Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
26 Última batida de um coração
Notas iniciais
Evan caminhava do lado de fora com Lauren, estava explicando alguns detalhes do Domínio da Água quando Demetree apareceu em seu campo de visão, eles se conheciam o suficiente pra Evan entender que ele queria conversar. Ele dispensou Lauren e esperou Demetree se aproximar.
– Eu sei que agora vocês podem ficar juntos – ele falava de Lyss – Mas, eu não acho que vocês devam.
– O que é isso agora? Outra vez com essa história?Você me ajuda na busca pelas minhas respostas e agora vem com essa?
– Você não vê? Lyss é mortal, ela se cura rápido, mas, precisa de um apoio para aprender a dominar seus Elementos, você poderia ensiná-la, mas, tem sua própria Elementar agora e você deve saber que os Mestres foram criados para auxiliar seus pupilos, Lyss deve ser ensinada por Philip que está disposto a levá-la para a Califórnia e procurar pelos supostos pais vivos.
– Eu sei, mas, eu posso conviver com isso.
– Vai voltar para a Califórnia com ela?
Evan respirou fundo. Estava pensando no assunto.
– Talvez.
– E deixar seu Elo aqui? Seu elo comigo e com Lauren?
– Eu vou cumprir minhas obrigações de Mentor, ok? Mas, eu quero continuar com Lyss.
– Isso é insano, Evan.
Demetree suspirou levando uma mão á têmpora.
– Insano e doentio. – ele cuspiu as palavras.
Evan suspirou fitando-o:
– Insano, doentio, mas, verdadeiro e forte o suficiente para vencer qualquer coisa.
Lyss estava cavalgando com Chris e Lucy quando voltou os olhos para o céu instintivamente.
– A lua está bem estranha esses dias. – ela murmurou
– Preocupada com mamãe? – Chris perguntou com sarcasmo
– Idiota! – Lyss riu – Falo sério. Sinto-me estranha com ela assim, vermelha e grande demais no céu, está de dia e era para ela estar menos visível.
– Demetree falou algo sobre seus poderes se ampliarem nessa época do ano. Você pode matar Evan. – ele sorriu como se estivesse feliz com a informação – Só você pode.
– Eu prefiro falar sobre nossa volta pra casa. – Lucy interferiu – Nosso voo está marcado para sexta feira, ou seja, daqui a três dias.
– Eu ainda preciso ver uma casa pra mim.
– Como assim? Não vai morar com sua tia e guardiã legal?
– Só até completar dezoito, o que será daqui a dois meses e alguns dias, acostume-se com a ideia de me ver morar com Evan.
Chris assoviou
– Que progresso! – ele sorriu de canto de boca, mas, Lyss o conhecia o suficiente pra saber que ele não estava feliz com a notícia
– Não é nada oficial, ainda não conversei abertamente com Evan a respeito, mas, esses são os meus planos e como vocês são minha família. – ela deu de ombros guiando o cavalo para longe de um caminho íngreme.
– Tudo bem pra mim. – Lucy disse depois de uma expressão cansada – Você ainda tem tempo e pode mudar de ideia.
– Eu vou voltar com vocês, claro que Evan terá que ficar por causa de Lauren, mas, tudo ficará certo no final. – ela passou a mão no peito sentindo-o arder. – Acho melhor voltarmos. – ela falou com medo de mais uma cena com fogo e pele queimando, podia machucar Lucy dessa vez, Chris ainda estava com um curativo por causa da última vez.
O dia passou rápido e Lyss aproveitou mais uma noite com Evan, ela havia passado parte da tarde com Philip, explicando á ele o acidente de seus pais e contando o que sabia sobre a carta que Lucy encontrara, depois ele foi conversar com Lucy também, assim que eles voltassem Lyss iria à tal casa, sentia mais do que nunca que precisava dessas respostas.
Ela sentia como se só houvesse dormido por alguns segundos na outra manhã, de qualquer forma não se sentia cansada, outro detalhe da vida de “Filha da Lua”. Evan não estava no quarto – percebeu antes mesmo de abrir os olhos-, ele geralmente ficava até a hora que ela acordava, sua ausência a incomodou, suspirou olhando o céu muito azul lá fora antes de levantar-se.
Uma coisa a deteve imóvel em pé diante da cama desfeita, era algo em seu corpo, mas, não fisicamente, era como se ela houvesse adquirido equilíbrio e leveza, deu um pulo só pra constatar não ser ilusão de sua cabeça, e lá estava ele, o equilíbrio, ao invés de ir com força contra o chão seus pés pousaram levemente a superfície fixa. Tentou outra vez só que mais alto dessa vez e, — além de ela ter subido quase um metro acima – pousou com muita leveza no solo.
Era uma sensação boa que se apossava do seu corpo, Lyss sentiu vontade de contar pra alguém. Apressou-se em descer, parou no topo da escada estranhando a quietude. Certo, estavam no menor país do mundo, mas, não no mais silencioso. Escutou os sons presentes, além dos pássaros lá fora não havia nada. Um arrepio correu seu corpo, ela abriu e fechou as mãos notando pela primeira vez que elas formigavam, ficou com mau pressentimento. Tentou encontrar algum batimento cardíaco, encontrou o de Demetree que corria no meio da floresta, vindo em direção ao Adams. Lyss desceu o primeiro degrau com o cenho franzido.
– Onde está todo mundo? – sussurrou só pra ter certeza de que seus ouvidos funcionavam corretamente.
Como era de se esperar nada nem ninguém respondeu. Ela desceu os outros degraus com os ouvidos atentos, chegou ao último degrau e finalmente alguns batimentos cardíacos cortaram o silêncio, ela virou na direção que eles vinham, podia apostar que todos estavam no salão, cruzou todo o espaço com menos tempo do que levaria se tivesse feito isso um dia antes, fechou e abriu as mãos ao chegar na porta que levava ao salão, elas ainda formigavam, as vozes podiam-se ser claramente identificadas agora, todos pareciam estar ali: Evan, Louis, Cassie, Tisha – esta estava mais próxima á porta -, Pietro, Félix, Victória, Ross, Chris e Clovis.
O sentimento ruim aumentou enquanto ela erguia a mão até a porta para empurrá-la. Os presentes conversavam lá dentro, mas, Lyss não entendeu uma palavra do que eles diziam, ela interrompeu o gesto na metade franzindo o cenho. Suspirou meneando a cabeça e empurrou a porta pesada, ela deslizou até ir contra a parede, o mundo pareceu em câmera lenta a partir daí, todos os olhares viraram-se pra Lyss.
Cassie e Tisha arregalaram os olhos como se estivesse vendo um fantasma, as rugas entre seus olhos aumentaram, olhou instintivamente para Evan e ele pareceu agachar no chão, Lyss não teve certeza já que o grito ininteligível de Ross chamou sua atenção, mesmo assim ela resolveu dar dois passos pra dentro do salão, todos os outros fizeram expressão de espanto, Ross, Félix e Victória correram até Evan que – agora ela tinha certeza – dobrava-se no chão, parecia sentir dor, Lyss se preparou pra correr em sua direção pra ajudá-lo. Mal havia se impulsionado pra frente e foi impedida por Tisha, ela segurou a garota com força e tentou mantê-la imóvel, mas, Lyss desvencilhou de seus braços e correu até Evan, não cumpriu o percurso todo, pois, Cassie e Ross a impediram, Ross era muito maior que ela e Lyss debateu-se pra ser solta, precisava ajudar Evan, precisava fazer isso. O que estava havendo com ele? Toda sua mente parecia nublada e apenas o desespero e a vontade de salvá-lo a dominava.
– Evan... – saiu do fundo de sua garganta
Os sons – que pareciam ter sumido até agora – voltaram com força. Três sons em especial se tornaram estranhamente claros pra ela:
1 – As batidas desreguladas do coração de Evan, 2 – Os passos apresados de Demetree que agora se aproximava da porta do salão, 3 – As vozes de Tisha e de Demetree atrás dela.
Evan estava deitado contra o piso do salão agora, seu corpo contorcia-se e gemidos escapavam de seus lábios entreabertos, as lágrimas a inundaram e Ross esticava-a na direção oposta.
Que diabos, ele não pudia entender que ela tinha que proteger Evan do que estava machucando-o?
– Tire-a daqui depressa. – Demetree gritou pra Ross
Seus olhos estavam em pânico, até Chris a fitava com desespero também, Lyss enviou um pedido mudo á ele, ele não se moveu. Seus olhos voltaram á Evan, ele ainda se debatia, o coração pareceu bater mais fraco.
– Largue-me, eu preciso salvá-lo... – gritou pra Ross.
As lágrimas já rolavam em sua face. Ele estava morrendo bem diante de seus olhos e ela não podia fazer nada.
– O que está havendo com ele? – gritou outra vez
– Você está fazendo isso, Lyss.
Seu corpo parou e seus olhos nublaram. Ela estava machucando Evan?
A câmera lenta estava em ação de novo, ou as coisas aconteceram com rapidez, ela não sabia explicar. Seus olhos foram atraídos para o pedaço de céu exposto e lá estava ela: A lua diurna. Seu corpo pareceu amolecer no mesmo segundo, uma falha no batimento cardíaco de Evan fez com que ela olhasse pra ele outra vez, o corpo estremeceu de encontro ao piso. As coisas clarearam em sua mente: Ela estava matando Evan!
As palavras de Chris vieram com força: “- Demetree falou algo sobre seus poderes se ampliarem nessa época do ano. Você pode matar Evan. Só você pode”.
A maldita lua diurna aumentara seu poder e ela estava machucando-o. Desejou correr na direção oposta á dele para assim fazê-lo parar de sofrer.
Tum... Tum. Tum... Tum. – os batimentos cardíacos dele demoravam a seguir uma ordem.
Ross a levou depressa até a porta, seus olhos pregados em Evan permitiram-se rolar mais uma lágrima. Percebeu vagamente que Ross corria levando-a consigo, ela teria corrido com ele, deixar-se ser levada, mas, seu corpo não obedecia. Bem, nem isso foi suficiente, Evan ainda contorcia-se com violência, o coração ainda hesitava em bater, Ross estava a dois passos do lado de fora do salão quando Demetree gritou desesperado, a voz tão contorcida quanto seu rosto:
– É tarde demais.
O corpo de Evan jazia imóvel contra o chão frio do salão. Imóvel...
Félix curvou-se sobre seu corpo tentando ouvir uma coisa que soava claramente aos ouvidos de Lyss: As batidas de seu coração. A frase de Demetree fez com que Ross parasse, aquela parada talvez tenha sido essencial, decisiva. Ele virou-se para olhar Evan, os pés de Lyss foram contra o chão, ela não sabia como permaneceu de pé, a única coisa que sabia é que nada fez além de ouvir – estática – a última batida do coração de Evan. Depois daí mergulhou no inferno.
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