Ryudan - a História de Um Monstro
1 Capítulo 1 - A Família Feliz
Uma senhora de muita idade fazia seus bordados, quando uma criança brincava com baús antigos ao lado dela em um sótão. O lugar era escuro e silencioso, mas ambos expressavam felicidade e sossego.
- Tata Lif, o que é essa coisona aqui?
O garotinho não passava dos 9 anos. Um metro e vinte, no máximo. Sempre foi bastante intrometido e certamente curioso. Esse era Enzo, tataraneto de Lif e Lifthrasir, o casal que repovoou o mundo após o Ragnarök. Um dos poucos habitantes do novo mundo, junto às ramificações de sua imensa família.
Lif estava velha. Enxergava com dificuldade e mal ouvia as coisas que lhe diziam, mas isso não foi obstáculo para que ela não se espantasse ao ver o descendente. A filha de Kenri olhou atentamente para o livro que Enzo segurava. Seus primos começaram a se amontoar.
- Tata, tem seu nome na capa!
- Sim, crianças... Tem...
- Lif? Lif? O que está acontecendo aí em cima? — Lifthrasir subiu ao sótão, vendo seus tataranetos subirem.
- Nada, não é nada... É só... — Lif tentava responder, e era sempre interrompida.
- Vó? Vô? Meus filhos estão subindo aí, precisa de ajuda?
- Ótimo! Não bastavam os tataranetos...
- Ah, seu velho carrancudo, não fale assim da nossa família!
- Olha, tatavovô! Tio Ror tá subindo! — Disse um ente da família.
- Vô? Que que foi? — Perguntou o tio.
- Não foi nada, querem parar? — Lif levantou da sua cadeira.
- Mãe? — Perguntou Dalia, filha de Lif, mãe de Ror, vó dos bisnetos dos anciãos e bisavó de Enzo. Era neta de Damien e Himitsu e de Kenri e sua esposa, uma Cavaleira cujo o nome se perdeu com sua morte, no parto. Dalia era a mais velha dos filhos do casal que repovoou Midgard, e sua saúde estava mal... Pior do que a dos próprios pais.
- Fique quietinha aí, mocinha! Não quer piorar seu estado, não é? — Inteveio Lifthrasir.
- Me desculpa...
- JÁ CHEGA! — Todos se impressionaram com a força do grito de Lif. — Vou explicar tudo: Enzo achou um livro que eu escrevi, anos e anos atrás, com a ajuda de meu marido...
- Sobre o que fala a história? — Interrompeu uma neta, que era madura o suficiente para ter educação, mas não conteve a curiosidade.
- Ai, ai... Eu estava chegando lá, meu amor... É sobre o mundo antes de nós. Antes do Ragnarök.
- Lap-la-top? — Perguntou Enzo, que achou o livro.
- Ragnarök. — Continuou Lifthrasir. — Sua vó vai lhe contar todas as histórias sobre os deuses. Depois, lemos o livro juntos. Toda a família.
Os dias se seguiram, com Lif passando todos os ensinamentos para os descendentes. Desde a criação do mundo à previsão do Ragnarök.
Os filhos sabiam dos contos. Sabiam de Odin, Thor, Loki. Sabiam que eles comandavam o mundo por possuírem a sabedoria, mas não repassaram seus conhecimentos. Os netos, bisnetos e tataranetos de Lif e Lifthrasir esperavam, ansiosos, todas as noites, para ouvirem um pouco.
O casal de anciãos contava tudo com um brilho nos olhos. Tempos de heroísmo. O velho se emocionava, a velha chorava constantemente, tal era o fervor das histórias.
- Vovó, acho que já sabemos muito... Podemos ouvir a história do seu livro?
- Acho que já podem... Mesmo eu achando que será complexa para vocês entenderem...
- Que que é complexa? — Perguntou um tataraneto, que deveria ter seus 12 anos...
- Não é possível... Vocês, definitivamente, puxaram ao preguiçoso Damien... — Suspirou o velho, ao lembrar-se do pai.
- Deime-quem?
- Pegue o livro, Lif.
- Ah, não. Boa noite, meus queridos! O livro fica pra amanhã!
A faixa etária estava divida no seguinte modo: com 70 anos, o que era muito para aquela época, Lif e Lithrasir. Com 50 à 55, os filhos, como Dalia. Na faixa dos 35 aos 40 anos, os netos, como Ror. A partir daí a família se expandia de uma forma intensa. Os binestos estavam na faixa de 25 a 27 anos, e os tataranetos, 9 a 13 anos. Essa nova geração que surgiu após o Ragnarök obteve o costume de assumir as obrigações maternas e paternas cedo, por volta dos 15 anos.
A noite se passou com a conversa, por parte dos netos, bisnetos e tataranetos.
- Tortura, isso sim. — Esbravejou Enzo, para que os tataravós escutassem.
- Crianças... — Riu Lif, em sua cama.
- E temos que lidar com muitas delas! — Reclamou Lifthrasir.
- Você estava tão lindo naquela noite... Me protegendo dos meteoros...
- Ah... — O velho corou.
E assim eles dormiram, de mãos dadas.
_
- Acorda, bisa! — Um dos bisnetos, que era um Cavaleiro, chamou Lif.
As vocações já estavam presentes em Midgard. Lifthrasir se encarregou de apresentar cada uma para seus descendentes e treiná-los de acordo com seu conhecimento.
- Ansiedade, hein? Bom, de nada valeu me acordar, só vou contar a história à noite. Vá treinar com sua lança.
- Ah, verdade...
Frustrado, o bisneto se foi.
Era Rekenber. Robusto e determinado, sempre saía em longas viagens para explorar Midgard. O mundo era pouco conhecido, mas ele não sabia por quê... Era irmão gêmeo de uma Arruaceira, Kafra.
- E então? — Perguntou a irmã.
- Só de noite, não se lembra?
- Ah, sim...
_
Chegada a hora, toda a família se reuniu no salão principal da casa. O sótão não podia abrir a todos. A voz dos anciãos se pronunciou:
- Esta é a história do Ragnarök. De como o mundo acabou.
E seguiu-se o conto. Nem Lif, nem Lifthrasir estavam vivos quando os primeiros sinais apareceram, mas contaram do mesmo jeito, do que arranjaram de informações. Contaram sobre o plano de mudar o destino. Dos deuses recorrerem aos humanos. Depois citaram os clãs, as organizações do melhores guerreiros de Midgard. Citaram os grandes nomes da guerra. Citaram Damien, Himitsu, Kenri e um nome que se sobressaiu. Ryudan.
O coração deles se apertava e batia mais rápido ao pensarem no nome. Nem mesmo Lif e Lifthrasir haviam conhecido o amigo de seus pais, de ambas as partes. Sabiam que Kenri havia sido um dos melhores amigos de Ryudan, e sabiam que Damien e Himitsu eram representantes fortes do... Como era mesmo o nome? The Legend.
E Ryudan. Que teve o poder de salvar o mundo, e escolheu destruí-lo. Não, ele não destruiu. Ele salvou-o sim. Preveniu que os humanos que não se conscientizavam de seguir com a vida. Só os mais puros continuaram.
Todos os mais jovens se impressionaram com a história de Ryudan, o primeiro Shura.
- Ele... Ele foi mesmo um herói. — Concluiu um neto.
- Sim... Mandou muito bem! — Os mais novos se agitaram.
- Apesar da tragédia, ele fez o certo. — Explicou Lifthrasir.
- Ele foi um monstro! Totalmente insensível! Mereceu o meteoro bem no meio da testa! — Enzo não concordou.
- Não fale assim! Ele salvou o mundo! — Defendeu Lif.
- Ele destruiu! Ele matou!
Antes que todos os outros pudessem responder, Enzo saiu correndo, e foi embora, em plena noite. Ele era um Mercador, com treinamentos para Alquimista, e se sentia melhor na natureza.
Depois daquela noite, nunca mais Enzo foi o mesmo. Sempre quieto, sendo que antes fora tagarela.
_
Passados anos.
- Oh, Dalia... Não estou aguentando... Estou muito velha!
- Mãe...
- Seu pai já foi... Deixe-me encontrá-lo no reino dos mortos, por favor! Cuide bem de nossa família... De Midgard...
- Rekenber mandou notícias... Ele está triste por seu estado... A corporação dele vai bem. Se mudou para Schwartzwald e fez uma família com uma das irmãs. Já estão quase para ganhar netos. E tem saudades do filhos que se espalharam pelo mundo...
- Está tudo muito certo! O mundo está sendo repovoado... Cumpri minha missão aqui. Até mais, minha filha...
A voz de Lif foi se enfraquecendo...
- A corporação de Kafra também vai bem... Sabe...
- Enzo. Me preocupo com Enzo.
- Ele está quase se tornando um Criador e partiu ontem. Vai para Lightalzen, morar com o pai. Arranjou um emprego num laboratório... Parece que um dos novos filhos de Rekenber, Zenit, é um gênio, e fundou o tal Laboratório de Somatologia... É pra lá que nosso Alquimista vai.
- Pe... Ri... Go...
A voz falhou. A mão de Lif, que segurava Dalia fortemente, se soltou. A anciã morrera.
Notas finais
Agradeço aos 376 leitores que minha fic anterior conseguiu (sendo hoje 14/05), aos Reviews, ao meu clã, que sempre me incentivou, e ao bRO o/ - Meu monge pega 99 amanhã
Obs: Te devolvo os 2kk amanhã, Akira o
Fale com o autor