Notas iniciais
Boa noite. Feliz dia do escritor para todas as minhas amigas!! Inspiração sempre.

Dominique

O corpo começa a despertar, me sinto saindo da escuridão e reconhecendo o ambiente e os sons. Dia de faxina, o aspirador de pó está ligado e escuto seu som além da porta fechada, meu corpo desperta por completo quando sinto minhas pernas enroladas às dele. Aron passou a noite aqui.

Minha cabeça começa o trabalho de reviver a noite passada, e foi uma noite incrível, eu não sei se já tive uma noite tão intensa. Tento me lembrar em que momento dividir um champanhe virou a melhor noite de prazer em anos. Posso até sorrir, não devia, por que ele pode muito bem-estar agora mesmo marcando a data do nosso casamento, mas não consigo evitar lembrar de tudo com prazer.

— Aron, dormiu aqui. – Não me lembro quando foi a última vez que um homem amanheceu em minha cama.

— Sério? Não tinha notado. – Escuto seu riso, não quero abrir os olhos ainda, se abrir a vida começa e estou querendo ignorar um pouco a realidade, querendo manter mais um momento a magia da noite passada. – Acredita em fantasmas?

—Não. – Que pergunta para uma manhã como essa.

— Então sua casa está sendo assaltada, está ouvindo o barulho?

— O bandido do aspirador, ele invade sua casa com um aspirador e rouba seu pó, depois parte deixando sua casa limpa, a comunidade de ácaros está apavorada. Já se fala em um possível serial killer.

A risada dele contagia e acaba me fazendo rir também, sua perna enrolada a minha parece me alisar como um carinho e não fico imune ao contato.

— Vou deixar meu endereço. Tem uma faxineira?

— Uma amiga que me ajuda. Ouviu quando eu disse que dormiu aqui?

— Ouvi. Estou aqui pensando na desculpa que vou dar ao Theo, eu tinha uma reunião as oito, vou dizer que tive uma crise de enxaqueca.

—Parece bom. – Abro os olhos, ele está ao meu lado, os olhos escuros parecem leves, sorriem em minha direção. – Acorda de bom-humor. Nada pode me irritar mais.

— Desculpe ser uma pessoa bem resolvida e amanhecer feliz.

— Que dormiu aqui. – Talvez eu esteja um tanto repetitiva.

— Não me lembro de ter sido expulso, pelo contrário, eu acho que recebi um convite.

— Claro que não. – Me lembro de cada detalhe da noite, até quase amanhecer estávamos ocupados com sexo, depois eu simplesmente peguei e não teve um convite explicito assim como não teve uma expulsão determinada. – Esqueceu da noite? – Acho que não gosto disso, será que ele estava muito bêbado? Fico um tanto decepcionada por que foi bem legal e não gosto de pensar que ele não se lembra de nós dois.

—Lembro de cada detalhe, Dominique, a inesquecível. – Refreio uma reação carinhosa.

—Ótimo, sabe que essa coisa de casar e ter filhos e dormir junto e tudo que lembre um relacionamento não está nos meus planos? – Decido por um aviso expresso.

— Sério? Eu já estava aqui escolhendo a igreja. – Ele me provoca. Faço careta para o sorriso dele, cabelos bagunçados, olhar sensual logo cedo, esse homem é uma farsa, se faz de bom moço, mas é um vulcão. Farsante.

— Idiota. Isso inclui estar assim enrolado em mim.

—Tecnicamente é você enrolada em mim, estou no meu lado da cama.

— Seu o que? – Me afasto dele que parece achar graça em meu pavor. – Não conheço frase mais assustadora, é ofensivo sabia? Não se diz algo assim a uma mulher. Meu lado da cama. Não tem um lado da cama. Minha cama, meus dois lados.

— Dominique egoísta. – Ele não para. Me sento, passos os dedos pelos cabelos. A noite foi incrível, meu corpo reage e afasto o lençol, depois de dormir com ele, minha nudez não é grande coisa, e simplesmente deixo a cama em direção ao closet. Seu riso me acompanha, melhor que um assobio, já aconteceu uma vez, o homem foi embora nu, enquanto eu atirava suas coisas pela casa. Visto uma camisa e uma calcinha.

— Te espero na sala, tem toalhas limpas e sei lá. O que precisar para se recompor. – Digo enquanto vou em direção a porta.

— Fica linda fugindo de mim. Bom dia! – Ele grita quando bato a porta do quarto preferindo o sermão de Darla.

Na sala, dou de cara com Yves jogando algo no celular. Ele não ergue os olhos para me olhar.

—Está seminua. – Diz enquanto mostra sua agilidade em jogar.

— Nem ergueu a cabeça. – Digo me atirando no sofá.

—Visão periférica. Droga! – Ele reclama. – Empaquei nessa fase.

— Não tinha que estar na escola?

— Não tinha que estar vestida? – Yves me irrita.

— Nove anos, acho que é muito bebê para cuidar da minha vida.

—Não tenho nove anos há dois anos. – Ele diz ainda encarando o jogo.

Uso os dedos para fazer uma rápida conta e ele sorri.

—Cresceu esses dias. – O aspirador é desligado, sinto um mini pânico. Lá vem ela, posso até ouvir os passinhos apressados de quem vai me dar uma boa bronca. – Sua mãe.

— Ela encontrou uma camisa masculina no meio da sala. – Yves aponta a camisa dobrada sobre o sofá, faço uma careta de desgosto.

— Acordou? O homem foi embora sem camisa? – Darla tem as mãos na cintura. – Dominique você tem trinta e dois anos, não acha que chega de aventuras... tampe os ouvidos Yves, sexuais?

— O menino tem quinze anos, ele sabe o que é sexo!

—Onze! – Ele e a mãe dizem juntos.

—É a mesma coisa! – resmungo tentando desviar as atenções.

— Acha bonito o homem sair da sua casa no meio da madrugada sem a camisa?

— Ele não saiu! – Darla sorri, franzo a testa, eu e Yves trocamos um olhar de surpresa.

—Um namorado, finalmente. Vou correndo largar a faxina e preparar um bom café da manhã para o rapaz. Vamos engana-lo, ele vai pensar que é educada e gentil. Café fresco e torradas.

— Opa! Café da manhã? Aceito. – Aron surge sem camisa na sala. Atiro a camisa em sua direção. – Obrigado. – Ele sorri, Darla parece prestes a beijar sua mão, Yves deixa o celular de lado para olhar para ele atento. – Tudo bem, garoto?

—Yves. – Eu digo a ele.

— Yves, legal! Ele é seu parente?

— Filho da faxineira! – Yves responde por mim. Atiro uma almofada nele.

—Yves é filho de uma amiga, para de falar bobagem. – Reclamo detestando quando ele se coloca assim depois de todos os anos em que o amei como parte da família. – É “mon lapim”.

— Eu não sei, mas acho que agredir crianças é meio crime por aí. – Aron me conta enquanto Yves ajeita os cabelos amassados pela almofada e Darla sorri de um para o outro.

— Não agredi, atirei uma almofada, você já está de saída.

—Dominique, sua mãe e seu pai não te deram educação? – Darla reclama. – Bom dia. – Ela sorri para Aron. – Sou Darla, aceita um café?

— Desculpe, Darla, estou atrasado. Obrigado, quem sabe na próxima? – Ele me provoca. Adoraria dizer que não tem próxima, mas não consigo, não consigo dizer por que ele nem foi e eu já estou aqui imaginando se vamos ter outra noite como essa. Aron bagunça os cabelos de Yves mais uma vez. – Tchau garoto. Te vejo por aí. – Me diz de modo natural. Olha para os dois, parece pensar em algo para dizer e não sei se por conta da presença deles, ou porque não encontra uma frase que nos explique, mas ele apenas cala.

Quero dizer alguma coisa, mas acho que não é preciso, de todo modo é o Aron, não sei bem como será nosso próximo encontro, mas ele vai acontecer, temos muito em comum. Sei que vamos nos cruzar em breve.

—Tchau. – Digo enquanto ele segue para porta e Darla corre para acompanha-lo.

Quando se volta, ela tem um ar severo e as mãos na cintura. Alguém parece com problemas e esse alguém sou eu.

—Meu sonho é ver você casada, com filhos e juízo. – Darla pragueja.

—Meu sonho é que seu sonho não se realize. – Ando em direção ao quarto. – Não estou em leilão, não pode ficar me oferecendo assim como fez.

— E você não pode ser assim tão malcriada comigo. Vi você crescer. Lapin, tampa de novo os ouvidos. – Darla diz brava enquanto me segue em direção ao quarto.

— Eu não quero filhos, nem marido, sou feliz assim. Também não tem um marido.

—Acha que é fácil para uma mulher com um filho encontrar alguém legal? O pai dele era um safado, mas me deu um lindo presente e depois disso, os homens fogem quando tem uma criança envolvida.

Ficamos de pé no quarto nos olhando, ela é uma mulher forte e lutadora a quem admiro com o máximo do meu apreço, por nenhuma outra razão escutaria suas intromissões sem fim. É o mesmo com minha mãe, Darla também está sempre brigando com ela por conta dos maridos jovens.

— Amo você. Não precisou de ninguém, está indo bem com o Yves. Também não preciso.

Ela me abraça. Seus olhos estão úmidos quando se afasta, ela os desvia de mim porque esconde quando chora, esconde o peso da vida, as dores, guarda tudo para si porque ser uma mãe sozinha a obriga a ser sempre forte e fico pensando sobre tudo isso e gosto ainda mais do meu plano de ser sempre apenas eu.

— Os Chermont são tudo que tenho. Você e sua mãe, seu pai nem tanto, mas você e sua mãe são como minha família e quero que seja feliz.

—Eu sou.

—Eu sei, mas eu sou assim, tenho meus pensamentos. – Ela suspira. – Vou terminar meu trabalho, sabe que agora estou trabalhando para o seu vizinho do andar de baixo? Venho uma vez por semana.

— Não vou te dar parabéns, sabe o que penso, devia trabalhar apenas para mim. No máximo minha mãe.

— Gosto de estar em lugares diferentes todos os dias. – Ela me dá as costas. – Penteia o cabelo. – Diz antes de sumir e me deixar sorrindo. Encaro o espelho e o sorriso se desfaz. Aron me viu assim?

Os cabelos estão bagunçados, só eles já entregariam as emoções da noite anterior, zero maquiagem, uma camisa amassada e só. Felizmente eu não sou o tipo que sofre com a aparência, por que essa seria a hora em que entraria em pânico.

Ligo o chuveiro e assim que sinto a água morna sobre minha pele é como voltar a noite anterior e ter de novo seus dedos a me percorrer, ele é um pouco de tudo, sexy, bonito, forte e ao mesmo tempo carinho e não me lembrava mais de como era ter um momento de carinho, algo perto de ternura e não desejo.

Meu celular toca quando ainda estou enrolada na toalha de pé em frente ao closet. Pego distraída, pensando no que vestir, meu dia está tranquilo, só tenho um almoço com minha mãe e nada além disso.

— Alô.

—Como assim você transou com o Aron? – Dakota me questiona.

—Quem disse que transei com ele? – Pergunto chocada.

—Savannah disse que se beijaram e deixaram o Paradise juntos.

— E por isso já tirou conclusões? Acha que só porque o beijei já fui logo transando?

— Ah, não transou, desculpe, é que eu achei...

—Transei. – Aviso rindo. – Só queria provar meu ponto de vista, não era uma certeza absoluta, era uma possibilidade.

—Como foi? Queria estar aí, ele... vocês vão se ver de novo?

—Sim, temos os mesmos amigos, moramos na mesma cidade e frequentamos os mesmos lugares então... sim, acho que vamos nos ver de novo.

—Você entendeu. – Ela reclama. – Me conta, como foi?

—“Ma petite” ele é quente. Foi... ardente.

O riso de Dakota faz o sol brilhar, eu gosto de vê-la feliz, posso até transar com Aron de novo só para diverti-la, sou uma pessoa muito generosa.

— Vão ter um caso?

—Mais devagar “ma petite” foi uma noite quente e só.

—Dominique sempre cheia de certezas. – Dakota reclama. – Estou super atrasada, queria detalhes.

—Você vem para o fim de semana, vamos comprar o presente da Maitê e te dou todos os detalhes.

— Ok, adorei a noticia, me acordou num susto, mas valeu a pena.

—Te acordou? Savannah te ligou no meio da madrugada para contar isso?

—Ficaria tão brava se ela não tivesse feito isso. Te amo, tchau. Sorte com seu novo “affair”.

—“Au revoir”. – Assim que desligo o celular vibra de novo e suspiro já com um sorriso nos lábios. Serena surge na tela do celular com Theo e os meninos. Eu jamais teria uma foto como essa, é tão família feliz que assusta. – Alô.

—Me conta tudo, dormiu com ele! Que novidade fantástica.

—Por que acha que dormi com ele? – Pergunto a ela.

—Savannah me acordou de madrugada para contar que estava saindo do Paradise com Aron e um champanhe e que estavam aos beijos.

—E por isso já acha que fui para cama com ele? – Pergunto parecendo ofendida enquanto escolho uma roupa e levo até a cama. Volto em busca de sapatos.

—Ah que pena, achei que tinham dormido juntos, desculpe tirar conclusões...

—Dormimos, pior é que além de sexo também dormimos e eu e um homem não costumamos dormir na mesma cama por mais do que os quinze ou vinte minutos razoáveis para um descanso antes de um segundo ou terceiro round.

— Domi, vocês... como foi? É uma relação? Está apaixonada?

—Por que mesmo eu sou amiga de vocês? – Brinco já rindo. – Não, não é nada além de uma incrível noite de prazer que pode ou não se repetir.

—Uhm, quer dizer que...

—Serena, não sonhe, eu nem acordei direito ainda.

— Tudo bem, eu vou trocar a Maitê, o Theo saiu muito cedo para reuniões o dia todo, essa semana ele não parou um dia, ela já está sentindo a falta dele, anda muito manhosa.

— Contou a ele?

—Meu telefone toca as três da manhã, o que acha? Ele levou um susto.

—Vocês são ridículas. Savannah ainda vai ligar, Dakota já telefonou. Vejo vocês mais tarde, ou não, hoje vou almoçar com minha mãe e sei lá, passar o dia com ela.

—Um beijo amiga, acho o Aron um par muito, mas muito interessante.

—Pensei que fosse casada. – Ela ri antes de desligar. Antes que Savannah ligue, eu mesma pego o telefone.

—Alô. – Ela diz sonolenta.

—Fofoqueira, achei que o Andy nunca poderia ser superado, mas você não conseguiu nem esperar o dia amanhecer.

—Como foi?

— Bom, no nível mais alto, do tipo que se repete sem pensar muito. Uma droga isso.

— Adorei, foi um choque, Ethan está até agora sem acreditar no que aconteceu, não percebi nada até vê-los atracados no meio do bar, se pudessem se ver, foi quente.

— Eu senti. – Conto rindo. – Acordei você?

— Não tem problema, já estava mesmo na hora, Ethan acordou cedo para cuidar do Sean, agora é minha vez, assim ele dorme um pouco até abrir o bar. Hoje a babá só vem a noite porque vamos trabalhar juntos de novo.

— Bom, só queria te chamar de fofoqueira mesmo. Também tenho que ir. Bom dia.

—Tchau. – Desligo agora pronta para me arrumar e começar minha vida. Aron surge em minha mente de novo.

Aron

Que noite mais intensa e estranha, Dominique e eu? Nunca tinha pensado sobre isso, claro que ninguém é totalmente imune a sua aparência e charme, ela é linda, sempre foi e notei na primeira vez que a vi.

Só que nunca achei que viveríamos qualquer coisa, ela é diferente de mim em praticamente tudo, é muito independente, muito cítrica, muito linda e muito... quente. Ardente, os cabelos talvez, ou aqueles olhos, não sei, tem algo nela que está me consumindo, até que fui bem pela manhã.

Bem que quis traze-la para meus braços e começar o dia com um beijo, mas ela é arisca e não quero de jeito nenhum criar um clima ruim no grupo, se acontecer de novo... Bom, se depender de mim vai acontecer e pode ser que mais uma vez eu me de muito mal, porque é obvio que ela não quer se envolver e eu procuro por amor.

O que não me torna alguém incapaz de viver uma relação sem compromisso, não seria a primeira e talvez me faça até bem, no caminho, se alguém especial surgir, ou quem sabe se ela se tornar especial, por que não? Eu jamais fugi do amor, não vou começar justo agora, quando encontro uma mulher que mexe com cada célula do meu corpo como ela fez essa noite.

Eu queria não sorrir tanto, por que já estou indo para o escritório com a roupa de ontem e se a caso encontrar Theodor antes de passar em minha sala para vestir o terno reserva será bem difícil ele acreditar na enxaqueca.

No caso de conseguir mentir, por que nunca fiz isso, sempre acabo dizendo a verdade e o fato é que nunca, em todos esses anos trabalhando com ele, nunca perdi um compromisso, nunca falhei ou me comportei de modo irresponsável, isso me alivia, acho que tenho algum crédito.

Não devia acontece bem na semana mais importante do último ano, quando Theodor adia até o aniversário da filha e trabalha em pleno fim de semana, mas que se dane, aconteceu. O esquilão vai ter que me perdoar.

Allison está atrás de sua mesa, um tanto pálida e com ar abatido. Ela ergue uma sobrancelha quando me vê e ajeito a camisa enquanto faço um movimento com um dedo nos lábios pedindo silencio, ela sorri e me aproximo de sua mesa.

—Você está bem? – Pergunto baixo. – Está pálida.

—Mal-estar, todo dia isso, o médico diz que melhora em umas semanas. O seu chefe está ai dentro, trabalhando, mas não perguntou ainda de você.

—O seu chefe está guardando toda a ira para o momento em que cruzar essa porta. – Sussurro fazendo Allison sorrir. – Se eu gritar chame ajuda.

—Policia? – Ela brinca.

—Serena! – Respondo fazendo Allison tampar a boca para seu riso não ser ouvido. – Vou trocar o terno e volto.

— Devia tomar outro banho, está com um perfume muito, mas muito feminino, tão feminino que não seria nada estranho se alguém assobiasse para você na rua.

— Usei o perfume dela. Achei que era paixão ficar sentindo o cheiro dela como se ela estivesse ainda comigo, ainda bem que me lembrou.

Ando apressado até minha sala, não dá tempo de tomar outro banho, só coloco um terno alinhado, e penteio os cabelos. Encaro o espelho do meu banheiro ajeitando o nó da gravata. Tomara que consiga terminar tudo a tempo de dar uma passadinha no Paradise.

Quando passo pela antessala, Allison não está lá. A pobre deve estar no banheiro. Não bato na porta, tem anos que não faço isso, no trabalho, temos uma relação que não precisa mais dessas cortesias.

— Aron! Você por aqui? Como a entrevista de emprego? – Theodor ergue a cabeça dos papeis que lê. – Você começa quando.

—Estava em uma crise de enxaqueca, Theodor, tenha compaixão. – Minto deslavadamente, seu olhar é de um cinismo divertido, ele se recosta na cadeira com uma sobrancelha erguida.

—E foi curar sua enxaqueca na cama da Dominique! – Theodor ri.

—Já soube? – Me sento diante dele. – Cara que noite. Eu não sei como começou, mas terminou há pouco, com o sol raiando e acabei dormindo com ela e acordando tarde.

— Soube ontem, ou melhor, hoje, pela madrugada, quando saíram do Paradise Savannah ligou.

— Que absurdo, todo mundo comentando da minha vida assim sem permissão?

—Claro que não, ninguém liga para sua vida, estavam comentando a dela. – Theodor me provoca. Faço uma careta. – Me conta, já está planejando o anel de noivado? Ela é muito chique, vai te custar uma fortuna, terá que ser um diamante.

— Não estou planejando o futuro, estou sendo cauteloso.

— Sim, dá para ver, fico até surpreso, beijou e amanheceu na cama dela, é de uma cautela invejável.

—Theodor, finja que sou seu amigo Ethan, me de um bom conselho.

—Com ciúme? – Ele ri.

— Não, já disse, você é insuportável demais para ter amigos, mas o Ethan te suporta, então finja que sou ele. O que me diz?

—Corra enquanto é tempo?

— Tá, agora outro conselho.

— Não leve a sério o que aconteceu?

—Teria mais algum?

—Conquiste a garota?

—Esse, esse sem dúvida é um bom conselho, sabia que levava jeito para isso. Como conquistou a Serena?

—Eu... bom eu usei meu filho. Apelei para o sentimento maternal dela.

— Me esqueci o quão baixo você joga. Não dá para usar algo assim.

—Claro que não. Dominique não é maternal.

—Pois é. – Me encosto na cadeira depois de um suspiro de decepção. Fico em silencio, foi a melhor noite em anos, uma pena não dar uma chance a tudo isso.

—Está apaixonado por ela?

—Não. Só... encantado, ninguém se apaixona em uma noite de sexo.

Os olhos de Theodor o entregam, acho que ele viaja de volta ao começo de sua história com Serena, acabo sorrindo, Theodor era um cara frio, avesso não só a relacionamentos, mas a qualquer tipo de sentimento e hoje é talvez o homem mais romântico, apaixonado e feliz que conheço, um homem de família no melhor sentido da palavra.

— Acho que devia pergunta a Serena como ela fez para te conquistar.

— Existiu. Apenas isso, bastou existir para me levar para sempre.

— Shiu, para de passar vergonha, alguém te escuta e já era. Que vergonha.

— Como se não fosse o cara que arruma uma noiva por ano e está sempre apaixonado. – Theodor me acusa.

— O que temos para fazer hoje? Como foi a reunião?

— Agora quer saber como foi a reunião? Não tem vergonha de deixar suas obrigações de lado por uma noite de prazer?

—Não.

—A reunião foi longa, chata e improdutiva, fez bem em fugir dela, eu devia ter ficado em casa também, no fim marcamos para a próxima semana.

— Que droga. Vou dar uma olhada na ata, — Meu pensamento do nada, sem aviso me assalta e lá está o rosto bonito diante de mim, a boca carnuda, desenhada, os cabelos carmim espalhados sobre o travesseiro emoldurando a beleza sensual da mulher mais ardente com quem já estive.

— Acorda! – Theodor me acerta uma bolinha de papel amaçada. É o tipo de coisa que nunca se espera de um CEO, mas é claro que é totalmente possível vir do esquilão.

— Quantos anos você tem, esquilão?

— A questão é quantos anos você tem. Está parecendo um colegial apaixonado. Aposto que se vocês se envolverem seu codinome será esse.

—Será que eu vou ter um codinome? Seria muito interessante. Devíamos dar uns codinomes bem ruins para elas.

—Está maluco? Imagina se elas resolvem se vingar? Eu não me arriscaria. Jamais.

— Medroso.

— Aron, vai com calma. – Theodor diz sério como nunca é. – A Dominique tem suas convicções.

—Eu sei, não acho que ela busca um amor. Não acho que aceite um e eu... você estava outro dia me jogando para cima dela.

—Ainda estou, só vai com calma. – Ele diz em sinal de alerta.

—Está querendo vivar meu amigo? Todo preocupado.

— Não, mas quem sabe trabalhamos um pouco? Eu sei, talvez fique chocado, mas é isso que fazemos aqui.

— Depois de mostrar fotos de bebês.

—Claro que não. O Andy não é mais um bebê. Nem gosto de pensar nisso, tão independente. Come sozinho, toma banho sozinho, não suja mais a roupa a cada vez que come uma pizza. A última é que ele recebe convites para festinhas. Acredita nisso? Sou obrigado a deixar meu filho na cada de um estranho com outras crianças por duas ou três horas. O que acha que esses pequenos ficam fazendo com tão pouca supervisão?

—Brincando, assistindo a shows de mágica e talvez, comendo docinhos? É o que parece.

— Exatamente, é o que eles querem que acreditemos.

—Theodor, chama a CIA.

—Acha que eles já não estão de olhos abertos?

—Vou ler a ata da reunião e começar a trabalhar. O que eu dou de presente para Maitê?

— A Lupe tem tudo, eu ando um tanto fora de controle, mas ela adora bichinhos de pelúcia. Quem sabe dá um desses?

Eu deixo sua sala. Allison está de volta a sua mesa, me sorri e sorrio de volta, caminho para minha sala.

—Ainda está com o perfume dela. Pode evitar passar por minha mesa. Estou enjoada! – Ela diz e apenas aceno sem olhar para trás.

Me sento pensando que se fosse qualquer outra garota com quem tivesse me dado tão bem eu agora ligaria, mas é Dominique e corro o risco de vê-la pegar o próximo avião para Paris de medo.

O melhor é deixar a vida acontecer. Não sei que caminho vamos seguir, se ela vai agir como se nada tivesse acontecido ou vai me dar outra chance, o certo é que eu quero. Isso já é baste a saber por enquanto.

Satisfeito com minhas considerações finais, abro a ata da reunião disposto a me por a par dos últimos acontecimentos, se os cabelos de fogo deixarem minha mente um pouco. É claro.

Notas finais
Beijosssssssssssssssssss
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!