Russo de Neve

4 Capítulo 04


Deprimido, o bondoso rei Alfred passou o dia trancado no quarto jogando vídeo game. Aguardava o hambúrguer noturno. Imaginava a sensação deste sabor peculiar.

O relógio contou seis, sete horas... Até que o francês, trajando roupas típicas de um chefe culinário, entrou no quarto carregando elegantemente uma bandeja, transparecendo a inata felicidade daquele formoso homem.

— Achei que estaria no salão principal, Majestade.

— O que eu irei falar pro Iggy?

— A verdade, meu caro. Existe algo melhor do que isto? – Retirando a bandeja de hambúrguer de cima do criado mudo para colocar a nova refeição, o francês explicava quase filosoficamente.

— Meu oráculo, existe algo melhor que a verdade?

— O conforto ao coração por agradar a si mesmo e ao seu senhor, mesmo que isto signifique traição.

— Traição, espelho? – Alfred forçou a risada, pois não estava com ânimo devido ao nervosismo mesclado a concentração no agitado jogo. — Quem poderia conspirar contra um reino tão perfeito?

Francis engoliu a seco.

Havia terminado de servir o jantar e, ansioso, conferia o relógio pensando nos dois fugitivos. O silêncio do lado de fora significaria sucesso? Deveria ser, até porque aquele reino era sempre tão barulhento.

No momento, restava aquele espelho alienígena que somente o Alfred escutava e aparentava representar perigo.

— Realmente, quem poderia executar algo tão desprezível para este bondoso reino? – Retirando headphones do bolso da calça, aproximou-se do rei que continuava em sua poltrona, estático ao vídeo game com imagens aleatórias e coloridas. – Inclusive, gostaria que você escutasse a canção que o Heracles compôs para seus heroicos atos.

— Eu vou perder o jogo, droga! – Avisou meio irritado, desviando o pescoço do alcance do outro para que pudesse continuar fixado na tela. – Escutarei depois.

— Mas, Alfred...

— Alfred, o vermelho revolução ainda está no seu destino...

O inexpressivo japonês chegou ofegante ao quarto. Empurrando a porta com ferocidade, esquecia-se das boas maneiras, assombrando os demais. O rosto, sujo e ferido, não se comparava com a espada repleta de sangue como se retornasse de terrível um combate.

— Senhor, o russo fugiu. Tentamos detê-lo, mas o Feliciano foi morto e ele pegou Gilbert como refém e partiu.

Alfred largou o controle ao encontro do solo.

Não importava o jogo. Olhando para a arrumada bandeja em repouso sobre o criado mudo não acreditava na audácia do caçador. O melhor caçador que agora suspirava evidentemente aliviado.

Percebendo os olhos lhe condenando, colocou os headphones sobre o criado mudo, próximo a bandeja. Dando um passo afrente, levantou as mãos em rendição, tendo plena consciência do pecado.

O americano retirou a pistola do coldre e conferiu a munição. Carregada. Desejava atirar no traidor imediatamente, contudo... Encarou a munição novamente, não tinha coragem para mirar. Até por que...

— Senhor, permitindo a minha opinião, eu realmente achei suspeita a atitude do senhor Matth...

— Não, Kiku...! – Insistiu, fitando o japonês de maneira gentil, implorando para que não continuasse.

— Leve o Matt, o Francis, o Antônio e o Lovino para o calabouço enquanto penso na execução destes malditos traidores!

— Não, Alfred! O Matthew, Antônio e Lovino não têm nada haver com isto. – Exaltou-se o francês, enquanto os guardas se aproximavam. Puxando os desesperados braços para trás, colocavam as algemas brutalmente, visando paralisar o criminoso. Inclusive, o mais cruel, detestando a aproximação deste ao rei, bateu agressivamente o cabo da espada contra as costas francesas, ordenando que caminhasse. Desviando dos soldados, choroso, ajoelhou-se implorando por perdão. – Alfred, por favor, você está sendo irracional. Eu sou o único culpado.

— E eu sou o rei! Ao contrário do seu descaso, minhas ordens são absolutas e todos aqui estão prontos para obedecer. Se eu disser que todos são culpados, assim será. Ninguém ousará me questionar. – Suspirando decepcionado, guardou a arma e continuou tentando controlar a raiva que ditava seus sentimentos. – Eu deveria colocar você para provar do seu próprio veneno: a guilhotina. Isto talvez melhore seu histórico como destruidor de monarquia.

— Alfred, o Iggy...

— Cala a boca! – Protestou colérico. Levantando o caçador pela gola da camisa, colocou-o contra a parede brutamente, chocando-se contra a escrivaninha e derrubando a bandeja com os falsos hambúrgueres ao chão. – Ele é o único motivo para não lhe matar neste momento. Só pedi que exterminasse o maldito russo e você ainda quer ficar de conversa depois de tamanho desacato? Francamente, Francis... – Respirando e tentando estabilizar a sanidade, temia outro desastre naquele local. Deste modo, Alfred soltou seu ex-caçador predileto.

Desejava socá-lo até diminuir a raiva, ainda assim, controlava seus punhos, apertando-os tanto que quase quebrava as articulações dos próprios dedos.

Antes que o prisioneiro conseguisse se levantar, os guardas o seguraram imediatamente, desaparecendo do cômodo bagunçado não apenas pelos materiais espalhados, como também, pela confusão de pensamentos a respeito da queda do reinado e extermínio dos inimigos.

Retornando para sua poltrona real, o vídeo game permanecia parado no pause. Todavia, havia perdido a vontade de jogar.

O japonês, após colocar a espada na bainha, continuava de pé próximo à porta, aguardando novas ordens.

— Se eles querem guerra, exterminaremos a todos junto ao nascer do sol. Afinal, como herói, é meu dever manter a paz e estabilidade no mundo. – Pressionando o play do videogame, complementava. — Pensando bem, partiremos com o raiar do dia, vamos dá uma pequena vantagem para que estes insetos possam comemorar sua última noite de glória.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.