Notas iniciais
nossa amiga loka!

Não era como se eu não duvidasse um pouco. Eu duvidava. Mas por dentro a minha convicção era maior que a desconfiança. Nenhum deles tocaria num fio de cabelo dos Castro. Eles tinham uma forte noção de honra (por certo trazida dos séculos onde ela existiu). A cada história de guerra e luta, Marc me contava minimamente, de cada detalhe, cada sensação. Algumas vezes eu ficava feliz de ter nascido neste século. E outras vezes desejava ter passado por todos os anteriores, ao lado de Marc, onde os vestidos eram mais lindos e a cortesia e etiqueta eram ensinadas desde a infância.

Não existe máquinha do tempo, então me contentei com as narrativas. E agora eu tentava relembrá-las, porque fui uma idiota em não ter gravado nenhuma enquanto ele ia contando. Idiota, idiota, idiota!

Eu tinha chegado primeiro na casa do Átila e tinha visto o pai dele.

Possivelmente a pior morte que alguém já recebeu. Ele estava tão mutilado que não pude nem duvidar de que haviam sido vampiros. Se bem que os D'Crécy não foram os primeiros a passar pela minha cabeça.

Eu sabia sobre Louis Henri, e seu triste fim, e querendo Átila ou não, foi um assassinato, o garoto não passava de uma criança, e a mulher que atacou implorou pra não ser feito nada contra ele. Bom, desde quando caçadores iam deixar algo assim passar? Por favor, eu tinha assistido Buffy e Van Helsing.

Só que me pareceu esquisito que a família do meu namorado fosse se vingar depois de tanto tempo, sei muito bem que eles concertam suas brigas no mesmo dia, não ficam um tempão esperando. Afinal, eles perseguiram a família da Elisabete desde metade do século XIV, ou pelo menos os rastros.

Não, eu não pensei neles. Eu pensei em Jean.

Bonito, perigoso e letal. Alguém que guardava rancor de muito tempo. E ele odiava os D'Crécy mais que tudo, especialmente Jacques. Francamente, acho os dois uns completos retardados de não esquecerem de um cadáver empoeirado mas enfim, não se pode fazer muita coisa. Pelo menos o Jacques estava tentando com Elisabete.

E claro, tinha que acontecer essa barbaridade justo num momento de acerto. Conveniente.

Pro Jean.

Bufei e parei meus pés inquietos sobre o tapete no centro do meu quarto.

Porra! – xinguei, me jogando na beirada do colchão – O que estou perdendo? Tem alguma coisa errada, tem sim! — soquei a madeira da cama e me arrependi no ato – Au! Filha da puta! — agitei as mãos no ar, mordendo os lábios – Porcaria!

Meu celular tocou no meu criado mudo. Corri até ele, ainda sibilando de dor.

Alô?

Alê, sou eu.

Fitei o chão com estranheza.

Jefferson? O que foi?

Você não acredita que foram eles, acredita? — ele jogou em cima de mim, sem hesitar. Não precisei me esforçar pra entender a pergunta.

Não. Mas tem o bilhete e o anel. Provas suficientes. Mesmo que eu sinta que não foi nenhum deles.

Amelie não permitiria nada disso – Jeffe comentou, com certeza na voz – Ela pode até ser perigosa, mas... ela não o mataria.

Eu sei. Amelie era um anjo – tentei evitar pensar que ela era doente, e que isso agravava seu estado vampiríco, não deixaria Jeffe feliz.

Não, ela não era – retrucou ele, agressivo, pra minha surpresa – Um vampiro não pode ser um anjo. Amelie era problemática, mas sei que não matou o pai do Átila, ela não é uma pessoa vingativa, pelo contrário, ela é amável demais pra este tipo de sentimento.

Muito bem, ele tinha um ponto. A garota era mesmo adorável e gentil.

E a irmã dela? — indaguei – Alienor sempre me pareceu um tanto arrogante.

Ele riu, me deixando de sobrancelhas erguidas.

Não posso falar nada. Só sei que esta é a personalidade dela, pegar tudo o que quer, sabe. Mas acho que ela ia achar tedioso refazer uma vingança. É, eu sei sobre Louis Henri, antes que pergunte.

É, só nós dois e Átila, na versão familiar dele. Só sua irmã que não teve essa informação.

Um suspiro longo do outro lado.

Acho que Jacques não era muito aberto. Talvez não gostasse de relembrar coisas que o deixavam pra baixo.

Burrice dele! — exclamei – Bom, nem adianta, Lisa está convicta de que foram eles! — comecei a andar de novo, apanhando minha bolinha de borracha pra terapia. Eu quase quebrava meus dedos quando estava agitada.

Eu sinto por isso. Acho que ela está se precipitando – ele parecia revoltado – E é uma bosta. Ela não ouve e quer esquecer do assunto mas... sei que não consegue. Está na frente da casa deles, agora. A vi pelo portão.

Não vai durar muito tempo, você a conhece, Lisa vai seguir em frente, machucada ou não.

É, eu sei – ouvi sons de plástico – Acha que foi quem?

Desconfio de Jean.

Ah, esse aí. Nunca o vi, mas Amelie me garantiu que não é flor que se cheire – agora ele estava falando engrolado, sinal de que estava comendo. Eu devia fazer o mesmo antes que meus dentes partissem de tanto eu apertar a mandíbula. Estava prestes a entrar em erupção se não me mexesse e fizesse algo.

Não, ele não é – garanti veemente — Por acaso Amelie te contou alguma coisa que nos dê uma pista?

Sei lá, ela me contou uns episódios familiares meio por cima. Outros eu esqueci. Mas o que quer que eu lembre em específico?

Joguei a bolinha que tinha na mão e pesquei um de meus colares dentro da caixa de jóias. Comecei a girá-lo no pulso. Cara, eu precisava mesmo de um descanço. Era emoção excessiva nessa minha vida. Pô, até gente como eu cansa de tanta adrenalina.

Se ela contou sobre qualquer um que poderia querer vê-los na pior, sabe, como torrar no sol ou enfiar uma estaca no coração.

Merda. Desculpe, eu não lembro. Gostaria que minha memória fosse melhor – Jefferson genuinamente estava irritado consigo mesmo, pude sentir em sua voz – Você suspeita de alguma coisa?

Sim. E sinto totalmente que estou deixando informação pra trás. Mas não... consigo achar na minha mente! — dei um grito estrangulado de frustração, atirando o colar na parede atrás da penteadeira. As bolinhas de vidro espatifaram, e se espalharam em todas as direções – Eu tenho que lembrar!

Calma, não force sua cabeça. Costuma piorar, acredite, eu sei – sua voz soou sábia – Descance. E se você lembrar, me ligue tá legal? Você tem um aliado.

Bufei e sentei no chão, de costas pra parede.

É bom saber disso. Obrigada, Jefferson.

Por nada. Vou desligar. Preciso dormir e esquecer um pouco das coisas.

Apoiado. Acho que vou fazer o mesmo em um minuto.

Aconselho. Até logo.

Até logo.

A linha emudeceu.

Me deitei na cama, e sem precisar me esforçar senti o sono causado pela fadiga, tanto física quanto psicológica. Eu odiava funerais. Me davam arrepios e eu tinha pesadelos depois.

Só que dessa vez eu estava no comando. Meu cérebro iria obedecer minhas ordens como jamais tinha feito.

Eu ia me lembrar do que estava faltando, ou não me chamava Alexandra.