Ruptura Mental

4 Sobrevoando o pretérito


Naquela noite eu fiquei lá. Meus pais são separados, devido a isso haviam cerca de 8 chamadas perdidas no meu celular, meu pai falou com ela logo após as chamadas, não explicou-a a situação, apenas disse que eu havia me sentindo um pouco fragilizado, sem um motivo transparente, e que eu havia fugido e iria permanecer uma noite lá.
A existência, nossa existência, era uma incógnita que não necessitava de solução, não havia o porque procurar o X da conta matemática, se a própria resposta estava no início do problema, a nossa existência era feita simplesmente para existir, mas com que propósito, com que motivação, com quê? Foram todas perguntas feitas a mim mesmo naquela longa e dolorosa noite.
Acordei, sentindo o odor de torradas com ovo vindo da cozinha, me sentei, com neurônios estalando-se uns aos outros, obrigando-me a relembrar tudo, um sentimento temporário, de segundos à segundos, certamente inexplicável até mesmo ao dilacerarem minha cabeça com máquinas tecnológicas. Apenas uma lança de espessura média cravando na minha clavícula, coloquei meu dois pés no chão, me levantando e indo com inércia até onde o cheiro perambulava.

A torradeira queimando alguns ovos mesclados ao pão e meu pai terminando de balançar a colher dentro de um copo de Ovomaltine. Por alguns instantes, aquilo me soou tão falso, como tudo poderia estar tão destroçado, errado, o "mundo" malevolente a mim, e assim mesmo, eu estar pronto para receber torradas com ovo e um copo de achocolatado na manhã seguinte após provavelmente tirar a vida de alguém. Mas sem pensar muito, entendi que era um eufemismo muito bem pensado feito pelo meu pai, me mostrando que o fim do mundo só existe quando seu coração salpica os últimos sussurros batidos no mundo, eu não deveria me apavorar, nada estava acabado, pelo contrário, aquilo era apenas o começo.
Tomamos o café da manhã, iniciando irrelevantes curtos diálogos.

Ele estava me levando de carro até minha casa, para arrumar minhas malas, enquanto me explicava como eu iria, basicamente viver morando em outro país, sozinho. O dinheiro seria transferido por uma conta bancária, eu iria trabalhar virtualmente numa espécie de site-projeto criado por britânicos, nos quais eram conhecidos do meu pai, para ajudar financeiramente e etc... O que me soou bem simples, esclarecendo bem menos assustador como parecia minhas perguntas de como eu iria viver. Na verdade, eu não estava sozinho, nem por um relapso meu pai me deixaria sozinho, eu já deveria saber disso.


Só era explicável para os que já tiverem que executar tal sofrimento: Olhar nos olhos daqueles que lhe amam, dizer um breve "Oi, tudo bem?", como se fosse apenas mais um dia, e dar um abraço apertado e obducto, sabendo que ele provavelmente seria o último dentre anos, ou até mesmo à eternidade. Dar um Adeus precário. Eu sabia que eu tinha escolhas, sabia da escolha que tinha feito, mas mesmo assim, era muito desgastante pra cada segundo, obstruir tudo em minutos, sendo que em horas, eu estaria longe por dias, meses, anos e talvez eternamente.

2 horas de viagem, escutando música embutidas num pendrive, que incrivelmente, conseguiram me afastar daqueles pensamentos nem que fossem por duas insignificantes horas.

Chegamos ao aeroporto, e eu acabei esquecendo-me novamente dos fatos, e me lembrei de como era apaixonado por aeroportos. Gostos esquisitos, para um rapaz esquisito.

Notas finais
Eu sei que o capítulo foi bem fraco, sem nada de ação ou mistério, queria que fosse mais explicativo, não se aborreçam, sou um mentecapto, desculpem. :( Obrigado a todos que leram até aqui, de coração, Pragae.