Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
27 Putrefação e a Queda para o alto.
Notas iniciais
Ao inferno... Estava descendo lentamente pra ele agora, sentia seu corpo ser massacrado pela ironia da vida. Não aguentava estes caminhos estreitos de dor que a vida impunha. Estava tentando se agarrar em alguma coisa enquanto esperava pacientemente o vir de um futuro sem saída – que nem sequer existe.
Neste momento estava sentada ao lado da cama, os joelhos dobrados diante dela estão sendo abraçados com força como se assim ela pudesse diminuir a dor que invade e ultrapassa sua carne até despedaçar seu coração.
Nem toda a história tem um final feliz, Lyss já devia saber disso. Suas mãos continuam a formigar, imaginava-as cobertas de sangue, seria um sinal evidente de que ela havia acabado de matar uma pessoa. Não uma pessoa qualquer... E isso a machucava mais que tudo. Talvez ela devesse ser transportada para o inferno de verdade, ser levada pra lá e ser torturada de todas as formas possíveis, ela merecia isso, merecia por ter tirado do mundo alguém tão incrível. Que droga! Porque seu coração não parava quando ela implorava tanto?
Sua alma está vazia, sua carne putrefata, mas, de algum modo Lyss ainda respirava, quando tudo está desgastado é melhor ficar sem isso.
As lágrimas pararam de rolar por sua face, seus olhos focaram na janela fechada, através do vidro podia-se ver o céu, algumas nuvens muito escuras estavam cobrindo o azul brilhante, Lyss não podia ver a lua diurna, ela era uma das culpadas por Lyss estar assim. Resolveu parar de pensar, sentia sua essência, sua alma, seus sonhos, seus pensamentos a abandonarem... tudo o que restava foi um corpo vazio e um coração insistentemente patético.
Não sabia ao certo o que devia fazer ou se devia fazer alguma coisa, a dor cresce dentro dela, queria estar acostumada á ela, mas, a dor não é algo que se pode acostumar. Uma chuva muito fina começa a cair do céu, o tempo está escurecendo... o clima combina com seu humor. As lágrimas voltaram a rolar em seu rosto, dessa vez sem interrupção, um buraco havia sido aberto em seu peito, um vazio compreensível e doloroso.
Lyss estremeceu – embora, não estivesse com frio. Entre seus neurônios anestesiados uma ideia fez com que ela erguesse os olhos do nada. Levantava com a já familiar leveza e rapidez, Lyss sabia pra onde devia ir e o que devia fazer, não era algo pensado realmente, estava fazendo por instinto – foi o que sobrava dela. Uma olhada rápida pela janela me fez perceber que todos ainda estavam com os Wateaire. O corpo de Evan havia sido levado pra lá. É impressionante como a vida é frágil.
Como tudo o que a gente acredita pode simplesmente ser destruído em pedacinhos, pedaços bem pequenos até ser insignificante. Tudo estava quebrado.
Por fora.
Por dentro.
E tudo começou quando ela estava tentando se encontrar, se sentir inteira.
Ironia, não?
Ela sente frio. O frio a impede de pensar.
Isso é bom se quer saber. Lyss nunca imaginou que isso acabaria assim. Na verdade não pensou que isso acabaria de maneira alguma. A gente nunca está preparada. Nunca.
Um gemido escapou de sua garganta, puxou o ar para dentro dos seus pulmões e se apressou para fora do Instituto. Seus passos seguiam mecanicamente, quando se deu conta estava correndo – com rapidez surpreendente -, na direção do penhasco... O mesmo lugar que tudo começou, aonde ela e Evan declararam-se um ao outro, era um bom lugar para o fim. Para o fim de tudo.
Não sabia se havia se machucado durante o percurso, dores carnais pareciam tão supérfluas comparadas á dor que Lyss sentia estraçalhá-la por dentro, seus olhos decoraram Lisarb, despediu-se de tudo, não sabia se isso era o certo a se fazer, mas, o certo e o errado já não a importam mais. Não podia viver em um mundo que Evan não existe! Isso estava claro em sua mente. Claro como água.
O penhasco era alto, realmente alto, seus olhos foram atraídos lá pra baixo, Lyss esperava ter uma morte rápida. Entreabriu os lábios para murmurar qualquer coisa, mas, apenas um gemido gutural escapou deles, ela ofegava. Fechou os olhos com força, seu queixo começou a tremer, puxou e soltou o ar tentando controlar as batidas desesperadas de seu coração. Seu bom senso implorava para que ela parasse ali: “Nem mais um passo” – seu corpo inteiro gritava. Ela podia ignorá-la, faria isso, já havia perdido a vida, só faltava abraçar a morte.
Ali ela encerrava o último capítulo de sua história, tendo apenas a natureza como testemunha – um soluço fez com que ela estremecesse – Como último pedido ela gostaria de implorar uma morte rápida..
Ficou de costas para o abismo aonde cairia, suicídio não é algo heroico, mas, ela nunca quis ser uma heroína, se ela continuasse a viver estaria usando uma coragem artificial... Não! Preferia ficar sem isso. A escuridão que inunda o que sobrou dela permite que mais uma lembrança toque seu cérebro. Sentiu lábios firmes tocarem os seus por um segundo apenas.
– Evan, — sussurrou – eu amo você.
Puxou o ar para dentro de seus pulmões no que achava ser a última vez e deixou que seu corpo caísse em direção á morte, o vento agitava seu cabelo, Lyss estava caindo muito rápido. Não quis sentir mais nada, nem sequer viver dentro de si, as lembranças a assustavam agora, era fraca, já não sentia nada nesta história, nada cria ao seu redor, separou-se da luz.
De repente seu corpo bateu com força contra alguma coisa, mas, Lyss não parou de cair, não perdeu a consciência, nem nenhuma dor dilacerante invadiu sua carne, ela continuou caindo e caindo sem parar, mas, dessa vez ela caía para o alto com uma delicadeza e leveza familiar. Certamente estava morta, tinha quase total certeza disso. Há outra explicação para a certeza de estar sendo carregada por Evan?
Lyss podia sentir um dos braços quentes na metade de suas costas e o outro envolvendo suas pernas, seu braço direito está sobre seu corpo, mas, a ponta dos seus dedos está tocando levemente seu tórax febril. De fato só podia estar morta.
Ela continuou a subir, o vento agita seu cabelo desalinhado, Evan – se for ele mesmo quem estiver levando-a... Lyss preferia acreditar que sim – está indo muito rápido, Lyss caía para o alto sem parar, foi assim por muito tempo até que um baque brusco a fez concluir que ele pousara, sentiu o corpo contra o seu tremer reprimindo gemidos, algo parecia machucá-lo, ela queria abrir os olhos e fitar pela última vez o rosto dele, mas, suas pálpebras pesavam tanto.
Começou a chover, as gotas grossas que batem contra seu rosto não terá trabalho em deixá-la ensopada em alguns segundos. Evan a pôs no chão, um gemido gutural escapou de seus lábios e Lyss quase o acompanhou ao sentir o solo frio contra suas costas, mas, suas cordas vocais não a obedeciam.
O chão tremeu levemente, ela ainda estava sob os pés de Evan, sentiu quando três paredes de terra firme foram erguidas formando uma cabana improvisada, depois ficou tudo muito escuro quando um teto do mesmo material foi colocado acima de seu corpo. Ele arfou e – pelos sons de seus passos – Lyss percebeu que mancava, sentiu quando ele saiu da cabana, pois, o frio tocou sua pele. Mais sons de passos chegaram aos seus ouvidos, pertenciam á outro homem, ele não caminhava com a leveza de Evan.
– Cuide dela, mantenha-a aquecida. – a voz de Evan (agora Lyss tinha certeza de que se tratava dele) soou com dificuldade, transtornada de dor.
Alguma coisa foi passada para o outro homem
– Pode deixar! – Chris assegurou
Chris? Reconheceu sua voz e isso a fez concluir que ela não estava nem morta nem viva, talvez a insanidade tenha tomado seu cérebro e estava tendo alucinações.
Mesmo assim, louca ou não sentiu claramente quando Evan levantou voo e Chris entrou no espaço que ela estava. Lyss tentou se mover, mas, foi impossível, seu corpo está anestesiado e, ela duvidava que, além da audição e do tato, outro sentido seu funcionasse.
Suspirou. Pelo menos isso ela podia fazer. Obrigou-se a mergulhar na inconsciência, se estiver morta fez uma boa escolha, deixou o alívio cinzento dominar sua mente, a última coisa que ouviu foi o desabar com força da chuva lá fora.
A chuva parecia não ter fim, os trovões ensurdecedores preocupavam Chris; primeiro porque ele ainda não tinha certeza da firmeza das paredes que Evan havia erguido, segundo porque Lyss – que ainda estava inconsciente sobre a cama que ele improvisou – sempre teve uma leve fobia por tempestades. Lyss adquirira isso depois da morte dos pais em um acidente de carro durante um temporal.
Deslizou uma mão entre os fios de seu cabelo, ainda estava se recuperando da última loucura que Lyss aprontara, agora que ele a tinha sob seus olhos vigilantes era mais fácil pensar que tudo não passara de um pesadelo, mas, nada o faria esquecer a sensação que confundiu seus pensamentos ao vê-la saltando do penhasco. O pior de tudo foi reconhecer que ele não podia fazer nada além de rezar que Evan fosse rápido suficiente para segurá-la, e ele havia sido. Detestava admitir, mas, ele fizera um bom trabalho, mesmo meio morto – ou seja lá como chamar seu estado atual – ele foi rápido o suficiente pra salvar a vida da mulher que amava. Lyss remexeu-se, Chris se prostrou ao seu lado, as pálpebras dela tremeram levemente, os lábios se entreabriram só pra fecharem outra vez, ela estava inquieta. Puxou a colcha para cobri-la melhor e afastou uma mecha negra de cabelo do seu rosto, Lyss suspirou ficando imóvel outra vez. Ele podia passar toda a sua vida contemplando-a, sempre foi assim, desde que a conheceu. Seus olhos azuis o lembravam o mar após uma tempestade, seu sorriso doce e o ar inconsciente de inocência eram incríveis. Incrível era uma boa palavra para defini-la.
– Se você soubesse... – murmurou olhando seu rosto sereno.
Se Lyss soubesse... Se ela soubesse do quanto ele a amava talvez nunca mais fosse como antes, talvez ela dissesse que nunca mais queria vê-lo, talvez ela começasse a evitá-lo, talvez ela nunca mais risse espontaneamente com ele. Talvez tudo mudasse radicalmente. E isso ele não podia suportar. Ele teimou em pensar em Joyce e em como estava se esforçando para gostar dela, mas, ao pensar nela era diferente de pensar em Lyss.
Era doloroso admitir que ela nunca seria sua, mas, era a mais crua verdade. Só que o pior é ter certeza de que, se fosse em um mundo normal, sem magia, sem poderes, como ele acreditou durante toda a sua vida, se fosse assim eles ficariam juntos, estariam agora estudando para entrar em uma faculdade, ou talvez ele estivesse tocando pra ela, ou lendo Romeu e Julieta juntos, ou qualquer coisa semelhante. Mas, não, não era um mundo normal como ele pensava meses atrás, agora existia Evan e um amor entre eles maior do que ele podia competir, Lyss era racional, talvez se ele perguntasse á Lyss um ano antes se ela era capaz de se matar por causa de um homem ela o diria que não com absoluta certeza, mas, agora... Tudo mudou.
E mesmo com tantos obstáculos entre eles, esse amor havia sido capaz de vencer a morte. Ele ouviu e viu quando Demetree analisou o corpo de Evan e decretou que ele estava morto, mas, mesmo depois de seu coração ter parado de bater, mesmo assim ele levantou-se da roda formada pelos Wateaire chamando pelo nome de Lyss.
Um sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar-se da cena, a maioria entrou em pânico, ao que parecia ressurreição não era comum nesse mundo também, passado o susto um pressentimento fez com que Evan fosse até o quarto de Lyss no Instituto Adams, e mesmo sabendo que estar perto dela resultaria em sentir dor, ele foi mesmo assim. Essa coisa de sentir dor era estranha e, difícil de entender – pelo menos pra ele -, ficar perto de Lyss o enfraquecia, era como o Super Homem e a pedra verde cujo nome ele esquecia sempre.
Criptonita... É esse o nome.
Era como se Lyss fosse sua Criptonita. Ao que parecia o sentimento dele não mudou ao saber que Lyss fizera seu coração parar, nem saber que estar perto dela resultaria em sentir uma dor maior do que qualquer outro ser pudesse suportar, não importava pra ele. Mesmo assim ele carregou-a nos braços e a salvou de si mesma. Chris não podia impedir a si mesmo de sentir uma leve admiração por ele.
– Evan... – Lyss sussurrou movendo-se outra vez
Segurou uma de suas mãos e aguardou até ela voltar a imobilidade.
– Sua louca. – murmurou carinhosamente beijando a palma da mão dela.
– Ela acordou? – a voz surgiu em uma nuvem de fumaça dentro da cabana, Chris teve um sobressalto antes de reconhecer Philip – Eu vim o mais rápido que pude. – ele veio para o lado dela também, acariciou o rosto e afagou os cabelos dela.
– Ainda não. – Chris respondeu afastando-se um pouco
Philip suspirou e fechou os olhos.
– Eu quase perdi você. – ele apertou os olhos com força – Eu preciso fazer você esquecê-lo. – dizia para uma Lyss desacordada
– Acha possível? Fazê-la esquecê-lo. – Chris perguntou cruzando os braços
– Talvez. – ele ergueu-se – Existem seres específicos com esse dom. Criaturas. – ele deu de ombros
Chris assentiu
– Sabe algo sobre os pais de Lyss?
– Você já viu a carta? Segundo o que todo mundo fala que Brad e Alice morreram num acidente de carro, mas, ninguém que morre de acidente comunica aos parentes que vai morrer, a não ser que eles tenham se suicidado ou tenham sido jurados de morte.
– Ele comunica sua morte... – Philip ponderou – Eu preciso mesmo ver essa carta, nós vamos voltar á Califórnia com vocês na sexta.
– Lyss está de acordo?
– Eu sei o que é melhor pra ela. – ele encarou Chris como se o desafiasse – Aproveito a oportunidade pra dizer que você não se encaixa nessa categoria.
Chris riu surpreso
– É o quê?
– Eu gosto de você, garoto. Te respeito. Mas, se envolver com Lyss não é uma atitude inteligente, não agora. Se eu estiver certo a respeito dos pais de Lyss essa busca está só começando. – ele colocou as mãos no bolso – Você acha que gosta dela.
– Então você virou um expert no assunto? Há quanto tempo conhece Lyss?
– Não é questão de tempo, mas, de intensidade. Meu jovem, — a voz parecia estar mais grave, como se sua mente estivesse a quilômetros dali – o labirinto mais difícil de seguir, o enigma mais complicado de se resolver somos nós mesmos, porque, somos nós que implantamos os pensamentos, construirmos barreiras pra que passemos; você está travando uma luta contra você mesmo, e numa luta consigo próprio não há vencedores, ou perdedores só frustrações. As pessoas costumam criar coisas dentro de si... – ele disse referindo-se diretamente ao assunto com Lyss – essas coisas são como âncora, firma-os na realidade, é como se precisassem de uma razão pra viver, porém, há um ponto que essa mesma âncora nos puxa pra baixo, e o que temos que fazer é recolher a âncora e seguir viagem, deixe seu barco seguir.
– Não é tão simples. – ele murmurou evitando olhar para Philip
– É mais simples do que você pensa. – ele sorriu
Mais tarde Philip levou Chris e Lyss para o Instituto, eles ficaram – junto com Demetree e Lucy cuidando dela enquanto estava desacordada. Demetree trouxe suas anotações sobre o que descobrira sobre a Lua Diurna e eles souberam que esta desapareceria no outro dia. Lucy confirmou as passagens para a sexta e concordou em ajudar na festa de despedida de Lyss de Lisarb, festa que todos os Wateaires faziam questão de dar.
Evan estava bem, mas, proibido de aproximar-se muito de Lyss já que ainda estava fraco.
Naquela noite Evan ficou observando o sono de Lyss da janela, mantendo uma distância segura, ele viu quando Philip entrou no quarto e ficou afagando Lyss, depois umedeceu um pouco de algodão e passou sobre os lábios dela para hidratá-los. Philip olhava para a garota como um pai diante de sua única filha, ele sorriu e afagou-a de novo antes de sair. Evan desceu ao solo e caminhou sem pressa em direção á floresta.
– Imaginei que você viria. – Evan falou sem olhar para trás
– Você é bom. – Philip disse fazendo uma discreta mesura
– Estou aqui a algum tempo. – Evan parou de caminhar e arrumou os ombros
– Eu não quero brigar. – Philip disse – Estou aqui para te pedir para deixá-la ir.
Evan riu
– Achei que seu controle de Mentor era suficiente.
– Você sabe que é uma distração que Lyss não precisa. Ela quer respostas sobre a família e você só vai atrapalhar.
Ele virou-se.
– Continue.
– Eu só estou dizendo que essa é a coisa mais inteligente a fazer. Deixá-la. Assim você não se machuca e ela também não.
– Ah! Você está preocupado comigo. – ele ironizou
– Estou preocupado com o quanto você mexe com ela e faz com que ela faça coisas idiotas. Eu não fui rápido o suficiente para impedi-la hoje...
– E se eu não estivesse por perto ela teria morrido. – um nós se formou quando Evan disse a última palavra
– Não, Evan! Se você não estivesse aqui ela não teria tentando se matar. – ele falou e assistiu a realidade atingir o rosto do garoto – Se você não tivesse voltado ela estaria bem agora. Ela vai voltar pra Califórnia e eu vou com ela, Lyss vai precisar estar com a tia e com o melhor amigo que a propósito é o ex-namorado dela, você vai ficar no meio disso tudo?
– Chris é...? – ele sentiu o ciúme emergindo, ele não sabia dessa parte
– Surpreso? Ela não lhe contou? Ele não gosta de você e Lucy não está assim tão animada com esse namoro. Como você fica se não como um empecilho pra Lyss?
Evan desviou o olhar lutando para não demonstrar o quanto Philip estava certo.
– Acho que o mais certo é deixar Lyss decidir. – ele deu de ombros – Afinal é a vida dela.
Philip assentiu a contragosto e permaneceu em pé diante do castelo enquanto Evan ia embora.
Fale com o autor