Ruquinha!

1 Beijando o chão


Notas iniciais
Boa leitura!

Acordei e em um pulo eu já estava tomando banho, afinal, hoje é a minha última tentativa. Espero que tudo dê certo. Sabe, estou com medo e também ansiosa. Gente, é amor demais! Eu sou louca por esse menino tem três anos! Sim, três anos! Esse tempo todo eu estudava (e estudo) com ele, mas nunca tive coragem de conversar ou se quer falar um “Oi”.

Entretanto, no começo dessa semana fiz uma aposta com a minha amiga. Apostei cinquenta reais com ela e se eu não falar com ele até hoje, no final das aulas, terei que pagar o dinheiro para ela. Pode parecer fácil falar com um menino, e é, mas esse menino não é qualquer menino, ele é o amor da minha vida! Eu tenho toda essa certeza porque eu não consigo tirar ele da minha mente. Não tem outro carinha capaz de me fazer esquecer ele, nem mesmo o Ben Bruce, que é um gato sexy pra caramba.

Já tentei fazer de tudo para tentar chamar a atenção dele, é sério, fiz de tudo mesmo! Pulei do muro da escola para dentro do pátio quando ele estava passando, cai pertinho dele, mas ele nem olhou para mim, pareceu até que eu não existia no planeta Terra. Fingi uma briga com dois amigos meus, uma briga bem feia mesmo. Xinguei eles de tudo que é nome, gritei, fiz o maior barraco, tudo isso na frente dele, e ele nem fez o favor de tirar o fone de ouvido pra ver o acontecimento do ano.

E fiz muitas outras coisas, mas estou com preguiça de contar. O que interessa mesmo é que hoje é sexta-feira e eu não tô a fim de pagar essa dinheirama toda pra minha amiga, amo aquela vaca, mas meu dinheirinho é precioso.

— Lily, a Miranda está te esperando na sala — avisou minha mãe do outro lado da porta do banheiro, precisamente no meu quarto.

— Manda a cabrita esperar — berrei enquanto me secava com a toalha.

Assim que ouvi minha mãe sair do meu quarto eu fui me vestir, coloquei a maldita blusa feia da escola (que é verde-escura com o nome da escola escrito no peito direito) e as blusas têm que ter manga, pelo menos as minhas tem. Uma calça jeans que está toda rasgada na perna e na coxa, e o motivo é simples: eu cai muito com ela andando de skate. Botei meu tênis all star preto magnífico que lutei meses para ganhar da minha mãe. Deixei o meu lindo (só que nunca) cabelo ruivo solto, porque eles têm que brilhar mais que eu. Não peguei a minha mochila porque ela está na sala.

Abri a porta do meu quarto desfilando e desci as escadas que dão direto na sala com estilo, correndo feito uma louca muito chique, se é que isso é possível. Por causa do meu cabelo cor de fogo e também por eu ser louca, me apelidaram de Ruquinha. Eu até gosto desse apelido, muito melhor que foguinho, e tem dementes que ainda insistem em me chamar assim, mas como gosto muito de vermelho, estou pouco me importando — pra não dizer fodendo que é muito feio pra uma bela moça como eu falar.

Ai. Meu. Deus. Senhor casamenteiro, te imploro divindade, me ajuda hoje!? Preciso conquistar o amor da minha vida, você sabe que eu sou completamente louca por ele, é sério, me ajude! Eu dou um infarto se não conseguir conversar com ele e ainda por cima perder meu dinheirinho.

Sou uma boa menina, se uma vaca se achar de mais eu dou na cara dela, isso quer dizer que eu sou verdadeira e não vou ficar enganando a ordinária dizendo que adoro ela, porque é feio mentir e também é pecado. Eu faço tudo certinho, não humilho os pobres, não porque eu sou uma também, mas sim porque os riquinhos filhos da puta merecem mais por se gabarem tanto.

— Animada hoje? — perguntou Miranda, me dando um abraço muito apertado.

— Como sempre, não é, vaquinha?! — respondi sorrindo, me desfazendo de seu abraço sufocante.

— Venham tomar café da manhã vocês duas — chamou minha mãe e nós duas caminhamos em direção a mesa.

— Cadê a Rebecca, mãe? — perguntei.

Rebecca é a minha irmã mais nova, que apesar de ser idiota, sem graça, estraga-prazeres, barulhenta, é mais inteligente que eu e sempre me ajuda nas provas, por isso não posso reclamar muito dela. Ela está sempre certa, não importa o que aconteça, às vezes isso me dá uma raiva do caramba. Ela tem todas as respostas na ponta da língua, parece que a menina engoliu uma série de livros cérebro acima.

Amo aquela nerdzinha, apesar de me atormentar todo dia. Com catorze anos é a mais inteligente da escola dela. Quando eu tinha a idade dela eu só sabia andar de skate, vagabundar com os amigos nas pistas de skate e fazer trote com as patricinhas. Pois é, ela puxou o lado inteligente da família e me deixou o lado doidão. Tá de boa, contanto que ela me ajude a passar de ano sempre.

— Já foi pra escola. Ela pediu para te dar um recado — informou.

Cabelo ruivo, pele branca com algumas sardas na bochecha, baixa, olhos castanho-claros, essa é minha mãe no físico. Às vezes ela é gente boa, me deixa fazer o que quiser, não reclama quando apronto na escola, pois ela sabe que tudo que eu faço é pra me defender. Tá ok, nem sempre, mas ela não precisa saber desse pequeno detalhe. Carinhosa, gentil, maluca e às vezes ela consegue me deixar com medo.

— Qual é o recado? — perguntei.

— “Boa sorte, roube o coração dele” — repetiu minha mãe. — Boa sorte, filha.

— Obrigada, mãe. Se não for hoje eu nunca vou conseguir ter ele só pra mim — agradeci e o meu pai chegou na sala.

— Espero que ele continue sem te enxergar — resmungou meu pai, que se chama Matheus.

Olhos verde-claros, cabelo loiro, pele branca, alto, bochechudo, esse é o meu pai. Ele é até legal quando o assunto não envolve meninos. Ele é muito ciumento e irritante também. Diz que quer me pôr limites, mas cara, pra quê limites? A vida é mais bela quando quebramos todos eles e fazemos o que achamos certo. Se eu quebrar a cara uma vez, vou fazer de novo e se quebrar de novo vou continuar tentando até conseguir, mas se não der mesmo assim, pelo menos eu tentei.

— Não jogue macumba, pai! Você sabe que eu amo ele — reclamei.

— Pensei que eu seria o único homem na sua vida — choramingou, fazendo bico.

— Você é o meu pai e eu te amo, mas eu preciso casar e ter filhos, beleza?! — falei e peguei uma maçã.

— Não vai tomar seu café da manhã caprichado hoje não? — estranhou minha mãe.

— Desculpa mãe, preciso bolar um plano muito inteligente com a Miranda — encarei a vaquinha, mentindo para minha mãe. — Não é, Miranda?

— Sim. Tchau tia, tchau tio — concordou, despedindo-se. E o meu pai nem deu confiança pra vaquinha, pois estava se matando de comer. Brincadeira, ele estava lendo o maldito jornal.

— Tchau, querida — minha mãe acenou pra vaquinha depois de lhe dar um beijo na testa. — Boa sorte para você, minha filha.

— Obrigada, mãe — agradeci, pegando o meu skate.

Sai de casa acompanhada da Miranda, que também tem um skate muito irado. Ela pediu para grafitarem o dela com um monte de caveiras. O meu é cheio de personagens de animes. Nós duas somos Otakus e nem me venha com esse papo de Otome, porque Otaku é unissex.

Fui conversando com a Miranda até chegar na escola e, assim que chegamos no portão, o povo já veio falar comigo. Fazer o que se sou popular, né? Mas eu sou uma popular diferente das populares patricinhas, sou uma popular que gosta de maltratar as patricinhas.

— Ei, Ruquinha, beleza? — perguntou Alan, me dando um beijo na bochecha.

Alan é bonito. Lindo, na verdade. Ele é ruivo que nem eu, tem algumas sardas no nariz e nas bochechas, tem olhos castanhos e é mais alto que eu. É mais velho, tem dezessete anos, enquanto eu, dezesseis. Gosta de rock, de anime, de pessoas loucas. Enfim, ele é meu parceiro.

— Beleza. Já viu o Luca por ai? — perguntei olhando-o.

Luca é o nome do meu gato, quero dizer, do meu futuro gato, se Deus ajudar.

— Não — respondeu. — Oi, Miranda.

Uma informação importante sobre o Alan e a Miranda: os dois se gostam, mas não têm coragem de dizer um para o outro. A idiota da Miranda não acredita em mim, e o Alan pensa que ela não gosta dele como namorado e sim como amigo. Sério, a Miranda tem um bofe perfeito afim dela, e ela não consegue enxergar. Raiva, raiva, raiva. Quem dera eu com essa sorte toda.

— Oi — respondeu tímida. — Tudo bem?

— Tudo, e com você? — perguntou ele.

— Também — ela respondeu.

— Ok, casal não assumido. Bora entrar na escola ou tá difícil? — interrompi o momento maravilhoso deles revirando os olhos.

— Vamos — respondeu Alan, rindo timidamente.

Entrei na escola toda animada e olhei para o mesmo lugar que eu sempre olho quando chego na escola; para parede da diretoria. Deixa eu explicar, o Luca fica sentado no chão encostado na parede da diretoria. E adivinha, ele estava lá sentado com o seu fone no ouvido lendo mais um livro de assassinato. Ai Jesus, ele é perfeito!

— Ele está ali, foguinho — avisou Fernando, me puxando para um abraço.

— Eu vi, cabeludo — respondi retribuindo o abraço.

Fernando tem dezessete anos, tem cabelo cacheado e loiro. Olhos azul-piscina, pele branquinha, bochechudo, ele lembra um anjinho. Fernando é o melhor amigo do Alan e meu também, pelo menos um dos melhores. O Alan é da mesma sala que o Fernando. Assim como eu, o Fernando é doido e também é lindo. Sedutor quando quer, gentil, carinhoso às vezes, alto e um bom amigo.

— Vai fazer o que para chamar atenção dele hoje? — perguntou Nando.

— Vou fazer alguma coisa que provavelmente vou me arrepender, mas eu faço tudo por ele — respondi subindo em cima do meu skate e indo em direção ao Luca.

Peguei mais velocidade e quando passei perto dele me joguei com o skate no chão. Puta merda, como isso doeu! Nunca faça isso, te garanto que não é nada legal. Agora só falta o idiota não ter visto. Oh, filho da mãe, vem logo me ajudar!

— Você está bem, menina? — perguntou uma loira do terceiro ano.

Como a criatura divina do Luca nem desviou o olhar do livro, eu revirei os olhos e me levantei bufando de raiva. Me joguei nessa porra de chão à toa.

— Estou, obrigada por perguntar — respondi sorrindo de canto para ser educada. Tive educação apesar de não parecer às vezes...

Voltei para perto dos meus amigos, que agora estão sentados no banco perto do bebedouro dando muitas gargalhadas. De mim, claro, que se jogou no chão à toa. Eu disse que a coisa é difícil com esse menino. Sentei no banco e todo mundo que viu aquela cena estava rindo de mim.

É, a Ruquinha aqui já se deu mal na primeira tentativa do dia. Será que não vou conseguir falar com ele e ainda perder meu dinheirinho?

— Se deu mal, foguinho — afirmou Fernando rindo. Ver a desgraça dos outros é bom, não é, anjo-falsificado?!

— Tô sabendo — resmunguei, virando os olhos.

Notas finais
E aí, gostou? Beijos, Manu!