Russo de Neve
1 Capítulo 1
Na parte norte do continente americano, havia um reino extremamente poderoso. Era uma recente potência mundial, tanto na economia, ideologia, cultura, política, enfim, em todos os setores. Em qualquer lugar que um camponês chegasse, conseguiria comprar jeans e tênis para trabalhar exaustivamente numa indústria ou agronegócio. Em qualquer lugar que este camponês chegasse, poderia pedir um hambúrguer e saciar sua sede com uma refrescante Coca-Cola. O rei, um jovem estadunidense alegre, forte, corajoso, destemido e com uma insaciável fome... Por justiça, democracia e liberdade, chamava-se Alfred F. Jones.
Muita de suas conquistas se devia a sua rainha, digo, inseparável companheiro inglês que vivia viajando e raramente estava no reinado. Ainda assim, sempre retornava trazendo a diversidade necessária para a supremacia e hegemonia daquele prestigioso governo mundialmente.
Contudo, ainda que não admitisse para ninguém, o rei se sentia solitário a cada partida do inglês resmungão. A primavera floria os campos, contudo nenhum verde se igualava a vivacidade daquelas grandes íris que se desviavam quando provocadas. O rei já não bebia chá na ausência do outro, até porque havia descoberto uma bebida que lhe permitia ficar acordado por mais tempo encarando o mar, esperando o retorno daquele que tanto admirava.
Talvez como reflexo de seu coração, gradativamente os fiéis súditos se distanciavam daquele rei cada vez mais ausente. Isto era arriscado. Extremamente arriscado. Apesar de senhor de tantas terras, o luxuoso castelo permanecia constantemente vazio, até porque a existência do irmão sem presença do jovem americano sempre passava despercebida por quase todos, excerto pela percepção do honrável e fiel soldado francês, o qual também desaparecia frequentemente para saciar seus incontroláveis desejos carnais.
Certo dia, próximo ao Halloween, percebendo a tristeza expressa pelo companheiro, o inglês teve uma excelente ideia. No natal, retornou ao castelo carregando uma pequena criança proveniente da Rússia, capturada durante a revolução de 1917. O pequeno era branco e gordinho como um floco de neve, por isto, recebeu o apelido de Russo de Neve.
Alfred não ficou muito feliz. Com o passar do tempo, começou a demonstrar bastante ciúme com o pequeno, embora jamais admitisse. Enfurecia-se, pois era mais alguém desfrutando da atenção do inglês que ele desejava monopolizar somente para si. Em contrapartida, durante um considerável período, o eterno viajante permanecia ali, já que todas as tarde ensinava inglês e sobre gestão da economia para o jovenzinho.
Todavia, o russo crescia rebelde. Rejeitava as fábulas de Adam Smith e David Ricardo e preferia a literatura proibida de Karl Marx, o qual mandava frequentes cartas utópicas de amor para o inglês, sendo todas ignoradas. Ainda assim, a criança ficava admirada com o sistema alternativo e paradisíaco descrito em cada uma daquelas linhas, denominado socialismo, e, mais tarde, comunismo.
O rei ficava cada vez mais furioso. Seu único conforto e confidente era seu espelho alienígena, pois este sempre fazia previsões positivas e agradáveis sobre o sucesso de sua soberania mundial. Mesmo responsável por noticiar sobre todo o mundo, as premonições americanas predominavam, chegando a serem elogios na maioria das vezes.
E neste dia, novamente, o rei perguntava prepotente:
– Qual a maior e melhor potência do mundo?
– A americana, meu senhor.
– Quais as músicas mais cantadas no mundo?
– As americanas, meu senhor.
– E qual o sistema que prevalece no mundo?
– O capitalista, meu senhor.
– Isto me deixa feliz. – Respondeu sorrindo satisfeito, enquanto sentava-se na confortável poltrona e começava a comer os hambúrgueres que se encontravam na mesinha próxima. Após devorar dois, continuou glorificando-se, ainda com a boca meio cheia por estar ingerindo o terceiro. – Não é como se eu não soubesse as respostas, afinal: Eu sou o herói! ... E não aquele russo idiota que o Iggy tanto paparica.
Neste dia, o espelho carregava a expressão pensativa, todavia o rei não conseguia ler o ambiente. Isto só dificultava as coisas, pois o objeto previa péssimas notícias, porém não sabia como transmitir para a adorável majestade. No entanto, deveria falar. Era seu dever como o oráculo de Marte.
– Alfred... – Suspirou tristonho. — Temo dizer, mas vejo vermelho no seu futuro.
– Vermelho Coca-Cola? – Interessou-se fitando o amigo e recolhendo uma garrafa da mesma marca e começando a beber o negro líquido pelo estreito canudo transparente com listas vermelhas.
– Não... Vermelho Revolução.
O loiro rapaz se engasgou quando escutou a desagradável palavra “Revolução”. Deverás seria provocada por aquele cínico garoto gelado.
Escutando a tosse do superior, o atento criado japonês entrou trazendo um copo de Milk-Shake visando desengasgá-lo e acalmá-lo diante a inesperada surpresa. O dono dos olhos sem expressão que combinavam com o luto do uniforme completamente negro e o agradável rosto sem sorriso, já tinha sido convocado anteriormente pelo preocupado espelho, por isto, agora,apenas esperava o crucial momento.
– O socialismo é uma considerável ameaça. – Continuou o objeto mágico, tendo a total seriedade do seu senhor que acompanhava cada palavra, refletindo por segundos.
– Kiku, chame o Francis aqui. Imediatamente. – Ordenou o rei, recompondo-se, apesar de permanecer evidentemente preocupado, afogado na vermelha poltrona real cheia de estrelas brancas.
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