Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
11 Acordando.
Notas iniciais
“Abra os olhos. Não esses olhos. Os de dentro. Tem coisas que devem ser vistas com o coração.”
– Ei, ei. Não faça isso. Sou eu. Evan! Lembra-se?
O cérebro levou tempo demais pra absorver a frase. Evan? Evan. Ah. Evan!. Ela se surpreendeu com a reação de seu corpo.
– Oh meu Deus, ainda bem que é você. – ela sussurrou segurando a barra da calça dele, sentindo, de repente, uma enorme necessidade de ter certeza que havia alguém conhecido ali. Ele não entendeu a frase toda.
Lyss olhou para trás. E aquele outro homem? Tinha mais alguém ali. Evan segurou suas mãos e levantou-a. Ela cambaleou.
– Você está fedendo. – ele falou risonho segurando-a perto
– É bom te ver de novo, também. – disse tentando se equilibrar
– Você bebeu. Não parece ter cara de quem bebe.
– Como é a cara de quem bebe? – ela segurou a camisa dele entre os dedos. Ele estava de preto. Lembrou-se do próprio conselho sobre pessoas vestidas de preto. Concluiu que não devia dar tanta importância a esses conselhos assim. Ele tinha um cheiro bom, amadeirado. Os músculos de Evan eram rígidos ao toque, ao mesmo tempo sua pele era macia. De quem eram as mãos que acariciavam o rosto dele?
Lyss reconheceu as próprias mãos naquele rosto bonito. Ninguém deveria ser tão gato e másculo daquele jeito. As células de seu corpo pediram por Evan, lembrou vagamente do conselho da mãe para ouvi-lo.
– Você é bonito. – sussurrou
Não era normal, certo? Acariciar o rosto do cara assim, na maior tranquilidade, sem se importar com o que ele pensasse a respeito dela. Não era normal. Mas, era bom, e Lyss permitiu-se sentir aquilo pelo menos por enquanto.
– Você tem olhos incríveis.
E tinha mesmo, parecia bronze derretido.
– Você não está bem, né? – ele sussurrou, parecia um pouco afetado, talvez tanto quanto ela. Afastou as mechas de cabelo do rosto dela. Um rosto tão lindo. Tão familiar.
– Você também não. – a mão de Lyss acariciou os lábios e as sobrancelhas dele, desceu lentamente para o queixo. Os corpos colados. Ele estava morno, a temperatura quase humana, uma de suas mãos na cintura dela, hesitava entre empurrá-la ou mantê-la perto.
– Não devia fazer isso.
– Você é lindo.
Lyss inclinou-se para ele; os dois estavam pertos o suficiente, sua cabeça girava um pouco, suspirou e sentiu o cheiro de álcool impregnar suas narinas.
– Ah não. – gemeu se afastando – Estou chapada.
Evan piscou.
– Tentei te avisar.
Ela gemeu de novo afastando-se.
– Eu não sou uma prostituta, juro. Só tive um namorado em minha vida, nunca tomei a iniciativa com qualquer cara, aliás nunca quis tomar a iniciativa com um cara. – gemeu de novo, tudo rodou em volta dela – as árvores não param de se mexer.
Agora que não estava sob efeito da adrenalina de expectativa em encontrar o tal dono da voz, o álcool parecia surtir um efeito maior sobre seus reflexos.
Evan riu e tomou-a nos braços.
– Você tem uma inclinação por se perder e cair?
– Eu não me perdi. Só não sabia encontrar o caminho de volta, nem sabia como cheguei aqui.
– Certo, certo. Feche os olhos, descanse um pouco.
Ela o fez. Quando abriu os olhos, por causa do vento incomum que sentia, viu um manto verde abaixo deles, era a parte superior das árvores. Eles estavam voando.
– Você voa, também. – falou baixinho – Todo mundo aqui voa? Sinto-me constrangida de só andar.
– Lyss? – sussurrou como se falasse um segredo
– Hum?
– Cale a boca. – ela riu – Vou lhe preparar um café bem forte.
Depois de um tempo Lyss ouviu uma janela ser aberta e sentiu um colchão sob seu peso.
– Obrigada. – murmurou ainda de olhos fechados.
Lyss estava cochilando quando ouviu a voz de novo.
– Espero te ver em br...
– Vamos tomar um café?
Ela levantou-se assustada. Evan estava de pé aos pés da cama com uma xícara fumegante nas mãos. A cabeça reclamou do movimento brusco. Voltou a recostar-se nas almofadas da cama.
– Onde estou?
– Em seu quarto.
A cabeça doía, como se marteladas estivessem sendo dadas.
– Esse não é meu quarto, meu quarto tem paredes rosas e...
– Seu quarto em Lisarb. Permita-me dizer que você fica péssima quando bebe.
– Eu sei. – disse sentindo-se extremamente cansada.
Ele estendeu a xícara.
– Beba um pouco.
– Você é o cara mau? – ela perguntou aceitando
– Está quente. – avisou — Que pergunta é essa? Como assim: Cara mau? – ele tinha um sorriso na voz
– Sei lá. Você sempre aparece quando eu estou perdida. O que estava fazendo na floresta?
– Eu quem deveria te fazer essa pergunta.
Ela fez um gesto de descaso, ficou olhando o líquido escuro dentro da xícara.
– Onde conseguiu isso?
– Lá embaixo. Não se preocupe ninguém me viu.
Ela permaneceu em silêncio, franziu o cenho.
– Eu não gosto de números inteiros.
– O quê? – Evan sentou-se na cama
– Sabe, Vinte, Trinta, Quinze, Cinquenta. – falava como se tratasse de um assunto realmente importante — Também não gosto de números repetidos: Vinte e dois, Cinquenta e cinco, Oitenta e oito. – fez uma pausa — Eu detesto Oitenta e oito.
– Hum. – Evan não sabia exatamente como responder – Gosto de números.
– E letras? – ela experimentou o café, a cabeça pesada.
– Letras são importantes. Sem as letras você não me diria que sou bonito.
– Não se empolgue. – ela sorriu bebendo mais um pouco – Eu não queria estar aqui. – confessou — Eu queria ser humana, e voltar pra minha tia, pra minha casa.
– Acho que a maioria pensa assim. – Evan murmurou tocando a perna de Lyss
– Você já morou em muitos lugares?
– Já servi ao exército algumas vezes, já viajei bastante.e não é a primeira vez que vejo uma dama chapada.
– Eca! – fez uma careta cômica — Você é imortal?
– Sou, Lyss.
– Você disse que os seres imortais têm algo de obscuro, ou algo assim. Como foi que você disse?
– Se, você não tomar cuidado essa xícara vai cair.
– Responde. – murmurou encostando-se melhor. A imagem de Evan estava meio borrada.
– Você tem uma boa memória. Eu disse que seres imortais não provêm de energia pura. Viver pra sempre não é natural.
– Você não parece ser o cara ruim, pessoas boas deveriam viver para sempre.
Ela estendeu a xícara pra Evan, o conteúdo quase intocado.
– Da próxima vez não saia quando tiver bebido, aventuras não são tão legais quando terminam em tragédia, e bebida e tragédia parecem caminhar de mãos dadas.
– Não fui me aventurar. – falou baixo enquanto virava para o lado oposto ao dele e deitava nos travesseiros macios. – Eu pensei ter ouvido alguém me chamar. Se você é imortal e os wateaires não são imortais... O que você é?
Lyss fechou os olhos, seus pensamentos iam a várias direções, lembrava-se do sonho com Chris mais cedo, lembrou-se do homem que falara com ela nesse sonho, pensou na brincadeira que os meninos inventaram de fazer no quarto de Marcus, lembrou-se da mãe...
– Sou só um cara. – ele murmurou para si mesmo. As pálpebras dela tocando a face bonita, a expressão desnorteada que chegava a ser cômica. Evan ainda não sabia de onde a conhecia, mas, aquele rosto familiar ficou grudado nas paredes de sua memória, pensou nela por bastante tempo. Lyss agora ocupava o lado mais belo de sua consciência.
Ela escutava alguém falando, mas, estava difícil identificar o que se passava ao seu redor, o efeito da bebida parecia aumentar a cada minuto.
– Sonhei com Lucy e um caixão – contou com voz arrastada – Sonhei com alguém que queria me ver, falar comigo. – depois de uma pausa ela concluiu – As pessoas morrem bastante.
Evan suspirou e atreveu-se a acariciar a pele macia de seu rosto, Lyss suspirou também, parecia cochilar.
– Você precisa dormir. – ele deu-se conta de repente – Amanhã conversaremos, ok? – não esperava resposta quando se ergueu.
– Espera. – Lyss ouviu-o levantar – Fica um pouco?
Evan hesitou. Há quanto tempo não ficava num quarto com uma pessoa do sexo oposto? Não que acreditasse que aconteceria algo entre ele e Lyss, mas, sentia-se diferente quanto á ela. Ele gostava dela. Aquele era um sentimento novo pra Evan.
Sentou-se na cama de novo, mais perto.
– Obrigada! – ouviu-a murmurar
Ela tinha os olhos fechados, o cheiro de bebida ainda impregnava o ambiente, os cabelos emaranhados soltavam-se do coque mal feito, Evan tocou o rosto dela devagar, o lábio inclinou-se num pequeno sorriso, ela estava quase adormecida. Aquele rosto, o jeito de inclinar os lábios, era tudo tão familiar pra ele, como um dejavú, já vira muitas pessoas em tantos anos de vida, mas, não podia simplesmente estar fazendo uma ligação de características. Então por que não se lembrava de onde conhecia Lyss? Será que não queria se lembrar?
Os dedos formigavam ao tocar a pele da moça, Evan não queria sair dali, mas, precisava de um distanciamento físico para evitar uma maior aproximação sentimental. Não podia gostar de quem quer que fosse, mantinha-se distante de quase todo mundo. As pessoas iam embora, aprendera isso cedo, quando todos começaram a morrer e partir e ele não tinha segunda opção, então ficava e sofria, não havia mais o que ser feito, e aquela menina era diferente. De um jeito maior, mais intenso.
– Se eu sei de tudo isso, por que estou aqui ainda, Lyss? – perguntou afastando uma mecha dos cabelos dela
Ela não respondeu. Nem responderia. Lyss dormia, sem sonhos dessa vez, estranhamente em paz.
A primeira coisa que Lyss identificou foi o cheiro forte de café, uma xícara estava sobre o criado-mudo ao lado da cama bem próxima de seu rosto, ao abrir os olhos levou alguns segundos para as imagens se estabilizarem e ela ver que a xícara de café tinha acompanhante.
Aos poucos a noite e tarde anterior voltavam. Evan? Bebida? Vozes? Verdade ou Consequência? Victoria dizendo que incendiou um orfanato? Floresta? Sonho? Que loucura foi aquela?
Ao lado da xícara fumegante um pequeno vaso com biscoitos, além disso, havia uma flor, delicada, pequena, sob ela um cartão, não um cartão cheio de cores comuns nas lojas da Califórnia, era um retângulo cor de areia, as palavras dançaram um pouco na frente de Lyss quando ela segurou-o em mãos.
A cabeça estava doendo bastante, as paredes, ao seu redor, não estavam paradas o suficiente e seu estômago revirava, ela sentou devagar e antes de ler tomou um gole do café, foi só a cafeína entrar em seu sistema que ela sentiu-se melhor, enfiando um biscoitinho na boca leu devagar as palavras escritas com aquela letra bonita. Bem desenhada. Ela já sabia de quem era.
“Espero que você tenha acordado bem. Evan.”
Olhando aquele bilhete ela franziu o cenho, algumas imagens do dia anterior invadiam-na devagar, mas, não conseguia lembrar-se das palavras, não depois de ter bebido. Instintivamente tocou o próprio rosto, como se um beijo houvesse sido depositado ali. Mesmo assim não se lembrava, de quase nada, aliás, havia ido á floresta, mas, por que mesmo? Ah. As vozes. O que elas disseram? E por que, exatamente, estava escutando aquelas vozes, ou melhor, aquela voz?
Lyss olhou para o cartão outra vez, sorriu, como uma adolescente boba que ganha seu primeiro presente do cara que gosta dela, só tinha uma coisa que não estava certa ali. Ela era a adolescente boba, mas, o cara não gostava dela, procurou, por costume, um relógio sobre o criado-mudo. Não estava lá, ela não estava em casa. Com a flor cor de rosa na mão permitiu-se sorrir estupidamente outra vez. Que fofo da parte dele. Qual foi a última vez que ganhara uma flor? Não se lembrava. Jogando as pernas para fora da cama continuou sorrindo, a janela estava meio aberta, pôs a flor e o bilhete sobre o criado-mudo outra vez enquanto sorvia mais um pouco do café, não que fosse uma adepta á cafeína, mas, fora Evan quem colocara ali. Ah não me condene. Se um cara gato fizesse uma coisa fofa pra você, você não estaria sorrindo, feito uma boba, agora?
Ela riu aproximando-se da janela. Só então se lembrou: Aula de Mathias.
– Ah não! – gemeu correndo para o banheiro.
Como já esperado por Lyss seu estômago fez o favor de devolver todo o álcool ingerido no dia anterior, por sorte o estômago estava quase vazio, escovou os dentes duas vezes e mesmo assim não ficou satisfeita com a sensação estranha na boca. Foi complicado encontrar roupas leves mais uma vez, optou por uma calça jeans e uma camiseta estampada. Fez uma trança nos cabelos, a franja não ficou atrás da orelha por nada no mundo, xingando silenciosamente ia correr trôpega para a porta quando o som da janela assustou-a.
– Pra quê a pressa? – Evan já estava encostado na parede ao lado da janela, tinha os braços cruzados diante do corpo, o peso sobre uma perna apenas, vestia uma camisa não tão folgada de cor azul claro. Estava mais bonito do que um homem tem direito de parecer.
– Aula de Mathias. Já me atrasei o suficiente pra todo o ano letivo.
Ele sorriu. Lyss corou. Esse era um bom momento para agradecer pela flor, café, biscoitos, tolerar sua embriaguez, pelo bilhete...
– Acho que ando te dando muito trabalho ultimamente. – murmurou percebendo de repente, enrubesceu.
Evan riu
– Primeiro — indicou um dos dedos – Mathias não vai dar aula agora de manhã por causa de problemas na Inglaterra, segundo – apontou outro dedo – esse lugar estava um tédio, é bom ter você pra me distrair. Algo que valha a pena se importar.
– Ah. – ela soltou a maçaneta. – Como sabe que não vai ter aula? –
– Demetree, não sei se você o conhece, foi chamado por causa de seus conhecimentos sobre as plantas, eles precisam descobrir alguma coisa sobre a Profecia e só a magia sem feitiços não é suficiente.
– Ah. – fez de novo sem jeito – E... Obrigada por... Por tudo. Ontem eu... Acho que falei algumas besteiras, não consigo me lembrar de tudo.
Evan continuou sorrindo
– Se você me deixar te apresentar á Ilha, talvez eu permita que você me agradeça.
– Você quer me levar pra conhecer a Ilha? – perguntou confusa – Se eu fosse você não ia querer me ver nem pintada de ouro.
– Bom. Se você conhecer a Ilha me tira um peso das costas, já saberei que você não vai se perder assim facilmente.
Lyss riu.
– Feito. Você me mostra a Ilha e eu não me perco mais.
Ele estendeu as mãos em sinal de rendimento.
– É uma troca justa.
Lyss não concordava tanto assim, mas, queria passar um tempo maior com ele, embora fosse uma tolice e tanto.
– Você pode aproveitar e me ensinar um pouco mais sobre vocês. – ela sentou-se na cama outra vez.
– Você precisa comer.
Lyss fez uma careta.
– Eu não falaria de comida pra mim, se fosse você.
– Que bom que seu organismo tem mais juízo que você e rejeita esse tipo de bebida.
Lyss segurou a flor.
– Foi muito atencioso de sua parte. – indicou-a – Obrigada de novo.
Ele deu de ombros, sem jeito.
– Disponha! – fez uma mesura
Silêncio.
– Acho que você devia descansar um pouco.
– Eu estava esperando ficar com uma terrível ressaca hoje. — confessou
– Misturei um pouco de ervas em seu café – ele admitiu – para aliviar as dores e o mal estar. Se os alcoólatras soubessem disso... – brincou
Lyss riu
– Eu não vou contar. – ela prometeu
A cama estava chamando-a, mas, o corpo em si não estava cansado, era mais sua cabeça, porém, se dormisse agora perderia Evan e a pouca disposição que ainda tinha.
– Já descansei o suficiente – mentiu – acho que vou aceitar o passeio.
Evan tentou não sorrir muito.
Lyss era leve, risonha, tinha expressões engraçadas e trejeitos bem próprios, Evan gostava do jeito que ela torcia a boca, e o bico que fazia quando estava pensando, o olhar atencioso fazia com que ele se sentisse importante, empolgado a continuar falando, ele adorava a insistência dela em tentar colocar a franja atrás da orelha, e o modo como suas pupilas dilatavam diante uma flor ou algo bonito na floresta, Lyss tinha um jeito elegante de caminhar e parecia combinar com tudo quase, ela sabia como expor sua opinião e não concordava com tudo o que Evan dizia, tinha uma personalidade forte, quando começava a falar quase não parava, ela revirava os olhos e torcia a boca de vez em quando, Evan fazia questão de falar algumas bobagens só pra vê-la fazer isso. A conversa entre eles fluía de um modo tão natural, leve... Ele não tinha experimentado isso antes. Era por isso que não queria que o passeio acabasse. Só por isso – justificava a si mesmo.
– Acontece que, quando eu sair daqui vou terminar o colegial, atrasada, mas, vou. – ela dizia
– E você pensa em faculdades?
– Não sei. No colégio eu percebi que tenho um bom tato para críticas de cinema, fotografia... Mas, daí a fazer isso o resto de minha vida? Acho que é uma escolha delicada. – deu de ombros passando a mão direita no tronco de uma árvore – Tenho que pensar muito sobre isso. E você? Escola? Amigos?
Evan quase riu. Fazia muito tempo que frequentou uma escola, mas, já havia cursado faculdade algumas vezes, antes de seguir na carreira militar.
– Descobri num dos colégios que frequentei que tenho algum talento para o combate corpo a corpo – sempre foi bom na linha de defesa do futebol americano, havia saído no jornal da escola por bater o recorde de títulos na academia de luta – era bom no xadrez também. – fez um ar de descaso
– Você disse “num dos colégios que frequentei”?
Não era um assunto que Evan gostasse de falar.
– É. Digamos que já passei pela formatura algumas vezes.
Ela lembrou de um trecho da conversa de ontem. Ele era imortal. Energia pura não produzia seres imortais.
– Você é imortal... – falou para si mesma, só pra tentar se convencer.
– É. – disse com pesar
– Mas, e aquela história sobre não ser natural ser imortal?
– E não é.
– Mas, você é um Wateaire. – não era Lyss quem precisava convencê-lo disso. Aquilo era tão óbvio.
– É. – deu de ombros e passou a mão pelos cabelos brilhantes
– Isso não faz sentido Evan. – fez um bico entortando a boca
Evan sorriu com o gesto
– Você é muito bonita. – ele ouviu sua própria voz dizer aquilo, simplesmente saiu. Fluiu como água numa torneira aberta. Foi tão simples e natural que mal deu tempo de se arrepender. Lyss corou.
– Não mude de assunto. – pediu sem graça, vermelha como um tomate.
Andavam lado a lado entre as árvores, o solo íngreme sob os pés, o ar fresco da manhã, o cheiro leve de madeira, areia, plantas. Era um excelente palco. O coração da moça respondeu imediatamente. Devia ter uma palavra que definisse aquilo – ela pensou – essa sensação boa que é ter a outra pessoa perto, aquela vontade de tocá-lo, os olhos que exigiam registrar a imagem dele, decorar os gestos, a respiração que ficava suspensa, a necessidade que tinha os ouvidos de ouvir a voz grave. Devia ter uma palavra que definisse tudo isso.
– Quero que você me explique essa coisa de imortalidade.
– O que quer saber? – tinha um sorriso maroto nos lábios, ele adorava deixá-la sem jeito.
– Quero que me conte como você pode ser um Wateaire, ser imortal, e ser do bem.
Evan não queria, mas, foi lançado contra a parede da verdade que circundava sua vida, aquela parede que continha imagens que serviam de despertador para ele, a todo tempo estava esfregando a cara nela e mostrando: Este é você! E não havia jeito de fugir daquilo Não havia jeito de modificar o que ele era. O sorriso desapareceu tão depressa quanto surgiu ali, o peso em seu coração – que estranhamente desaparecia quando estava com Lyss – voltou a incomodar, aquele tão familiar aperto na garganta, como se mãos fortes o estivessem estrangulando naquele momento. É difícil admitir a verdade, principalmente quando esta é imutável. Sabia o que era, embora, se esforçasse muito para esconder. Então sob os panos e caixas que acumulara estava ali, a parte mais complicada sobre a história que já havia contado a Lyss. Estava ali mesmo que não pudesse ser visto, estava ali em tantas partes importantes de sua vida que era impossível ignorar.
– Lembra da história que te contei? – ela havia franzido o cenho, por isso ele incentivou – Cassandra, Diego e o filho deles.
– Sim. Sei. – não esqueceria uma história como aquela
– Se você lembra da história sabe da parte mais decisiva de minha vida. Eu te contei minha história Lyss.
Ela levou um para entender, claro que assim que ouviu as palavras de Evan soube do que ele estava falando, mas, as peças não se encaixavam, montou e desmontou a história várias vezes. De alguma maneira ela sentia que aquela não devia ser a história de alguém como Evan, ele não merecia perder os pais tão cedo e de modo tão trágico. Mas, quem disse que a vida é feita de merecimentos?
– Você é...
– O filho do erro. – completou com um sorriso cansado, como se já tivesse admitido aquilo tantas vezes que não doía como antes. A casca ao redor de si estava grossa demais a esse tempo. Era difícil sentir qualquer coisa.
– Se seus pais eram Wateaire... então você é o cumprimento da profecia. – ela concluiu
– Na verdade não. Os wateaires só surgiram depois de mim, com a necessidade dos dois povos me protegerem eles formaram um grupo apenas. Pelo que sabemos essa profecia até hoje não se cumpriu.
Havia um risco de dor naqueles lindos olhos, uma dor tão bem oculta que Lyss só percebia porque estava tentando decorar aquele rosto bonito, ele travou mandíbula e torceu um pouco os lábios. Estava escondendo os sentimentos que, aparentemente, mostrariam sua fraqueza. A maioria das pessoas faz isso. Num gesto de impulso ela se aproximou dele e pararam de caminhar, sua mão voou para o rosto dele sem que se desse conta, a pele dele era macia ao toque, estava fria. Evan também foi pego de surpresa, mas, não se retraiu ao toque, algumas ações valem mais que palavras então ele simplesmente suspirou sentindo a mão pequena e delicada contra seu rosto. Ele sorriu.
– Obrigado.
O clima leve, ao mesmo tempo profundo rondava-os, era doce, delicado como uma flor, mas, forte como uma rocha.
– É como se eu estivesse esperando você... – ele franziu o cenho ao ouvir a própria voz cogitar aquilo. Aqueles olhos, aquele toque, aquelas sensações que Lyss lhe proporcionava eram tão novas e tão familiares, como se o completassem de algum jeito mesmo sem nunca ter estado ali antes. Ela se surpreendeu com a frase que ele proferiu, mas, não se afastou de imediato. Devia sentir o mesmo.
– Eu entendo. – ela admitiu
Continuaram a caminhar.
– Tenho uma ideia. – Evan disse – Que tal continuarmos esse passeio do jeito Wateaire?
Lyss franziu o cenho.
– Como seria isso?
Lyss só podia imaginar a cara de Lucy se a visse agora, aliás queria ver a cara de qualquer um dos humanos naquele momento, agarrada ao pescoço de Evan eles voavam devagar sobre as árvores, Lyss mal respirava, o coração batia tão depressa, mas, era mais pela proximidade dos corpos do que por qualquer outra coisa. Evan tomou o cuidado de não passar sobre o vilarejo dos Wateaire, questão de segurança ele dissera. Agora, com as pernas entrelaçadas em sua cintura, Lyss tinha uma vista privilegiada de toda ilha, aquilo era mesmo pequeno, mas, não pequeno minúsculo, era pequeno demais se considerado um país. A água brilhava com os reflexos do sol, estava cedo, tudo estava muito quieto, o vento soprava preguiçoso, as ondas estavam calmas, o mar quase parado. Ele foi baixando devagar, pisou acertadamente num galho mais alto de uma árvore e foi descendo, o salto era amortecido, Lyss mal sentiu quando pousaram.
– Esse é um de meus lugares favoritos.
Olhando ao redor, descendo devagar das costas de Evan, Lyss viu o porquê de ser um de seus lugares favoritos, seria dela também se possuísse esse direito. Pra um visitante de fora não havia nada de especial, mas, aquele lado da ilha era mais silencioso, a grama parecia até mais verde, não muito longe de onde estavam o mar beijava a areia branca, eles estavam abrigados sob as árvores, na sombra. Algumas gaivotas pescavam lá longe, perto de onde as ondas quebravam tinha um banco de areia, Evan explicou que ele desaparecia durante a maré alta.
– Isso aqui é lindo.
– Lisarb é linda. – ele corrigiu – Poucos de nós vêm desse lado da ilha.
– Por quê?
– A pesca é ruim desse lado, não dá pra sair com os barcos por causa dos bancos de areia e corais.
Lyss assentiu
– Os wateaire não usam seus poderes para a pesca?
– Não usamos nossos poderes pra quase nada, Lyss. Claro que existem momentos que eles são imprescindíveis, como quando vamos assustar Herbie e precisamos de alguém que fique invisível ou algo assim.
Lyss riu
– Mas, tirando isso. – ele deu de ombros – Somos quase tão humanos como os próprios humanos.
– Então se vocês quiserem viver entre nós... quer dizer – corrigiu-se depressa – Como eles, os humanos, vocês podem?
– Quase todos da ilha já viveram entre humanos, existem Wateaires que vivem lá e vem de vez em quando. Como Steven, ele tem o dom de curar, é médico, ajuda os humanos e vem de vez em quando rejuvenescer os mais velhos.
– Quando eles estão na fase de autodestruição? – Lyss murmurou a última palavra, meio indecisa se devia usá-la
Evan assentiu de cenho franzido
– Herbie. – ele fitou-a nos olhos – E a gente sabe que tá perto. – deu de ombros
– É mesmo ruim perder pessoas. – ela abraçou-se
Estavam de pé, um do lado do outro, olhando para o mar naquele momento.
– Você não faz ideia do quanto. – ele murmurou
Lyss deu um sorriso apagado
– Ah eu faço sim. E como eu faço ideia!
– Quem foi?
– Meus pais, colegas, amigos. – foi a vez de ela dar de ombros e fingir descaso – Muita gente, de várias maneiras. E você? Quem foi?
– Perdi a conta. – coloca as mãos nos bolsos – mãe, pai, amigos, primos de consideração, os warms, colds, humanos, professores, tios, avós, humanos que serviram ao exército comigo... Muita gente. Quando eu nasci as coisas mudaram muito por aqui, tive que passar uma parte de minha vida entre os humanos – dizia com expressão distante – O filho do erro.
– Não é bem assim. – Lyss corrigiu-o – Sabe o quanto foi bom seus pais terem burlado essa lei? Olha só o que foi criado. Agora vocês são um só. Todos vocês. Um só povo.
– Eu sei. – ele sorriu – Mas, eu sou imortal, Lyss. Nada que viva pra sempre nesse mundo provém de energia pura. Eu sou diferente de todos, todos eles. E o erro de meus pais trouxe complicações, eles tinham medo de meu poder.
– Eu sei o que é ter pessoas com medo ao redor. Não é muito legal.
– Sua tia é humana?
– É. Ela até encarou numa boa se quer saber. Meu pai havia deixado uma carta no banco que só deveria ser entregue se algo acontecesse á ele. – ela sorriu ao lembrar-se do pai – Ele era um homem incrível, Evan.
– Você teve a quem puxar. É uma garota forte, Lyss.
Ela mexeu nos cabelos, pra distrair.
– Eu sinto falta deles. Quando eles se foram foi como se eu tivesse perdido parte de minha identidade, sabe?
– Eles te amavam. Eu costumo pensar nisso ao me lembrar de meus pais, eles não iam querer que eu ficasse me lamentando, entende? E... eu acredito que possamos nos encontrar um dia, quem sabe?
Lyss olhou pra ele, Evan retribuiu o olhar.
– Quem sabe. – ela fez eco ás palavras dele – Mas, viver tanto tempo deve ter suas vantagens. – ela tentou desviar para um assunto mais leve.
– É. Admito que tem sim. Já vivi muito, usei vários cortes de cabelo, vários estilos de roupa. – fez pose – Mas, cá entre nós? Felizmente a moda de calças boca de sino desapareceu, aquele troço não me favorecia.
Lyss riu ao imaginá-lo de boca de sino.
– Não pode ser tão ruim assim.
– Vai por mim, era péssimo. As garotas nem me olhavam.
– Ah. – ela apontou pra ele, como quem acusa – Houve garotas. Muitas garotas?
Ele fingiu pensar, segurou o dedo dela.
– Vamos pular a parte que eu conto como era um fracasso nos romances.
– Conta outra – ela esticou a mão e deu as costas á ele, começou a caminhar em direção á areia – Você é bonito, além do mais, aquelas calças eram um charme.
– Lyss? – ele estendeu a mão fingindo exasperação – Eu usava cabelos compridos, meus sapatos eram o dobro do tamanho de meu pé. O que há de charmoso nisso?
Ela riu
– Além do mais, não precisa dizer que eu sou bonito, ontem você repetiu isso umas mil vezes.
Totalmente vermelha ela virou-se pra ele, estendeu a mão sobre o rosto para proteger-se do sol. Ele vinha em sua direção.
– Não brinca. Eu disse isso?
– Repetiu até me convencer.
Com os olhos arregalados ela continuou:
– Mentira, Evan. Eu não me prestei á esse papel.
Ele estava diante dela agora, tinha um sorriso de deboche no rosto.
– Ah sim, repetiu milhares de vezes, e tentou me paquerar.
– Você está mentindo. Eu não paquero ninguém.
– Mas, você me paquerou, e olha que eu não estava com boca de sino nenhuma.
Lyss socou o ombro dele de leve mantendo a outra mão diante dos olhos para vê-lo melhor.
– Não pode ser sério isso.
– Você me segurou – ele pôs uma mão na cintura dela – chegou a se inclinar para mim. – Evan fez uma leve pressão para aproximá-la.
Ele não estava esperando que os dois corpos reagissem tão depressa ao toque, a expressão de deboche desapareceu de seu rosto, os olhos foram atraídos pelos lábios de Lyss, estes estavam entreabertos. A mão que o socava parou no ombro, não conseguiu sair de lá.
– Isso é estranho. – a voz era quase impossível de se ouvir – Cada vez que eu te toco... – a voz perdeu-se no meio da frase enquanto ele buscava seu olhar mais profundamente.
Lyss percebeu que seu corpo se inclinou instintivamente, ele puxou-a mais um pouco. Os olhos agora estavam presos um no outro, Lyss sentiu o cheiro amadeirado característico impregnar suas narinas, lutou contra a vontade de fechar os olhos, lutou contra a vontade de render-se completamente. Não podia fazer isso! Era proibido, certo? Ou não? Por que era tão difícil simplesmente sair do abraço? A mão que protegia seus olhos do sol, como se tivesse vida própria, posicionou-se do outro lado do ombro.
– Lyss eu... – Evan engoliu em seco, tentando afastá-la.
Como algo tão errado podia parecer tão certo? Ele nunca se sentira assim antes. E pra Evan usar a palavra “Nunca” era realmente difícil, durante tantos anos de existência já vira e vivera quase tudo, aquilo não estava na lista, não costumava se sentir assim com nenhuma mulher. Nenhuma. E já houvera algumas, não uma lista gigantesca, mas, uma lista considerável. Mesmo assim, aquilo era diferente. Era como se finalmente houvesse algo a que pertencia, algo que o mantivesse perto sem prendê-lo.
– Acho que... – Lyss tentou protestar ordenando ao seu corpo que se afastasse.
– Precisamos nos afastar. – ele completou a fala dela com um suspiro.
Porém ele se inclinou, ou talvez ela o tenha puxado, era difícil saber, o hálito refrescante tocou seu rosto, Lyss fechou os olhos, não pôde evitar, os lábios dele encostaram-se ao lábio inferior dela. Evan se deixou esquecer as inúmeras repreensões que dava a si mesmo, bem como os conselhos, ele se permitiu ignorar sua condição não humana, se permitiu esquecer suas obrigações, das regras. Com aquilo era como se retirasse um peso das costas, como se pela primeira vez em muito fosse só o Evan, não o único número 10 existente, nem o filho do erro, ou o mais poderoso de todos os wateaires e mais forte que qualquer DDP que existe ou já existiu. Não! Nada disso! Ali ele era só Evan. A mesma pessoa que ele seria se estivesse sozinho.
Os lábios deles estavam encostados um no outro, era quase um beijo. A respiração confundindo-se uma com a outra, ambos abriram os lábios, mas, era tudo tão devagar, como se o momento fosse de vidro e a realidade de cristal, qualquer simples movimento poderia destruir aquele momento.
Os olhos castanhos que observava aquela cena estavam semicerrados de ódio. Como ele ousava? Manipular Lyss daquele jeito? – ele questionava-se. O dono daqueles olhos não gostava de Evan, nem um pouco, todos os seus sentidos diziam que devia protegê-la dele. Era sua missão proteger Lyss, e ao que parecia seu inimigo número um era o filho do erro. Como eles erraram em permitir que aquele menino vivesse. Ele travou os dentes e concentrou-se, era simples, comunicar-se com Lyss era natural, não precisava de feitiços. Era seu dever cuidar de sua protegida, fazia parte de sua condição atual de protetor comunicar-se com Lyss.
– Afaste-se dele, Lyss. – ordenou falando em pensamento
A reação foi imediata o encanto presente na cena se quebrou, Lyss afastou-se de Evan ao mesmo tempo em que ele fazia o mesmo, ela se afastou porque a voz queria e era como se ela quisesse também, embora não fosse verdade, num descuido o homem ficou ali tempo demais, assim que ouviu a voz já conhecida ecoar em sua cabeça, Lyss sentiu seus olhos serem atraído para onde o dono daqueles olhos castanhos raivosos estava. Ela o viu. Por alguns segundos antes que ele se teletransportasse, mas, aconteceu. Atordoada, Lyss arfou olhando para o ponto onde o homem estivera, finalmente desviou os olhos para Evan, ele estava tão assustado quanto ela.
– Desculpe... – gaguejou – Eu só... – deu mais passos para trás – Acho melhor irmos... voltarmos, quer dizer.
– Espera. – Evan estendeu a mão, podia segurá-la, mas, se conteve. Sabia o que o toque das peles provocava em sua sanidade e apesar de parte de sua concentração estar na silhueta que vira, não era confiável.
Aquela silhueta tão familiar que era impossível que estivesse se confundido. Era a silhueta de um banido. Alguém que não deveria estar ali, alguém que tinha sorte de estar vivo ainda, mas, Evan podia cuidar desse detalhe. Aqueles segundos atrás, quando estavam prestes a se beijar não parecia ter existido, Lyss fitava, confusa, o ponto onde vira o homem, ele estava num galho da árvore.
– Desculpe ter passado dos limites com você, Lyss. Não sei o que deu em mim. – segurou uma de suas mãos ignorando os conselhos de sua consciência.
– Tudo bem. – não era por isso que estava nervosa, queria que ele entendesse isso. Ele podia “passar dos limites” de vez em quando.
Evan soltou-a como se o toque doesse fisicamente nele.
– Vamos sair daqui. – murmurou caminhando para floresta
Ele caminhava á frente, muitos passos diante de Lyss, esta última manteve-se atenta ao caminho que Evan seguia, não queria correr o risco de perdê-lo de vista, não ousou quebrar o silêncio também, ele parecia tenso, ela sentia-se confusa, perdida. Os passos de ambos era a única coisa que interrompia o silêncio, mesmo assim Evan parecia conhecer aquilo tão bem que sabia onde pisar exatamente, Lyss tropeçou algumas vezes, por sorte Evan não notou, ou fingiu não perceber mesmo.
Estavam seguindo esse ritmo quando algumas vozes cortaram o silêncio do ambiente, Evan parou com o cenho franzido, Lyss fez o mesmo indo para o lado dele. A expressão de Evan mudou ao reconhecer aquelas vozes.
– Ah. – fez impaciente.
Lyss ia perguntar o que acontecera se um barulho alto de algo sendo arremessado na árvore perto deles não a assustasse. Evan abraçou-a instintivamente, usando o corpo como escudo, por cima do ombro dele Lyss procurou a razão daquele som, a expressão de espanto formou-se em seu rosto ao perceber que foi uma pessoa a ser arremessada na árvore, surpreendeu-se ainda mais ao ver que a árvore tinha seu tronco parcialmente partido por causa do impacto.
– Evan – disse exasperada tentando sair do abraço – Alguém está machucado.
Ele aparentemente não lhe dera ouvidos, continuava imóvel usando o corpo como escudo, inclinando-se mais para olhar o corpo do rapaz no chão ela procurou vestígios de sangue na parte visível dele, tentou desvencilhar-se do abraço outra vez, mas, ficou estática ao ver que o corpo – de um garoto adolescente – começou a se mexer. Ele não estava morto. Pra completar seu susto o mesmo garoto começou a emitir um som, Lyss assistia sem acreditar no que aquele som representava, ele estava... estava mesmo? Ele estava rindo.
Evan finalmente soltou Lyss, ela correu na direção do garoto, que ainda ria.
– Ei. Você está bem? – abaixou-se perto dele
O menino parou de rir, e Lyss percebeu que ele não era tão menino assim, Dezoito, dezenove anos... Talvez até vinte.
– Melhor agora. Você é um anjo, ou algo assim? – ele sorriu pra Lyss
– Oi criança. – Evan entrou no campo de visão do garoto e colocou a mão no ombro de Lyss da maneira mais discreta e possessiva que encontrou no momento.
O garoto revirou os olhos.
– Evan. – disse com pesar – Galera nosso tutor chegou. – gritou para a floresta enquanto levantava-se
Lyss estava prestes a ajudá-lo, mas, Evan manteve-a no lugar segurando seu ombro.
– Evan. – mais uma voz cumprimentou, a garota demorou um pouco pra aparecer, logo atrás mais um garoto.
– Não vai estragar nossa brincadeira, não é? – o que estava levantando-se falou balançando a sujeira do corpo – Aproveite e nos apresente a dama. – ele piscou
O que caiu era bonito, alto, forte, parecia mais velho quando estava de pé, seus olhos era cinza, muito diferentes, o cabelo era liso, extremamente preto, tão preto quanto o da própria Lyss, ele não era tão forte quanto Evan, mas, seus ombros eram tão largos quanto.
– Rian, Lyss. Lyss, Rian. Ele é um dos novatos que viviam entre humanos.
– Wateaire? – Lyss perguntou
– Isso mesmo, gata. Nós três somos, acabamos de chegar, temos que treinar nossos poderes, pra controlar melhor sabe?
– O nome dela não gata é Lyss. – Evan corrigiu impaciente – Lyss aquela é Jane e o outro é Josh.
Jane era bonita também, tinha cabelos castanhos claro, quase ruivos, os olhos eram pretos, sabia se vestir, não tão bem quanto Nataly e Cassie, mas, tinha estilo. Josh era um pedaço de gente, ele era baixo, loiro, olhos verdes, era bonito, mas, devia medir um e quarenta, ou algo desse tipo.
– Josh conseguiu me atirar a uma distância incrível. – falou Rian ainda tirando a areia da bermuda
– Foi por isso que você destruiu a árvore? – Evan perguntou apontando para o estrago – Conhecem nossas regras, elas servem pra ser cumpridas.
– Eu fiz um avanço, Evan. – Josh tentou se justificar
Evan cruzou os braços, parecia um pai diante dos filhos adolescentes e rebeldes.
– Avance sem destruir a Ilha, de qualquer forma, parabéns. Mas, evitem estragos ou terão consequências e sabem disso.
Eles fizeram muxoxo, mas, anuíram com a cabeça.
– Vamos tomar cuidado, Ev. – Jane sorriu pra ele.
Lyss quase a fulminou com o olhar. Lembrou-se imediatamente que não se briga por algo que não lhe pertence.
– Espero. – Evan sorriu discretamente, aquilo incomodou Lyss – Só mais uma coisa, meninos. Vocês viram mais alguém por aqui?
Lyss percebeu a hesitação dele e soube exatamente o porquê daquela pergunta. Ele perguntava pelo homem que dissera pra Lyss afastar-se de Evan, o dono da voz que talvez ele também tenha visto.
– Não, só vocês. – Jane deu de ombros consultando os outros com os olhos, eles assentiram, concordando.
– Certo. – Evan segurou a mão de Lyss – Comportem-se.
Praticamente arrastando Lyss, Evan continuou a caminhada deixando os meninos para trás.
– Pra onde vamos, Evan? – ela perguntou tentando acompanhá-lo, as mãos ainda unidas.
– Para o Adams. – foi a resposta
Mais alguns passos e só. Eles não falavam.
– Você viu. – ele quebrou o demorado silêncio. Não era uma pergunta.
– Vi? – ela perguntou
– É.
– Ah. – entendeu – Pensei que...
Será que ele também tinha ouvido?
– Vi. – admitiu
Ele balançou a cabeça como se estivesse apenas esperando uma confirmação.
– Isso é importante? – perguntou temerosa
– Mais do que imagina. – Ele parou de andar e virou pra ela, os lábios torcidos numa linha fina – Lyss você está em Lisarb, o que significa que as coisas são maiores que você pensa e talvez menores do que você pode ver, resumindo alguém pode estar querendo te prejudicar e consequentemente nos prejudicar, existem pessoas que querem que o Grande Mal aconteça, Lyss. Se algo acontecer a qualquer um de vocês... – ele fez uma pausa segurando-a pelos ombros – Será uma catástrofe, um problema generalizado. Já enfrentamos problemas antes, em uma proporção menor, e foi realmente difícil lutar com humanos, imagina isso em tamanhos gigantescos...
– Você acha que esse Mal tem a ver com humanos?
– A gente não sabe. Ninguém sabe. Mas, queremos impedir e é o que faremos.
Ela balançou a cabeça, ele não pegou na mão dela dessa vez, caminharam lado a lado, em silêncio o resto do caminho.
Evan não a acompanhou até o interior do castelo, mal se despediu dela, Lyss esqueceu um pouco das preocupações enquanto caminhava para o Adams, tentou não pensar em nada, uma maneira de evitar que A voz voltasse.
Ela estava empurrando o portão do castelo quando Cassie interceptou-a.
– Onde você estava, criatura?
– Conhecendo a ilha, que trajes são esses?
Cassie estava com o cabelo em desalinho, segurava o vestido diante do corpo, o zíper estava aberto atrás, um lado de seu rosto estava com um tom de maquiagem e a outra metade tinha outras cores.
– Menina você não sabe – ela agarrou o braço de Lyss segurando o vestido com apenas uma mão e correu escada acima, ela chutou a porta do quarto e entrou ainda arrastando Lyss, Louis estava lá, milhares de peças de roupa sobre a cama, ela separava a mais adequada.
– Estou esperando você contar o que está havendo, Cassie. – Lyss disse quando ela soltou-a, Cassie fechou a porta com outro chute e finalmente largou o vestido que caiu no chão. Lyss não se surpreendeu ao vê-la com outra roupa por baixo.
– Estamos louquinhas da Silva – pegou um espelho pequeno e ficou olhando-se enquanto falava – Fomos informadas no café da manhã que vamos conhecer os Mentores agora depois do almoço e tipo... Hello! Não sei que roupa usar, ou que maquiagem fazer. – jogou o espelho sobre a cama para enfatizar.
– E ela me sequestrou para ajudá-la nessa difícil tarefa. – Louis apontou para o monte de roupas
Lyss riu
– Como assim? Agora? Já? E a tal da ligação?
Cassie levou a mão á testa, impaciente.
– Percebe agora meu desespero?
Louise riu
Algumas horas mais tarde enquanto descia para a cozinha ela percebia o peso e a tensão em conhecer o tal Mentor, a realidade invadia Lyss aos poucos. Que loucura! Alguns dias atrás, estava sentada no chão da sala com Chris e Lucy, eles assistiam TV, hoje ela estava indo á cozinha comer algo antes de conhecer seu Mentor, a pessoa que ia ajudá-la a passar pelas complicações de ser Elementar, seu estômago embrulhava um pouco, não apenas pela ressaca, mas, também pela fome e ansiedade. Lembrou-se que não havia comido quase nada desde que acordara, as meninas ainda não haviam comentado sobre o dia anterior e Lyss não vira nenhum dos outros Bruxos, nem Victoria também, diga-se de passagem.
– Como terminou a bagunça ontem? – perguntou referindo-se ao jogo
Cassie mal movia a cabeça enquanto caminhava. “Não posso desarrumar os cabelos” ela dissera, Louis rira.
– Victoria derrubou Marcus. – respondeu Louis com ar risonho
Cassie riu
– O que eu perdi? – Lyss inclinou-se entre elas para evitar que qualquer outro ouvisse
– Babado e confusão. Quando você saiu rolou altas perguntas, Marcus ficou caidinho pela nossa viúva negra.
A “viúva negra” certamente era Victoria.
– E aquela historia de incendiar um orfanato? – Louis fez uma careta reprovativa
– Ela nem quis explicar nada sobre isso. Parece a própria Dart Veigel versão feminina
– Ela é legal, Cassie. – Louis repreendeu-a – Certo, ela incendiou um orfanato, mas, nem conhecemos a história.
– Tem criancinhas no orfanato, Louis. Que espécie de gente incendeia um lugar que abriga criancinhas? – Cassie arriscou uma olhadela de canto de olho, ainda evitando mover a cabeça.
– Não conhecemos a história – Lyss disse enquanto elas iam á cozinha – Nem sabemos se é verdade.
– Ai! Acho que não conseguirei comer, vocês têm noção do quanto eu esperei pra conhecer esses tais Mentores? – era Cassie gemendo
– Não podemos dar vexame e desmaiar aos pés desses caras, então sugiro que você coma, pois é o que farei.
Lyss concordava com Louis, permitiu-se esquecer dos acontecimentos da manhã, não pensou no cara estranho que achou ter visto na árvore, não pensou na voz, ou nos Wateaire que Evan estava treinando. Quanto ao beijo? Bom. O quase beijo. Ela sentia o lábio formigar, coisa estranha levando em conta os fatos. Mas, pulou essa parte também, ignorou a pulsação acelerada quando pensava nisso.
– Os outros Bruxos? – perguntou quando uma Wateaire colocou o prato diante dela
Lyss já sabia o nome desta, Joanna, ela não gostava de conversar enquanto estivesse trabalhando, até um “Bom dia” a atrapalhava.
– Os meninos puderam dormir até tarde hoje, depois foram dar um passeio em Londres, dá pra acreditar na mordomia daqueles meninos? – Cassie fingiu indignação antes de começar a comer
– Sabemos que essa viagem foi uma jogada, pra fazer a ligação é necessário muita concentração, os outros Bruxos poderiam atrapalhar essa aura.
– Não pode ser tão difícil assim. – Lyss serviu-se de suco.
– Qualquer cuidado é pouco, os wateaire também nunca passaram por isso.
– Eles se fazem de gênios no assunto, mas, sabemos que não é bem assim.
Dando de ombros Lyss voltou a comer, em silêncio. Cassie e Louis estavam tensas demais para tentar romper o silêncio, Lyss quase não sentia o gosto da comida, analisava aqueles dias ali enquanto comia. Coisas estranhas estavam acontecendo, certo que num lugar como aquele as coisas estranhas eram normais, mas, daí a acontecer só com ela? Cassie e Louis não se queixaram de nada fora do comum e ao que parecia o jeito estranho do Professor Demetree restringia-se á ela somente.
– Olá meninas, Boa Tarde. – era Clovis – Joanna – cumprimentou-a com um aceno, ela fez um muxoxo, estava preparando algo no fogão – É bom ver vocês.
Elas praticamente engoliram sem mastigar o que estava na boca, pra darem um sorriso sem graça, tenso.
– Falta uma de vocês, certo? A Elementar do fogo. Acredito que ela esteja lá fora. Vocês encontrarão seus Mentores em suas respectivas alas. Não tenham pressa – alertou quando as três levantaram – Faremos um jantar com todos vocês, todas passarão um tempo com seu mentor em sua Ala e espero que tudo ocorra como o esperado.
– Eu posso ir agora? – era Cassie, mais ansiosa que as outras duas juntas
Clovis entrelaçou os dedos da mão
– Não precisa ter pressa, mas...
– Vou escovar os dentes primeiro – pela terceira vez naquele dia – depois vou retocar a maquiagem – pela quarta vez naquele início de tarde – e preciso me olhar no espelho.
Clovis sorriu balançando a cabeça.
– Façam como achar melhor. Tisha, Ross, Ayllan e Félix estão aguardando vocês.
Cassie disparou pelo corredor, Louis agarrou a mão de Lyss, ela dizia não estar nervosa, mas, sua mão estava gelada. Caminharam juntas até as escadas, até que esta se dividia em corredores, Lyss dirigiu-se á sua própria Ala. Não estava tão arrumada quanto Cassie, escolhera outra calça e uma blusa qualquer, os cabelos estavam longe de estarem bonitos, aliás, seu cabelo estava sendo deixado de lado cada dia mais. Ela mantinha-os numa trança, aquilo não podia ser considerado um penteado de luxo, Lyss também não usava maquiagem, aliás, estava bem simples para a ocasião. O corredor silencioso tinha esse silêncio quebrado pelo som dos passos dela, era tudo tão branco, lembrava um hospital. Lyss continuou caminhando, mas, estacou ao reconhecer uma silhueta encostada na parede.
– Evan? Vou começar a achar que você está me seguindo. – a despedida deles não fora das melhores, Evan ficara estranho por causa do “Quase beijo” e por causa da voz, então Lyss tentou brincar. Ele virou-se pra ela, os lábios torceram no que talvez fosse um sorriso educado, além de onde ele estava havia uma porta, na verdade um portão. A porta de madeira era gigantesca, tomava quase toda a parede, entalhada nela havia desenhos do que parecia o formato de ondas. Ala Azul. Ala do elemento Água.
Não havia mais ninguém ali e para Lyss seria a gota d’água se seu mentor não aparecesse.
– O que está fazendo aqui? – disse suavemente pra não ser mal interpretada, parou diante dele.
Evan ainda estava com aquela cara de “Estou aqui por educação”, aquela cara que a gente faz quando recebe uma visita chata que não quer ir embora.
– Bem vinda á Ala Azul, Lyss. Todas as Alas são trancadas por feitiço, esse feitiço foi feito naturalmente, — a voz era mecânica e vazia — nenhum Bruxo precisou interferir, a própria natureza se encarregou de trancar as Alas, de modo que apenas o Elementar e seu Mentor daquele determinado elemento pudesse entrar. Essa é a parte que eu mais gosto de todo esse processo que vocês estão passando – ele enfiou a mão nos bolsos e sorriu, um sorriso que não era dele – Vê essa marca? – ele apontou para a porta, havia uma marca no formato de mão onde ele apontava – Vou lhe deixar fazer as honras, é a única maneira de entrar aqui.
Evan parecia ter gravado aquele discurso escolhendo até as pausas que deveriam ser acompanhadas com um sorriso, parecia mais velho, responsável, como se fosse um...
– Mentor? – ela sussurrou surpresa por não ter entendido antes – Foi por isso que você me salvou duas vezes? A tal missão e... – corou – Não havia outras intenções, então... n-não que eu pensasse, mas... Você é meu Mentor então não teve outra saída a não ser me proteger. – a lógica dos acontecimentos vinha numa avalanche – Você estava lá por isso. Estava me vigiando? – apontou acusando
– Ei, nada disso. – arregalou os olhos percebendo onde ela queria chegar – Eu não estava te vigiando, nos encontramos na cabana de Herbie por um acaso do destino.
Lyss colocou as mãos na cintura
– Destino, destino. Eu sei o seu destino. Com todo aquele papinho de “eu te conheço de algum lugar” – imitou pobremente a voz dele – e toda essa conversa de destino. Me explica o beijo? Estava me testando?
– Lyss o beijo também foi um acaso, aliás, eu nem queria falar sobre isso. Eu não vi as marcas em seu braço e, provavelmente você não reparou nas minhas. – ergueu o braço mostrando as linhas translúcidas. Era igual a de Lyss de certo modo, como se quisesse transmitir a mesma mensagem, mas, Lyss sabia que não era uma marca idêntica.
Ela estava vermelha de raiva e vergonha.
– Eu cheguei a pensar que você tinha algum interesse por mim e era só você cumprindo seu papel de Mentor? – fez uma expressão de ultraje – O que é que você queria, afinal?
Evan revirou os olhos e suspirou
– Eu senti atração por você, Lyss – ele quase gritava – Na verdade eu sinto atração por você, eu não tramei absolutamente nada, eu não sabia que você era uma Elementar... – ele se interrompeu ao perceber que ela deu-lhe as costas e saiu pisando forte na direção da saída – Ei... – chamou andando mais rápido, ele alcançou-a e segurou seu braço para evitar que ela continuasse seu trajeto – Quer parar e me escutar?
Ela o fez, parou e esperou puxando o braço depressa, evitando o contato.
– Vá por mim, eu não queria ser seu Mentor – percebendo como aquilo soara ele tentou de novo: — Eu quis dizer que... Não foi o que eu quis, e o beijo...
– Quase beijo. – ela corrigiu
Suspira. Ele colocou as mãos nos bolsos, fez uma pausa.
– Não era esse tipo de reação que eu esperava quando você soubesse que eu sou Mentor. Tá irritada por que queria que fosse outra pessoa?
– Você tem noção de que, quando rolar a ligação, tudo o que eu já pensei na vida vai passar a pertencer a você? Quer dizer... você vai saber de tudo.
Até do quanto eu pensei, gostei e gostaria que repetisse nosso Quase beijo, porém, sem o “quase”.
– Você tem tantos segredos assim? – ele sorriu parecendo ele de novo
– Você deu nome falso á Clovis?
Ele riu suspirando
– Ayllan. Evan Ayllan Williams é o meu nome. Clovis prefere Ayllan somente.
Lyss acenou em silêncio.
– Certo. Certo.
Evan fez sinal para que ela voltasse até diante da porta, ela ensaiou uma mesura. Diante da porta ambos ficaram olhando pra esta.
– Você não sabia que era meu Mentor?
– Não.
– Não fez tudo isso dos últimos dias de propósito?
– Não.
– Vamos ter que passar o dia inteiro, juntos, o resto do tempo que eu ficarei aqui?
– Não. – ele sorriu mais ao responder essa.
– Não fique rindo. – ela reclamou segurando um sorriso – Você não queria ser meu Mentor?
– Devido aos últimos acontecimentos, aos meus pensamentos conturbados: Não!
– Então seus pensamentos estavam conturbados? – ela sorriu entendendo
– Você está desviando do assunto. E você usou o verbo errado.
– Aula de Gramática agora. – fez uma careta
– Eles estão conturbados, Lyss. Estão. – ele suspirou pesaroso
Passando a mão no rosto ela permitiu-se rir disfarçadamente. Ele percebeu. Ficaram em silêncio. Lyss sabia que ele referia-se á atração que sentiam um pelo outro. Já era fato. Estar ao lado de Lyss sem sentir todo o corpo responder á essa aproximação era impossível, o oposto também era verdade.
– E agora? – ainda estavam de pé olhando a porta
– Agora o quê?
– Como funciona a ligação? A gente tem que juntar as mãos e dizer palavras mágicas? Ou fazer alguma dançinha secreta?
Evan riu. Um riso tão lindo.
– De onde você tira essas coisas?
– Televisão. – sorriu olhando pra ele
– Vem. Coloca a mão aqui e vamos ver se você é mesmo uma Elementar.
– Ah. Eu não mentiria. – estendeu a mão, Evan posicionou-a na marca da porta
Houve um estrondo, Lyss podia apostar que a porta moveu-se sob sua mão, o barulho de inúmeras trancas repetiu-se por segundos a fio, Lyss prendeu a respiração, teve a nítida impressão de ver as marcas entalhadas na madeira emitirem luz. Outro estrondo, e a porta moveu, parecia impossível que algo daquele tamanho pudesse mover-se com tanta facilidade, principalmente devido ao fato de que ninguém estava empurrando. O ar frio que saiu da câmara balançou os fios soltos do cabelo de Lyss, por um momento tudo era um borrão de cores, a medida que a porta ia abrindo ela percebia os detalhes.
– Parabéns – Evan sussurrou – Você é uma Elementar.
Ela diria alguma coisa, mas, suas cordas vocais estavam congeladas. Não fazia frio, porém ela arrepiou-se, podia ouvir sussurros, vozes que saíam dali, como se aquela sala fosse um organismo vivo, se prestasse atenção tinha a impressão de que aqueles sussurros falariam com ela. Quando deu o primeiro passo para dentro da sala teve outra surpresa, foi como se todas as suas células pulsassem mais depressa, como se as moléculas tomassem um choque de adrenalina, seu coração disparou, naquele instante, surpreendentemente esqueceu Evan, as mãos em seus ombros deixaram de existir, ela só sentia uma onda de eletricidade percorrendo seu corpo em alta velocidade. Foi em algum momento daquela combustão que se sentiu uma Bruxa Elementar, sentiu vontade de experimentar seus poderes. Qual foi a última vez que fizera isso?
– Isso é...
– Poder. – Evan completou – Seu lado Bruxa se amplia aqui dentro. – ele continuava a sussurrar – Você deve ter sentido isso quando chegou aqui na Ilha pela primeira vez, tudo aqui remete á evolução de seu lado Bruxo e Elementar. Quando você não está acostumado com essa alavancada de poder, magia, você mal consegue domar sua personalidade. É algo grande demais. Por isso sugiro que comecemos com pequenos feitiços antes de passar para a parte Elementar da coisa.
Com o corpo se habituando á aquela alavancada de magia Lyss observou o ambiente ao redor. O formato era quase circular, ela ficou boquiaberta ao identificar três piras nas paredes, até então tudo bem, mas, sobre as piras, flutuando, desafiando a Lei da Gravidade havia uma quantidade de água, em cada pira havia, aparentemente, a mesma quantidade de água, elas movimentavam-se calmamente como se brincassem ao sabor de uma força maior. Lyss demorou-se nesse detalhe, no mais era bem normal, havia dois sofás, uma mesa de centro no canto, o chão era de madeira escura, no lado oposto á porta onde eles estavam, havia um patamar superior, uma escada levava á aquele patamar, havia estantes repletas de livros, naquele patamar tinha uma biblioteca completa, as paredes eram da cor azul, um azul muito fraco, próximo ao branco.
– Venha, sente-se. – ele indicou o sofá – Vamos nos falar. Vou te contar uma história.
Os estudos sobre a criação dos Wateaire iniciaram muito cedo, eles sempre foram considerados Guardiões da Magia, não se sabe quando exatamente na história os DDP começaram a existir, mas, os Wateaire sempre acreditaram que os humanos podiam conviver normalmente com essa magia, diz-se que isso já aconteceu, mas, não há provas nem registros, quanto aos humanos conviver com os Wateaires e DDPs essa crença acabou quando médicos da Inglaterra descobriram alguns DDPs, os mataram e dissecaram seus corpos em busca do que fazia com que eles tivessem poderes. Essa matança continuou até que os Wateaire resolveram interferir, foi a primeira vez na história que Wateaires mataram humanos e apagaram suas memórias, por pura sorte essa história não chegou aos países vizinhos, a Inglaterra pediu segredo pois, queria ser a grande reveladora desse mistério. Desse modo o problema não foi em grandes proporções, os Wateaires tiveram que cuidar de um país apenas, e não do mundo inteiro. Com esse problema os DDPs e Wateaires sentiram necessidade de se organizar, foi aí que surgiu o Weverston. O nome Costoupolos sempre será muito citado quando se fala de Elementares, ele foi o primeiro de uma série de videntes que previu o Grande Mal, nenhum deles soube dizer o quê exatamente era esse Mal, mas, ninguém estava muito a fim de esperar pra descobrir quando ele viesse então Costoupolos, disse o que fazer para evitar esse mal.
– E é isso que vocês estão fazendo aqui. – ele encerrou
Havia três livros abertos sobre a mesa diante deles. Lyss passou a mão pelas figuras tenebrosas que mostravam a primeira grande guerra contra os humanos, havia corpos por todos os lados, as imagens mostravam alguns Wateaires e DDPs na luta para manter seu segredo oculto.
– Eu me lembro dessa guerra. – Evan murmurou perdido em lembranças – Contei com a ajuda de um grande amigo, ele conhecia algumas pessoas...
– Você estava lá?
Ele acenou afirmando.
– A batalha estava quase perdida, sabe? Eu não o envolvia nas coisas dos Wateaires, mas, nós estávamos perdendo, essa é a parte da história que não está nos livros.
Evan lembrava-se de estar em um dos laboratórios que os humanos usavam para dissecar e guardar os corpos dos DDPs, havia corpos em freezers, ele não podia fazer nada a respeito desses, mas, alguns DDPs estavam aprisionados em câmaras de teste, essas câmaras na verdade serviam para tortura, tortura de todo tipo, desde choques elétricos a mutilações. O alerta de incêndio havia sido acionado quando eles atearam fogo nas máquinas, agora a água que vinha dos detectores de fumaça ensopara Evan, ele não se importava de Dominar a água para afastá-la, até por que estava cansado, realmente cansado, até respirar estava sendo complicado, estava há três dias direto sem dormir ou descansar. Ele não treinava muito, não ia sempre á Lisarb nessa época, precisava de energia pura pra se reabastecer, mas, não podia pensar nisso agora, estava ali para salvar vidas. Mas, ele estava mesmo fraco, nunca sentira-se assim, mesmo assim percorreu o laboratório, os olhos turvos por causa da água que escorria em seu rosto, encontrou a câmara de observação, essa câmara consista em uma caixa de vidro, no centro dela tinha uma DDP amarrada pelos pulsos, que sangravam, Evan sentiu o habitual nó na garganta. Só precisou fazer uma pressão com o ombro e o vidro se partiu em milhares de pedaços, alguns dos cacos feriram sua pele, logo cicatrizaria então ele não se importou, aproximou-se da moça, sacudiu os cacos para evitar machucá-la ainda mais.
– Ei! – estava sem fôlego, nauseado de tantas mortes, mesmo depois de servir ao exército, de passar por confrontos e sangue, essa era a parte que menos gostava. Temia chegar lá e encontrar alguém sem vida, principalmente se esse alguém fosse inocente.
A garota não se moveu, a cabeça pendia, os cabelos castanhos com mechas loiras diante do rosto, Evan afastou alguns fios para ver se ela estava respirando, apurou os ouvidos pra identificar os batimentos cardíacos.
– Ei! – repetiu, olhando para o que era o fim daquela caixa viu através do vidro outras caixas idênticas á aquelas, cada uma com um DDP, outro nó na garganta. A garota murmurou algo. Agradecendo em silêncio pelo fato de sua força não ter sido alterada Evan puxou as correntes que prendiam os braços da moça, ela cairia no chão se ele não a carregasse. – Que bom que você está viva.
O nariz da moça tinha sangue seco, ela abriu os olhos, tentou sorrir. Tomando-a nos braços Evan foi em direção á saída, tinha que agir depressa, naquela sala havia pelo menos dez DDPs, se não fosse rápido o suficiente estragaria o resgate. Levou pelo menos vinte e cinco minutos até o último DDP estar em seus braços, a raiva aumentara ao identificar nas portas das câmaras os nomes e habilidades de cada um deles, eles eram etiquetados como ratos de laboratórios. Estava com o último deles nos braços, era uma garota de 17 anos, Paige era seu nome, estava saindo com ela, desviando-se das pastas e papéis que boiavam na água corrente sob seus pés, os cacos de vidro ardiam em seu couro cabeludo, podia sentir sua pele tentando se regenerar e a presença do material cortante impedindo, havia algum tempo que não via a si mesmo sangrar tanto, nem na guerra aquilo acontecera. Seus braços tinham ferimentos de todos os tamanhos, a maioria estava cicatrizando, todos ardiam em contato com a água. Caminhando nos corredores que já conhecia respirava, aliviado ao perceber que sua missão naquela unidade estava chegando ao fim, foi nesse momento que se descuidou e não percebeu o humano empunhando uma arma de fogo que vinha logo atrás, ouviu a arma ser engatilhada, os reflexos não estavam perfeitos, quando pensou em abaixar-se ouviu um estalo, mas, não houve o estrondo habitual do tiro. Olhou para trás para ver seu melhor amigo deixar o corpo do humano cair no chão. Diagnóstico: Morto. Causa: Pescoço Quebrado. Ele, ao contrário de Evan, parecia adorar essa parte, servira ao exército algumas vezes tendo Evan como companheiro de quarto ou de missão. Evan deixara de contar as vezes que ele impedira algum dano maior em seu corpo, claro! Aquilo não o mataria, mas, pouparia esforço e energia.
Era essa história que ele resumia pra Lyss.
– Então seu amigo não era humano.
Evan sorriu recordando-se
– Provavelmente não, servimos milhares de vezes por uma boa quantidade de tempo, ele nunca aparentou ter mais que 23 anos.
– Ele era um Wateaire? Um Bruxo?
Evan riu
– Nossa amizade durou anos e anos justamente por isso, não sabíamos a espécie um do outro.
– Ele era imortal. – concluiu
– Não sei, Lyss. Não faço ideia, a gente não falava disso, mas, definitivamente ele me ajudou a ser uma pessoa melhor.
Ela recostou-se melhor.
– Como assim? Ele não vivia aqui, certo?
– Não. Nem eu. Fui viver com os humanos com cinco anos, eu não queria estar aqui, sabe? Eu servi ao exército pela primeira vez por cinco anos, conheci esse meu amigo no segundo ano em que eu estava lá, eu só queria saber de curtir minha imortalidade, os amigos que eu fazia morriam então eu aproveitava cada momento, ele não concordava com a política dos outros garotos sobre pegar todas as garotas que pudesse, em contraponto á isso ele não permitia que nenhum dos nossos inimigos sobrevivesse, ele tornou-se famoso por eliminar nossos adversários, se você fizesse parte do grupo dele tinha que se preparar para eliminar.
– Ele não parece ser tão bom assim. – Lyss fez uma careta
Evan sorriu
– Eu servi com ele por anos e anos, Daniel, Fred, Charlie, Christopher... e tantos outros nomes que ele já adotou, nós nunca falamos sobre nossa condição não humana praticamente, nem sobre nossos nomes verdadeiros. Por isso nos demos tão bem, respeitávamos os segredos um do outro. Tinha uma coisa que eu admirava nele e dizia respeito ás mulheres, ele raramente ficava com alguma, os camaradas acreditavam que ele era gay e se quer saber, eu também achava isso. Alguns anos mais tarde ele me contou a razão de sua abstinência, ele me disse que havia tido uma visão sobre o que seria a mulher de sua vida ou algo assim, ele vira uma garota, eu me lembro de suas palavras – Evan sorriu, os olhos sem foco, recordando-se – Ele disse que ela estava lendo o jornal em sua visão, olhando a parte dos classificados, o relógio na parede marcava dez horas e meia, ela vestia um suéter cinza e um cachecol vermelho, tinha os cabelos um pouco abaixo dos ombros, fazia frio, ela bebia uma xícara de chocolate quente, ao que parecia ele estava esperando essa garota há muito tempo, foi a primeira vez que ele me disse que era capaz de ter visões e mesmo assim me disse de maneira indireta, eu não fiz perguntas a respeito, só aguardei que ele contasse. E ele contou. Pra ele, ela era a garota mais linda do mundo, em cada bar e esquina que passasse estava procurando por ela, e mesmo depois de tanto tempo ele esperava essa garota. Eu o invejei de todo o coração, ele tinha esperanças, algo que eu perdera há muito tempo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Você tem contato com ele? Sabe se ele encontrou a tal pessoa? – ela franziu o cenho
– Não, não falo com ele há uns dez anos, talvez. Sei que ele não encontrou a tal menina.
– Pena pra ele. – ela franziu o cenho
Evan ainda parecia perdido em lembranças
– Então você era o conquistador barato?
Ele meneou a cabeça
– Eu não tinha muitas expectativas quanto ao futuro.
– Boa desculpa.
Ficou sério de repente.
– Você sabe o que é ter que viver sem esperanças e expectativas?
Ela ficou em silêncio, encarando-o. Havia mais cicatrizes ali do que ele mostraria um dia.
Fechando os livros, um por um ele começou a recolhê-los.
– Jantar com todos nós. – anunciou – Acho que será interessante.
Lyss levantou-se e espreguiçou-se, acreditava naquilo também.
Sentada á mesa ela percebeu que a palavra interessante era pobre para representar aquela cena, Ross, Tisha e Félix eram os outros mentores, Ross era Ar, o Mentor de Cassie, Tisha – a única mulher do grupo — era Mentora de Louis, portanto, Wateaire da Terra. O último era Félix, este merecia uma atenção especial, era definitivamente impressionante como Félix e Victoria – sua Elementar – tinham a mesma expressão.
Ross era tão falante e alegre quando a própria Cassie, eles se tratavam como se fossem melhores amigos, Ross devia ter 36 anos, era uma aposta boa, ele era simpático, tinha um sorriso bonito, parecia um pai, os cabelos eram lisos, cor de chocolate, eram mais compridos do que pedia a moda. Tisha era linda, talvez tivesse a mesma idade que Ross, aliás todos eles pareciam ter essa idade, a pele de Tisha era negra, os olhos castanhos claro, os cabelos estavam presos num coque bem elaborado, as roupas eram tão lindas quanto ela mesma e combinavam perfeitamente com o seu jeito, ela trajava um vestido com mangas e babados, tinha um sorriso ainda mais lindo do que o de Ross, a aparência jovem e bem cuidada. Tisha e Ross meio que se completavam, podiam ser facilmente confundidos com um casal de namorados, naquele quadro Cassie e Louis eram como uma continuação daqueles dois era algo interessante de se assistir. Evan também não ficava atrás, ele era tão íntimo de Tisha e Ross quanto Louis e Cassie agora, Lyss participava das brincadeiras junto com ele, divertindo-se com as histórias. Félix e Victoria conversavam e riam, mas, discretamente, em alguns momentos ambos pareciam estar ali por pura obrigação. Provavelmente foi o melhor jantar que Lyss já experimentou, depois de estar ali, claro.
Mais tarde, depois de ter tomado um demorado banho, se embrulhado num pijama de flanela e deitado na cama Lyss adormeceu sem demora, ela não viu quando Evan entrou pela janela e ficou encostado na parede olhando-a. Nem o viu sorrir ao lembrar-se do dia que tivera com ela, mas, ao menos Lyss sentiu quando ele acariciou seu rosto com a ponta do dedo, embora não tivesse identificado aquela sensação gostosa que a carícia lhe proporcionou. Evan se demorou naquele quarto.
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