Você sabia que eu amava você? Por trás de todas as minhas muralhas, glitter, a merda do cigarro que queimava quase sozinho, a minha pose falsa de menina de ouro, amiga de todos, eu juro que lá estava: Eu me importava com você como a droga de uma adolescente. Era isso o que eu era, afinal. Uma pequena adolescente com problemas mentais e pouca expressão emocional. Sei que não era de se esperar muito de mim, e que ainda assim eu consegui frustrar todas as suas baixas expectativas ao meu respeito. Sou um ser humano desprezível — Eu sei. — E sinto muito. Isso, eu nunca te disse. Mas de alguma forma, preciso dizer isso agora.

Minha doce Pandora, eu não queria confessar que eu estive esperando sentada ao lado do relógio que você retornasse às nossas graças e aventuras, mas é verdade. Parte minha ainda espera que algum dia você me perdoe por tudo o que eu já te fiz passar. Mas eu sei que você não poderá fazer isso, talvez você nem seja capaz. No fundo da minha alma, se eu tiver alguma, eu sei, eu cavei um buraco em seu coração que só aumenta com o passar do tempo. Eu sei que avancei todos os seus limites e queimei todos os seus sinais de alerta, eu juro que sinto muito. Essa é a carta de desculpas que está transcrita no fundo do meu coração culpado, mas que meu orgulho e minha vaidade não deixam com que eu lhe fale pessoalmente. Sinceramente, quase dois anos se passaram e acredito que o meu prazo de desculpas realmente se expirou, eu sei. Meu nome é um amargo na ponta da sua língua, e lembrar meu rosto sempre vai fazer seu coração jorrar sangue. Mas sinto sua falta, eu juro.

A sua imagem têm passado em minha mente constantemente. Não há um dia sequer que eu não me lembro de você. Sentadas no parapeito da entrada da festa com pouco juízo e muita coragem, foi a primeira vez em que dividimos um segredo juntas. Todas as mentiras que contamos aos outros só por divertimento. Não são todos que têm estômago para estar ao meu lado, mas você fazia parecer tão fácil, mesmo quando eu te magoava. Acho que em partes faltou delicadeza da minha pessoa, Pandora. Eu estive tão acostumada a amigos ruins que quando te conheci drenei tudo de bom que você tinha. Acho que em partes faltou a minha empatia, Pandora. Eu tomei o que eu quis, eu não me importava se estava te magoando, apenas me jogava de cabeça e lidava com seu coração partido depois. Te levava até o limite da dor emocional só pra ver se você ia ficar. Nada fazia você desistir de mim, eu mal podia acreditar que era amada. Eu sinto tanto, Pandora, porquê você nunca vai saber que eu te amei, você nunca vai acreditar em mim. Depois de tantas decepções, eu também não acreditaria. Fiquei incrédula com o decorrer dos danos, mas juro que eu te amava, Pandora. Do único jeito que eu sabia amar alguém: Quebrado, desajeitado e venenoso. Deixando você se matar sem sequer demonstrar interesse em qualquer coisa que não fosse o meu próprio nariz. Sorrisos largos sem nenhuma gentileza verdadeira, eu sei. Mas eu amava você.

Eu amava você quando comemos aquelas porcarias psicodélicas até vomitar em um banheiro de uma festa qualquer. Eu amava você em cada escolha de figurino, de roupa pro final de semana, em cada maldito desenho em muros de rua que não deveríamos estar fazendo. Eu amava você quando descobri que compartilhávamos os mesmos segredos tanto quanto os mesmos gostos, o mesmo transtorno mental, mesmo nome. Eu amava você quando cruzavamos a cerca da faculdade pra poder fumar atrás do campo deserto. Eu amava você quando mentíamos nossos nomes pra estranhos nas festas e inventávamos toda uma vida nova pra nós apenas por diversão. Eu te amava quando você foi expulsa da sua casa e tivemos de fazer sua mudança desajeitada com nada mais do que duas caixas de roupa e um coelho de gênero neutro. Eu te amava quando você não gostava do bar que eu ia e ainda assim, estava lá todos os dias comigo. Eu te amava quando te arrastei por cada muquifo podre daquela cidade de merda. Eu te amava quando eu me olhava no espelho, e via você. E eu te tratei feito lixo. Eu te levei até o limite porquê sabia que você perdoaria, porquê eu sabia que a única coisa que você odiava do que a sí mesma, era ficar sozinha. Eu te amava quando você não conseguia me dizer "não", por puro egoísmo, eu sei. Mas eu te amei quando você aprendeu a se impor comigo, também. Eu te amava tão avassaladoramente sabendo que você não iria embora, porquê você não tinha família. E eu usei isso contra você tantas vezes porque me apavorava a ideia que você iria embora e me deixaria com a minha própria escuridão, sozinha.

Me perdoa, Pandora, eu não fui no hospital quando você tentou se matar, não te dei explicações, mas eu juro que não conseguiria. Éramos jovens e descolados demais, e eu não passaria nem na porta, não ousaria de forma alguma. Não teria peito nem estômago pra te ver morrer. Vi mortes demais na minha vida, então, eu apenas viro as costas e vou embora. Isso é o que eu não te disse nas milhares de vezes em que o assunto veio à tona. E, falando nisso, eu menti, Pandora. Eu não teria feito diferente se soubesse, não. Eu não teria ido, mas não por não me importar. Eu não teria forças. Eu não consigo não sair correndo primeiro quando algo na neblina acusa que eu perderei alguém. Tenho que ser a primeira a abandonar o barco, tenho que ser a que vai sobreviver. Eu sinto tanto por isso, porque eu parti seu coração e abandonei você quando você mais precisou. Me perdoa, Pandora, você sabe como eu sempre deixo lacunas a serem preenchidas por não conseguir me expressar, e foi de propósito. Eu não me expressei pra você ter que continuar voltando a me perguntar. Se eu fosse um mistério, se eu fosse interessante o suficiente, você não me abandonaria. Eu não poderia te deixar me acessar. Eu sinto tanto por isso, Pandora. Eu fiz o meu tratamento igual merda e te arrastei pro fundo do poço junto comigo, e eu me arrependo disso. Eu sinto tanto, Pandora. Levei comigo todos os seus amigos só pra descarta-lós depois como uma roupa ultrapassada, e eu sei o quanto isso te devastou. Eu realmente sei que você se sentiu traída, mas isso é algo que eu não tinha controle sobre. Não poderia convencer eles a te escolher, ao invés de mim. Era uma decisão unilateralmente deles. Você me dizia que estava ficando paranoica, e a culpa era toda minha. Eu estive confundindo a sua cabeça porquê a minha parecia um emaranhado de teias que se cruzavam e, não importava quanta terapia meus pais me pagassem ou quantas medicações eles comprassem, eu não achava o caminho do labirinto, me sentia condenada ao desespero pra sempre, mas você sabia que se você precisasse, eu a defenderia.

E ai você errou comigo. Uma vez, e foi o suficiente. Você hesitou uma vez de me defender em uma besteira e voltei toda à minha cavalaria no intuito de aniquilar suas chances de redenção. Eu já perdoei pessoas que erraram comigo mais de vinte vezes, mas você, não. Tão radical, eu estive ali, pronta para atacar. A verdade que não está escrita no meu laudo é que após tantos anos vivendo sob consequência da minha própria condição eu me tornei uma predadora. Você vacilou e eu ataquei. Todos ouviram o meu fugido quando eu peguei você. Que grande leão eu fui. Tinha sangue por toda parte, eu havia esfaqueado você pelas costas e você ficou lá, no chão, chorando. Você me perguntou como eu pude fazer isso com você, e tudo o que eu tenho a responder foi a mesma coisa que eu disse há dois anos: Você era a minha melhor amiga e você hesitou. Então você tinha que pagar.

Pandora, nós não temos um vínculo saudável com os nossos irmãos. E estávamos desesperadas para ter uma família. O vínculo que criamos uma com a outra não era nada além de tóxico e venenoso e eu sei que cada vez que eu chegar perto de uma pessoa com transtorno de personalidade Borderline será como sentar em um velho banco de uma praça que nós já conhecemos um dia, mas não mais. Eu sei que fatalmente, será uma desgraça mútua. Eu sei que sempre vai me lembrar o vínculo que eu tive com você.

Pandora, eu também achei que tinha uma grande e afetiva irmã, mas estávamos nos enganando. Nunca vamos suprir as lacunas da nossa solidão. O tempo nos trás essa sensação de que não há muito o que fazer além de esperar que a solidão um dia passe por nós. Tem gente que não melhora. Tem gente que se sente assim pra sempre. Se houver um Deus nesse mundo, céus, eu espero que ele não nos condene a essa existência miserável que nós duas temos compartilhado. Eu espero que a gente melhore. Eu espero que a dor passe. Eu espero que o vazio suma. Ou que ao menos, tenhamos uma morte gentil. É tudo o que eu desejo pra nós, uma migalha de paz nessas nossas cabeças instáveis que temos.

Pandora, eu me casei. Você nunca estaria convidada. Você teria a pior madrinha de casamento do mundo, mas teria ficado ao meu lado toda a cerimônia como sempre ficou nos anos que compartilhamos juntas. Você iria esquecer das alianças por estar bêbada demais para lembrar de carrega-las com você, iria dar em cima de todos os padrinhos, falaria as coisas mais absurdas possíveis na frente do meu pai — Que é um pastor fervoroso — E riria da minha mãe , me deixaria fumar em cima do meu vestido de noiva e me diria que eu me enjoaria do meu marido em pouco tempo, mas não seria verdade, Pandora. Não dessa vez. Meu marido é uma pessoa boa. Daquelas que dávamos risadas e debochávamos do seu bom comportamento, ele é um daqueles caras que nós não dávamos chance. O Lucas é a melhor pessoa que eu conheci. Eu nunca vou merecê-lo. Ele é gentil de verdade, sem o intuito de ludibriar ou tirar vantagem, como eu. Ele é tímido, dedicado e respeitoso. Ele é tudo o que eu nunca vou ser — Pelo menos não naturalmente, não sem um esforço avassalador que, convenhamos, eu tenho feito dia após dias, todos os dias desde a minha recuperação. — Ele é a melhor pessoa que eu sei que irei conhecer. E, Pandora, acho que pra você, eu fui a pior. Acho que você merecia mesmo uma amiga melhor. Juro que hoje, eu teria sido diferente. O arrependimento realmente corrói meus pensamentos de madrugada e a culpa dói até nos meus ossos. Levaram tudo o que tinha de bom em mim antes de eu te conhecer, juro que não sou o fui o monstro que você conheceu durante toda a minha vida. Eu estava tão desesperada por nunca mais ser passada para trás que comecei, compulsivamente, a puxar tapetes. Acredite, não foi uma coisa da qual eu me orgulho, principalmente com você. Mas também não é uma coisa da qual eu me culpo totalmente. Me tornei o resultado de todos os cortes que levei no meu coração, e você deve saber, há um limite que um coração pode sangrar antes de parar de bater. Eu estava morta por dentro.

Eu sei o que você pensou no momento em que me viu, porquê eu pensei o mesmo. Isso é a pior parte da situação — Saber e lembrar. Eu ainda me lembro de tudo, muito, muito bem. -Eu estava inclinada na parede da asteroide em uma fila com minhas amigas quando você e o rapaz que eu não sabia na época, mas seria o meu anjo da guarda, se aproximaram de mim. Você elogiou minha confiança, eu elogiei sua maquiagem. De alguma forma eu sabia que nós seríamos amigas. Eu conseguia sentir nos fios do meu cabelo que seria intenso demais. Ambas as duas tivemos uma conexão imediata, foi tão sublime quanto se lembrar de alguém que você já conhece. Não precisei fingir que gostava de outras coisas, ou que eu não gostava do que gostava, nós tínhamos os mesmos gostos, as mesmas piadas, o mesmo temperamento. Não demorou muito.

Lá estávamos nós, de alguma forma, sendo insuportáveis pra qualquer um que não fosse exatamente quem nós gostaríamos que fosse. Qualquer um que não nos agradasse, era imediatamente desprezado. Você era mesquinha como eu, você era uma fodida de grana como eu, você tinha problemas com tantas coisas como eu, você nunca parou em uma cidade, como eu. Você tinha problemas com seus pais, como eu. Seu tio era um viciado como o meu. Sua mãe se matou igual o meu pai biológico se matou, eles tinham a porra da mesma doença. Eu sei o que você pensou: Eu não vou mais ficar sozinha. Eu vou ter alguém pra envelhecer comigo. Eu sei que você não acreditava que um amor romântico fosse te manter por perto tanto quanto um bom amigo, porquê foi o que meu coração me falou toda a vida: Homens vão embora, amigas não. Entramos em combustão instantânea, e de repente, era a minha vez de te tornar mais forte, não a minha vez de aprender uma lição. E eu aproveitei ao máximo, fui pra cima de você com toda munição possível e acabei com a sua escassa saúde mental. Eu sei que nunca perdia a oportunidade de te golpear. Eu sei que parecia que eu não ligava pra você, mas eu juro, eu te amava. Aquilo era o meu máximo do momento.

Nesses dias em que me lembro de você lembro de todo mundo que eu afastei por ser fodida da cabeça. Então, me vêm a mente à memória daquele dia. Bêbadas na calçada de um bar nojento, entre um gole e outro você olha pra mim, que desabafando sobre mais um dos meus ex-namorados perdedores por quem eu estava amargando à vida quando me diz: "Você devia procurar um psiquiatra." E, me explicou, como se eu não soubesse, o óbvio:

Transtorno de personalidade Borderline. Era isso, todo o tempo. Todas às minhas emoções que costumavam me consumir como se eu fosse a porra de um papel queimando na berlinda. Os momentos de impulsividade onde eu propositalmente colocava minha vida em risco. Todas às vezes em que me submeti à minha maior dor apenas pelo martírio de me machucar. A busca patológica por um homem que eu amasse, e ele me matasse. Eu queria morrer jovem, rápido e gostaria de ter um enterro de caixão aberto. Eu dropava tanta merda de medicamento pra cabeça que nem conseguia saber a diferença entre uma terça e uma sexta. A oscilação entre santa e pecadora. Nunca um meio termo, sempre os extremos. O soco amargo que foi o diagnostico. O soco amargo que foi o tratamento. Todas às vezes em que quase fui internada, e me recusava a falar. Todas às vezes em que eu busquei no álcool saída pra assolar o meu vazio crônico, o oco que eu tenho dentro do meu ser. A minha falta de personalidade consolidada. Eu odiei você naqueles dias, eu sei. Você sentiu. Eu fiz questão de te tratar feito merda por ter me dado uma sarna pra se coçar, por me falar pra levar o tratamento a sério ao invés de ser apenas a porcaria da minha amiga de rolê irresponsável, jovem e livre, mas ai é que está a realidade: Você salvou a minha vida.

Serei eternamente grata pelos momentos ao seu lado, mas preciso te dizer que prefiro arrancar meus olhos a ser sua amiga de novo porque sei que isso provavelmente vai acabar em destruição mútua. Eu sei que você tentou, mas eu sou analfabeta em sentimentos. Eu sei, eu sei, eu juro que eu sei, que você deu o seu melhor. Mas você não conseguiria me salvar quando não conseguia nem parar de transar com garotos que te tratavam feito merda e faziam você tentar suicídio depois. Eu sei. Eu entendo você agora. Você era uma amiga muito melhor do que eu jamais vou ser, mas graças a você, tento ser uma pessoa melhor agora. Venho conseguindo. Sentindo sua falta e ignorando o sentimento de culpa. Tentando não pensar no que você faria se eu aparecesse na sua porta pra dizer o que eu nunca te disse: Eu te amo, me desculpa.

Obrigada, Pandora.

Eu não sou mais a Effy Stonem, graças a você.