Notas iniciais
Esperando sinceramente que tenham uma boa leitura, e, mais do que isso, que a história faça pensar. :)

A garota, deitada sobre a maca, tenta por tudo esconder seu temor. Com tantos fios conectados a seu corpo, alguns perfurando sua pele pálida, parece presa a uma teia como um inseto que desistiu de lutar, apenas esperando pela misericórdia rápida de seu predador. Mesmo a metros dela, percebo que quase se encolhe, e só não o faz porque isso a desligaria dos aparelhos postos dos dois lados de seu corpo. Talvez esteja com medo demais até para reagir ao que a assusta. Não a condeno. Eu não faria diferente.

Ela não me enxerga, estando eu protegida pelo vidro escuro entre a sala de testes e a de controle, e eu a observo com atenção. Tem olhos mortiços, sofridos, quase sem sobrancelhas para emoldurá-los. Sei que seus cabelos são ralos e sem vida, porque os vi no dia da entrevista e durante as sessões de avaliação; agora, o pouco que lhe resta de mechas está preso e envolto por uma touca. Seus gestos, sua fala, seus trejeitos, todos são humildes. Mais do que isso: são submissos. Se bem me lembro, foi designada ao conserto de máquinas do trabalho agrário moderno, que em nada lembra a beleza bucólica gravada nos filmes. Uma jovem que poderia ter sido bonita se tivesse tido outra vida. Se houvesse ar limpo, água pura e alimento para todos. Se existisse algo como os antigos governos, não os lordes regionais, poderosos pelo que arrancam de uma população impotente. São eles os únicos a viverem com alguma decência; uma dignidade de comida artificial e hologramas de paisagens do passado na janela. É o máximo que se pode ter nestes tempos.

Se as coisas não tivessem mudado tanto em cem anos, ela nem mesmo estaria aqui, vendendo sua juventude a mim e meus projetos.

Minha cobaia não sabe, e nem estudou o bastante para saber que existe uma tecnologia assim, que há um campo de força reflexivo a poucos centímetros de sua cabeça. Com o campo ligado e sem os óculos adequados, como os que meu assistente está usando, ela nunca descobrirá que, mais perto do que possa imaginar, está minha segunda cobaia, um dos poucos seres humanos que resistiu ao tempo apesar de ter o mundo inteiro contra si. Quantos anos teria ele? Cinquenta? Sessenta? Aparenta cem, mas prefiro um palpite mais modesto. É normal ter a pele enrugada e os ossos frágeis quando o deserto extenso castiga sem cessar, com o sol agressivo durante o dia e o frio absurdo da noite. Pelo que me lembre, ele teve a sorte de não ter perdido todos os dentes. Não está tão temeroso da morte como sua parceira invisível; morrer iria livrá-lo de amargar mais alguns anos de existência. Ou, quem sabe, ele só disfarça melhor seu assombro. Tenho certeza de que, como um encarregado do aproveitamento de recursos, teve de se tornar muito controlado para encarar bens duráveis e não duráveis todos os dias e muito dissimulado para conseguir levar um pouco para casa sem que notassem.

Estariam eles aqui só por eles mesmos ou por causa de mais alguém? Faço essa pergunta a mim mesma. Sendo a vida como ela é, sei que os dois vivem no limite. Dizem que depois que se sobrevive ao perigo iminente uma vez, e então várias seguidas, o costume vem rápido. Sair vivo para contar a história vira um hábito. Se a garota, pelo menos, estivesse se entregando ao contrato por motivos de sua própria vida, só faria sentido estar tão assustada se realmente amasse viver, o que duvido um pouco. Deve haver alguém que influenciou sua decisão duvidosa. Um parente doente, talvez. O que é isso, agora? Estou negando a ela o direito primário de sentir medo da morte, mesmo que odeie existir? Quem me tornei, depois que tudo isso começou?

“Juventude perpétua”, é como os magnatas gostam de chamar. Assim que eu der a permissão, os aparelhos ao lado de ambas as macas entrarão em funcionamento, e através da tecnologia que elaborei, a energia vital que, por milagre, percorre o corpo da garota será sugada de seu organismo e transmitida pelos fios que a ligam ao idoso. A quantidade de energia de cada pessoa é limitada, e se reduz ao longo dos anos. Ao recebê-la, o homem terá suas mazelas da idade reparadas, e dependendo de quanto ganhar, pode perder até uma década na aparência. Não é um sistema indolor ou perfeito: a maioria dos testes com animais funcionou; com humanos, nem tanto. E sou obrigada a contratá-los mesmo assim.

Enquanto trabalho, tento me perder em atividades que me ocupem o bastante para não pensar. Não gosto de me lembrar de que existe uma indústria milionária ameaçando minha vida caso eu me recuse a continuar; se eu abandonar o posto, simplesmente escalarão outro. Não serei mártir de causa alguma ou mudarei este sistema com o meu sacrifício; no fim das contas, não vai fazer diferença, eu só estaria empurrando meu fardo a outro desavisado sem noção das coisas. Não quero recordar os jovens que pisaram neste instituto e se entregaram a uma experiência da qual não sabiam se sairiam vivos, nem os senhores a ponto de se desfazer, alguns de fato se foram, que recuperaram algo de vitalidade à custa de uma dor horrenda. Os rostos dos meninos e meninas, com idade até para serem meus filhos, me visitam quase toda noite. Evito usar o medicamento bloqueador de sonhos, assim como qualquer remédio: já trabalhei com isso. Sei como e em quem são testados. Porém, desde que começaram meus experimentos, engulo, junto à cápsula, o que me resta de consciência moral, e adormeço sem pesadelos.

Há dias em que o dever de sair da cama se torna um peso maior do que sempre é. Dias em que o arrependimento por ter começado esse projeto, por ter ficado até mesmo feliz quando apareceram os primeiros resultados, me acerta como um tiro e me arremessa ao chão, quando não a um abismo. Se eu soubesse o que surgiria de uma esperança juvenil de mudar alguma coisa neste mundo exausto, teria parado antes de chamar a atenção. Teria continuado, mas desviando qualquer informação dos ouvidos aos quais chegaram. Não teria nem mesmo dado o primeiro passo. Teria feito alguma coisa, qualquer coisa para evitar o agora. E eu não tinha noção do que seria o agora, não uma noção real. Algumas vezes penso, para tentar aliviar as coisas: será que não estou me culpando demais? Eu tinha mesmo como prever o desastre? Na hora, meu coração aflito se relaxa um pouco, e me deixo levar, por mais que doa. Depois, abro as pastas de documentos e vejo cada pessoa que sofreu, feriu-se ou perdeu a vida aqui, sob minha responsabilidade. É o mesmo que ter cravado uma lâmina em seu coração e em seguida chorar sua morte, com o corpo pouco a pouco se afrouxando em meus braços e o sangue nas mãos. Ou não é? Quem pode responder? No final, sei que ninguém se importa com isso além de mim. Ninguém dá a mínima porque sou só uma ferramenta, uma peça que faz o maquinário funcionar. E peças não têm fala, nome próprio, rosto, sentimentos, mente. Nem vida.

Pelo chip implantado em meu aparelho auditivo, ouço a voz do assistente:

─Sistemas instalados e em funcionamento. Permissão para iniciar?

Minha linha de pensamento se parte. Apesar de ter sido torrencial até então, foi quebrada como um fiapo de vidro. Ergo a cabeça e olho para a sala. Para a garota. Já consigo visualizar seus músculos se contraindo e sua boca aberta em um grito mudo, sem ar nos pulmões. Uma agonia curta para quem vê de fora e infinita para quem padece dela. O filtro aplicado ao vidro na parede permite que eu veja o velho cansado; não vai sofrer menos que ela. Há riscos, e eles sabem disso. Eu contei. Eles tiveram o bastante de escravidão. Não seria justo negá-los esse mínimo de dignidade.

Comparo-os. Novo e antigo. Vida e morte. Dor. Onde está o prazer?

Como um carrasco dos livros de História, sentencio a execução.

Notas finais
Então, aqui estamos. Obrigada por me acompanharem, talvez obrigada de novo, caso você já leia minhas histórias. Eu nunca esperava ter escrito esse conto, e, mesmo assim, ele saiu bem melhor do que eu imaginei.
Não se esqueça de comentar logo abaixo! Eu gostaria muito de saber a sua opinião. Se você não gosta que vejam sua review, mande o que pensa por MP. Eu responderei do mesmo jeito. Até lá :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!