Notas iniciais
“Havia duas partes perdidas em dois extremos, juntas elas formavam um só.”
França, estou em jetlag.
Paris. Oh Paris!
Eu nunca entendi ao certo a fixação das pessoas por Paris, nem o motivo de chamá-la de Cidade Luz, também não conseguia compreender o porquê de a chamarem de palco de romances e histórias de amor, mas... Nossa! Agora eu compreendo. As luzes aqui são incríveis, as ruas, as pessoas são bem vestidas, educadas. Passamos por uma praça de nome complicado e alguns casais dançavam ao som de violinos e violoncelos, não vimos a torre Eiffel até entrarmos no Hotel. E que hotel!
A decoração do meu quarto (quarto que dividirei com Cassie, Louis e Victoria) é totalmente branco, Tisha disse que quando disseram que as ocupantes daquele quarto eram meninas eles providenciaram toda modificação da decoração, por isso agora as cortinas, tapetes, toalhas com brasão do hotel entalhado e pequenos detalhes da decoração eram rosa e prata. As cores oficiais do hotel eram branco, vermelho e dourado. Dava pra notar tudo isso pelo mogno avermelhado, maçanetas douradas e paredes brancas entre outros.
Estamos as quatro: Eu, Cassie, Victoria e Loius, aqui no quarto agora, as camas ficam uma diante da outra, não estamos num dos quartos mais caros daqui, mas, a recepção foi cuidadosa nos detalhes principalmente porque cada um dos Mentores ficou com uma suíte presidencial. Agora Cassie e Louis estão se arrumando pra sair, Victoria está deitada lendo, parece distraída, Nataly e Carlie também estão se arrumando, está escurecendo lá fora, as luzes da torre Eiffel ainda não foram ligadas, mas, em breve serão, e a paisagem será ainda mais bonita. Sairemos as cinco para fazer compras, será bom encontrar roupas leves que me ajudem a passar pelo ar quente de Lisarb.
– O que Lyss tanto escreve? – Cassie perguntou sentando-se na cama de Lyss.
Louis deu de ombros arrumando o cabelo diante do espelho
– Vamos Lyss. Vai ficar aí com a Dona Silêncio?
Victoria grunhiu, Lyss revirou os olhos.
– Eu vou com vocês.
– Não assim como você está. Uma maquiagem e uma roupa bonitinha cairiam bem.
Lyss fez cara feia
– Certo, vocês venceram, afinal estamos em Paris. O que você me recomenda, Cassie?
– Eu daria um corte no cabelo, mas, como não temos tempo um penteado deve resolver.
E resolveu. Cassie fez um coque elaborado, pôs brincos prateados compridos, uma camiseta com estampa pratas e uma calça justa preta, um saltinho da mesma cor dos brincos completou o look. A franja de Lyss foi colocada de lado. Nataly e Claire chegaram logo depois, elas estavam dividindo o quarto do lado. Os Bruxos – Charles, Rick e Marcus estavam no andar de baixo.
Incrível como fazer compras unem mulheres, Lyss pensava nisso enquanto escolhia algumas blusas e conjuntinhos com a ajuda de Claire, ela dava dicas e pedia dicas. Não precisaram da companhia de nenhum dos Mentores já que as lojas eram na mesma rua do Hotel, Lyss sentia-se humana de novo, escolhia cada peça de roupa pensando na aprovação de Evan, esqueceu que eles não eram namorados –Oficiais e ainda! -, e que eles ainda não tinham se entendido depois da cena na Ala Azul, se vestiu como se precisasse agradá-lo, logo depois de agradar a si mesma, claro. Enquanto experimentava e tirava roupas e mais roupas e dançava com as garotas ao som de Hot’n Cold da Katy Perry, som que saía das caixas instaladas em cada canto da loja, ela quis imaginar que ficaria tudo bem, que não tinham grandes responsabilidades, que não precisava aprender mais nada sobre o que já sabia sobre aquele novo mundo. Porém, de alguma forma quando esforçava-se para esquecer de seu lado não humano algo doeu dentro dela, como uma culpa, foi mais ou menos nesse momento que percebeu que só seria completa se aceitasse a si mesma como era.
Escolheu um vestido de festa preto e encaminhou-se para o vestiário, colocou-o e olhou-se no espelho, o caimento estava perfeito, tentou fechar o zíper para confirmar se não ficaria muito apertado, mas, suas mãos não alcançavam o feixe.
– Cassie? Louis? Nataly? Claire?
– O que foi? – era Victoria
– Preciso de ajuda com o feixe.
As cortinas douradas se agitaram e Victoria entrou. Elas se entreolharam pelo espelho e Lyss apontou o zíper.
– Eu tive uma visão de seu futuro. – ela falou se rodeios, Lyss olhou-a pelo espelho, mas, ela estava de cabeça baixa, concentrada na tarefa de fechar o vestido.
Lyss só engoliu em seco.
– Meus poderes aumentaram – ela continuou – E minhas visões se tornaram mais nítidas, portanto posso afirmar que vi você morrer. Você estava num círculo de Wateaires e segurava a mão de seu Mentor – Lyss pensou em Philip e depois em Evan – Eles simplesmente matavam você – ela deu de ombros – Não por qualquer coisa, imagino. Vocês estavam no salão de festas do Instituto, você morria ali, no centro, todo mundo assistia.
Lyss tinha os olhos arregalados e o rosto pálido, buscou Philip em sua cabeça, mas, não havia ninguém. Ele sumiria por uns tempos – ela lembrou.
– Mas, isso não significa que vai acontecer... – ela afirmou duvidosa
– Se eu fosse você viveria cada segundo que ainda falta para esse dia, não estou dizendo que uma visão de futuro lhe dê 70% de certeza do que vai acontecer nem nada, embora a visão lhe dê 70% de certeza de que aquilo vai sim acontecer, só estou dizendo que você pode mudar seu futuro sempre que quiser. Você pode escolher comprar esse vestido ou não, esconder na bolsa e ir presa ou pagar como deve ser feito – deu de ombros de novo – O futuro é um rascunho até virar presente. – ela fechou o zíper e foi saindo vestiário
– Vick. – Lyss chamou olhando-a pelo espelho
A menina ergueu os olhos castanhos claros para ela.
– Obrigada. – ela disse e Victoria não sabia se, pelo vestido, ou pela notícia antecipada de sua morte, por isso só assentiu e saiu.
Lyss sorriu pra si mesma no espelho antes de aprovar o vestido outra vez e depois da saída de Victoria, a notícia não a assustou nem de longe, porque toda sua parte Bruxa sabia que aquele dia chegaria, vestiu sua própria roupa de novo e saiu, colocou o vestido na pilha de roupas que havia sido aprovada e seria comprada. A pilha estava gigantesca, mas, não era nem metade das pilhas de Nataly e Cassie. Os Mentores disponibilizaram um cartão sem limite para cada uma delas, quem lê pensamentos e prevê o futuro não precisa de muito esforço pra conseguir dinheiro. Mesmo assim elas estavam até cautelosas quanto ás compras, as joias deveriam ser as mais baratas, bijuterias não eram vendidas em nenhuma daquelas lojas, os sapatos tinham um padrão de preço aceitável, menos aqueles cravejados de diamantes e outras pedras preciosas – estes eram exibidos em caixas de vidro dignas das mais preciosas obras de arte no centro da loja e custavam os olhos da cara. Cassie até pedira pra experimentar um deles e foi recebida com toda pompa – inclusive com almofada vermelha e seguranças ao redor delas -, porém, com uma expressão de desprezo Cassie disse que os diamantes haviam sido mal colocados e por isso eram desconfortáveis á pele, Nataly concordara na hora e disse que tinha um sapato que era exatamente assim, Lyss e Louis seguraram o riso e inventaram que tinham um vestido cravejado de rubis que combinaria com o sapato, mas, que ele não era elegante o suficiente para tal.
Claro que as atendentes da loja não acreditaram em toda aquela ladainha, porém quando viu a quantidade de coisas que compraram praticamente imploraram para que elas voltassem á loja o quanto antes. Diante do hotel havia uma praça, as luzes da cidade já estavam todas acesas, a praça brilhava como um cristal encravado na pedra, as pessoas passavam para lá e para cá, todas pareciam tão felizes, o ar estava fresco, elas foram direto para o hotel por causa da quantidade de sacolas em suas mãos. Na porta do hotel um entregador fez questão de levar as sacolas pessoalmente nos quartos das meninas.
– Estou exausta! – Louis disse jogando-se na cama
– Pode colocar todas as sacolas perto da cama, depois organizamos. – Cassie disse sem sair da pose, o entregador acenou e saiu, dessa vez sem pedir gorjeta.
Lyss também deitou, tirou os sapatos usando os próprios pés.
– Estou ótima, hoje terei sonhos dourados contando sapatinhos. – Cassie disse rindo
– Eu preciso tomar um banho. – Lyss levantou e adiantou-se antes que as outras se aglomerassem na porta do banheiro.
Ela tentou não demorar muito, enquanto a água escorria pelo seu corpo ela lembrava-se de Evan, ele fretara outro avião para ir á Paris, eles só se viram rapidamente no saguão, ele ignorou-a e ela não pôde fazer nada se não recolher-se com sua dignidade e caminhar para o local de embarque, por mais que buscasse em sua cabeça confusa e mal organizada, não encontrava respostas para si mesma. Ela queria saber o que Evan era, mas, isso não importava tanto para ela quanto para Philip, ela queria contar á Evan sobre Philip, mas, era impossível, por isso precisava bolar uma desculpa bem convincente para ele. Lyss fechou os olhos, o cabelo grudava-se á cabeça e ao rosto, colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha lembrando-se de quando eles se beijavam, e quando eles combinaram de deixar acontecer o que quer que estivesse havendo entre eles. De como as mãos se completavam e tudo ficava bem só com a presença dele..
– Lyss? Você morreu aí dentro? – era Cassie e seus socos estrondosos na porta do banheiro
Lyss enxugou o rosto e as mãos na toalha grossa que levava o brasão do hotel em linhas douradas, saiu do banheiro e foi direto pra mala, entre uma loja e outra naquela tarde elas experimentaram tantos petiscos e bebidas que ela estava sem fome o suficiente pra dormir. Houve uma batida na porta, Louis gritou: Entre, acreditando ser Nataly ou Claire, era um funcionário do hotel, bem trajado ele trazia uma bandeja de prata com uma rosa e um cartão.
– Lyss. – informou com forte sotaque francês
De toalha mesmo ela foi á porta pegar o bilhete e a rosa que ele estendia, de imediato reconheceu a letra que adornava o bilhete.
O que seria vir á Paris se não compartilhássemos um jantar com vista privilegiada á Torre Eiffel?
Era um convite discreto e disfarçado, as meninas ergueram-se quando viram o sorriso que Lyss deixara escapar ao lê-lo, Evan não assinara, nem precisava disso, ela reconheceria a letra em qualquer lugar do mundo.
Eu tenho um jantar. – pensou enquanto corria para que Louis e Cassie não tomasse o cartão de suas mãos.
Blush, Sombra, Delineador, Rímel, um batom cor de boca, o sapato azul escuro, o vestido azul claro quase branco, os cabelos presos em coque para que pudesse adornar o colo com um colar com pedras azuis e brancas. Colocou o colar que fora presente de Mathias no mesmo lugar que guardava o diário, bem protegido. Olhando-se no espelho quase não se reconheceu. Um motorista esperava lá embaixo, a limusine preta deslizava silenciosa pelas ruas, alguns curiosos apontavam pra ela, outros já deviam estar acostumados ao luxo, os vidros filmados lhe conferia uma privacidade maior, havia champagne dentro de um balde de gelo, Lyss serviu-se de um pouco para ficar mais calma. Bebericou o champagne e recostou-se no banco de couro preto, o espaço daquela limusine era proporcional á uma festa, Cassie adoraria aquilo. Não dissera ás meninas com quem sairia e era incrível como quando o assunto era Evan elas não insistiam nas respostas e mesmo assim não agiam como se já as tivesse. Devia ser algo relacionado á comunhão das Bruxas ou algo do gênero. O motorista baixou um pouco a divisória que impedia que eles se comunicassem e disse:
– Estamos chegando, mademoiselle. – com sotaque forte
Demorou pouco para que ela visse a Torre Eiffel a metros do carro, o motorista abriu a porta e mais dois homens bem vestidos conduziram-na a uma escada que levava á parte superior da Torre Eiffel, que inclusive estava incrivelmente iluminada, Lyss entendia agora o porquê de ela ser o símbolo de Paris, dali de cima a cidade parecia ter sido esculpida casa por casa e pessoa por pessoa, cada praça e cada rua pareciam estar no lugar ideal para ela, como se não existisse outro jeito de fazer a cidade além daquele. Havia poucos visitantes ali, os homens de smoking continuaram levando-a até o lado da Torre onde uma mesa pequena e confortável estava, haviam duas cadeiras ali, as duas estavam desocupadas, uma rosa dentro de um vaso delicado de vidro enfeitava o centro da mesa que estava coberta com uma toalha com motivos bordados a mão. Um prato diante de cada cadeira e um guardanapo sobre estes completava a cena, um dos homens que acompanhava Lyss deu dois estalos com o dedo e um violino e um violoncelo começaram a tocar uma sinfonia suave, Evan – de terno, gravata, sapatos reluzentes e postura felina – surgiu de um dos pontos cegos de Lyss.
– Buenas noches! – segurou sua mão e inclinou-se para beijá-la
A sensação de formigamento naquele ponto durou mais tempo que o fôlego de Lyss. Evan puxou a cadeira para que ela sentasse e como de praxe a primeira coisa a ser servida e escolhida foi o vinho.
– Boa noite. – ela disse em um só fôlego.
– Eu decidi perdoar você. – ele falou puxando o guardanapo sobre a mesa – Decidi que não temos tempo para bobagens.
– Você não sabe se vou pedir perdão. – brincou dando de ombros enquanto pegava o guardanapo com ar afetado.
– Eu sei que eu amo você mais que a minha própria vida. E se você ainda quer ficar com um Evan disforme, mas, totalmente sexy e gostoso dentro de um terno caro... – ele ergueu a taça ainda vazia – eu digo que aceito perdoar você.
– Eu não saí da Ala pelos motivos que você está pensando – onde estavam as palavras bonitinhas que tinha pensado no caminho até aqui? – Não me assustei, nem pensei que você... – era um monstro! – Eu só... Eu precisei pensar – e convencer meu Mentor paranoico a não contar para os Wateaires que você não é você, porque eu suportaria tudo, menos um mundo sem você. – Só isso. – deu de ombros
– Eu já disse que te perdoo. – ele ergueu a taça ainda vazia, um homem de smoking encheu a taça de Lyss e depois a de Evan
– Podemos conversar sobre isso... aqui? – ela perguntou bebericando o vinho
– O que você quer saber? – ele também bebeu
– O que você é?
Evan fez um gesto de descaso.
– Tenho algumas teorias que merecem estudo.
– Você consegue entrar nas outras Alas?
– Todas. – ele assentiu – Agora eu quero saber como foi o seu dia sem mim.
– Por que você me ignorou no aeroporto?
– Ainda estava decidindo se perdoava ou não você. – ele sorriu e o coração de Lyss disparou outra vez só pra constar.
– Eu amo você. – ela disse
– Eu amo você, também. – ele ergueu a taça em sinal de brinde, os copos se encostaram com um tinido. Depois de uma pausa ele disse: — Você tem noção do quanto perigoso isso é? Tem noção do quanto você mexe comigo? – ele segurou sua mão que estava sobre a mesa – Lyss nada disso é certo, mas, — ele gemeu – eu não ligo. Logo eu que fui tão cauteloso no que diz respeito ás vidas das pessoas que amo, logo eu não estou me importando dessa vez e quero assumir os riscos, quero tentar, sabe? Mas, tem algo que grita forte dentro de mim e não quer que eu tente coisa nenhuma, quer que eu siga o que está escrito e te ajude para evitar as catástrofes e ponto. Depois te deixe ir. Só que eu sei que não vou conseguir te deixar ir pra lugar nenhum.
Ela sorriu mesmo percebendo o quanto ele estava tenso.
– Se você quiser e eu quiser faremos dar certo – até a visão de Victoria se realizar.
Eles teriam tempo. Evan sabia que de algum modo encontraria um caminho, até por que não estava cem por cento certo de que tudo aquilo era um mero acaso, eles se completavam e isso devia significar algo.
Algumas mulheres vestidas de branco subiram com uma bandeja cada uma. Era muita comida – foi a primeira coisa que Lyss notou, os pratos entravam e saíam até chegar um momento que só havia espaço para a sobremesa.
Mesmo assim havia sobrado bastante comida. Evan deu ordens em francês para os garçons e eles se retiraram imediatamente. Os dois continuaram bebericando vinho ao som do violino e violoncelo até Evan dispensá-los também. Estavam á sós.
Evan levantou-se e estendeu a mão pra ela, que o acompanhou.
– Conhece a história da Torre Eiffel?
– Não.
– Ela foi construída para uma exposição e seria desmontada logo em seguida. – a mão direita enlaçara seu ombro – Mas, a França percebeu o quanto o povo gostara do projeto arquitetônico e resolveu deixá-la. Este foi o palco para inúmeros pedidos de namoro, casamento, essa torre já ouviu milhares de declarações nos mais diversos idiomas e com os mais variados sotaques.
– Ela deve ter presenciado coisas tristes também.
Havia silêncio por toda parte, as ruas ainda estavam movimentadas e iluminadas, lá no fundo se ouvia som de música suave, mesmo assim a sensação de silêncio era grande, o vento agitava os cabelos e vestido de Lyss.
– Quer dançar? – Evan murmurou pegando-a entre os braços
– Sem música? – perguntou, estava bastante consciente da mão em sua cintura e do hálito quente em sua nuca
– Eu faço nossa música.
Dito isso começou a cantarolar qualquer coisa e balançar-se ao som dos acordes imaginários. Lyss riu quando ele a fez girar só para aproximá-la de novo, a dança foi ficando mais lenta a medida que a onda de romantismo tornava-se mais densa.
– Obrigado por vir. – ele sussurrou em seu ouvido
– Desculpe por ser uma tola.
– Você está incrivelmente fascinante esta noite e tem direito de ser uma tola.
Lyss corou
– Você está mais sexy e gostoso do que imagina. – ela falou sorrindo
– Nossa! – ele fingiu perder o fôlego – Então estou irresistível.
Ela riu
– Tenho más notícias. – ele disse encostando os lábios na testa dela — Demetree percebeu. Ou acha que sabe a razão de meus sentimentos por você não ser exatamente o de um Mentor para uma Elementar. – deu de ombros ainda balançando-se ao som da música imaginária
Lyss suspirou. Seu coração batia depressa contra o peito e podia apostar que ele ouvia, o corpo de Evan estava quente por causa do ar frio dali de cima, ele abraçou sua cintura com as duas mãos parando de dançar por um instante, Lyss retribuiu o abraço e ouviu o coração dele batendo tão depressa quanto o seu.
Eles não precisavam de palavras, o abraço durou até ele afastar-se devagar e fitá-la nos olhos. Evan ergueu uma das mãos e acariciou sua face devagar, com a ponta do indicador desenhou uma linha imaginária na sobrancelha, desceu ao nariz, fazendo-a sorrir, com as costas da mão acariciou a bochecha de Lyss para só então contornar seus lábios com o indicador, os olhos de Lyss não se desviaram dos lábios bem desenhados dele. Com uma das mãos circulando o tórax definido de Evan, Lyss arriscou-se a acariciar o rosto dele também, os cabelos num alinhamento bagunçado enrolou-se no seu dedo, eram macios ao toque, continuou até a nuca e podia apostar que Evan arrepiou-se, das sobrancelhas foi direto aos lábios desenhados só pra voltar para a nuca. Evan ergueu o queixo dela com o indicador e inclinou-se.
Lyss suspirou em antecipação, os lábios entreabertos aguardava o toque. A mão que estava em sua cintura trouxe-a para mais perto, Evan demorou-se ali, sentindo o aroma doce que ela emitia, beijou seus olhos, depois um lado do rosto e o outro. Com um movimento suave ele beijou o canto de sua boca, Lyss umedeceu-a instintivamente, a pulsação zumbia em seus próprios ouvidos. Então ele a beijou, prendeu seu lábio inferior entre os dentes e sugou-o devagar, sem nenhuma pressa. Lyss sentia a língua macia sobre seus lábios e puxou-o mais para aprofundar o beijo, os cabelos macios acariciavam sua mão. Ela nunca sentira algo como aquilo, enquanto Evan aprofundava o beijo e lutava para não perder o próprio controle, ela deixava-se levar pelas sensações. Os lábios dele continuaram-se a mover entre os seus, movimentando-se com maestria, com segurança de quem sabe o que está fazendo, foi a vez da mão dele segurar sua nuca e puxá-la pra mais perto, os corpos estavam colados um no outro, Evan esqueceu a voz interior que mandava que ele se afastasse, ali, de alguma maneira ele sentiu-se completo pela primeira vez em sua vida, como se sua busca houvesse acabado. Como se finalmente tivesse encontrado seu encaixe. O Encaixe Perfeito.
Uma tossidela discreta foi a primeira coisa a quebrar o encanto. Evan afastou-se devagar de Lyss pra reconhecer um dos garçons, eles trocaram algumas palavras em francês e ele se retirou. Lyss ainda estava encabulada com aquele momento, mas, Evan não permitiu que ela se afastasse.
– Que tal conhecer um lado de Paris que os cartões postais não mostram?
Pareciam um casal de namorados, ela poderia se acostumar á aquilo, Evan continuava com as mãos em sua cintura e Lyss com uma mão em seu peito rijo, o coração dele ainda batia rápido e suas faces também estavam coradas.
– Como assim? – ela perguntou de cenho franzido
– Conhecer Paris como os parisienses.
Ela sorriu
– Vamos sim, não quero que o sonho acabe. – tocou o rosto dele de leve temendo que ele se desfizesse e tudo não passasse de uma miragem
Evan inclinou-se outra vez para beijá-la nos lábios, um beijo breve. Mas, finalmente um beijo.
– Eu te beijei. – ele sussurrou parecendo não acreditar – Este foi um Quase-Beijo, californiana?
Ela fingiu pensar encostando a cabeça em seu peito.
– Acho que não, este foi um beijo completo.
Evan riu abraçando-a como quem agarra a própria boia de salvar vidas.
– Queria que esse dia não acabasse minha pequena.
Ela acenou concordando.
– Podemos fugir juntos. – ele sussurrou
Lyss riu
– Me diga um lugar que Winfrey não nos encontraria.
– Lisarb. Podemos construir uma caverna lá, ninguém sonharia em nos procurar em um lugar tão óbvio.
Ela riu outra vez, mas, parou notando o olhar deslumbrado que ele tinha sobre ela.
– O que foi? – corou
– É tão bom ter você aqui, sabe? – abraçou-a de novo – E se isso for um sonho, por favor, não me acorde.
Ela retribuiu o abraço desejando o mesmo. Estava em paz, estranhamente em paz, sem vozes de recriminação em sua cabeça, sem preocupações e sem coisa nenhuma. Só o encantamento. Afinal, estavam em Paris, e mesmo que Evan mudasse quando chegassem á Lisarb, ela teria lembranças daqueles instantes ali.
– Você é parte de mim, Lyss.
– Que isso dure. – foi a frase dela precedida de uma prece silenciosa atirada da Torre Eiffel, como tantas outras, sobre Paris.
A limusine estava parada no mesmo lugar, eles se dirigiram pra lá de mãos dadas e trocando palavras de amor, pareciam estar em um universo só deles, dentro da limusine o cheiro de comida deixaria qualquer um de água na boca mesmo estando cheio de tanto comer.
– Não se assuste com o que vai ver. – ele adiantou antes do carro começar a deslizar silencioso pelas ruas de Paris
A viagem demorou bastante tempo, Evan serviu uma taça de champagne pra ele e Lyss e, contentou-se em ficar observando-a corar com qualquer elogio que ele fazia. Conversaram um pouco, Evan fez mistério sobre o lugar onde estavam indo, só disse que esperava que ela se sentisse bem fazendo aquilo e que se ela preferisse ficar no carro enquanto ele descia ele entenderia. Lyss estava cada vez mais curiosa á respeito, tentou enxergar algo através dos vidros filmados, mas, não funcionou muito, só conseguiu ver que as luzes estavam ficando para trás. Em algum momento da viagem Evan segurou sua mão e ficou acariciando-a, aquilo a manteve tranquila. Com uma freada suave o carro parou e o motor foi desligado, Lyss olhou ao redor, mas, era impossível enxergar qualquer coisa daquele lado, olhou na outra janela, á de Evan e viu uma luz fraca, uma luz quase imperceptível naquela escuridão.
– Fique aqui, certo? – Evan depositou um beijo em sua mão e desceu junto com o motorista
Lyss entreabriu a janela logo que ele saiu pra tentar ouvir algo, o que escutou não entendeu, mas, o cheiro que invadiu o carro foi insuportável. Parecia uma mistura de fezes com qualquer coisa putrefata, Lyss não sabia se saía de uma vez ou fechava a janela para esperar que o ar condicionado tirasse aquele cheiro dali. Resolveu esperar um pouco dentro do carro, até por que não conseguia mais enxergar Evan. O silêncio era assustador, para se prevenir apagou a luz do interior que havia acendido segundos atrás, procurou instintivamente pelo colar que Mathias lhe dera sabendo que estava depositando confiança demais numa joia, mas, só encontrou o colar azul e branco que colocara pra combinar com o vestido e sapatos. O silêncio doía-lhe os ouvidos quando um toc toc chamou sua atenção. Olhou para a janela e não viu ninguém, quase podia ouvir aquele fundo musical dos filmes de terror onde o homem vem com uma serra elétrica e...
Toc, toc, toc. – De novo.
Esforçando-se para ver através do fumê não viu nenhuma pessoa ou animal que estivesse emitindo aquele som contra o vidro. Talvez fosse um DDP invisível.
Toc, toc, toc, toc. Impacientes dessa vez.
Foi quando Lyss viu uma mão pequenina esticar-se para acertar o vidro do carro.
Sem pensar muito ela abriu a porta para dar de cara com uma garotinha, os cabelos lisos e castanhos mediam no ombro, dava pra ver que não haviam sido lavados ou penteados há bastante tempo, semanas, talvez. O rosto da menina estava sujo e uma crosta branca ligava o nariz ao lábio superior, a mão que batia no vidro estava tão suja quanto seu rosto. Ela sorriu revelando a precariedade de seus dentes, dois deles estavam pretos, as roupas... Se é que poderiam ser chamadas assim foram bonitas um dia, mas, certamente pertencia á irmã mais nova, ou pertencera um dia.
– Olá. – disse num inglês carregado de sotaque
– Oi. – Lyss respondeu, sorriu de volta. O coração apertado por ver a situação da garotinha
– Você deve ser a namorada de Tio Evan. – ela esticou Lyss em direção á uma casa que Lyss só notara agora.
A luz fraca que via vinha dessa casa, não era exatamente uma casa, era quase a cabana que Herbie guardava lenha, só que de um material menos rústico, a garota esticou Lyss para aquele lado, o salto alto dela afundava no solo enlameado.
– Venha, venha. – a garota dizia puxando-a
– Espere! – Lyss conseguiu falar – Preciso ficar no carro, pois...
Pois não sabia pra onde a garota estava levando-a e o arrepio que sentia e fazia seus músculos retesarem não era devido ao frio, mas, ao temor.
– Ele está fazendo mistério, mistério contigo. Mãe ficará feliz. Vai sorrir. – ela explicava capengando no inglês
– Como você se chama? – Lyss perguntou ainda sendo esticada pela garota
– Marie.
A luz vinha de uma lâmpada pendurada na frente da porta da casa, a porta era verde, de madeira, estava desgastada e estava entreaberta, a parte inferior da porta já não existia, estava remendada com o que parecia um papelão. As paredes desgastadas eram cor de rosa, as árvores cobriam quase toda fachada, era um lugar difícil de ser encontrado principalmente á noite.
– Você conhece Evan, certo? – Lyss perguntou á garotinha
– Sí, si. – ela disse – Tio Evan está com minha mãe.
– E você pode me levar até eles?
Ela não respondeu, esticou Lyss até o interior da casa. Estava escuro, a luz era quase inexistente, havia nove pares de olhos que se viraram pra Lyss assim que ela entrou. Naquele momento o coração perdeu uma batida.
– Ah. – disse a voz de Evan – Vejo que Marie te encontrou.
Lyss sorriu mesmo sabendo que talvez Evan não visse.
– Entre minha doce. – falou outra voz levantando-se e pegando Lyss pela mão para fazê-la sentar-se no que lhe pareceu um sofá.
Estava mesmo escuro, mas, não tanto quanto Lyss via a princípio, assim que os olhos acostumaram-se a pouca luminosidade ela identificou a quem pertencia cada par de olhos.
Nove:
O primeiro par era de Evan, foi o primeiro que ela identificou, ele sorria confortável, o que ajudou-a a manter a calma diante dos outros desconhecidos.
Marie sentou-se ao lado de uma moça gorducha e bonita, ela tinha os cabelos ruivos presos numa trança de lado, ao lado dela uma jovem, devia ter a idade de Lyss ou menos. O total, exceto Evan, eram quatro homens, uma mulher, a que Marie sentara-se ao lado, e três jovens: duas meninas e um menino.
De uma maneira geral eles tinham características semelhantes, alguns homens eram tão parecidos que com certeza eram parentes, pareciam uma família mesmo. Não amigos ou conhecidos, mas, irmãos ou pais e filhos. Os olhares alternavam-se entre curiosos, admirados e até um ar de inveja por parte das jovens.
– Essa é Lyss. – Evan disse levantando-se, segurou-a pelos ombros de maneira afetuosa.
– Pelo seu sorriso vejo que concluiu sua busca. – a moça gorducha levantou-se para beijá-la no rosto
– Lyss essa é Lauren.
– Muito prazer. – Lyss sorria ainda sem jeito, retribuiu o abraço da senhora, estava consciente demais de suas próprias roupas que destoavam do lugar.
– Acho que podemos acender as luzes já que sabemos de quem se trata. – era um homem quem falava, ele levantou-se e foi á parede oposta até um interruptor, Lyss semicerrou os olhos esperando a luz ofuscante, mas, quando a lâmpada foi ligada a diferença de claridade não foi tão grande quanto ela esperava, mas, já era possível perceber as tênues diferenças entre as pessoas sentadas.
– Este é Pierre, pai de Marie, a garotinha que você já conhece – apontou a menina – ele é esposo de Lauren.
– Olá.
Daí em diante foram apenas apresentações. Pierre era esposo de Lauren e pai de Marie, Ana e Rebeca. Essas duas últimas tinham características muito semelhantes: cabelos ruivos e olhos escuros, o olhar de inveja sobre Lyss vinha de Rebeca, a mais velha das três. Nesse mesmo sofá – que parecia ter sido emendado á outro – tinha os irmãos de Lauren e seu esposo Pierre, eram os homens: Klaus e Leonardo, irmãos de Pierre e Mauricio irmão de Lauren. Leonardo era pai do garoto Luigi. Este último era o único que não sabia falar inglês, os outros falavam com bastante sotaque, apenas Lauren falava perfeitamente.
– Trouxemos presentes. – anunciou Evan depois de fazer com que Lyss sentasse em um dos poucos lugares vagos do sofá.
Evan sumiu porta afora, Lyss aproveitou para dar uma rápida olhadela ao redor.
A sala era separada da cozinha por um armário velho que tinha apenas uma gaveta, os outros espaços eram vagos e uma das portas estava amarrada por um cordão, em frente á Lyss havia uma passagem para o quarto, não havia porta, era possível ver alguns colchões amontoados, na cozinha havia um fogão velho e apenas a geladeira era de última geração e fazia um contraste gritante com todo o resto. O telhado precisava de uma boa reforma e as paredes de tinta nova. Lyss passou a mão pelo vestido caro e corou, olhou para os sapatos já sujos de terra molhada e sentiu-se envergonhada, seu próprio luxo era um insulto á simplicidade do lugar.
– Você é namorada de Evan? – foi Rebeca quem murmurou próximo ao seu ouvido
– Ah... N-Não... Quer dizer... – o que responderia? A verdade. Mas, qual era a verdade?
Lyss podia sentir a leve acidez naquela pergunta, corou ainda mais, felizmente os outros presentes não a escutaram.
Evan retornou logo em seguida com vários embrulhos nas mãos, o motorista continuava no carro, Lyss logo descobriu que os tais presentes era uma quantidade absurda de comida, Lauren se adiantou montando uma mesa, que estava no canto, desmontada para economizar espaço, os dois homens a ajudaram, enquanto isso seu esposo, Pierre, saiu para voltar em seguida com várias cadeiras que foram colocadas ao redor da mesa, todos pareciam estar ocupados com alguma coisa, Lyss continuou num dos cantos tentando ficar invisível, em poucos segundos o restante do pessoal tirou o sofá do caminho e substituiu pela mesa que ainda tinha aparência de nova. Lyss ofereceu-se pra servir os pratos, ajudava Ana a desembrulhar as comidas e o cheiro era cada vez maior dentro da casa, cada um foi sentando-se num lugar da mesa como se já tivesse seu próprio lugar, Lyss ofereceu-se para servir os pratos e tentou fazer igual aos garçons que serviram á ela e Evan na Torre Eiffel, Lauren tinha suco que foi servido a Ana, Marie, Luigi e Rebeca, os adultos beberam o vinho que Evan e Lyss trouxeram.
– Como estão as coisas Lauren?
Ela sorvia um pouco do vinho
– Ah, está tudo bem na medida do possível Evan.
– E essa moça? – acariciou os cabelos de Marie, que sorriu – Está melhor do resfriado?
– Os remédios que você nos conseguiu terminaram e... – começou Rebeca
– Rebeca! – interrompeu Leonardo
– O quê tio? – ela fez
– Não vamos preocupar Evan com essas bobagens.
– Não, não! – disse Evan – Eu faço questão de ajudar, não é esforço nenhum trazer mais remédios pra vocês. Sugiro que façamos uma lista das prioridades.
– Podemos ver isso depois. – Lauren falou recriminando Rebeca com o olhar
Evan assentiu
– E o hospital? Levou Ana e Marie para uma consulta?
– Sabe o quanto é perigoso. – Klaus disse com a boca cheia
– É. – fez Mauricio com a boca suja
– Vocês não podem ter crianças doentes em casa.
– Não estamos acostumados com isso. – Lauren suspirou aparentando cansaço
– Virei aqui mais vezes – Evan sorriu acariciando a cabeça de Marie – Combinado?
Houve uma breve comemoração em francês dos presentes. Marie fez o que pareceu um agradecimento em francês e Evan respondeu na mesma língua, estava claro o afeto dos presentes.
Lyss tomou um lugar na mesa e bebericou um pouco enquanto começava a conversar com os presentes, todos queriam saber um pouco sobre ela, Lyss foi cuidadosa em suas respostas já que não sabia se eles eram humanos ou não e Evan não mencionou nada a respeito, logo estavam conversando como se fossem velhos amigos, Evan parecia em casa, no meio da própria família, Rebeca era a única que não conversava com Lyss direta ou indiretamente e quando falava algo era em sua língua materna tornando impossível para Lyss compreendê-la, quando notou que ela sorria o tempo inteiro para Evan Lyss percebeu o porquê da pergunta e de suas atitudes. Era óbvio o interesse que ela tinha por ele.
Em dado momento Evan olhou o relógio e sinalizou para Lyss.
– Está ficando tarde, precisamos voltar para o hotel.
Ela esquecera completamente do horário, enquanto levantava-se ao som dos protestos das pessoas ao redor da mesa Lyss pensava na própria família, ou no que sonhava em ter como família, seria gostoso ter parentes assim: ao redor da mesa numa conversa informal, um preocupando-se com o outro. Nunca experimentara algo assim!
A maioria levantou-se e acompanhou Evan e Lyss até o exterior da casa, Evan trocou algumas palavras baixas e em outra língua que Lyss não identificou para que nenhum dos presentes entendesse, o motorista continuava dentro do carro, Lyss esquecera-se dele por completo, Evan abriu a porta e ela entrou acenando para a família de Lauren, Marie veio abraçá-la e depois saiu saltitando, Evan entrou no carro em seguida e deu ordens ao motorista, a limusine saiu silenciosa de volta ás ruas de Paris, Lyss olhava as luzes pela janela quando Evan abraçou-a.
– O que achou? – sussurrou
Lyss fechou os olhos e encostou-se nele, os braços em sua cintura e o abdômen forte contra suas costas a mantinha em paz.
– Quem são eles?
– Lauren é uma Wateaire como seu marido Pierre.
Lyss não disfarçou a surpresa.
– Mas, é contra as regras.
– E você viu o resultado de quem burla essas regras. – disse com pesar
– Como a filha deles está doente? Os wateaire vivem bastante tempo.
– As filhas de Lauren não são filhas de Pierre, e quando se faz algo contra as regras a Natureza puni retirando os poderes e toda proteção que ela concede, eles se tornam humanos, frágeis. E pra quem está acostumado á quase imortalidade não é uma adaptação muito fácil.
A imagem da garotinha Marie e seu estado precário veio á mente de Lyss.
– Eles não podem arrumar um emprego e...
– Não! São a parte negra de nossa espécie – ele disse com pesar – Vivem escondidos, mal podem ir ao hospital, as garotas não vão á escola, atrás da casa eles plantam o que podem e só, eu ajudo como posso, mas, é complicado já que não posso sair de Lisarb com frequência e os Wateaires não podem sequer sonhar com isso.
– O que aconteceu exatamente para que eles fossem condenados a viver daquele jeito?
– Lauren era casada com um humano, mas, sempre fora apaixonada por Pierre até que um dia resolveu jogar tudo pra cima e assumir sua relação com ele, a Natureza fez o favor de anular a quase imortalidade deles e de suas filhas, os outros apoiaram ou fizeram algo contra essas mesmas regras e sofreram a mesma punição, não se pode falar com frequência desses Wateaires ou ajudá-los, segundo nossas regras eles devem sofrer as punições que a Natureza impôs.
– Eles podem morrer? – Lyss perguntou sentindo um nó na garganta
– Se forem vistos por Wateaires ou DDPs que queiram fazê-lo. E não há nenhuma possibilidade de proteção, entende?
Os braços apertaram-se ao redor da garota, ele tremia um pouco, parecia abalado, Lyss entendia a preocupação dele, Evan temia que aquele tipo de coisa acontecesse com eles.
– Posso te prometer uma coisa? – virou-a para si – Eu vou cuidar de você e te proteger, entendeu?
– Só não muda comigo. – ela pediu – Quer dizer, eu sei que você deve estar sob efeito da cidade – ela sorriu consigo mesma – ou sei lá o quê, mas, não muda bruscamente comigo quando voltarmos a Lisarb, não me trata como se nada disso houvesse existido e...
– Ei! – ele pôs um dedo sobre os lábios dela – Não vou mudar, não pretendo. Eu gosto de você e sei do risco que estou correndo admitindo isso e assumindo meus sentimentos e estou disposto a enfrentar tudo. – acariciou o rosto dela – Só quero que saiba que sempre será você, se for preciso escolher sempre será você, te protegerei e não vou permitir que nada te machuque. Está me entendendo?
Ela balançou a cabeça e sorriu pra ele, mas, sabia que a morte que Victoria vira foi sua não de Evan. Ele inclinou-se sobre ela para beijá-la mais uma vez naquela noite, enquanto movimentava seus lábios sobre os dela sentindo seu próprio coração martelar forte contra o peito percebeu que finalmente havia concluído sua busca, Lauren estava certa. Finalmente se encaixara á sua metade.
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