Ruptura Mental
1 Prólogo - Desvencilhar-se
Eu estava caminhando até a casa dela, revendo todos os pensamentos que havia planejado durante a noite passada, numa madrugada interminável de sentimentos precoces sobre tudo que poderíamos fazer naquela tarde, que, notavelmente, não era calorenta, nem muito fria, estava mórbida, do jeito que eu sempre gostei, neutra.
Foi como o ponto teclado e o Enter dado, uma obstrução da euforia, súbita e bruta.
Senti apenas um choque, estremecendo minha mente. Pensamentos, turbilhões movimentados e nervosos de pensamentos. Foi o que se retorceu no meu cérebro ao ver aquela cena. Ela, e algum ser que se atrevera a tocar os lábios dela, como eu toquei e tocava.
A sensação e a visão que encontrava ao bater dos meus olhos naquela imagem, que deixou de ser uma visão, um momento, uma vida, virou apenas um interface de tristeza e raiva, programada naquele mesmo instante, como as analogias rápidas que eu costumava fazer e contar para ela, ou como as piadas estúpidas que costumava contar e até mesmo como os beijos de carinho aplicados na testa e na bochecha.
Uma pintura, de mau gosto, era aquela visão. No próprio e digno instante de confusão mental, e dúvida de todas palavras de “amor” que havíamos trocado, eu só consegui soltar um ar que já nem havia expirado em meus pulmões, um ar seco. Fiquei paralisado, com a mente nua para tudo aquilo que eu nunca quis aceitar, mas que agora estava explícito e inocentemente frágil na minha visão, mas ao mesmo tempo que eu me encontrava naquele estado, aquele sentimento escondido foi aceito, e ele aparentava ter 2 metros, ter um rosto branco pálido, com uma capa preta envolvida, parecido com a morte, os olhos eram negros, e o sorriso perplexo para minha visão, com gosto de me olhar daquela maneira, era assim que eu via aqueles sentimentos, eram eles, embutidos numa figura maldita, que olhava para mim com graça.
Ele estava ali, parado na minha frente, queria um abraço, por mais que assustasse-me, eu senti vontade de abraça-lo, cheguei tão perto, ele não parecia sorrir para me assustar, e sim pra me aconchegar. No fim, a realidade é assustadora, e eu devia aceitá-la assim como é.
Foi então que ouvi um grito, retomando minha visão, minha audição e presença física e espiritual à aquele mundo. Ela correu em minha direção repetindo meu nome e exemplificando a cena de maneira mascarada e eufemista: “Não é o que você está pensando, amor.”.
Eu não pude, não pude me aguentar diante daqueles segundos.
Gritei. Gritei pondo as mãos arqueadas na cabeça, pedindo-lhe para se afastar, agora, apesar de já ter entendido a situação, a imagem foi tornando-se realística, e eu fui compreendendo e experimentando-a, o gosto do "soco na barriga psicológico". Foi o que soou quando aquela coisa estática, movimentou-se e adquiriu vida e assim como adquiriu vida, obteve sentido. Foi naquele momento que eu também encontrei o meu sentido, meu sentido totalmente fora de sentido, fora de escrúpulos, fora de pensamento, fora de mente, fora de humanitário.
Arrastei as minhas mãos lentamente e tremelicando de cima da minha cabeça em direção ao rosto, enquanto levantava minha cabeça com esforço, parei minhas mão e os dedos serviram como vãos de janela para os meus olhos, visualizando um último momento aquela visão, que já não era mais tão estático assim, antes de realizar meu feito, foi a última coisa que fiz antes de perder completamente o “juízo”, como alguns gostam de chamar no meu caso.
Pronunciei: “Por que?” e agi. Desferi um soco diretamente no rosto da minha querida e amada, desmaiei-a. Em seguida olhei para ele, não para o garoto, para o ser que havia me olhado com os olhos assustadores, que já pareciam confortáveis, e ele abriu a sua boca, com os dentes afiados e longos, disse: “Faça.”
Fui com um andar esguio diretamente para o rapaz, enquanto ele latia palavras boçais como “O QUE TU FEZ, MEU? TU TÁ LOUCO?”, vindo até mim diretamente com uma fúria não tão intensa e insana como a minha, pronto para me atacar. Foi então que eu senti, um direito, bem na maçã da minha bochecha. Foi uma sensação boa, naquele momento pelo menos, não, foi maravilhosa. No mesmo instante troquei de volta com outro, muito mais pesado e intenso, quase como uma dança que você já sabe os passos e aplica-a muito bem, com gosto, e vontade. Deixei-o deitar-se no chão, por sacrilégio, já que dançar comigo naquele instante era algo cansativo de pé. Juntei uma rocha, de espessura larga que encontrei bem ao lado de onde ele havia parado para descansar. Catei-a do chão, levantei o braço e abaixei-o brutalmente seis vezes seguidas. Após isso, olhando para a face do meu par de dança daquela noite, eu senti um sentimento um pouco menos martirizante, mas corrosivo, que se eu não expulsasse como estava fazendo a alguns minutos, senti que eu iria morrer, então o fiz, coloquei meus dois dedos na volta do globo ocular e agarrei-o com a ajuda de outros 3 dedos e puxei, no olho esquerdo, eu pressionei com o polegar, empurrando-o até ouvir um repentino estalo, sei que minha mão começou a preencher-se de tinta vermelha que extraviava de suas veias. Foi um enorme deleite aquele momento, uma sensação quase inexplicável.
Olhando para o lado, eu olhei para meia face descansada dela, tão angelical, e novamente a sensação de ódio misturada com o amor que percorria em meu sistema límbico veio a tona, o amor ainda existente não me deixou prosseguir com minha façanha. (…)
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