Sétima Lua
2 Fugindo do Destino
Notas iniciais
—Tia Séfora...? —chamou Elina surpresa, parando á porta de seus aposentos assim que avistou a tia.
—Entre, querida, estava esperando você. —Séfora estava parada em frente á janela, de costas para Elina.
—Pensei que só retornaria em duas semanas. —comentou a feiticeira parando ao lado da tia, que olhava os jardins.
—Meus planos sofreram algumas mudanças. —respondeu Séfora lançando um olhar de soslaio para a sobrinha.
—Aconteceu alguma coisa durante a sua viagem? A senhora parece... Preocupada.
—Aconteceu, meu bem. O rei da Lycânia aceitou unir nossos reinos.
Elina sentiu as palavras de sua tia penetrando em seus poros como veneno, seu coração acelerou, a boca ficou seca, teve vontade de gritar e de chorar ao mesmo tempo, quando falou sua voz não era mais do que um sussurro rouco e embargado pelas lágrimas que ela teimava em segurar.
—Unir Antera ao reino dos lobisomens...? —ela cuspiu as palavras, sentia a raiva crescer dentro de si, era como se uma chama ardesse em seu interior, e ela não pudesse controlar. —A senhora não pode fazer isso! —protestou batendo com o punho direito na parede, usou tanta força que sentiu a lateral de sua mão esquentar.
—Posso e vou. —assegurou a feiticeira sem abalar-se pelo desespero da sobrinha. —Você não tem noção da importância dessa união entre nossos reinos, tem Elina? —indagou Séfora inclinando-se parar encarar a mais jovem. —Antera não é mais o reino de Anore, o poder das feiticeiras foi dizimado, nosso povo caçado como animais durante anos por culpa de uma única feiticeira... Agora que tudo está voltando ao normal não podemos nos arriscar outra vez. Precisamos dessa aliança.
—Foi um lobisomem que matou meu pai! —bradou a jovem feiticeira em um misto de revolta e desespero.
—Tem razão, um lobisomem matou seu pai. Agora centenas de lobisomens irão proteger você, defender o seu povo e manter sua família á salvo... Sem essa união Antera poderia ser atacada á qualquer momento, e não teríamos como nos defender contra um ataque. —Séfora respondeu em um suspiro, parecia exausta e sua voz exprimia uma preocupação que Elina nunca viu a tia expressar. —Essa união é a salvação de toda Ceridian. Somente protegendo você e mantendo Elíria aprisionada os treze reinos estarão seguros.
—Por que está me dizendo isso, tia? —perguntou Elina subitamente. —Sabia qual seria minha reação. Sabia que eu nunca iria aceitar essa aliança. Então porque me falar? Não precisaria me contar nada, a senhora é a soberana desde que meu pai morreu...
—Estou lhe contando porque a união dos reinos depende unicamente de você, Elina.
—De mim... ? —questionou Elina alarmada.
—Lorde Declan, o Soberano da Licânia, quer uma prova de nossa fidelidade... —começou Séfora tentando encontrar as melhores palavras. —Uma prova de que Antera nunca trairá a aliança com a Licânia.
—E o que eu tenho haver com tudo isso?
—Para que haja aliança você deve casar com o filho mais velho do Soberano licantropo, Príncipe Rafael. Caso não aceite nosso reino continuará desprotegido.
—Por que eu? Qual o propósito de um casamento?
—Ele quer Elíria sob seu domínio. Casar você com o filho dele é uma forma de protegê-la e impedir que o acordo seja desfeito ao mesmo tempo.
—Casar... com um lobisomem?
—Lorde Declan foi enfático. Ou você casa com o filho dele, ou será a nossa ruína... Elina, você tem que aceitar.
—Não... Tia, eu não vou casar!
—Então prefere ver seu povo morrer...?
—Eu prefiro morrer á casar com um lobisomem! Eu prefiro morrer á me tornar um mero objeto nas garras de uma criatura hostil.
—Pois saiba que se não casar suas irmãs morrerão antes de você. Eu morrerei antes de você. Todos morrerão antes de você, por que é o dever de cada feiticeiro de Antera protegê-la e impedir que o mal que você carrega dentro de si retorne. Sua decisão afeta á todos que estão á sua volta. Se formos atacados e mortes ocorrerem saiba que você será a única culpada!
—Prefiro tirar minha própria vida á dividir a alcova com um lobisomem... —assim que Elina terminou de proferir as palavras sentiu seu rosto arder pela bofetada que Séfora desferiu contra sua face.
—Você não tem ideia de tudo o que abri mão pelo bem do nosso povo... Não será a única a fazer sacrifícios, Elina.
—Não. Vou. Me. Casar!
—Então vamos todos morrer... Conviva com a culpa até que sua vida seja tirada e o caos retorne a Ceridian. -Disse Séfora entre dentes antes de passar por Elina e abandonar o aposento.
Assim que a tia saiu ela jogou-se em um canto do tapete, rodeando as pernas com os braços e repousando o rosto contra os joelhos. Não entendia como sua vida feliz e pacata pode ser arruinada em tão pouco tempo. Queria de todo coração proteger seu povo, mas não podia casar com um lobisomem.
Não depois do que havia acontecido com seu pai... Ainda lembrava o cheiro das rosas que saíra para colher á pedido de seu pai, o calor que envolvia a noite estrelada, seu coração acelerando quando vira a trilha de pegadas enormes marcada com sangue pelo assoalho de madeira e então o horror que fora encontrar seu pai banhado em sangue no chão da cabana. O Rosto pálido do rei Tálamus estava quente, o sangue jorrava abundantemente de sua jugular, Elina tentou estancar o sangue, mas seus encantos e os dedos trêmulos sobre o ferimento de nada adiantaram, seu pai morreu diante de si, e ela nada pode fazer além de chorar e manchar-se com seu sangue.
Quando a imensa criatura que o atacou parou a alguns metros de distancia ela gritou e estendeu uma mão em sua direção, recitando aos brados todos os feitiços dos quais lembrou, tentando deter a criatura, mata-la se possível, mas nada pareceu afetá-lo, e apesar de seus gritos ele não á atacou, nem ao menos se dignou a olhá-la antes de saltar entre as arvores e desaparecer na floresta...
Não... Ela não poderia casar com um monstro, mas se dissesse não e permanecesse em Antera sua tia encontraria uma forma de obriga-la. Só tinha uma coisa a fazer...
Levantou-se, pegou papel, tinta e uma pena, pondo-se a escrever em seguida...
—Sabe de uma coisa irmã, não vai conseguir tirar nada de Elina usando força... Ela é teimosa como você... —falou Pandora sentando-se ao lado de Séfora e entregando-lhe uma xicara de chá vermelho.
—Não... Ela é teimosa como Elíria. —comentou a feiticeira, girando a xicara entre os dedos.
—Séfora... Não diga uma coisa dessas! —suplicou Pandora franzindo o cenho.
—Você sabe que é verdade. Basta olhar Elina para ver Elíria. As mesmas manias, a adoração por criaturas mágicas, sua teimosia, a paixão por alquimia... Elina é uma cópia perfeita de nossa irmã.
—Apenas coincidências, Elíria está aprisionada, não pode interferir na vida de Elina... —contrapôs Pandora, ela recusava-se á crer no que a irmã falava.
—Isso está longe de ser verdade, Pandora. —arquejou Séfora levantando-se e se pondo a caminhar de um lado para o outro em um ritmo constante. —Elina tem tido sonhos, não são sonhos comuns. Ela sonha com lembranças da vida de Elíria.
—Você acha que Elíria pode...
—Ter encontrado uma forma de quebrar o feitiço? De tomar o corpo de Elina para si? —interrompeu a soberana de Antera, seus olhos fitavam o vazio, em seu rosto moreno apenas um franzir de cenho demonstrava sua preocupação. —Não são possibilidades nulas no momento...
—Se Elíria realmente está despertando, a única forma de detê-la é refazendo o feitiço que selou sua alma no corpo de Elina. E temos que fazer isso logo, antes que seja tarde demais.
—O feitiço só pode ser refeito e também quebrado durante uma noite de lua azul. A mesma lua do feitiço original.
—Vai demorar meses até a próxima lua azul. —queixou-se Pandora.
—Eu sei. Mas é nossa única esperança. —constatou Séfora, sentando-se novamente. —Pense pelo lado positivo, da mesma forma que só podemos refazer o feitiço durante a lua azul, os seguidores de Elíria só poderão tentar quebra-lo durante o mesmo período. Elina está protegida, depois que casar-se com o príncipe lobisomem nem mesmo um ataque do reino berserk poderá ser considerado verdadeira ameaça. Por hora não temos com o que nos preocupar.
—Se Elina aceitar casar-se.
—Ela vai aceitar...
—Tia Séfora!
—Tia Séfora!
—Meninas, por que tanto alvoroço? —perguntou Pandora quando Giorgin e Steffannel entraram correndo na biblioteca.
—É Elina... —murmurou Steffannel.
—O que tem Elina? —Séfora levantou-se sobressaltada.
A jovem estendeu uma folha branca dobrada ao meio em direção á tia. Séfora leu em silencio, não acreditava que aquilo pudesse estar acontecendo.
—Como ela teve coragem... Como ela pode fazer isso?! — Ela jogou a xicara cheia contra a parede, fazendo a porcelana espatifar-se em uma centena de pedaços e o liquido rubro e fumegante escorrer pela parede atingindo em seguida a madeira polida do assoalho.
—O que está acontecendo? — indagou Pandora assustada com a explosão da irmã.
Séfora ignorou a pergunta, apenas saiu em disparada pelo castelo.
—Elina fugiu tia. —respondeu Giorgin quando Séfora se foi.
—Pelos Deuses! Eu sabia que isso iria acontecer um dia, eu sabia! —ela resmungou indo atrás de Séfora.
Aquele seria um longo dia...
Elina acordou sentindo algo frio em sua testa. Sobressaltou-se ao abrir os olhos e ver um homem inclinado sobre seu corpo. Ela afastou a mão dele de sua testa e tentou levantar-se, mas sentiu sua cabeça girar e deitou novamente.
—Fique calma. —ele levantou as mãos em sinal de paz, afastando seu corpo do dela—Estou apenas limpando o corte em sua testa, está vendo? —ele mostrou um pedaço de tecido úmido e sujo de sangue.
—O que aconteceu? Quem é você? Onde estamos?
— Meu nome é Renzo e você está no Vurdón de minha família. Eu encontrei você na margem do rio quando fui buscar água, estava ferida e inconsciente, cuidamos de você nos últimos dois dias...
—Dois dias? Dormi por dois dias inteiros? —indagou alarmada.
—Você perdeu muito sangue, o corte em sua testa foi profundo, leva algum tempo para se recuperar de ferimentos assim. — ele comentou, apontando para sua cabeça.
Elina fechou os olhos por um instante e lembrou o que havia acontecido... Havia fugido de Antera, adentrado a floresta e quando tentou atravessar o precipício, o imenso tronco de arvore que ligava um lado ao outro havia se partido, e ela caiu atingindo a superfície com um baque doloroso, a agua congelante parecia cortar sua pele, o vestido ensopado fez com que afundasse rapidamente, a correnteza forte á levou como um galho seco, e então veio a cachoeira...
—Minhas roupas... —ela murmurou ao notar que o vestido que usava não era mais o seu, era um modelo muito mais simples, e estava um pouco largo.
—Najhira, minha mãe, trocou seu vestido. O seu estava encharcado. —ele comentou ao notar o olhar inquiridor de Elina. —Sua família deve estar preocupada, você sumiu sem deixar rastros á mais de dois dias...
—Meu pai está morto. Não tenho mais ninguém. —ela emendou rapidamente, não queria que ele pensasse em sua família, muito menos que decidisse ajuda-la á voltar para casa.
—Sinto muito. —ele tocou em sua mão, como um gesto de apoio.
—Eu também... —sua expressão tornou-se triste e os olhos turvaram-se de lágrimas.
—Está com fome? —ele trocou de assunto rapidamente ao notar o quanto ela estava abalada—Depois de dois dias dormindo acredito que esteja faminta. —ele sorriu e ela pode notar covinhas em seu rosto moreno, a pele bronzeada e os cabelos negros que ondulavam por seus ombros lhe conferiam um ar rústico e de beleza única.
—Sim, estou com fome...
—Vou pedir á minha mãe que lhe traga comida e água. —ele comentou levantando-se e indo em direção á porta.
—Renzo? —ele virou-se para encará-la da porta. —Eu gostaria de me levantar.
Ele sorriu novamente, e voltou para ajuda-la á sair da cama.
Quando atravessaram as portas duplas do Vurdón Elina prendeu o fôlego, vários Vurdóns formavam um grande semicírculo e no meio dele algumas fogueiras foram acesas e muitas pessoas sentavam-se em torno delas. Alguns estavam comendo, outros conversando, um pequeno grupo tocava uma musica animada que ela nunca havia escutado, um casal vestindo roupas de cores vibrantes dançava como se um fosse extensão do outro, era uma cena linda de presenciar.
—Enfim posso vê-la de olhos abertos! —comentou uma senhora rechonchuda, seu vestido verde contrastava com a boca vermelha, os cabelos ruivos e a face rosada, ela admirou Elina de forma insistente e a feiticeira sentiu que corava. —E que lindos olhos você possuí... Como se chama menina?
—Alessa... meu nome é Alessa. —Elina sentiu-se mal por mentir, mas precisava fugir e manter seu nome em segredo era uma necessidade imediata.
—Eu sou Najhira Zaaraya e este á seu lado é meu filho Renzo. —a senhora comentou sorrindo para os dois. —De onde você é criança? Estamos viajando á dois dias desde que a encontramos, então possivelmente estamos longe de sua casa. Mas Renzo pode retornar á cavalo e avisar sua família de que a encontramos.
—Não tenho família, senhora Najhira, muito menos casa para voltar. Eu estava passando pela floresta de Antera quando cai no rio.
—Não tem casa, nem família? —indagou a senhora Zaaraya consternada, Elina negou com um movimento de cabeça, e pediu perdão aos deuses em pensamentos. —Jovem Alessa, seja benvinda á Vila Andarilha. Pode ficar no Vurdón do clã Zaaraya pelo tempo que quiser...
Quando a senhora Zaaraya estendeu os braços Elina deixou-se envolver, retribuindo o abraço. Estava mais do que agradecida, os deuses conspiraram para que sua fuga desse certo, sua tia Séfora jamais á procuraria em uma caravana nômade. Ela não iria casar com um lobisomem, mesmo que tivesse de cometer uma loucura...
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