Chris arrastou sua mala até a cama, grande parte das suas roupas ainda estava ali dentro, começou pegando e dobrando suas camisas, organizando-as empilhadas. Pensava em como fazer e o que fazer quando voltasse ao mundo “normal”. Talvez ele tivesse que fingir que nada acontecera durante aquele tempo, que ele não viajara até a Inglaterra e logo depois para Lisarb – essa última viagem fora a mais sinistra de sua vida, e não só pelo modo pouco convencional de viajar, mas, também pelo fato de Chris nem saber que aquela ilha existia.

Esquecer tudo, começar do zero, — ignorar o sentimento de dever por fazer que ficaria se decidisse esquecer tudo o que viveu ali – aceitar a oferta da Universidade e ser professor de música nos tempos livres ao invés de mudar-se para Chicago e cursar faculdade. Eram bons planos, até algum tempo atrás isso tudo era suficiente pra ele, mas, agora...

Talvez todos nós fôssemos como peças de xadrez, seguindo comandos de uma mão invisível que se chama Destino. Talvez exista a maneira certa e a maneira errada ou talvez não exista maneira alguma.Talvez durante todo esse tempo elesó estivesse jogando do lado errado do tabuleiro.

Chris não podia ficar nesse mundo, ele só era um mortal, um humano, e no meio de Mestres, Elementares, Wateaire e... Seja lá como chamavam os garotos do Weverston. Ele não se encaixava em nenhuma dessas “espécies”.

Suspirou, se aquele era mesmo um jogo de xadrez estava na hora de guardar suas peças... e consequentemente sair de Lisarb, se havia algum lugar no mundo pra ele certamente não encontraria ali. No momento – se ele não quisesse ter uma crise de personalidade – ele tinha que ocupar sua cabeça com coisas humanas – e normais.

Pensava no assunto quando alguém bateu á porta.

Chris não pôde deixar de se surpreender ao deparar com Lyss diante da porta. Ao que parecia o “evento” do penhasco havia sido totalmente superado, era como se houvesse sido apenas um incidente desconfortável, não parecia que ela havia tentado realmente se matar, Chris cogitava se todas as horas anteriores não foram fruto de sua imaginação. Mas, ele não podia ignorar que se Evan não tivesse chegado a tempo estariam agora catando o que sobrasse do corpo dela. Ele estremeceu diante do pensamento.

– Está fazendo as malas. – ela observou olhando a bagagem parcialmente pronta sobre a cama.

– Você ainda não fez as suas? – ele sorriu para ela

– Já. Eu estava acertando as coisas com Philip. Ele vai com a gente, vamos procurar coisas sobre meus pais.

Chris encostou-se no batente da porta

– Você está bem?

– As pessoas ficam me perguntando isso a todo tempo. – ela deu de ombros – Eu sempre fico bem. Mesmo quando perguntam por hábito.

– Eu não estou perguntando por hábito. Estou perguntando porque eu te amo. Importo-me com você.

Ela desviou os olhos e se remexeu desconfortável.

– Na verdade eu estou aqui pra fugir de toda essa loucura – ela riu desconfortável – As wateaires, Lucy, Cassie, Nataly e Louis estão loucas com a festa de hoje.

– Você sabe que vamos viajar essa madrugada, não é?

– Sim. Logo depois da festa vamos para Inglaterra.

– Isso! Já que Philip é da mesma categoria do menino que sempre traz as pessoas aqui...

– Adam. – ela informou

– Isso! Adam. Já que Philip é como Adam ele bem que podia nos levar direto pra casa. Um voo sem escalas.

Lyss sorriu porque Chris sorriu pra ela.

– Precisamos passar por Winfrey, até por que, acho que o único meio de se teletransportar daqui é indo para a Inglaterra.

– Mais uma das coisas de Feitiços.

– É. – ela deu de ombros – Você está bem com isso?

– Sim. – balançou a cabeça para enfatizar – Sem problemas. Você ser uma Bruxa explica metade dos problemas.

– É.

O silêncio desconfortável deitou-se como vidro fino entre eles.

– Eu... ãhn... – ela buscava as palavras certas – Queria te agradecer pelo que você fez lá...

Na minha tentativa falida de suicídio – Chris completou em pensamento – Os créditos reais não deveriam ser destinados á mim, mas, eu jamais – nem sob tortura – admitiria isso em voz alta.

– Tudo bem, pode contar comigo na próxima vez.

Ela fez uma careta.

– Não haverá “próxima vez”.

Ele esperava realmente que não. Com ênfase no “realmente”.

– Tudo bem. – deu de ombros

– Vou descer. – ela disse de repente – Vou ajudar na arrumação. – ela sorriu e deu-lhe as costas

Chris mordeu os lábios tentando conter a si mesmo de fazer a besteira de puxá-la de volta, mas, assistiu sua mão agarrar o braço dela e esticá-la em sua direção. Lyss não esperava por isso e veio com facilidade, sem resistência. Chris a esticou forte demais e ela parou a centímetros de seus lábios. Aquele movimento era tão familiar para ambos que Chris esqueceu por um segundo de que não devia.

– Vem cá. – ele sussurrou. O hálito quente balançando alguns fios pretos do cabelo dela, ele envolveu-a com força em seus braços. O coração disparado no peito. – Eu não quero nem pensar em te perder como foi dessa vez. – gemeu apertando-a mais.

Lyss preferiu se calar e retribuir o abraço.

A mistura de aromas de rosas e outra flor que Lyss não conseguia identificar estavam deixando-a zonza. Definitivamente ela estava inútil, Demetree a aconselhara á descansar um pouco. Fisicamente ela estava ótima, alguns arranhões que ela ganhara no caminho pro penhasco haviam se curado em questão de segundos. Aquilo era uma boa notícia, talvez. Era uma menor preocupação já que ela era mortal.

Estava saindo do salão – que estava repleto de Wateaire – e, acatando o conselho de Demetree, encaminhou-se ao quarto. Na verdade ela estava evitando ficar sozinha pra não pensar em Evan e no que ele devia estar pensando dela.

O amor, a morte e a dor caminhavam de mãos dadas. Mas, se aquela que você ama lhe matasse? De uma forma ou de outra ela havia matado Evan, ele estaria a odiando agora?

Ela não podia sequer pensar na possibilidade, mas, se ele estivesse pelo menos aborrecido com ela seria mais fácil se manter longe. Lyss subiu os degraus depressa, seus pés pareciam implorar pra que ela corresse, era como se fosse custoso pra eles ficar no chão. Parou diante da porta e girou a maçaneta devagar impedindo que lembranças povoassem sua cabeça. Ela estava psicologicamente exausta, estava fora de cogitação pular de penhascos outra vez. Entrou no quarto lançando um rápido olhar na janela entreaberta, sua conexão com a lua era tão grande que ela sabia quando esta estava ou não coberta pelas nuvens sem precisar olhar pro céu.

Fechou a porta e encostou-se á ela de olhos fechados, a tarde estava caindo depressa e as nuvens ainda acinzentavam o azul perfeito do céu. Quando estas cobriam a lua suas mãos formigavam menos. Lyss arrastou-se até a cama e seu corpo flutuou em câmera lenta até o colchão macio. Era bom se sentir tão forte e tão leve, assim como não sentir-se cansada fisicamente, em compensação seu cérebro parecia sobrecarregado. Ela manteve os olhos fechados, o tempo passaria mais rápido se ela ficasse ali, daquele jeito.

Um barulho repentino na janela a fez saltar, ficou de pé tensa como uma corda de violino numa fração de segundos. A agilidade também era muito boa, ela se sentia tudo, menos humana, isso a deixava contente.

Não desviou os olhos da figura parada de pé diante da janela aberta. Seu coração não batia mais, esse silêncio doeu mais que um bofetão, aquele silêncio era culpa dela e nada mudaria isso. Tirando isso ele não parecia menos magnífico do que ela já vira. Os olhos profundos verde-castanho, os músculos rígidos sob a camisa, os cabelos em desalinho, os lábios inclinados pra esquerda em um quase sorriso inconscientemente sexy. Evan era mesmo o homem mais lindo que ela já vira na vida.

Mas, uma coisa estava errada, ele não devia estar ali, tão perto dela – mesmo que ele estivesse do outro lado do quarto, o mais distante possível. Procurou algo em sua expressão que a fizesse concluir que ele estava sentindo algum tipo de dor, mas, não encontrou. Ficou feliz de algum modo. Ela podia sentir que as nuvens cobriam a lua, isso devia mudar alguma coisa. Concluiu isso no mesmo instante em que percebeu que ele não estava totalmente relaxado, uma das mãos pousava no parapeito da janela, ele parecia pronto pra saltá-la no assim que sentisse alguma coisa, isso a acalmou um pouco.

Ele passeou os olhos pelo corpo tenso de Lyss procurando algo fora do normal, pareceu satisfeito com o que viu.

– Você está bem? – a voz de Lyss soou estranha no silêncio quebrado apenas pelo som do coração dela e das respirações.

– Nem tanto. – ele sussurrou sem mover um músculo. – Queria poder tocar você. – sussurrou

Lyss fez uma análise rápida: A voz estava Ok, o corpo também. O que mudava era que Evan não mais se tornava mortal quando estava com ela, isso não era de todo ruim, afinal, não se pode matar quem já está morto. Isso soa como bordão de filme de terror, mas, ela ainda era a única capaz de matá-lo.

– Porque fez aquela loucura? – ele perguntou de repente, sua voz vacilou um pouco.

Como se já não estivesse claro. Desviou o olhar.

– Viver, se não for com você, não é uma opção. – falou firme

Ele pareceu exausto de repente, a expressão desolada.

Eles mal se moviam, ele mal respirava. Ela não queria fazer algum movimento que a aproximasse dele provocando-lhe dor.

– Você podia ter... – ele engasgou e engoliu em seco. – Morrido.

Na verdade a intenção era essa.

– Eu tinha matado você. — murmurou

– Não exatamente. – ele retrucou de mau-humor

Deu de ombros

– Pensei que você não existia mais e a culpa era minha. Eu até agradeci por ser mortal.

A voz dela soou embargada enquanto a imagem clara de Evan retorcendo de dor no chão do salão – por causa dela – alcançou sua mente.

Ele fechou os olhos por um momento e a mão sobre o parapeito cerrou em punho, deu um passo pra trás no mesmo instante, mas, a expressão dele não era de dor física.

– Quando nos separamos você não tentou algo parecido.

– Incomparável. – falou – Contanto que você exista em algum lugar... terei forças pra continuar. Sabe disso.

Ele moveu-se um pouco, um movimento quase imperceptível.

– Se eu não... – ele arfou apertando os olhos fechados – Se eu não chegasse a tempo? Se eu não conseguisse... – parecia haver um nó em sua garganta — Faz alguma ideia do que seria de mim se te perdesse?

Ele meneou a cabeça lentamente não querendo pensar na possibilidade.

– Não pense nisso, estamos aqui, agora, juntos. Tudo voltará ao normal assim que a lua diurna desaparecer.

Ele abriu os olhos e olhou para o céu pela janela antes de a encarar.

– Não juntos o suficiente.

Ele moveu o corpo na direção de Lyss e antes que desse um passo ela ergueu a mão em um aviso.

– Não pense nisso. — grunhiu

Ele pareceu não a ouvir, olhou outra vez para o céu, as nuvens cobriam a lua ela podia sentir. Sua mão continuou debilmente estendida pra ele num claro sinal pra que ele não se aproximasse.

– Quero tentar uma coisa. – ele sussurrou a encarando, atento ás suas expressões.

A respiração de Lyss ficou em suspenso enquanto ela absorvia com exatidão o sentido daquelas palavras, fitou em pânico o primeiro passo hesitante que ele deu em sua direção. Ela recolheu a mão vendo que não surtiria efeito algum

– Evan, por favor. – tentou apelar

A última coisa que ela queria era ver a cena se repetir: Ele começar a debater-se de dor e ela ficar ali, sem saber o que fazer.

– Procure ficar quieta, só quero testar.

Revirou os olhos

– Masoquista. – murmurou dando um passo pra trás, foi de encontro á parede.

Ele deu mais passos em sua direção, Lyss reprimia a vontade de correr na direção oposta.

– É só ficar parada.

– Sabemos o que vai acontecer. – grunhiu

– Não, Demetree diz que sentirei dor e... vamos á prática.

– Masoquista. – repetiu enquanto ele aproximava cauteloso

Havia uma cama entre eles, ele dava passo por vez como se estivesse em um campo minado, Lyss ficou atenta á seus passos, uma expressão de dor, e ela o faria parar no segundo seguinte, não sabia como, mas, faria. Fechou os olhos, era imprudência, mas, sentiu necessidade de fazê-lo. Procurou respirar pouco, queria não respirar, seria mais prático.

A primeira coisa a tocar a pele dela foi sua temperatura, estava mais quente que ela, emanando de seu corpo, envolvendo-a como uma aura, Lyss estremeceu ao ouvir a mão aproximando-se de seu rosto frio, puxou ar para seus pulmões..

– Relaxe, já chegamos aqui. – sussurrou

– Sente alguma coisa? – conseguiu perguntar

– Muita coisa. – ele disse, a voz inconscientemente sexy e rouca deixando claro que ele não sentia o que ela achava que ele sentia. Era um avanço.

Esperou pelo toque de sua mão, mas, ele hesitava. Lyss abriu os olhos impaciente, perdeu a linha de raciocínio ao fitar os olhos brilhantes.

– Você é incrível. – saiu sem querer

Ele não disse nada, a mão estava parada a alguns centímetros do rosto dela, um movimento e eles se tocariam.

– Não é tão ruim. – ele mal moveu os lábios.

– O que está sentindo?

– Não sei explicar. – sorriu

A mão tocou o rosto dela finalmente, arfou. Não desgrudou os olhos dos dele, a mão deslizou de sua sobrancelha até o queixo, ele traçava uma linha invisível com a ponta do dedo. Era como se estivesse tocando-a pela primeira vez, hesitante, usufruindo de cada segundo e cada centésimo de segundo, Lyss não resistiu a tocar sua mão com a dela, ele suspirou lentamente soltando o ar preso nos pulmões.

– Não é tão ruim, definitivamente. – ele sussurrou

– Masoquista. – ela já havia dito isso.

– Está sendo repetitiva. – murmurou

Ela sabia disso.

A mão de Evan tocou a curva suave de sua mandíbula, o corpo foi relaxando aos poucos, Lyss tentou se concentrar no leve formigamento de suas mãos, mas, era difícil se concentrar em qualquer coisa com Evan tão perto.

Ela tinha que se concentrar em quê mesmo?

Faltavam poucos centímetros pra os corpos tocarem realmente, ela teve que exterminar a distância entre eles, colou-se á Evan, ele gemeu e ela abriu os olhos – tensa outra vez – deu um passo pra trás, mas, foi de encontro á parede, estava prestes a ir á porta, mas, ele segurou firmemente sua cintura.

– Ei, calma.

– Desculpe, está bem? – o clima de relaxamento foi por água abaixo, pra Lyss pelo menos, Evan continuava calmo e sorridente mantendo-a perto dele.

– Estou, meu gemido foi de outra coisa. – ele sorriu escondendo o rosto na massa de cabelos que cascateavam nos ombros dela.

Evan estava encabulado? Aquela era nova.

– Acho que entendi. – sussurrou.

– Viu? Não é tão ruim.

Apesar do esforço pra se manter neutro e relaxado ela sabia que ele devia estar sentindo alguma coisa. Dor pra ser mais exata.

– Não está sentindo nada? – sua voz soou mais firme do que ela sentia

– Um leve formigamento, mas, sabe a parte boa?

Não havia lado bom naquilo. Ele disse assim mesmo:

– Uma das minhas metas era sentir dor e... aqui estou eu.

– Então você está sentindo dor. – acusou

– Não sei ao certo. Como é sentir dor?

Ele afastou o rosto da massa de cabelos dela, mas, sua mão ainda estava na cintura de Lyss, era difícil pensar.

– É doloroso. – disse debilmente

Ele riu.

– Foi o que eu pensei.

Uma de suas mãos – a que não estava na cintura dela – pousou ao lado de sua cabeça, ela estava totalmente encostada na parede, a lua estava escondida pelas nuvens, estava colaborando. Ponto pra ela.

– Veio aqui no meu quarto só pra testar isso? – perguntou

Ele a lançou um olhar magoado

– Obrigada pela parte que me toca. Vim pra ver se você estava bem.

– A troco disso está sentindo dor.

– Não é grande coisa.

Revirou os olhos.

– Você tem problemas. – afirmou

Ele sorriu e ela teve que desviar os olhos.

Então ela sentiu algo vir de dentro, Lyss ficou tensa outra vez e tentou olhar sobre o ombro dele pra ver a janela, suas mãos formigaram mais intensamente, começando pela ponta dos dedos. Evan soltou um gemido alto e saiu de seus braços em questão de segundos, por um momento ela pensou que ele havia saído pela janela, mas, então ela o viu encostado na porta do banheiro com uma mão no estômago e a outra apoiando o peso do corpo contra a parede ao seu lado, ele arfava sem fôlego.

– Droga, Evan. – murmurou – Eu avisei... – começou– Não pode fingir sensatez por um momento? Ficar longe de mim por alguns instantes?

Ela não o viu revirar os olhos e retomar a postura

– Tolice pensar que sou capaz de ficar longe de você.

– Ah, Evan. – encarou-o

Tentou ficar brava com ele, mas, sua voz amaciou naturalmente. Evan exercia um poder e tanto sobre Lyss, aquilo era covardia.

– É mais fácil as vacas voarem. – ele disse zombeteiro

– Como as vacas entraram nessa história? – tentou distraí-lo.

– Voando. – ele revirou os olhos

Ele permaneceu imóvel na porta do banheiro do outro lado do quarto, fingiu despreocupação, Lyss foi cautelosa para a cama e sentou sobre as almofadas.

– Problemático. – murmurou respirando fundo.

Ele sorriu enfiando as mãos nos bolsos, parecia despreocupado outra vez, provavelmente tentando amaciar a culpa dela, não deixando transparecer a dor inarrável, coisa de Evan. Típico dele.

– Já teve seu desejo realizado. – grunhiu

– Está me expulsando. – concluiu

– Rápido no raciocínio – fez um muxoxo – gosto disso.

Ele riu, o som a acalmou ainda mais de forma imprudente. Ele caminhou levemente até a janela procurando a lua. Se ele cogitava se aproximar de Lyss outra vez era melhor descartar a hipótese, ela não deixaria em definitivo. Lyss viu seu corpo curvar sobre o parapeito, fez uma careta ao avistar a lua.

– Demetree disse que ela vai desapareceu hoje. – ele falou ainda sem encará-la – Você vai viajar depois da festa, correto?

– Você vai comigo?

– Vou amanhã. Preciso conversar com Lauren. – virou-se para Lyss – Enquanto isso você deve ver a casa de seu pai e as cartas e tudo o mais.

Ela assentiu desconfiada.

– Vai passar logo. – prometeu de repente

– Espero que sim.

Lyss não sabia se ele escutou seu último murmúrio, saiu pela janela deixando o leve vento como prova que estivera ali, Lyss tentou não pensar nas possibilidades, no que poderia acontecer, enterrou o medo e procurou concentrar-se na festa. Hora de pedir SOS á Cassie, ela ficaria feliz com isso.

Elas passaram toda tarde trancadas no quarto, passava das quatro horas quando Cassie finalmente acabou de pintar as unhas de Lyss, Victória apareceu por esse horário, trancou-se no banheiro onde passou uma hora completa, saiu de lá com os cabelos um pouco úmidos, tratou-se de munir-se com escova e secá-los, não demorou até que eles começassem a brilhar.

– Lyss, encontrei um vestido perfeito pra você. – Cassie falou de repente — É um vestido ideal.

Abrindo as portas do guarda roupa ela revelou quatro vestidos pendurados em cabides, um verde, um rosa, um prata e um preto, este último era sem dúvida de Victória, se não era fazia perfeitamente seu estilo. Puxando o prata, colocou diante de si. Era um vestido extremamente elegante, do tipo que Lucy daria pulinhos pra vê-la vestida, era feito de cetim, tomara-que-caia, media até a altura dos joelhos, levemente drapeado nos seios — o que destacava o busto -, duas faixas transversais, abaixo do mesmo, formando um "x", o vestido era meio rodado e parecia mesmo o "vestido ideal".

– O que achou? — quis saber

Enquanto ela passeava os olhos pela peça, Louis enfiou a cabeça pelo vão da porta do banheiro e esperava a reação de Lyss, Victória ainda estava alheia á elas.

– Ele é lindo. — ela disse francamente

– Ótimo, já tenho uma ideia pra seu penteado...

– Você não sabe se ele vai caber em mim...

– Claro que vai, se não der tenho outras peças que ficarão perfeitas.

Atirando o vestido pra Lyss ela terminou a frase com um sorriso

– É sua noite, Lyss. Vai valer a pena, tenha certeza. — Louis piscou antes de voltar ao banheiro.

Como Lyss imaginara o vestido preto era mesmo de Victoria, era um modelo único que devia ser usado apenas por quem realmente tem personalidade, era estilo roqueiro, com saia rodada e corpete que valorizava seu corpo bem esculpido, Vick escolheu também sandálias estilo gladiador, tiras pretas e detalhes dourados. Já Louis optou pelo casual e chique, enrolou as pontas dos cabelos e prendeu-os em um meio rabo-de-cavalo, deixando uma parte solta e caindo em cascatas pelos ombros, o vestido verde era dela, longo e com corte reto, um pequeno rasgo na perna facilitava o andar, no momento ela se maquilava diante do espelho da penteadeira. Cassie já estava quase pronta, a maquiagem elegante e marcante era invejável, parecia aplicada por uma profissional, estava descalça, mas, já pusera o vestido — rosa, de cetim, curto e colado ao corpo bem desenhado. Lyss ainda não havia vestido o tal vestido, mas, pelas proporções daria nela, Cassie — que a mantinha imóvel sentada na cama — tentava enrolar sua franja que já nem era tão franja assim e deixá-la com mais brilho, a pior parte foi quando ela pôs na cabeça que pentearia os fios de seus cílios até deixá-los perfeitamente alinhados, (Lyss nem sabia que alguém se importava com cílios). Problemas surgiram também, quando ela passou lápis em seus olhos, por falta de costume eles começaram a lacrimejar e o trabalho foi por água abaixo — literalmente -, demorou horas para o trabalho estar completo e ela finalmente estar totalmente maquiada.

– Minha obra de arte! — Cassie gritou á certo tempo.

Lyss tinha a pequena impressão de ouvir música em algum lugar lá embaixo, mas, depois de passar horas trancada e imóvel era possível que ela começasse a ter alucinações.

Demorou um tempo pra perceber que "a obra de arte" de Cassie era ela mesma.

– Terminou? — perguntou ansiosa

– Terminou, ficou perfeita, não se olhe agora, vista o vestido e venha para que ela escove seu cabelo.

– O que faço com isso? — segurou sua franja que estava presa pra cima envovida em qualquer coisa para deixá-la enrolada, o resto do meu cabelo caía em seus ombros.

– Deixe como está, vista-se! — ordenou

Ela fez careta diante do tom de voz.

– Você está linda, Lyss. — Louis deviou a atenção pra ela.

Ela corou

– Sei disso! — Cassie sorriu e dela um pulinho como se o elogio fosse pra ela.

Lyss ri

– Alguém vai bater á porta. — Victória informou com voz entediada (o humor dela oscilava bastante hoje).

Ás vezes Lyss esquecia que Vick podia ver o futuro, Cassie a empurrou pra dentro do banheiro repetindo qualquer coisa sobre ninguém vê-la antes da festa. Passou-se três segundos e alguém bateu á porta.

– Desculpe o incômodo meninas. — era Chris — É constrangedor pra mim... Nossa! Vocês estão lindíssimas.

– Oh! — Vick murmurou com ironia (parecia sorrir).

– Obrigada! — Louis e Cassie disseram juntas

– Porque o "puxa-saquismo"? — Cassie completou

– Cru-el... — Chris sussurrou.

Lyss ri diante do tom de voz.

– Prenderam Lyss no banheiro? Estão se divertindo sem mim?

Somente Chris pra reconhecer seu riso...

– Rá rá, engraçadinho. — falou alto para que ele pudesse ouvir

Houve risos do outro lado da porta.

Para infelicidade de Lyss não havia espelhos dentro do banheiro de Cassie, se não fosse a dúvida sobre sua aparência ela teria saído do banheiro, mas, odiaria tornar-se chacota pra Chris, este sabia como testar sua paciência.

– O que você quer, Chris? — Cassie falou — Ou veio aqui como desculpa pra ver Victória?

Houve um momento de silêncio e Lyss podia apostar que Chris estava corado e muito embaraçado.

– Regras malditas, ah se eu pudesse matar você, Cassie. — Vick usou o tom baixo e ameaçador.

Cassie riu, descontraída.

– Vim aqui pra pedir a opinião de vocês. — um momento de silêncio — Gravata lilás, vermelha ou sem gravata?

Outro momento de silêncio.

– Sem gravata! — todas disseram ao mesmo tempo

– Ninguém me perguntou, mas, eu também prefiro sem gravata. — Lyss disse só pra não ficar calada.

– Ela sempre se intromete. — Chris sussurrou mais alto para que ela pudesse ouvir

Acabou rindo outra vez.

– Agora preciso ir garotas, por favor, não chorem, juro que volto, vocês sabem que nada anda sem mim lá embaixo.

Houve um coral de "Oooh!!!" irônico antes da porta se fechar.

– Lyss, cabelo! — gritou Cassie abrindo a porta e a puxando pra fora do quarto.

Foram horas e horas de puxa-estica de cabelo e... Lyss confessava, que se divertiu muito. Victória logo estava sorrindo e participando das brincadeiras e piadinhas de Cassie, até Louis atreveu-se á imitar a "mulher-fatal", esta última foi a primeira á ficar pronta, a pele irradiava uma beleza própria, as faces estavam coradas e a maquiagem discreta era perfeita pra ela. Cassie usou cores vermelha e rosa nos olhos, ficou linda, a maquiagem combinou com o vestido e com a sandália de imenso salto que ela escolhera, os cabelos foram escovados e caíam lisos ao redor do rosto, Vick se disse pronta e estava realmente deslumbrante, ela também optou por deixar os cabelos lisos, partiu o cabelo de lado e deixou as mechas caírem livremente, nos olhos caprichou no preto e no azul marinho, o vestido solto de saia desfiada estilo roqueira ficou muito lindo nela, no final das contas só Lyss não estava totalmente arrumada. Em dado momento — quando já aproximava a hora de descer — Victória ficou perto da janela por longos instantes, olhou pra ela por algum tempo e murmurou:

– Quer a boa ou a má notícia?

Só Lyss escutou

– Chega de más notícias.

Cassie abaixara-se em sua frente e calçava sua sandália — uma coisa que ela seria perfeitamente capaz de fazer — enquanto Louis ajeitava as ondas em seus cabelos, Lyss ainda não se olhara no espelho, mas, já tinha uma ideia de como o vestido ficara.

– Vou falar a má antes da boa. — Vick anunciou ainda de costas pra elas

– Do que estão falando? — Cassie quis saber enquanto lutava com o fecho da sua sandália

– Tenho duas notícias, uma boa outra ruim.

– Que tem a ver com o quê? — interessou-se Louis

– Lyss e o futuro.

Houve uma troca de olhares temerosos, Victória adotara o tom de voz neutro, era difícil saber o que ela "vira".

– Fale de uma vez! — Lyss explodiu

– Notícia ruim: Você não vai ter desculpas pra não aparecer na festa... porque... — ela sorriu — Notícia boa: A lua diurna desapareceu, aliás, temos uma noite sem lua hoje!

Cinco segundos inteiros pra absorver o significado daquelas palavras e Lyss correu o mais rápido que conseguiu (era difícil já que ela só calçara uma sandália) na direção da janela onde Victória estava, não havia sinal da lua e o sol ainda não se pusera completamente.

– Será verdade? — murmurou

Não havia sinal da lua, mas, ela podia simplesmente ter mudado de lugar no céu.

– Você está falando com uma pessoa que vê o futuro, e apesar de minhas visões com você serem um pouco borradas e fora de foco, posso garantir que a lua não vai atrapalhar essa noite.

Num gesto de ímpeto, envolveu Vick num abraço, ela soltou uma exclamação de surpresa, mas, ainda permitiu-se tocá-la levemente numa meia retribuição do gesto.

– Desculpe por isso, Vick. — falou sorrindo

A sua vontade era de gritar, pular, dançar, cantar... Mas, havia uma vontade que sobrepunha todas essas... Ela precisava ver Evan!