plasma e oxigênio que não sabe matemática básica e joga o cabelo para as pessoas a acharem delicada. Sempre funciona, eles me adoram. Quase nunca suspeitam que eu me odeio. Que secretamente, quero me machucar todo o tempo. Às vezes me autoflagelar é tudo o que eu penso. Repetidamente, interruptamente. Quero, mais do que a morte. Suspeito que eu queira a dor, porque isso é tudo o que eu acho que eu mereço — Dor e solidão. Não sou digna de ninguém.
Eu não sei o que têm depois da morte. Não sei se vou conhecer Jesus e ele vai me odiar por já ter atração física por outras mulheres, não sei se ele condenará meu pai biológico ao inferno por ter cedido ao suicídio, não sei se terei de voltar novamente para o purgatório para evoluir todas as mil coisas que eu tenho uma lista das quais terei de evoluir — Se for algo de escolha, desejo não voltar. Seria cruel, seria desolador. — Não sei se somente vermes irão devorar minha carcaça e restarão somente ossos e tatuagens em carnes podres para contar essa história — Espero que meu túmulo não seja violado, eu ficaria muito irritada com tamanha perversão. Acho homens desprezíveis, corrompidos e estúpidos. — Mas, de todo modo, é isso o que me impede. Medo. Medo do que eu não sei. Eu abandonaria minha mãe, meu pai, meus irmãos. Eu deixaria minhas tias chorando, como venho incansavelmente tentando desde os 5 anos, mas, com o acesso à consciência, parei. Parei de tentar. A última vez foi há meses. Jurei que nunca mais. Ainda vejo meu pai dormindo na beirada da cama, com medo da doida da maca ao lado me machucar. As olheiras profundas da minha mãe, algo do tipo. Eu sempre prometo, nunca cumpro. Eu tento de novo, e eles tem que me resgatar. Aí eu vou pra sutura, lavagem, cirurgia, tanto faz. Sempre alguém me resgata. Não sei porque eles lutam tanto por mim, eu mal me suporto.
Eu me arrastei o dia todo como uma serpente pela casa. Não escovei os dentes ou me banhei, mas chorei, se é que isso conta. Chorei por ser um fracasso, chorei pois fracassar é tudo o que eu consigo desde que me entendo por gente. Chorei visto que não importa o quanto em fantasie e tente me tirar da realidade, esta é a minha realidade, e eu não sei o que fazer. Voltei para casa para melhorar e eu não estou melhorando. Estou assistindo minha vida passar. E isso me incomoda. Ao menos, não estou bêbada — E me entristeço por isso também.
Fique longe de mim. Corra para as montanhas quando me conhecer. Eu não vou ficar, não vou durar. Não vai dar tempo de você sequer me conhecer — Eu não vou deixar, porque eu sei o que acontece com quem me ama. Quem me ama, se machuca. Um belo dia você vai estar tranquilo sobre nós, então eu vou deprimir e tentar me machucar, você vai se apavorar. Um belo dia, vou esquecer os remédios, entrar em mania e sumir da sua vista. Você não vai me encontrar, e eu vou estar livre demais pra me importar com os seus sentimentos. Fica longe de mim, eu não mereço ninguém. Sujeitinha miserável e deplorável, tudo o que eu fiz foi magoar meus pais. Eles estão em pedaços, não aguentam mais me internar. Eles fariam qualquer coisa pra eu melhorar. — Eles morreriam por mim, sacrificariam ambos os meus irmãos, eles podem me dar tudo, tudo, menos um cérebro saudável. Isso os destrói. Vai destruir você também.
E tic-taque faz o relógio. Ele diz que o tempo está passando. Na aula minha professora deve ter dito algo sobre neuplasias raras e mais tarde sei que terei outra conversa séria sobre minha incapacidade de fazer coisas simples. Meu pai está apavorado, acha que se me deixar sozinha, vou tentar me matar novamente. Talvez ele esteja certo, talvez não.. Tic-taque, faz o relógio. Eu odeio estar viva. Respirar me incomoda quase tanto quanto ter consciência e é por isso que às vezes eu quero passar dias dormindo. Tic-taque faz o relógio, gostaria que alguém me assassinasse pra que me livrasse da barra divina do suicídio. Tic-taque faz o relógio, me incomoda que a maior semelhança que eu tenho com o meu pai seja também não querer viver. Tic-taque faz o relógio, estou matando minha mãe de trabalhar e desperdiçando toda a sua grana e tempo hábil de vida. Ela acha que um dia eu vou melhorar, ela reza por isso. Eu não acho, acho que só morrendo. Tic-Taque faz o relógio, em contagem regressiva.
Eu não quero mais estar viva.
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