Série Lobos II - O Clã da Lua

12 Décima Segunda Caçada: Uma a menos


Notas iniciais
Geente, eu voltei e, para a felicidade de todos, com todos os capítulos que faltavam de Clã da Lua! Tentarei postar todos hoje e espero que todos tenham uma boa leitura!

Os corredores do castelo pareciam abandonados, mas sempre podia ouvir alguma coisa acontecendo ao meu redor – passos, rosnados, latidos, tudo vindo do lado de fora do lugar. Era difícil discernir o que eles falavam, ainda mais quando meu corpo humano era obrigado a se esgueirar abaixado e muito exausto.

Eu estava cheio de ódio. Queria matar Issa, meu pai, Tsukuyomi, Izanagi... Qualquer um que cruzasse meu caminho. Queria dormir também, mas o som de patinhas muito pequenas chegaram aos meus ouvidos e me deixaram alertas novamente. Foram necessários apenas mais alguns segundos para que eu encontrasse o meu pequeno amigo. Arranhando a porta do antigo quarto de Ailee.

— Vem cá!

Puxei-o para meus braços, tentando dar meia-volta e sair dali. Contudo, Issa continuou se debatendo e um leve som veio de dentro do quarto. Parei. Era um toc toc toc muito estranho. Nenhuma pata de lobo faria aquele som. Tentei escutar, mas o som se tornou ainda mais inconstante. Toc, pausa. Toc, pause. Issa grunhiu, jogando-se contra a porta e olhou para mim com reprovação.

Se ele fizesse mais barulho seríamos descobertos, por isso, contra a minha vontade – como vinham sendo as coisas a algum tempo, segurei a maçaneta e puxei a porta para o lado, deixando que ela escorregasse e desse passagem para a minha visão.

Por estar abaixo, a primeira coisa que eu vi foi um pé, depois, um apoio de madeira. Entendi um minuto depois que aquilo era um pé de pau. Engoli em seco, sentindo a respiração de Issa em meu pescoço. Mais quatro pares de pernas estavam espalhados pelo quarto. Sussurravam tão baixo que eu não podia escutar nada. Meus olhos, curiosos para descobrir o que aconteciam, subiram devagar. Adivinhem que eu encontrei... Se pensaram no Hidetaka, erraram. Era Seiji quem estava parado no centro do quarto, com a perna de pau.

— É impossível que não consigam encontrá-lo — rosnou com a voz mais alta do que antes.

— Seiji, você sabe que os recursos do Guardião são muito maiores que os nossos — rebateu alguém que eu não consegui reconhecer. — O senhor Kobayashi pode, simplesmente, ter mandado ele para qualquer lugar.

— Katsuo deve estar morto, isso sim — comentou outra pessoa que eu não conhecia, mas que parecia saber muito sobre mim. — Ele era o único que poderia ir contra as vontades de Sora.

Issa começou a empurrar minha cabeça, como se me incentivasse a entrar. Porém, seu cérebro ainda não havia digerido as coisas que ouvira e estava tentando processar tudo que acontecia.

— Ele deve ter fugido — comentou o terceiro. — Morrendo de medo do próprio pai.

Eles estavam me julgando, mas a sombra de cansaço que cuidava de meu cérebro era tamanha que não me deixava sentir nada. Issa lambeu minha cara, fazendo-me reagir. Eu coloquei minha mão em frente ao meu rosto, mas a outra, que estava apoiada no chão, escorregou e me fez cair para o lado. Meu corpo humano estava cedendo. O lobo pedia para tomar forma e ainda não podia permitir isso. Precisava continuar humano.

A madeira rangeu quando meu corpo se chocou contra ela e, no segundo seguinte, a porta foi aberta relevando dentes muito afiados bem próximos a meu rosto. Latidos e rosnados ameaçadores chegaram ao meus ouvidos e saliva pingou em meu rosto, era nojento. Uma das patas me empurrou para o chão, prendendo-me. Eu podia ouvir o latido de Issa, tentou ser ameaçador.

— Larguem-no! O que vocês pensam que estão fazendo? — exigiu Seiji mancando para fora do quarto. — É ele. Parem!

Os sons pararam enquanto me analisavam com curiosidade. Encontraram alguma coisa em mim que os fez se afastar e deram espaço para Seiji se ajoelhar ao meu lado.

— Katsuo, você está horrível — comentou fazendo-me resmungar. — Mas precisamos conversar. Agora.

***

Eles me colocaram sentados na antiga cama de Ailee. Meu nariz sensível conseguiu captar o cheiro dela, mas era tão tênue que meu estômago embrulho. Eu realmente desejava que tudo estivesse bem com ela; que Tsukuyomi estivesse certo.

— Pegue.

Seiji me entregou um prato cheio de carne e uma jarra com água fresca. Comer e beber me fez sentir muito melhor e o corpo humano parou de ceder, mas eu temia que fosse temporário. O tempo que eu passara dentro da floresta, perdido e como um animal selvagem, debilitara demais a capacidade de me transformar em humano.

— Agora que está melhor — continuou Seiji que parecia ter se tornado o líder daquele pequeno grupo. Issa estava sentado ao meu lado, por isso dividi um pouco de minha carne com ele. — Há várias coisas que você precisa ser colocado a par. Seu pai...

— Eu já sei que meu pai está apoiando seu novo senhor de terras — interrompi desgostoso. — O que quero saber é onde está o senhor Tsukiko e porque vocês estavam atrás de mim.

— Não fazemos a menor ideia de como está o senhor Tsukiko — respondeu o lobo que se apresentara como Shino. Ele era extremamente esquisito, mas parecia ser confiável. — Ele está trancado dentro de seus aposentos desde que o resto de sua família foi levado embora.

— Vamos por partes — interrompeu Seiji fazendo-me encará-lo com a boca toda molhada. — Nós soubemos que você tinha ido embora por um anuncio feito por seu pai. Foi muito pretensioso, na verdade. Ele te acusou de traição.

“Foi muito fácil convencer os outros de que você quem tinha ido embora, revoltando-se contra as ordens de Tsukuyomi e Izanagi. Ninguém mais confia em você, Katsuo. E as últimas pessoas que te viram e não ajudaram a te capturar sofreram as consequências” contou-me apontando para a própria perna. Seiji perder sua pata traseira por mim. “Tínhamos todos os motivos para suspeitar de você, mas algumas das ações de seu pai nos fizeram nos juntar e correr atrás das informações que faltavam. Toshio Kobayashi passava horas dentro dos aposentos do senhor Tsukiko; Aki Sora só fazia aparições públicas; cartas e mais cartas de Izanagi, mudando todas nossas leis, chegavam a cada dois dias; o senhor Tsukiko simplesmente sumira... Várias coisas não faziam sentido e um dia encontrei nos porões o antigo servo pessoal de nosso senhor, que gentilmente me contou as coisas que acontecem dentro dos aposentos reais”.

Seiji calou-se, como se me desse algum tempo para compreender tudo.

Acho que depois de tudo, vocês devem imaginar que eu esteja expert em absorver notícias esquisitas, suspeitas ou péssimas, mas, uma novidade, eu não estava e nem ainda estou.

Meu pai realmente era o malvado – aquilo não parecia que iria mudar; meu soberano, mesmo que eu não gostasse dele, estava sendo mantido como um tipo de refém; Izanagi, o pai de todos os deuses, realmente estava envolvido naquilo. E, sem contar, que todos os lobos estavam contra mim, por pensarem que eu desertei. Aquilo era, simplesmente, ótimo.

— Onde você estava? — perguntou Shino quebrando o silêncio. — Procuramos por você por toda a extensão de terras do feudo.

— Por que estavam atrás de mim? — questionei mudando de assunto. Algumas coisas eram melhores secretas. — Por que não acreditaram em meu pai?

— Você não ouviu o Seiji? — rebateu Shino revirando os olhos. — As peças não se encaixavam e você tinha conversado com ele sobre essa mudança repentina. Sempre é possível que outras pessoas pensem como você.

— Além do mais, recebi uma mensagem curiosa dos céus — completou Seiji chamando minha atenção. — A letra estava borrada por causa de uma chuva fina que caíra dias antes, mas era possível ler e foi fácil identificar o que dizia.

— E o que era? — insisti enquanto Issa grunhia ao meu lado. Parecia que o pequeno lobo queria saber tanto quanto eu todos os detalhes possíveis.

— Esperem pelo verdadeiro Hogosha. Ele retornará e salvará o feudo.

E lá estava, novamente, a ideia de verdadeiro. Tsukuyomi deveria ter muito trabalho tentando convencer a todos que eu era o verdadeiro salvador de nossa terra. Aquela ideia ainda era ridícula para mim, mas, vendo os olhares ansiosos dos outros lobos e a pata que faltava a Seiji, percebi que não era só o que eu acreditava que contava. Fosse ou não verdade, eu seria o verdadeiro Hogosha— querendo ou não.

Notas finais
E o que acharam? Vão me deixar sua opinião? :3