Série Lobos II - O Clã da Lua
15 Décima Quinta Caçada: Ajuda
Notas iniciais
Aquilo fora a maior merda que podia acontecer.
Depois de deixar Katsuo no lado de dentro, eu e meus amigos esperamos por notícias dele por quase uma hora. Enquanto seus sussurros alcançavam meus ouvidos, tudo estava bem, mas, depois que as vozes cessaram e um baque surdo ecoou de dentro do quarto, mandei que Shino e Kriram permanecessem onde estavam e entrei no quarto.
O cheiro adocicado que, normalmente, eu encontrava no Iro no Seiiki (Santuário das cores) impregnou minhas narinas e me fez tossir levemente. Bem ao lado da cama, estava Katsuo caído no chão. Corri para perto, tentando descobrir se ainda respirava e o alívio foi enorme ao sentir seu coração batendo. Por outro lado, nem um movimento vinha do senhor Tsukiko.
Respirei fundo, tentando entender o que tinha acontecido. Contudo, não tive tempo. Um rosnado baixo veio do lado de fora. O aviso de quem alguém se aproximava. Puxei o corpo inerte de Katsuo e coloquei-o em minhas costas. Tentar ajudar alguém com o corpo de lobo era muito difícil.
Sai carregando-o pela porta. Shino e Kriran, seguidos por Issa, correram ao meu lado. Tentamos fazer o menor barulho possível, para não sermos notados, mas atravessamos as primeiras portas que levavam para o lado de fora. Alguns rosnados ameaçadores chegaram aos meus ouvidos, mas não estavam próximos o suficiente para nos alcançar.
Corremos até o limite das terras do feudo Tsume e saímos na entrada da Zetsubo no Yama (Montanha do desespero). Uivos ecoaram por entre as árvores. Os guardas deveriam estar se preparando para caçar e nós, que deveríamos ser seus aliados, nos transformáramos nas presas.
Kriran foi o primeiro a adentrar a caverna. Shino esperou que eu corresse para dentro e me seguiu. Os sons da caçada diminuírem até que eu quase não podia ouvi-los. Katsuo começava a fazer peso em minhas costas e me obrigava a forçar a perna de madeira. A dor voltava com força para o local, mas me obriguei a continuar em frente. Não podia permitir que, depois de tanto esforço, a única pessoa que conseguira ouvir as palavras do senhor Tsukiko – e talvez nossa única esperança – se perdesse por minhas necessidades.
Corremos até o lugar mais profundo na caverna e o mais escondido. Precisamos saltar um buraco e andar por vários metros até chegar àquele espaço enorme que tinha um pequeno lago em um dos cantos. Katsuo gemia em minhas costas e suava, mas, tirando isso, nada de voltar a consciência. Tive a impressão que de sua temperatura corporal aumentava e aquilo não era um bom sinal.
— Shino, pegue um pouco de água fresca — pediu assim que assumi minha forma humana. A dor era ainda pior do que na forma lupina, mas trinquei os dentes tentando suportar. — Kriran, vá buscar algo para comermos.
Os dois saíram apressados. Precisava manter Katsuo vivo de alguma maneira, por isso, quando Shino voltou com a água, rasguei uma parte do pano da minha camisa, encharquei-o e coloquei na testa do enfermo. Por vários momentos nada aconteceu, mas Katsuo relaxou consideravelmente com o tempo.
— O que faremos, Seiji? — murmurou Shino parecendo nervoso. — Não podemos ficar trancados aqui para sempre...
— Por enquanto, não se preocupe com isso — respondi acenando para o pequeno companheiro do Hogosha. — Limpe Issa, por favor, e vá dormir.
Ele se curvou rapidamente e correu até o pequeno lobo. Kriran voltou alguns minutos depois com um animal entre os dentes. Não poderíamos cozinhar nada, então estômagos humanos nunca conseguiriam digerir com facilidade. Voltei a forma de lobo e comemos como a muito tempo eu não via ninguém comer.
Seria possível que, depois de tantos anos, Tsukuyomi tivesse se revoltado contra a vontade dos lobos de serem humanos e estava nos punindo com todas aquelas coisas? Lembrava-me vagamente da felicidade que Katsuo mostrava por seu um lobo. Talvez fosse por isso que, anos atrás, ele tivesse ganhado o cargo de protetor e não eu.
A noite foi turbulenta.
Passamos o tempo nos revezando entre cuidar de Katsuo, vigiar nosso esconderijo temporário e descansar. Foi ridículo o tempo que passamos fazendo isso. As horas pareciam não passar. Foi depois de meu segundo momento de descanso, quando tive que trocar com Kriran, que os primeiros murmúrios de Katsuo começaram.
Ele movia a cabeça de um lado para o outro. Falando palavras desconexas em formas de sussurros. Mesmo querendo muito ignorar o que acontecia, curvei tentando compreender o que dizia. Era difícil, ainda mais com Issa enrolado em seu pescoço e seus pelos abafando ainda mais as palavras.
— Lobos... Tsukuyomi... Matilha... Origem...
Katsuo parou de falar e um suspiro escapou por seus lábios. Parecia estar tranquilo. Por um momento, aquelas palavras não fizeram sentido, mas, aos poucos, o quebra-cabeça foi se formando em minha mente.
Nós lobos, que seguíamos o Tsukuyomi, deveríamos voltar a ser uma matilha, como em nossa origem. Poderia estar muito errado, mas para mim fazia sentido. Se nos uníssemos, poderíamos lutar contra a matilha dentro do palácio e Kobayashi; salvar a princesa e retornar com nossa antiga paz.
Saltando, eu decidi o que deveríamos fazer.
— Shino, Kriran, acordem! Vamos embora!
***
Era quase meia-noite. Todo o feudo dormia.
Enquanto Shino carregava o adormecido Hogosha, eu e Kriran corríamos alguns passos a frente. Issa ia pendurado em seu amigo. Não podíamos fazer nenhum tipo de uivo, mas os jovens lobos já sabiam o que deveriam esperar.
A primeira pessoa que decidi procurar foi o antigo professor Katsuo, Hidetaka. Depois de todos os acontecimentos, o velho lobo fora expulso por não ajudar nas investigações sobre o Hogosha.
Ele se isolara na parte mais remota de nossas terras.
Fomos obrigados a dar a volta por dentro da Hikari no Mori (Floresta da Luz) para chegar a sua nova residência. O lugar caia aos pedaços e eu não podia imaginar o que acontecera a ele dentro da sala de interrogação ao conversar com Kobayashi.
Bati com a pata verdadeira na terra, um sinal de ordem que dizia para eles ficarem onde estavam. Shino rosnou baixinho e eu respondi com mais força. Não podia arriscar. Se Hidetaka atacasse por qualquer motivo, seria mais fácil lidar com ele sem precisar me preocupar com outras pessoas.
Caminhei devagar, como se estivesse caçando. Gostaria muito de uivar para avisar sobre minha chegada, mas, novamente, arriscar a vida dos outros não era uma opção. Conforme aproximava-me da casa, sonos de madeira vinham em minha direção. Estava claro que ele sabia que eu estava ali.
Parei em frente a porta, tentando decidir se deveria continuar em minha forma original ou não. Parecer inofensivo e tentar conversar ou manter o poder e esperar que ele quisesse conversar? Toquei na maçaneta com o focinho, escolhendo a segunda opção, quando a porta estourou em milhões de pedaços e fui lançado para trás, perdendo do equilíbrio.
Hidetaka era conhecido, em sua juventude, como um dos mais fortes lobos da matilha. Conseguira enfrentar, ao mesmo tempo, três demônios ursos que poderiam derrubar qualquer outro. Era forte e mesmo velho o impacto de suas patas sobre seu corpo foi tamanho que eu rolei para longe. Pelo jeito, ele não queria conversar.
Rosnei, tentando fazê-lo notar quem eu era, mas um segundo tarde demais percebi que, de alguma forma, ele não enxergava corretamente. Suas garras arranharam meu flanco e eu mordi, tentando não fazer muita pressão, sua pata. Rolamos para a esquerda. Um querendo sobrepor o outro com força. Eu era mais novo, sadio; deveria ter a vantagem, mas Hidetaka era enorme. Seus músculos conseguiam ser tão grandes quanto os de um alfa. Ainda era uma grande questão entre os lobos da matilha a quanto tempo ele estava vivo.
Ele se afastou, pronto para saltar novamente sobre mim. Seria um impacto muito grande, que eu não aguentaria, por causa da pata de madeira, mas abaixei as patas dianteiras. Segurá-lo-ia até que me reconhecesse. Quando Hidetaka aterrissou ao meu lado, eu tentei empurrá-lo para o lado, mas minha perna de madeira escorregou e cai para o lado. Aquele era o momento em que eu perderia, mas ele parou encarando a pata que não existia mais.
Sua forma mudou. Aos poucos, a aparência de um senhor surgiu. Os cabelos brancos caiam sobre seu rosto, mas era possível reconhecer o antigo comandante da caçada.
— Seiji? O que aconteceu? Por que está fora do palácio? O quê...?
— Hidetaka, precisamos de sua ajuda — falei assim que toda minha forma original se transformou em humana. Apontei para um ponto distante entre as árvores e ele virou-se apressado. Shino e Kriran estavam parados, em posição de ataque; Katsuo ainda permanecia dormindo nas costas do segundo e Issa estava em suas costas. — Precisamos de um lugar para o Hogosha se recuperar e para que eu posso ter acesso mais facilmente a vila.
— Para quê? — questionou encarando Katsuo com pavor. — Para que trouxeram ele de volta?
— Ele voltou sozinho — respondi sério. — E temos que juntar o máximo de lobos que pudermos. Kobayashi não pode continuar fazendo o que está planejado. O governo não é dele.
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