Ruptura
9 Quando uma mão é estendida
Notas iniciais
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Quando Alexia acordou, foi como se nada tivesse acontecido. Ela ainda estava no chão do banheiro, mas tudo parecia normal, desde o barulho da máquina de lavar e do aspirador dentro do seu apartamento até o trânsito do lado de fora do prédio. Por um momento questionou sua própria sanidade, mas uma voz no fundo de sua mente avisava que era apenas uma ilusão.
Girou a maçaneta da porta do banheiro, percebendo que estava destrancado. Não hesitou em sair, primeiro procurando pela sua arma.
Senhorita, precisa de alguma coisa?
— Cala a boca! — gritou enquanto corria de uma lado para o outro, olhando por todo o lugar.
Parece que está procurando algo.
— Não quero saber de você, seu saco de merda! — Praguejou de novo quando seu pé esbarrou no aspirador, que limpava o chão sob as ordens da inteligência artificial. Irritada, chutou o objeto, virando-o de cabeça para baixo e o deixando impotente.
A senhorita está brava com alguma coisa? Deseja comprar nosso pacote de terapia em casa para resolver seus problemas de raiva? É baratinho.
— Quem aqui tem problemas de raiva? — Finalmente achou a sua arma, dentro de uma das gavetas da estante. Se levantou com ela em mãos. — E você ainda se atreve a me dizer que é barato, eu não acredito que gastei tanto para instalar uma porcaria na minha casa que me cobra mais ainda para ativar qualquer função. Quer saber o que acho, Nix? — Virou o rosto para o teto, sabendo que estava sendo escutada. — Nunca gostei de você, programa de merda.
Atirou no dispositivo, perto do sofá, que permitia Nix de comandar a casa. Imediatamente as luzes se apagaram, a máquina de lavar parou de funcionar e até o aspirador, que estava parado no chão como uma tartaruga virada, com as rodinhas girando para o nada, se desligou. Só podia ouvir o barulho da cidade lá embaixo e o vento que entrava pelas frestas da janela.
Sem esperar mais, Alexia correu até a porta, para sair o quanto antes, mas estava trancada.
— De novo?!
Você achou que ia ser tão fácil assim?
Alexia não diria em voz alta, no entanto já estava ficando com medo. Se perguntava em que tipo de situação sinistra havia se metido e agora não conseguia sair.
Atirou duas vezes na maçaneta da porta até ela abrir, então saiu correndo. Não arriscaria pegar o elevador e ser trancada de novo, então foi pelas escadas.
Por que está fugindo? Nem ao menos sabe o que vai acontecer.
— Eu sei que não é bom, não precisa me dizer — resmungou entre uma respirada e outra, se questionando por que havia parado de ir na academia e como uma policial poderia ficar tão sedentária.
Senhorita, volte para sua casa.
Talvez fosse impressão de Alexia, que mal conseguia raciocinar direito naquelas escadarias infinitas, mas pareceu que a voz da inteligência artificial havia engrossado e ficado mais próxima de si.
Parou de repente, quase caindo, quando uma sombra surgiu na sua frente. Piscou os olhos repetidas vezes, pensando que estava vendo coisas, mas a sombra cresceu cada vez mais, quase adquirindo uma forma sólida.
Eu disse que seria melhor se a senhorita voltasse para casa.
— Isso é a Nix? — murmurou chocada. — Mas em que tipo de merda eu gastei tanto dinheiro?
Vamos, senhorita, volte e eu lhe prepararei um chá para se acalmar.
— Eu odeio chá, sua coisa dos infernos! — Atirou na sombra, porém a bala apenas atravessou o corpo inconsistente e sumiu, como se nem tivesse feito cócegas. Murmurou todos os xingamentos que conhecia, sabendo que aquele era o sinal de que estava ferrada.
O coração martelava nos próprios ouvidos enquanto encarava o monstro que crescia mais e mais. Nunca havia visto algo assim antes e nem ao menos tinha tempo de se questionar como aquilo havia surgido.
Fechou os olhos quando a sombra se aproximou, tentando alcançar seu corpo. Naquele momento, se arrependeu de ter desejado tanto uma vida com mais emoção, pela primeira vez quis ter ouvido sua mãe e ficado na venda de cosméticos como ela havia feito.
Esperou e esperou pela morte súbita, mas não sentiu nada.
“Será que até morrer é sem graça assim?”, pensou franzindo a testa.
Abriu os olhos quando percebeu que algo estava errado, o que estava na sua frente não era um monstro estranho feito de sombras, e sim uma mulher vestindo roupas brancas e, na mão, segurando uma espada maior que o seu braço. Ela parecia furiosa.
Mas não era a sua chegada repentina, a espada ameaçadora ou a forma como ela espantou a sombra psicopata que surpreendeu mais Alexia, e sim a sua aparência.
— Você é… — apontou para ela e em seguida para si mesma várias vezes — …a minha cara! O quê!
— Deixe as perguntas para depois, precisamos ir — ela respondeu, ignorando as exclamações da outra. Alexia estava chocada em como até a voz era igual. Uma cópia perfeita, exceto pelo jeito que a outra se portava e falava, que se mostrava diferente do seu.
— Ir para onde? — perguntou no meio das várias questões que surgiam na sua cabeça.
— Para longe. — A garota olhava ao redor, verificando se não tinha mais perigo por perto. — Para bem longe.
— Muito longe?
A garota idêntica a si, que ainda não sabia o nome, se virou para Alexia e a encarou.
— Escute, eu ainda não sei como controlar isso, então eu não sei onde vamos parar, por isso é melhor ficar preparada para qualquer tipo de incidente. — Alexia continuava sem entender nada, mas arregalou os olhos quando ouviu sobre a parte dos incidentes, sentindo que aquilo poderia ser pior do que imaginava.
— Como…?
— Eu escutei o seu chamado. — Segurou a mão de Alexia. — Eu escutei e por isso vim te salvar. Precisamos ir embora desse universo, ele está prestes a entrar em colapso e se você ficar irá morrer.
“Então você era a pessoa do sonho”, pensou, porém havia outra questão que chamou mais sua atenção.
— Ir embora do universo? Você tá falando sério?
— Sim, temos que ir agora. — Ela parecia cada vez mais nervosa, olhando ao redor inquieta, como se sentisse algo ruim se aproximando.
— Espera! — disse Alexia. — Eu preciso ver alguém antes. Acho que essa pessoa pode me dar respostas.
A garota a olhou apreensiva.
— É importante mesmo?
— Muito. — Alexia a encarou firme, até ela assentir e as duas correrem pelas escadas até a portaria do prédio.
Alexia permaneceu um pouco atrás, dizendo à outra, que decidiu tomar a frente, a direção certa. Na verdade, até preferia assim, não admitiria isso, mas Alexia estava sim com medo.
— O que era aquela coisa que você matou? — perguntou, apenas para tentar distrair um pouco a mente.
— Uma bruxa, e eu não matei ela, apenas a afastei temporariamente. — Alexia murmurou um “ah” em resposta, pensando que aquilo não era a frase tranquilizadora que esperava ouvir. — Aliás, meu nome é Harian. — A garota sorriu pela primeira vez, mesmo que naquele momento estivesse sendo ameaçada de morte.
— Legal, sou Alexia.
Na rua as pessoas olhavam com confusão para as duas garotas que passavam correndo de forma desesperada. Harian não se importou, estava concentrada no caminho que estava ficando cada vez mais infestado de sombras, as quais ela dissipava com destreza usando de sua espada e agilidade.
— As pessoas não estão vendo essas coisas? — Alexia gritou para ela.
— Eu não sei o que está acontecendo, provavelmente não — respondeu.
Em alguns momentos, Alexia achou que seriam engolidas pelas sombras, que se acumulavam e se aproximavam ainda mais, em outros, ela sentia como se o chão estivesse sumindo sob seus pés. Os prédios, a rua, as pessoas e até mesmo o ar ao seu redor, tudo parecia instável. Teve um pressentimento ruim.
— É ali! — Alexia apontou para a delegacia, aliviada por terem chegado inteiras.
— Fale logo com quem quer que seja, não temos muito tempo — alertou Harian.
O primeiro pensamento de Alexia quando entrou na delegacia foi o estranhamento. Cruzando os corredores e passando pelas salas, não encontrou ninguém lá dentro, por isso foi tão fácil entrar na sala de interrogatório onde havia uma figura solitária algemada, sentada na cadeira e esperando pacientemente por algo.
— Você! — exclamou Alexia, entrando afobada. — Preciso falar com você.
Harian entrou logo atrás, com os olhos atentos na porta, mas no instante em que ouviu a voz da terceira pessoa ela se virou bruscamente naquela direção.
— Vocês não deveriam estar aqui.
Aquele rosto estava diferente, até a voz parecia mais rouca, como se tivesse envelhecido mal, mas Harian tinha certeza de que era muito familiar.
— Eu sei, não temos tempo. — Alexia se sentou com pressa na cadeira que sobrava, de frente para o homem. — Você disse que o fim estava próximo, então quer dizer que você sabe de alguma coisa. Eu preciso que me diga o que vai acontecer.
Como se apenas não prestasse atenção no que a garota dizia, ele virou o rosto para Harian, que permanecia em choque, tentando raciocinar como aquilo era possível. Ele deu um mínimo sorriso a ela, que soava mais sombrio do que amigável.
— Eu sabia que te veria de novo, apenas não sabia quando — ele disse.
— Você… Eu te vi há pouco tempo… Como…? — Harian tinha certeza, quando estava cruzando os corredores da base atrás de alguém, foi com aquele homem que ela esbarrou. Mas agora o olhar no rosto dele era o de alguém que havia envelhecido pelo menos dez anos, o que não condizia com os poucos minutos que se passaram desde que se viram.
— Vocês se conhecem? — perguntou Alexia, passando o olhar entre um e outro.
— Ele trabalha para mim — murmurou Harian.
— Trabalhava — ele corrigiu. — Já faz muito tempo, mas graças a você eu vim parar aqui nesse limbo.
— Eu?
— Eu deveria ter percebido antes que era uma pessoa muito ambiciosa, quem sabe assim teria evitado esse desastre. — Ele se levantou, caminhando na direção de Harian, que apertou a espada com mais força. — Por sua culpa, está tudo um caos.
— Acredite, eu também estou com problemas — disse Harian, uma das mãos levantadas para manter a distância entre ela e o homem. — Eu não sei como isso foi acontecer, mas eu vou achar um jeito de consertar.
Alexia estava intrigada com a conversa, no entanto sentia que não tinham muito tempo, então decidiu apressá-los.
— Nós precisamos ir logo, se você sabe de alguma coisa, fale logo.
O homem se virou, sentando-se novamente na cadeira, e começou a falar:
— O acidente que ocorreu criou passagens entre diferentes universos e as bruxas estão usando essas passagens livremente, se infiltrando em cada mundo e os consumindo. — Ele olhou para Harian novamente. — Você e eu também usamos uma dessas passagens.
— Como você veio parar aqui? — perguntou Harian.
— Um buraco se abriu e eu caí nele, fiquei vagando por muito tempo até achar esse lugar e desde então estou preso aqui.
— Vagou…? — Harian pensava em como aquilo era diferente de como ela apenas pulou de um universo para outro em poucos segundos, apenas focando seus pensamentos no que queria.
— Passei esse tempo pesquisando sobre o que houve, presumi que chegaria a hora do colapso, quando as bruxas finalmente destruíssem tudo e sugassem toda a energia dos universos até deixarem de existir. — Ele levantou o olhar para o relógio na parede. — Provavelmente já começou, as pessoas já devem estar desaparecendo, vocês deveriam se apressar.
— Espere, espere! — gritou Alexia. — Só mais uma pergunta, se você sabe tanto então pode saber o porquê… Por que… — Apontou para ela mesma e para Harian. — Por que nós duas somos…?
— A mesma pessoa? — Recebeu uma confirmação de cabeça. — Os universos não são tão diferentes entre si, vocês podem facilmente encontrar versões de vocês mesmas que tiveram uma vida diferente, em um mundo diferente.
— Então nós somos… — Alexia não teve chance de completar a frase quando a luz piscou várias vezes e um chiado alto se aproximou.
— Precisamos ir! AGORA! — Harian a puxou pelo braço, olhando ao redor preocupada. — Você não vem? — perguntou ao homem, que apenas negou com a cabeça e disse:
— Isso já não é mais problema meu, vou apenas esperar de bom grado a escuridão me levar. Quem sabe o que vai acontecer depois?
Nenhuma das duas teve tempo para sequer entender o que aquilo queria dizer, correram com urgência para fora da delegacia, o chão tremendo sob seus pés. As ruas estavam vazias, o que significava que realmente a hora do colapso estava chegando. Alexia observou espantada os prédios sumindo e voltando, como se fossem um holograma que estava desaparecendo.
Harian apertou ainda mais forte a mão dela, se concentrando no pensamento de que precisavam sair dali. Seu corpo ficou mais leve, como se estivesse flutuando no ar, ao mesmo tempo em que sentiu o ar ficar pesado. Em um único movimento pulou, arrastando Alexia consigo, e, então, mergulhou.
Em um dado momento suas mãos se soltaram. Alexia sentiu o ar faltar nos pulmões e a água entrar, como se estivesse se afogando. Tentou mover seus braços e pernas para sair dali, porém apenas afundava cada vez mais.
Quando abriu os olhos não enxergou nada em meio ao breu, exceto por um ponto de luz que ficava maior. Forçou a vista para ver melhor do que se tratava.
Mal teve tempo para raciocinar quando uma boca cheia de dentes afiados se aproximou, o desespero assumiu o controle do seu corpo e se debateu com mais agitação para fugir. Estava prestes a aceitar que aquele era o seu fim quando sentiu alguém a puxar para cima.
Finalmente conseguiu respirar com alívio, cuspiu água, se apoiando no chão. A visão ainda estava turva e a mente confusa, por isso precisou de tempo para recobrar a consciência e olhar melhor ao redor.
Harian estava sentada na sua frente, tão molhada e ofegante quanto ela. O ambiente ao redor era estranho, parecia uma floresta, mas ao contrário das árvores verdes que Alexia era acostumada a ver, aquela era coberta de folhas puramente vermelhas.
— Me desculpe por ter demorado para te puxar — disse Harian se levantando. — Acabei te perdendo, sinto muito.
Alexia ainda estava em choque.
— O que houve?
— Eu não calculei direito para onde íamos. — Harian passou a mão no pescoço, parecendo desconcertada. — Eu apenas pensei que precisávamos ir embora o mais rápido possível, só esqueci de especificar para onde.
Alexia sentiu a cabeça doer. No fundo, desejava que fosse apenas um sonho muito doido e que acordaria com o despertador tocando. Estava novamente se arrependendo de ter desejado com tanta força mais emoção na sua vida.
— Isso quer dizer que você não controla… Como é mesmo, passagens? — Alexia se lembrou das palavras do homem que havia ficado no seu universo.
— Essa é a segunda vez que eu uso as passagens, então não reclama — diz Harian. — Quer dizer, é a terceira… — Parou para pensar. — Ah, não importa! Vamos, precisamos sair daqui.
— E vamos para onde? — Alexia ergueu o olhar para o céu azul celeste e sem nuvens. — Você vai tentar atravessar mais uma passagem?
Harian ficou receosa. Não tinha certeza se era uma boa ideia, afinal não sabia para onde levaria elas, talvez acabassem em um lugar pior. Mas, para ser sincera, não tinha nem mesmo um objetivo em mente.
— Não sei. — Sentou de novo no chão, ao lado de Alexia. — Não sei para onde deveríamos ir. Precisamos achar uma solução para o que está acontecendo, mas não faço ideia de por onde começar.
Alexia apoia o queixo na mão, pensando em algumas coisas.
— O que são as bruxas? — Capta a atenção de Harian. — Aquele homem falou sobre isso, mas eu não entendi.
— As bruxas são aqueles monstros de escuridão que você viu. Originalmente, elas nasceram no meu universo, são seres que se alimentam de sentimentos ruins, por isso incitam tristeza, morte e guerras. Mas por um descuido de um dos meus cientistas… — Balançou a cabeça. — Não, por meu descuido, ela foram soltas em outros universos.
Aquilo causou preocupação em Alexia, que mordeu o lábio inferior, pensativa.
— Se aquela sombra era Nix, então… Será que significa que já estavam lá há muito tempo? — Algumas coisas começavam a fazer sentido na sua cabeça.
— Quem é Nix? — perguntou Harian.
— Um programa de inteligência artificial, feito para facilitar a vida das pessoas — explicou, usando a resposta padrão. — Mas o programa e as sombras possuíam a mesma voz, o que quer dizer que na verdade eram as bruxas entre nós o tempo todo.
— Há quanto tempo esse programa existe? — Harian franziu a testa, começando a entender o raciocínio.
— Não sei, desde sempre, acho. — Alexia passou as mãos no rosto, estava cansada, parecia que tinha corrido uma maratona onde os obstáculos eram monstros, terremotos e lava. — Minha família e todas as pessoas que eu já conheci usam esse programa desde que nasceram. Ah, exceto minha vó, claro — lembrou. — Ela dizia que essa tecnologia só servia pra escravizar as pessoas e torná-las burras e preguiçosas. Por isso ninguém falava com ela.
— Sua vó não estava tão errada — disse Harian. — As bruxas devem ter encontrado nesse meio um jeito de manter os seres humanos sob seu comando e consumir o máximo de energia negativa deles.
Alexia parou para pensar melhor naquilo, parecendo perturbada.
— Então, isso significa que para as bruxas eu sou como uma vaca dando leite regularmente? — perguntou horrorizada.
Harian fez um estalo com a boca, se levantando do chão ao perceber que aquela era a deixa para irem embora.
— Não coloque as coisas desse jeito, é esquisito. Vamos achar uma saída.
Mal deram dois passos pela floresta vermelha quando ouviram um grito acompanhado de um latido.
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