Série Pacto - Conspiração
26 DOIS DIAS DEPOIS...
Notas iniciais
Não era pra ser assim. Não podia ter sido. Mas o que mais me magoava, é que tinha sido.
Eu estava diante da mansão dos D'Crécy. Agora nada mais que vazia de novo.
E a dor que me rasgava o peito, era tão terrível quando uma mutilação. Dor de mágoa, dor de decepção. Ele tinha pedido minha confiança, e eu a dera, em vão.
Além da minha própria escuridão eu tinha que lidar com a de Átila, desesperado, atônito e furioso com a morte do pai, a desolação de sua mãe era ainda mais inominável, algo de partir o coração.
Eu abri o bilhete novamente, ainda querendo acreditar que não era a letra dele, que Jacques não havia escrito aquilo:
Ao nosso irmão Louis vingamos, derramando o sangue da família que destruiu seu coração.
Não há vestigío de arrependimento. Morte se paga com morte.
Eu nem sequer sabia que havia outro irmão. Fora Alexandra que esclareceu a história. A comunicação dela e Marc com certeza era melhor que a minha e de Jacques tinha sido. Talvez ele fosse um homem com menos traumas do que seu irmão mais velho.
Mas agora não importava, porque minha confiança por qualquer um deles caíra por terra. Eu não conseguiria nunca mais confiar em ninguém daquela família, nem do mais velho ao mais novo. Nem do mais amado e odiado.
Não imporatava qual deles tinha decapitado o pai de Átila. Concordar com algo tão animalesco e desumano bastava.
Uma trovoada soou no céu escuro. O vento soprou pelo meu rosto, agitando meus cabelos numa nuvem. Eu queria que a chuva viesse logo, assim ela podia lavar esse início de manhã tão desalentadora.
***
Olhei no relógio do celular. Eram três da manhã. E Jacques não voltara desde que recebeu um recado urgente de Amelie. Eu já estava explodindo de ansiedade, e nada na festa conseguia me distrair. Nem mesmo a pilha de presentes que a partir das duas tinha tomado o tamanho do Monte Blanc.
Meus pais estavam por perto, mas não podiam perceber a minha aflição, concentradas nas quatro unhas da mão esquerda que eu já tinha roído. Minha avó, como parecia ser um hábito, notou meu descaso com o clima animado ao redor.
O que está acontecendo, Lisa? Faz mais de duas horas que está sentada aí, sem parar de olhar na direção das portas – ela encarava meus olhos com tamanha itensidade que me senti acuada por um momento. Não dava pra duvidar dos poderes que minha avó certamente tinha – E só como informação extra, seus pais só não perceberam que está agitada porque está tocando a sessão dos anos cinquenta e sessenta.
Eu sorri, apesar do aperto em minha garganta.
Sim, eles adoram Elvis e os Beatles.
Você não? — vovó beijou minha testa. Sabia que ela estava tentando me distrair.
É claro – respondi, alheia, apertando o celular nas mãos a ponto de machucar os dedos — Desculpa vó, não consigo ficar calma.
Ouvi seu suspiro impaciente. Aliás, parecia muito com o meu.
Você não vai mesmo contar o que é, Lisa?
Eu coloquei o rosto nas mãos, sentindo o aparelho celular bater frio em minha testa. Daria tudo por algo gelado, mas minhas pernas não tinham energia nem ao menos pra buscar uma garrafa d'água. Podia sentir a umidade embaixo dos meus braços, na minha nuca e testa.
Eu estava abrindo a boca pra falar à minha vó quando Alê e meu irmão apareceram, cada um de uma direção diferente. Jeffe do andar de cima, e Alê do segundo ambiente. Ao me avistarem correram.
Você viu, Marc? Está sumido a horas! — reclamou Alexandra.
Amelie desapareceu praticamente no começo da festa, você a viu? — meu irmão parecia um cãozinho abandonado.
Fiz sinal com as mãos, os dois falando juntos não daria certo.
Jacques também saiu a muito tempo. Ele recebeu uma mensagem de... — a frase morreu quando o olhar do meu irmão capturou o meu.
De...? — insistiu Alê, insensível à tensão.
De Amelie. Parece que ela e mais algum deles estavam encrencados fora do clube.
Jefferson não deu palavra. Agora estava se sentindo tão aterrorizado quanto eu.
Alexandra demonstrava as emoções dentro dela mais explicitamente.
Mas isso foi a quanto tempo??? — choramingou, sentando em meu outro lado.
Bastante.
E eles não estão em parte alguma, não é possível! — ela levantou e começou a andarilhar.
Acalmem-se crianças, problemas de vampiros não são iguais aos nossos – minha avó se pronunciou, com voz muito tranquila – Às vezes são resolvidos em minutos, às vezes em dias, confiem em mim.
Confio, mas prefiro ficar andando que nem louca em meu próprio quarto – Alexandra sacou as chaves de seu carro da bolsa dourada – Alguém mais quer ir se auto flagelar em casa?
Vou com você – anunciou meu irmão, se postando ao lado dela – Você vem?
Abanei a cabeça.
Eu sou a aniversariante, e nossos pais não podem desconfiar. Lembra do segredo sobre nossas atividades?
Ah, é – ele concordou, parecendo estar a milhas dali, o olhar perdido – Vamos, Alexandra.
Os dois saíram apressados, Alê até tropeçou na barra do vestido.
Porcaria.
Vó, eu vou ao banheiro – avisei, sem encará-la. Era como se minhas pernas fossem gelatina.
Empurrei a porta do banheiro feminino, onde havia montes de garotas retocando a maquiagem, rindo e conversando sobre como a noite estava maravilhosa.
Que bom pra elas.
Ei, parabéns! Feliz níver! — exclamou uma delas, me enxergando pelo reflexo do espelho.
Acenei em cumprimento e dei um sorriso que me pareceu completamente apagado.
Devia estar de todo jeito.
Estava tocando Hey Jude, quando bati a porta do boxe e sentei na tampa da privada. Eu adorava a música, tinha lembranças muito doces de minha mãe a cantando pra mim, quando era pequena. Sempre que acontecia alguma coisa que me deixava triste, mamãe me abraçava e cantava. Era o que eu queria que fizesse comigo naquela hora, mas não poderia pedir.
Disquei o número de Jacques e esperei. A caixa postal me atendeu. Desliguei, e esperei, batendo um dos pés no chão de granito. Liguei mais vezes.
Eu fiz o mesmo até o relógio marcar quatro.
Então até as cinco.
E depois, eu não lembro mais.
***
Fui despertada de meu transe com um som de pancadas. Pulei de susto e abri a porta.
Jac... — eu parei na hora de falar e emendei – oi, pai.
Posso saber que diabos está fazendo aí? Te procuramos pelo clube inteiro!
Desculpe – minha voz estava falha e desanimada, e mesmo assim esperei que a euforia da festa pudesse toldá-la pra meu pai – O que aconteceu?
A festa acabou, são seis horas da manhã! — minha mãe assomou por sobre os ombros do meu pai. Minha avó estava atrás dos dois, muito discreta.
Hã? — eu estava tonta de sono, e a bateria do meu celular estava quase a zero. Não havia chamada perdida ou mensagem. Contive a vontade de sair gritando e chamando o nome de Jacques. Onde ele e os outros estavam?
O relógio marcava seis e cinco quando meu celular tocou. Eu quase o derrubei na pressa de atender. E assim não vi o identificador de chamadas.
Jacques?
Não, não é o Jacques. E nem o Marc, e nem qualquer um dos D'Crécy! – respondeu Alexandra – Onde quer que esteja por favor mexa-se! O pai de Átila foi ASSASSINADO! A polícia está aqui, parece um enxame de abelhas! VENHA AGORA! Não sei o que fazer por ele e nem pela mãe!
O QUÊ? — gritei, assutando meus pais, que pularam pra trás – Desculpe – pedi, minha cabeça parecia estar cheia de teias de aranha e névoa cinzenta – Espera, você disse...
ASSASSINADO, LISA! — ela berrou tão alto que afastei o celular da orelha – O PAI DE ÁTILA, MORTO! NOSSO AMIGO, ÁTILA!
Deus... — sussurrei, colocando a mão livre na cabeça. Ela iria explodir, eu podia jurar – Eu irei praí agora mesmo.
Quando desliguei o telefone fui atingida pela onda. Ela veio e me levou pra suas águas turbulentas e escuras, me atirando de lá pra cá, como uma boneca de trapos. Bati os ossos do joelho dolorosamente no chão frio, mas nem isso era pior do que aquela escuridão densa e impetuosa, que chicoteava e me arrastava pra baixo, cada vez mais fundo. Em meio à ela vi o rosto de meus pais.
O pai de Átila foi morto. Me levem pra lá. Ele precisa de mim.
Houve tanta agitação à minha volta que não consegui lembrar depois como fui parar no banco de trás do carro dos meus pais. Tudo que eu conseguia captar era a onda, me maltratando, me castigando.
Quando meu amigo apareceu no meu campo de visão, finalmente eu respirei e chorei em seu ombro, ouvindo os meus e os soluços dele. Alê estava junto de nós quando erguemos as cabeças, o pranto tão intenso quanto o nosso.
Átila, num minuto pra respirar, cruzou a vista com a minha. O dele era um poço fundo, de um abismo tão distante que eu não conseguia chegar em sua claridade. Estava toldada por dor e com um arfar de choque, notei que havia raiva. E era tão clara e poderosa que podia ter me atravessado. Ele puxou minha mão direita e colocou um papel dentro dela.
Abra. Meu primo achou e me entregou. Não podemos entregar pra polícia. Eles não acreditam em vampiros – sua voz estava morta, desprovida de qualquer emoção, o que me assustou mais ainda que a raiva em seus olhos.
Eu abri o papel:
Ao nosso irmão Louis vingamos, derramando o sangue da família que destruiu seu coração.
Não há vestigío de arrepndiemento. Morte se paga com morte.
Minha primeira reação foi agarrar o braço de Átila, e negar o que estava escrito.
Não, você não pode acreditar nisso. Eles não tinham mais irmãos.
Tinham. Um mais jovem, Louis Henri. Foi morto pelos ancestrais de Átila – respondeu Alexandra, com uma secura em seu timbre que não compreendi na situação, ergui o rosto pra ela.
Do que está falando?
Do que você ouviu – a secura continuava lá – E sei muito bem o que está pensando, Átila.
Minha família não assassinava ninguém sem motivo. Eles deram um motivo – ele respondeu, finalmente o calor voltando a sua voz, mas não de modo agradável – E não importa o que aconteceu no passado. Meu pai está morto. E a culpa é deles.
Eu parecia uma louca, balançando a cabeça. Eles não tinham feito nada disso. Eu dera meu voto de confiança a Jacques, e por conseguinte, à sua família. E os D'Crécy respeitavam o trato com os de Castro... não era?
Sei o que está pensando, Elisa – Átila girou na minha direção – Que havia um trato. Eles quebraram.
Não, eles respeitavam o trato. E não iriam se vingar por uma coisa que aconteceu tanto tempo atrás.
Tem certeza? — ele ergueu as sobrancelhas – Se alguém matasse seu irmão o que você iria fazer?
Provavelmente eu iria querer vê-lo punido, mas não o mataria! — respondi, o tom de minha voz mais alto. Alguns policiais nos observaram – A morte de alguém não trás de volta quem perdemos!
Fácil falar. Eles eram vampiros, Elisa. E nunca se deve confiar em um vampiro – ele puxou minha mão esquerda – Aqui está, estava em cima do bilhete – algo frio bateu na minha palma – Espero que sua cabeça aceite a verdade de uma vez por todas.
Pode ser falso! — protestou Alexandra com raiva, no momento em que ele dava as costas e andava na direção da mãe arrasada.
Não é – murmurei, incapaz de subir o tom de voz.
Nas minhas mãos estava o anel de Jacques. O anel que ele recebera de Anne.
Não, não pode...
Mas é, Alexandra! — eu exclamei em seu rosto, meu sangue borbulhando. Reli o bilhete – A letra é do Jacques!
Quando eu disse isso, ela se calou. Um silêncio tão retumbante que ecoou pelo lugar.
Eles não fizeram isso. Alguma coisa está muito errada. É muito injusto que você desconfie de alguém que ama você, Lisa!
Jacques nunca disse que me amava. E ele matou gente da minha família, Alê.
Ela não se surpreendeu.
Eu sei disso, e sei que ele pediu perdão. E você enterrou o assunto não é? Começou do zero! Qual é seu problema? — Alexandra estava me encarando como se eu fosse uma estranha.
O problema é que eles são assassinos, todos eles! — eu sacolejei seus ombros, como se assim ela voltasse a si – Amelie quase me matou, Jacques quase me matou!
Jacques te salvou depois, quando você estava a beira da morte. Ele ama você sua estúpida, e assim como Átila, está se deixando levar pelo passado! — ela me empurrou com tanta força que quase caí – Todos são culpados nessa história, Elisa, todos. Até a sua família.
Do que está falando?
Ela riu ceticamente.
A maldição, Lisa. Ou acha que Marc não contou tudo sobre sua vida? E pós vida?
Foi como se ela tivesse me chutado. Dei um passo pra trás.
Não precisa me lembrar.
Preciso. Porque ninguém é inocente. Se lembre desse detalhe, Lisa.
Eles mataram o pai de Átila, Alê. É disso que não vou esquecer. O pai de nosso melhor amigo – eu não estava acreditando que ela pudesse crer que eles fossem inocentes. O bilhete estava amassado na minha mão, e o anel na outra. Nem eu mesma, por mais que me dilacerasse por dentro, não acreditava que eles não tivessem assassinado o pai do meu amigo.
Ela esfregou o rosto nas mãos, emaranhando os cabelos sedosos e escuros nos dedos.
Eu desisto. Espero que não seja tarde demais quando você reconhecer que tudo que aconteceu aqui é muito suspeito. Que eu saiba, os D'Crécy não são os únicos vampiros do mundo – antes que eu pudesse argumentar ela já tinha ido embora.
***
O funeral ocorreu no dia seguinte. Não tenho palavras pra descrever as emoções que me inundavam: tristeza por Átila e sua mãe, raiva de mim mesma por ter sido tão ingênua, ressentimento por Alexandra que não falara mais comigo, estupefação, porque meu irmão estava fazendo o mesmo, dor, pelo meu coração em cacos, e decepção, porque eu tinha confiado em Jacques, e ele me traíra.
Eu sempre soube que contos de fada não existiam. Não havia príncipe encantado em cavalo branco, e tudo que eu tinha vivido com Jacques sempre foi mais violento do que qualquer história que eu tinha lido na minha infância. Desde que nos conhecemos, passando por nossos desentendimentos, desconfianças, beijos e sexo, nada combinava com enredo de história com final feliz. Mas lá no fundo, eu sempre pensei que se poderia dar um jeitto, se eu sanasse uma dívida tão grande como é a do meu sangue para com o dele, poderíamos ter paz. Longe de qualquer maldição.
Mas agora essa hipótese já não era mais animada. Não seria mais.
O fio tênue de nossa ligação fora cortada e dissolvera, deixando uma cicatriz tão profunda que poderia não haver cura. É assim que as coisas são e sempre serão.
Agora eu estava ali, na frente daquela casa tão imensa, com um papel nas mãos, um anel no dedo e outro no bolso.
Por quê eles fizeram aquilo?
Por quê ele abdicou do que eu poderia ter lhe dado novamente?
Nos dado?
Desabei na beira da calçada, com as primeiras gotas de chuva pingando em mim.
Eu derramei minhas lágrimas mais tristes e amargas.
Confiança. Ela é tudo.
E sem ela... não há nada.
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