Notas iniciais
Glossário da História Tsume = Garras Hogosha = Guardião Zetsubo no Yama = Montanha do Desespero Iro no Seiiki = Santuário das Cores Hikari no Mori = Floresta da Luz Boa leitura!

Por causa da situação de minha mãe, que piorava a cada dia, eu mandei uma mensagem para Hidetaka avisando que estenderia minha estadia de dois dias para uma semana. Ela se isolava cada vez mais e nem mesmo os netos a estavam animando. Saki não podia fazer nada, pois precisava cuidar das crianças, da esposa e dos animais que a família criava.

Meus outros irmãos moravam distantes e não pareciam saber da situação, então, como o bom caçula que eu era, resolvi cuidar de minha mãe eu mesmo.

Vocês devem estar se perguntando, como um cara como você, que vive em um palácio e só precisa ficar de olho na princesa, vai tomar conta de própria mãe? Meu colega, eu não poderia tomar conta da princesa se não soubesse cozinhar, limpar e cuidar de ferimentos. Sim, isso fez parte do meu treinamento e eu tenho certeza que foi a parte mais dolorida. Nunca tive tantos cortes como quando tentei cozinhar pela primeira vez.

Eu a convenci a sair do quarto e a sentei na cozinha, mostrando os vários pedaços de carne e alguns grãos que estavam em cima da mesa.

— O que pensa que vai fazer com isso? – aquela foi a primeira reação que ela teve em algumas horas e eu fiquei satisfeito, mesmo que ela estivesse usando um tom bastante irônico e incrédulo.

— Vou cozinhar, ma – respondi simples.

Ela me encarou como se eu fosse louco, mas se recostou contra a cadeira e ficou olhando para mim me desafiando a fazer o que eu me propunha. Aquilo era tudo que eu precisava: a dúvida.

Sorrindo para ela, eu selecionei algumas carnes – já que a maior parte dos pratos que sabia fazer envolviam aquilo – e separei alguns temperos. Depois que os lobos puderam se transformar em humanos, descobrimos que o paladar mudava e que o corpo de um homem precisava de muitos mais nutrientes que o animal. Então, fomos forçados a mudar nossa dieta aos poucos. Lobos como eu, que estavam mais acostumados a serem animais que humanos, não tinham problemas com nutrientes ou com a diferença no paladar, mas eu sabia que o resto de minha família mudara completamente seus hábitos alimentares.

Não, não perguntem. É óbvio que eu sei cozinhar comida humana. Vocês tem que se lembrar de que a princesa é, antes de qualquer coisa, humana. Lembrar-me dela não ajudou em meu humor, mas eu disfarcei o máximo que eu podia, dando toda a atenção para a mulher que realmente merecia.

De qualquer maneira... Fiz caras e bocas para ela, tentei fazer algumas demonstrações e acabei com um pedaço de carne grudado do teto. Ao cortar os vegetais, quase arranquei um pedaço do meu dedo. Derrubei um pouco de água fervendo no meu braço. Enfim, foi uma vergonha, mas o almoço ficou pronto antes do horário normal. Eu ergui os pratos de maneira triunfante e percebi que ela ria verdadeiramente de mim.

Sabe aquela sensação maravilhosa de ver alguém que se ama feliz? Eu aprendi o quão precioso era naquele momento. Minha mãe parecia a jovem que me criara, não a senhora preocupada com o próprio casamento. Eu sabia que desde muito cedo meu pai não era presente, mas ela ainda tinha a nós, seus filhos. Agora, depois de grande, nós nos afastamos, indo viver nossas vidas, e acabamos deixando-a sozinha.

No final, metade do que mamãe sentia era culpa de todos nós.

~000~

Três dias se passaram. Minha mãe parecia ter melhorado e Konata, meu sobrinho, resolveu virar minha sombra. Pedindo que brincasse com ele a todo o momento.

Se eu estava sentindo falta do palácio? Nem um pouco. A liberdade que eu reconquistei nos poucos dias em que estava em casa não era nem comparada ao tempo que eu precisava passar dentro das grades do palácio. Eu só sentia falta de Ailee e Issa, mas eles pareciam fazer parte de um sonho distante.

A vida estava tranquila, alegra e eu me recordei dos tempos em que dormir e passar o dia deitado eram as únicas coisas que eu precisava fazer. Era como se eu fosse me esquecendo aos poucos do tempo passado longe dali. Entretanto, as coisas não funcionavam daquela maneira.

Alguns dias depois, eu finalmente aceitara competir com Konata. Estávamos os dois no jardim, com uma corda entre nós, e meu sobrinho assumira a forma lupina e corria entre minhas pernas. Eu ria daquilo e me transformei também. Konata parou a minha frente, me encarando com os olhinhos arregalados e chocados.

Eu coloquei minha pata sobre a corda e apontei para o outro lado. Ele ganiu, mas correu, segurando a ponta com a boca. Peguei a outra ponta, pronto para fingir que teria algum trabalho quando um grito veio de dentro de nossa casa.

Saltei em direção a entrada e acabei quebrando a porta. Com as patas dianteiras flexionadas, pronto para atacar, olhei para os lados procurando o intruso ou quem gritara. Para o meu alívio, encontrei apenas o olhar severo de minha mãe.

— Toshio Katsuo, o que você pensa que fez com a minha porta?! – exigiu aos gritos.

Minhas orelhas abaixaram, tentando impedir que o barulho entrasse tão alto e eu voltei a analisar a casa. Nada estava diferente, o que não fazia sentido, pois eu tinha certeza de que alguém gritara. Confuso, assumi minha forma humana.

— Ma, não tinha ninguém gritando? – questionei perdido.

— Claro que não, Katsuo! Que ideia mais absurda! – gritou mais uma vez.

Eu tinha certeza que alguma coisa acontecera e um calafrio desceu por minha espinha.

Meus medos foram confirmados na hora do jantar. Os mensageiros do palácio chegaram no momento em que nos sentamos para comer. Eu corri para atender assim que ouvi os uivos.

Eu não conhecia nenhum deles, mas não me importei. A carta estava timbrada com o selo da família real, uma grande indicação de que a mensagem era de Ailee. A letra também denunciou o remetente e eu nem precisei procurar por uma assinatura.

A mensagem era simples e curta: Por favor, volte.

Notas finais
Digam-me se estão gostando ou não, vocês andam muito quietos, meus leitores :3 rs