Sétima Lua
3 Um toque do destino.
Notas iniciais
O fogo queimando por todos os lados provia a iluminação macabra daquela noite, no lugar da música alegre eram os gritos desesperados e o estalo da madeira incandescente dos Vurdóns em chamas que tomavam conta do ambiente, a fumaça sufocava e fazia com que seus olhos lacrimejassem, mas Elina estaria chorando da mesma forma caso não houvesse fumaça.
—Encontrem a feiticeira! —gritou um guerreiro assustador, ele não vestia camisa nem botas, seu corpo musculoso estava coberto apenas por calças e sobre sua cabeça havia o crânio de um grande lobo marrom, a pele do animal pendia por suas costas, estava montado em um cavalo negro, sua voz potente reverberou pelo campo aberto, sobrepujando-se ás vozes desesperadas do povo da Vila Andarilha. Elina não entendia o que, mas algo naquele guerreiro lhe era familiar.
—Sei que está aí Elina. O que prefere? Ouvir os gritos daqueles que morrem em seu lugar, ou dar sua vida por eles? —o guerreiro havia apeado do cavalo e gesticulava em sua direção, embora soubesse que ele não estava vendo-a, Elina sentiu seu corpo estremecer. O barulho de flechas cortou o ar, viu um homem passar correndo alguns metros á sua frente, o corpo estava em chamas, logo ele caiu e se contorceu até morrer. Ela olhou á sua volta e notou que aquele não era a única vitima dos guerreiros berserk...
Muitos dos nômades estavam mortos, e os que viviam estavam sendo massacrados. Guerreiros vestidos apenas da cintura para baixo, livres de escudos e empunhando armas assustadoramente pesadas marchavam na direção do povo pacífico que acolhera Elina durante sua fuga. Ela estava em choque, havia se escondido atrás de um dos Vurdóns em chamas e ali ficara. Não sabia o que fazer, não tinha como fugir e mesmo que tivesse não poderia deixar aqueles que ainda viviam. Eles morreriam por sua causa se fugisse, assim como todos os outros haviam morrido... Elina não conseguia parar de pensar, se não tivesse fugido, agora provavelmente estivesse casada, estaria em segurança e o povo da Vila Andarilha não teria sido trucidado.
Teria que se entregar, não havia outra escolha... Limpou as lágrimas e deu um passo á frente, mas antes que pudesse dar o segundo sentiu-se envolvida pela cintura e uma mão cobriu sua boca, abafando seu grito desesperado.
—Alessa, sou eu. —exclamou Renzo antes de libertar sua boca.
—Renzo. —ela murmurou virando-se para abraça-lo, apoiou a cabeça em seu ombro e chorou, despejando toda a dor que estava sentindo naquele instante.
—Temos pouco tempo antes que nos encontrem, precisaremos correr se quisermos ter alguma chance de fuga.
—Sua família...
—Estão escondidos. —emendou apressadamente. —Venha comigo. Não temos tempo...
—Desculpe Renzo. —ela puxou a mão que ele segurava. —Preciso me entregar para salvar os que ainda vivem.
—Eles não vão deixar ninguém sobreviver Alessa. Isso não depende de você.
Renzo segurou a mão de Elina novamente, ela não teve tempo para responder...
—Alessa... Tente entender, entregando-se ou não, meu povo já está... —as palavras de Renzo foram interrompidas por seu grito de dor, o corpo dele chocou-se contra o de Elina antes que ele caísse de joelhos sobre a grama, ela sufocou um grito ao notar a flecha que estava cravada no meio das costas do rapaz.
—Acabado? —indagou o guerreiro que antes estava montado sobre o cavalo, ele era alto, largo e pálido, e sua voz soou fria como o próprio sopro da morte. —Tem razão, nômade. Seu povo está acabado... —respondeu segurando Renzo pelos cabelos.
—Por favor! Ele não tem culpa de nada, nenhum deles tem! Não sabem quem eu sou, eles não sabem nada sobre mim. Tenha piedade. —Elina implorou em meio as lágrimas.
—Piedade não é o dom do povo de Bravenos. —ele comentou erguendo sua pesada espada, em um movimento rápido e calculado a lâmina rasgou a garganta do jovem nômade como rasgaria papel, dando fim á sua existência de forma tão banal como quem colhe uma flor para em seguida jogá-la sem vida de volta ao prado...
Elina puxou a mão que Renzo segurava e então a visão se desfez, fazendo com que ela enxergasse novamente no momento presente.
—Existe um mal... aprisionado dentro de mim. —ela tentou explicar enquanto ele a guiava por entre as arvores, mesmo que suas pernas tremessem e sua voz não fosse mais do que um sussurro. —E existem criaturas perversas que desejam libertá-lo. Os guerreiros que estão atacando a Vila Andarilha estão á minha procura.
—Mais um motivo para que fuja. —Renzo não parecia disposto á aceitar sua rendição.
—Mesmo que consigamos fugir, mesmo que não nos encontrem agora. Se eu não partir eles nos encontrarão e seu povo não mais existirá.
—Não sei á que mal se refere, mas eu posso cuidar de você Alessa. Acredite em mim, faria qualquer coisa para protegê-la.
Ela parou de andar e estendeu sua mão, quando ele pegou-a Elina o envolveu com os braços, repousando a cabeça na curva do pescoço de Renzo.
—Tudo o que eu queria era poder ficar... —comentou com tristeza, os dedos de sua mão esquerda passeavam pelos cabelos do nômade, desde a nuca até o meio das costas. —Colher frutos para que a senhora Najhira preparasse uma de suas receitas, vê-lo cortar lenha para alimentar a fogueira durante a noite, dançar sob o luar ao som animado dos bandolins, viver cada dia em uma parada diferente...
—Então fique... Prometo que nenhum mal vai lhe acontecer. —Renzo enlaçou-a pela cintura e afundou o rosto em seus cabelos, sua voz não era mais do que um sussurro, ele fechou os olhos e inalou profundamente.
—Sinto muito por isso... —suspirou a feiticeira.
—Sente pelo que?
—Ertivla etrom éta ueq o ogirep ebaca... —ela recitou contra sua orelha, Renzo caiu inconsciente logo depois, seu corpo ficou rígido, o coração parou de bater e a respiração cessou. Elina abaixou-se á seu lado, retirou a adaga que ele trazia no cinto e respirou fundo, o que estava prestes a fazer não era algo fácil, mas era necessário. Enfiou a adaga sob a camisa e pressionou contra a carne, fazendo o sangue fluir e manchar o tecido claro da camisa. Coração que não bate mais camisa ensanguentada deveria ser o bastante para salvar-lhe a vida, afinal, quem checaria um único corpo após um massacre?
—Adeus Renzo... —ela limpou as lágrimas que escorriam por seu rosto e então partiu sem olhar para trás.
Correu por entre as arvores, circulando a campina. Conseguiu se aproximar de um cavalo, montou-o apressadamente e incitou-o para que cavalgasse o mais rápido que pudesse. Ao notar sua fuga um dos mercenários ameaçou segui-la, mas o Berserk não permitiu que o mesmo partisse.
—Esperem aqui até segunda ordem. Eu mesmo irei atrás da feiticeira... — o Berserk comentou sorrindo enigmático, observando a feiticeira galopar pela campina, o vento forte trazia seu perfume e junto com ele o cheiro do medo.
Ele puxou a cabeça do lobo sobre seu rosto, cobrindo-o quase completamente, agachou-se recitando uma oração incompreensível, a pele do lobo caiu sobre seu corpo, ocultando sua forma. Então se pode ouvir o som de ossos trincando e grunhidos apavorantes. A pele do lobo grudou-se ao corpo do guerreiro, fundindo-se com a pele. Quando ele abriu os braços e levantou a cabeça tudo o que se pode ver foi o lobo, o homem não estava mais lá, mas a fúria contida naqueles olhos bestiais eram a mesma.
O lobo saltou e então começou a correr, ele parecia tão grande quanto o cavalo de Elina e surpreendentemente mais ágil. Ela olhou para trás e notou que ele se aproximava mais rápido do que ela conseguia fugir, mas não foi isso que chamou sua atenção, aquele lobo... Ela o conhecia. Fora ele que ela avistou ao lado de fora da cabana na noite da morte de seu pai...
Antes que pudesse esboçar reação um grande lobo de pelos avermelhados surgiu, o cavalo assustou-se e a derrubou, fugindo em seguida. Ela se encolheu pela dor da queda e o medo do duplo ataque. Mas o lobo vermelho não á atacou, ele seguiu seu caminho na direção do lobo marrom, atacando-o.
Eles pareciam ter o mesmo tamanho, mas a fúria do berserk parecia mais poderosa do que a do oponente e logo o lobo vermelho fora derrubado sobre a grama. Quando o berserk voltou á correr em sua direção Elina investiu suas ultimas energias para entoar um feitiço derradeiro.
—Omsiba odnuforp! —exclamou, fazendo um grande abismo se abrir diante de si. O lobo ficou preso do outro lado, rosnando para ela.
Ela esperou pelo salto que não ocorreu, pois o lobo vermelho jogou seu corpo contra o berserk e o derrubou no abismo. Ele saltou caindo alguns metros além de onde Elina encontrava-se. Ele estava ferido, o sangue jorrava do corte em seu abdome, vários arranhões se espalhavam por seu pescoço, braços e pernas. Ela pensou em correr, talvez tivesse mais chances fugindo de um lobisomem ferido. Mas até agora ele apenas havia lhe defendido, se o deixasse poderia ser ele o próximo á morrer em seu lugar. Pensou em seu pai, começou a chorar...
Ele urrou e então tombou sobre a grama, os pelos começaram a cair revelando a pele morena, pernas e braços encolheram de forma sutil, nariz e boca adquiriram formatos humanos, os olhos e orelhas diminuíram também. Até que nenhum sinal do lobo estivesse visível. Ele poderia ser um dos nômades da Vila Andarilha, um simples mortal. Um mortal bonito e completamente nu...
—O abismo é permanente? —ele perguntou com voz embargada. Ela acenou negativamente com a cabeça, o feitiço não duraria mais do que duas horas dado o cansaço em que estava quando o entoou. —Tenho que tirar você daqui então.
Ela acenou com a cabeça, sabia que tinham de partir, mas pensar em seu pai e nos mortos da Vila Andarilha...
—Eu sei que deve ser difícil para você, mas confie em mim. Vai ficar tudo bem... —ele se levantou e estendeu a mão para que ela fizesse o mesmo. —Com um ferimento assim não vou poder me transformar, vamos ter que correr até a margem do rio, mais ou menos cem metros á frente. Acha que consegue?
Ela acenou afirmativamente, tentando conter as lágrimas.
—Ótimo. —Elina segurou a mão que ele estendia e correram entre as arvores. Ela teve que parar duas vezes para recuperar o folego até alcançarem a margem do rio. Quando ouviu o barulho alto da agua Elina olhou para o lado e viu uma imensa cachoeira...
—Tire seu vestido, jogue na agua e passe isso no corpo. —ele lhe estendeu algumas folhas que arrancou de um pequeno arbusto.
—Sua vida e a minha dependem de você fazer ou não o que estou lhe pedindo. —explicou o lobisomem muito sério ao notar que ela não se movia. Elina pensou em recusar-se, mas ponderou sobre tudo o que já havia acontecido, as pessoas que morreram para salvar sua vida... Abriu os botões do vestido e o retirou rapidamente, jogando na agua logo em seguida. Retirou apenas o saco de moedas e depois vestiu a capa.
—Jogue sua capa também. —ele instruiu olhando-a fixamente, dessa vez ela não titubeou, apenas tirou a capa e jogou-a no rio, ficando apenas com suas roupas de baixo, esfregando as folhas no colo, pernas e braços em seguida, o cheiro forte a fez ficar enjoada.
—Se você não tiver cheiro, não tem nenhum rastro além do vestido descendo rio abaixo... —explicou o lobisomem esfregando as folhas contra seu corpo também, ela acenou novamente com a cabeça, estava tão atordoada que não conseguia falar.
—Acha que consegue nadar até aquelas pedras perto da cachoeira? —ele perguntou apontando para um conjunto de rochas, algumas planas e outras pontiagudas perto da queda d’agua.
—Acho que sim... —Sem responder ele saltou na agua levando-a consigo, segurando sua mão e guiando-a até as rochas. Subiram nas pedras molhadas com certa dificuldade, então ele a puxou para baixo da queda d’agua.
Elina sentiu a agua cair dolorosamente sobre si, e então seus pés tocaram no chão frio e seco de uma caverna parcialmente iluminada pelo luar. A caverna ficava atrás da cachoeira, o som da queda d’agua era tão alto que encobriria qualquer barulho que produzissem.
Ela sentou-se no solo e envolveu os joelhos com os braços. Estava com frio, cansada e com medo, seu corpo tremia e seus pensamentos oscilavam entre passado e presente...
—Vai ficar tudo bem. — falou o lobisomem deitando-se á seu lado, sua respiração estava pesada, ele fechou os olhas e ela pode analisar seu corpo. A pele abaixo das costelas fora arrancada, o sangue havia escorrido por seu abdome, pela coxa esquerda e descia pelo pé. Ele tinha muitos arranhões, mas grande parte já estava cicatrizando. —Depois do amanhecer provavelmente estarei totalmente regenerado e poderei tirá-la daqui. —ele prometeu, sua voz estava cansada, ele parecia exausto.
—A criatura da qual me salvou... Não é um lobisomem, não é mesmo?—ela indagou, embora tivesse quase certeza de sua resposta.
—Não... Ele se chama Zéfiro, é mercenário feroz. Dificilmente alguém sobrevive quando ele ataca uma aldeia. Ele nasceu em Bravenos, é um Berserk.
Elina engoliu em seco. Então a criatura que havia matado seu pai não era um lobisomem... Ela havia fugido de Antera por nada. Pessoas morreram por nada. Ela estava prestes á provocar uma guerra por causa de um engano...
—Eu preciso voltar para casa. Você pode me ajudar? —ela perguntou depois de alguns instantes em silencio.
—Zéfiro fará tudo para encontra-la, voltar para casa agora é impossível. Ele irá captura-la se tentar aproximar-se de seu reino. —retrucou o lobo, sentando-se próximo á ela.
—Ele matou meu pai. Matou o povo que me acolheu. E agora me impede de voltar para casa... —ela choramingou deixando as lágrimas rolarem por seu rosto, não tinha mais forças para resistir. —Tudo o que eu tinha este monstro tomou de mim. Irá tomar minha vida também, é questão de tempo.
—Ele não vai tocar em você. Vou protegê-la.
—Por que razão você me protegeria? —ela perguntou ficando alerta de repente. —Não me conhece, não sabe nada sobre mim. Quais os motivos que o fazem por sua vida em risco em favor de uma estranha?
—Também perdi meu pai, meu povo e até mesmo o direito de escolher meu destino, sou um desgarrado, não tenho Alcateia. Entendo a dor que você sente...
Ela ia responder, mas então viu o vulto iluminado pela lua crescente. A silhueta do lobo berserk era visível através da cortina de agua. Ela não saberia dizer se ele estava perto ou longe, mas sabia que a agua era a única proteção que possuíam... O berserk caminhava sobre as rochas, farejando, ou talvez os apavorando antes de atacar.
—Vamos morrer e eu nem sei o nome daquele que tentou me salvar. —ela sussurrou virando o rosto para o outro lado, encarando o lobisomem. Não queria morrer olhando para o monstro.
—Meu nome é Petros. —ele murmurou erguendo seu queixo, seus olhos se encontraram e ele limpou uma lágrima em sua face esquerda. —Não pretendo morrer esta noite, mas se o destino decidir que é chegada a hora quero que meus últimos momentos não sejam resumidos á medo.
—E o que você quer? —Ela perguntou tentando ignorar a presença do berserk.
—Um vislumbre do paraíso... —Petros segredou abaixando-se lentamente antes de cobrir os lábios dela com os seus. Elina nunca havia beijado alguém assim, surpreendeu-se, não sabia o que fazer. Colocou as mãos sobre o peito dele, iria empurrá-lo, mas aquele poderia ser o ultimo momento de sua vida...
Fechou os olhos e deixou que ele a segurasse pela cintura com uma mão e com a outra acariciasse a curva de seu pescoço antes de segurar-lhe a nuca. Os lábios dele eram quentes e surpreendentemente suaves, as mãos que a acariciavam eram incontidas e agradáveis. Os dedos penetravam entre os cachos escuros e depois desciam por sua coluna, trazendo-a para mais perto. Quando ela entreabriu os lábios e a língua dele invadiu sua boca, a feiticeira sentiu um arrepio subir por sua nuca. Suas línguas se encontraram com suavidade, ela sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto, mas não sabia qual o motivo. Seu coração estava acelerado, a respiração ofegante, ela não conseguia pensar direito...
Ele afastou-se um pouco, interrompendo o beijo. Elina olhou para trás e o vulto não estava mais lá, suspirou aliviada e notou que suas mãos tremiam sobre o peito do lobisomem.
Petros... Quando pensou que ira agradecer aos deuses por colocarem um lobisomem em seu caminho...?
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