Réquiem
1 Réquiem
Notas iniciais
Baseado na cena inicial do filme Requiem for a Dream, escrito ao som de Lux Aeterna, de Clint Mansell.
Se eu me sentia mal por estar roubando a televisão da minha própria mãe? Sim, eu me sentia. Pedi a Tyrone que esperasse no corredor. Não queria assustar a mulher que me deu a vida e me criou. Ela já tinha sofrido o suficiente com a perda de meu pai. Não queria que ela sofresse também com a minha. Mas parecia inevitável.
— Harry, o que você está fazendo aqui? — Ela sempre parecia surpresa com as minhas visitas. Surpresa e feliz. Como se tivesse esquecido-se da última. Pra mim não era um alívio. Pra mim era uma tortura. Já era difícil magoar alguém que amava. Piorava quando o sentimento era mútuo.
— Como estão as coisas, Mãe? — Por que eu estava tentando tornar aquilo tão casual? Eu preferia não saber como ela estava antes, pois sabia como ela iria ficar depois.
Ela estava assistindo aquele irritante programa na televisão. O público gritava “Tappy é um barato, Tappy é um barato.” como se fosse uma espécie de mantra. Eu não tinha reparado nas horas, eu entrei no seu velho apartamento durante seu programa favorito. O carma não estava do meu lado. Nem do lado dela. Mesmo assim, com a minha chegada, ela tirou os olhos da tela e os voltou pra mim ao falar comigo.
Eu conseguia me ver naqueles olhos. Meu reflexo. Era como olhar meus próprios olhos, o mesmo azul.
— Estou ótima. Como você está, meu anjo?
Eu não era nenhum anjo. Estava longe de ser um anjo, principalmente o dela. O fato de ter sentimentos não me tornava melhor ou pior que ninguém. Só dificultava o atual papel que tinha escolhido para essa peça que chamamos de vida. O vilão, o que todo o público torce para que morra no final. E aplaude quando o seu merecido fim chega.
Eu não tinha tempo para conversa. Quando mais rápido saísse de lá, mais cedo Tyrone e eu poderíamos estar em casa, nos drogando até que nada mais nos preocupasse além de como conseguir a próxima dose.
Algo no meu olhar deve ter denunciado o que ia fazer. Talvez fossem os anos em que essa cena se repetira. Ela se levantou da poltrona onde estava sentada, ao mesmo tempo que me agachei para puxar a tomada da televisão.
— Por favor, Harold. A televisão de novo, não. — Ela correu em direção ao seu quarto, fechando a porta.
Teria sido a oportunidade ideal para empurrar a velha televisão até o corredor, mas não teria sido certo. Eu sei. Quem sou eu para dizer o que é certo ou errado?
— Mãe? — Deixei a televisão onde estava e fui até a porta do quarto onde ela estava trancada. — Qual é, mãe?
Pude ouvir o chaveiro sacudindo em suas mãos trêmulas pouco antes da porta ser trancada. Ela estava se escondendo, estava se protegendo. De mim, do seu próprio filho. Era medo. E o seu medo me deixou irritado. Eu sabia que ela devia estar olhando pela fechadura. Olhando seu filho que uma vez pegou no colo. Não sabia se era culpa, se era a raiva, se era a dolorosa sobriedade quase me atingindo, mas naquele momento eu a odiei. A odiei pela primeira vez na vida. Então esmurrei a porta, gritando:
— Por que você tem que fazer com que eu me sinta tão culpado, mãe? — E voltei a fazer o que tinha ido fazer. A televisão. Era ela que importava.
Graças ao móvel de rodas em que ela estava colocada, pude a empurrar com facilidade. Até que ela travasse. Minha mãe, minha própria mãe, tinha acorrentado a televisão ao radiador. Não havia como eu a retirasse.
Fui até a porta e gritei para ela coisas sem sentido. Coisas que o “seu anjo” não falaria, mas que o novo Harry Goldfarb falaria sem pensar duas vezes.
— A corrente não é para você. É para os ladrões — ela disse logo após me passar a chave que abriria o cadeado por baixo da porta.
Ladrões. Será que ela realmente não achava que eu era um?
—Então por que você não sai daí? — Quis comprovar e voltei a esmurrar a porta como se pudesse atingi-la desse modo.
Não podia perder mais tempo. Abri o cadeado com a chave que peguei no chão. No caminho para empurrar a TV até o corredor, passei em frente a porta onde minha mãe continuava escondida. Chamei por ela três vezes. Queria pedir desculpas, ou pelo menos é o que gostaria de pensar que ia fazer. Eu esperei, mas ela continuou lá, assustada demais para sequer responder.
Tyrone fumava um baseado enquanto me esperava. Não o culpava. Dessa vez tinha demorado mais do que as outras. Depois de reclamar do estado da TV (era uma televisão velha, que já devíamos ter penhorado centenas de vezes antes) ele me ajudou a empurrá-la pela rua. As amigas da mamãe — todas da mesma idade dela — estavam sentadas em frente ao prédio em suas cadeiras de sol, vestidas como se estivessem se bronzeando na praia. E todas me deram um olhar de censura quando passei, empurrando sem esforço o bem que elas sabiam ser o mais valioso da amiga.
Mas todo o meu remorso e todo o meu complexo de culpa pareceram borbulhar lentamente e desaparecer na colher onde eu aquecia meu veneno. Veneno comprado com o dinheiro da televisão que minha mãe iria no dia seguinte pagar para retirar do penhor. E que eu roubaria milhares de vezes novamente para conseguir mais do meu doce veneno. Veneno que para mim era antídoto. Antídoto para me livrar da culpa do que tinha que fazer para conseguir o que queria.
Tudo — com uma exceção — sumia de minha mente assim que a droga chegava. A única coisa que ficava era o réquiem. O réquiem em loop infinito na minha cabeça e que eu esperava não ser um presságio.
Réquiem ætérnam dona eis, Dómine,
Et lux perpétua lúceat eis
Riquiéscant in pace
Amen
Notas finais
A última parte é latim, e significa:
Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno
E a luz perpétua os ilumine
Descansem em paz
Amém
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