Running Away
22 Capítulo 21 - Bad Dream
Notas iniciais
Feels like I'm falling
into the world
Into the world
I can't control it
I hear it calling
Down in my soul
Gripping my bones
It won't let go
Wake me up
Won't you wake me up?
I'm caught in a bad dream
Caught in a bad dream
Wake me up
I wanna feel the sun
I'm caught in a bad dream
Caught in a bad dream
Feels like I'm frozen
Nowhere to run
Nowhere to run, from here
These walls are closing
Closing me in
Wearing me thin, with fear
(Bad Dream — Ruelle)
Felicity Smoak
Havia algo de confortador naquela escuridão.
Talvez fosse a sensação de desligamento do resto do mundo, a ausência de sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Como se eu estivesse entorpecida e incapaz de sentir ou pensar em qualquer coisa. Minha mente estava nublada, cheia de pensamentos inconsistentes, eu sabia que havia algo para me preocupar, mas eu não me esforçava para saber o que era, por que no fundo eu não queria saber o que era. Imagens sem foco, como sombras indistintas dançavam no fundo das minhas pálpebras pesadas, me dando vislumbres, tentando me forçar a me lembrar dos últimos acontecimentos. Eu pensei ter ouvido alguém chamar meu nome ao longe num lamento triste que fez meu coração se quebrar em uma dor real dentro daquele limbo de insensibilidade, alguém que eu não queria deixar ir, mas eu tão pouco conseguia alcançá-lo.
Eu precisava acordar, eu precisava alcançá-lo. Dizer a ele que tudo ficaria bem, e que ele não precisava mais sofrer.
Tudo ficaria bem.
Eu iria abrir meus olhos e dizer isso a ele.
Mas porque eu sentia que era uma mentira? Que nada nunca mais ficaria bem?
Eu escutei sua voz novamente, chamando o meu nome. Só havia sua voz, tentando me deixar mais lúcida. A imagem dele continuava a ser apenas uma sombra disforme na minha mente cansada lembrando-me um pouco de um anjo com asas quebradas. Mas a voz dele era forte e determinada, me impulsionava para ele, me fazia querer estar com ele tão desesperadamente que eu sentia cada parte minha querer despertar apenas para que eu pudesse ver o rosto que acompanhava aquela voz cálida e ao mesmo tempo tão triste.
Eu queria tocá-lo e curar suas asas quebradas.
Eu estava quase, mas algo dentro de mim me fez retrair, a sensação ruim me dizendo que se eu abrisse meus olhos agora eu não iria gostar do que veria a minha frente. Não seria a voz que mesmo num lamento acalentava meu coração que eu escutaria. Não seria o anjo de asas quebradas, que era a lembrança ainda indistinta de que havia algo familiar, bom e caloroso estaria esperando por mim.
Seria algo ruim.
Tão ruim que todo o meu ser se viu encolhendo em medo com aquela mera possibilidade. A escuridão, o estupor eram amigas mais convidativa. A ideia de não acordar para enfrentar o que quer que existisse além da escuridão dos meus olhos fechados era tentadora, me dava uma falsa sensação de segurança.
Não abra seus olhos, Felicity. Minha consciência me avisava num apelo de medo e autopreservação, e eu me sentia agarrar ainda mais firme na escuridão, me negando a encarar o que quer que houvesse além dela. Mantenha os olhos fechados, proteja-se do que há de feio lá fora. Continuava naquele aviso temeroso. Fique segura.
Segura.
Eu não me sentia segura tendo apenas a mim, a escuridão e aquela semi-consciência. Eu me sentia segura quando havia braços fortes envolvendo o meu corpo por trás, quando eu me girava entre esses mesmos braços e apoiava minha cabeça sobre um peitoral rígido escutando as batidas fortes de um coração que eu já reconhecia e que batia em sintonia com o meu. Eu me sentia segura quando eu sentia uma barba por fazer roçando o meu pescoço numa carícia excitante, lábios deslizando pela pele nua causando-me arrepios gostosos. Uma respiração quente em meu ouvido quando aquela voz sussurrava algo tolo que me fazia querer rir, beijá-lo e socá-lo. Tudo ao mesmo tempo.
Eu me sentia segura com ele.
Apenas ele.
Oliver.
Apenas seu nome já confortou o meu coração, e então eu me lembrei dele com mais clareza. A visão de seus olhos azuis que eram doces e sensuais nos quais eu sempre me perdia, não importava se estávamos discutindo, nos amando ou se apenas estávamos juntos na cama conversando bobagens numa manhã despretensiosa. Eu sempre me sentia melhor ao encarar seus olhos, porque eles me lembravam de que eu havia encontrado algo raro e que pensei estar para sempre perdido para mim: amor. Eu me lembrei de como um simples sorriso dele acelerava meu coração, mesmo quando ele apenas erguia ligeiramente o canto dos lábios controlando um sorriso quando eu fazia algo que o divertia, mas ele queria se fazer de sério ou reprovador. Ou o jeito como a mão dele segurava a minha, entrelaçando todos os dedos como se jamais fosse soltá-la, amá-lo era verdadeiro, e a segurança que eu sentia quando estava com ele era real.
Não era a falsa segurança promovida pelo medo que me dizia para ficar na escuridão e me esconder ali, porque o que havia do outro lado era muito ruim. Mas bastava pensar em Oliver novamente, para me lembrar de que havia uma razão pela qual valeria a pena abrir meus olhos. Porque por mais que o que houvesse além da escuridão fosse me destruir e me fazer desejar correr o mais rápido possível, fugir de toda a dor, agora eu não iria mais simplesmente correr na direção oposta enquanto fugia de alguém. Eu iria correr para alguém e isso fazia toda a diferença.
Mesmo com isso em mente, acordar foi difícil.
Porque nesse ponto as lembranças do que havia acontecido já eram consistentes em minha mente. Eu me lembrava de como ele havia surgido atrás de mim, pressionado sua mão em minha boca me impedindo de gritar. A sensação de algo queimando em minhas narinas enquanto eu era tragada pela inconsciência.
E eu sabia que não haveria o corpo do Oliver para abraçar depois de um pesadelo, eu não encontraria olhos azuis doces e sensuais para me perder e esquecer das coisas ruins e me concentrar no que havia de bom na vida. Não teria suas mãos se entrelaçando nas minhas me impedindo de ir a qualquer lugar longe dele. Acordar, nesse momento, seria como encontrar um pequeno barco num mar agitado em meio à uma tempestade turbulenta, esperançoso, mas ainda desesperador e completamente angustiante, porque ainda que eu saísse das águas agitadas que tentavam me engolir e meus pulmões pudessem finalmente respirar, eu sabia que não haveria terra firme para me apoiar.
Eu ainda estaria no meio do mar turbulento.
As águas escuras dele ainda tentariam me puxar de volta e me afogar e não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser tentar ficar viva. Eu iria me segurar na ideia de que depois da tempestade sempre vinha a calmaria. Haveria um sol brilhando e refletindo sua luz em águas claras e pacíficas e eu poderia navegar de volta a um porto seguro.
Ao meu porto seguro.
Ao menos era nisso que eu me agarrava, era de onde eu tirava a minha força, naquele resquício de esperança de que eu ainda tinha Oliver. Procurando por mim, lutando por mim, do mesmo modo que eu ainda lutaria por ele, não importa o que me acontecesse.
Eu sempre lutaria por ele.
Por nós.
Uma vez e o confrontei, dizendo que ele não precisava lutar as minhas batalhas. E ele, com a maior simplicidade, disse que nós estávamos juntos agora, o que fazia das minhas batalhas, as batalhas dele.
Eu nunca tinha percebido, o quanto amar é capaz de mudar alguém. O quanto esse sentimento nos torna mais fortes e determinados, eu esperava que amar Oliver fosse o suficiente para me ajudar a passar por isso mais uma vez.
Eu fui deixando aquele estupor gradativamente, ainda me sentindo incerta sobre encarar o que me esperava, mas certa de uma única coisa: eu tinha algo pelo qual eu daria tudo para não perder. Eu amava Oliver, e Floyd poderia tentar me destruir de todas as maneiras que ele conhecia, ele poderia tentar quebrar novamente cada pedaço do meu coração do mesmo modo que ele havia feito há tempos atrás, mas meu coração era mais forte agora, e eu não estava mais sozinha. Eu não era uma garota frágil e assustada que se acovardaria num canto qualquer e me assustaria ao olhar naqueles olhos vazios cheio de promessas vis. Por eu já estive presa num lugar sombrio por um longo tempo, eu permiti que aquele medo me controlasse e tirasse tudo de mim. Mas eu descobri que havia luz em meio as trevas, havia amor além do ódio e sempre haveria cura apesar da dor.
E pode parecer clichê, mas era verdade que a dor nos tornava mais fortes. Ou pelo menos mais cientes das coisas boas que tínhamos e pelas quais sempre valia a pena sobreviver a qualquer dor.
Eu abri meus olhos de uma única vez, não protelei, não deixei que outros sentidos tentassem me dar uma prévia do que havia ao meu redor, ou fingi ainda estar na escuridão enquanto me preparava psicologicamente pelo que já sabia, estava me esperando. A luz amarelada no alto do teto machucou as minhas íris ao mesmo tempo em que me surpreendeu, quando se tratava dele eu estava mais habituada a porões com pouca ou nenhuma luz.
— Finalmente você acordou, querida. — Eu senti o medo que sempre me acompanhava quando eu escutava a voz dele, fria, quase inumana. Forcei-me a sentar-me ereta no sofá desgastado onde percebi que estava deitada, e lancei um olhar rápido e analítico pelo espaço, me situando enquanto tentava ignorar o asco que sua presença me causava. O lugar era amplo, bastou olhar para as paredes sem janelas e a escada estreita que levava à uma porta no alto para saber que eu estava em um porão. Havia móveis velhos amontoados em um canto e o sofá que eu estava mais ao meio, eu notava algumas coisas que não pertenciam ali, como uma corrente com algemas presas ao chão que eu sabia era algo guardado para mim.
Finalmente o encarei, sentado confortavelmente em uma poltrona ao canto, há poucos metros de mim. Ele tinha uma rosa vermelha nas mãos, a pousou delicadamente na mesinha ao lado da poltrona e se ergueu andando calmamente até mim. Ele ainda conservava o mesmo estilo distinto, terno escuro e feito sobre medida, ele parecia alguém normal e até mesmo respeitável, tornando quase impossível de ver o monstro escondido atrás daquela fachada. Meus olhos se fixaram sobre o tapa olho em seu olho esquerdo, eu não sabia que o tinha acertado tão forte quando o encontrei em Gotham, mas fiquei contente por tê-lo ferido de alguma forma e o tapa olho lhe conferia um ar mais assustador, ele não poderia simplesmente passar despercebido no meio da multidão.
— Gostou? — ele me deu um sorriso controlado, daqueles que escondiam seus verdadeiros pensamentos — Eu não esperava essa recepção calorosa de você em Gotham, foi uma surpresa. — ele tocou o tapa olho com o dedo indicador — Eu vou pensar num jeito de acertar isso com você depois. — a ameaça dele não era velada, na verdade ele parecia até mesmo excitado com a ideia de me punir.
— Ou talvez eu possa fazer o mesmo no outro olho. — cuspi deixando a raiva falar por mim. Vi um pequeno pulsar nervoso em seu olho bom, enquanto ele parecia se controlar para não me punir agora.
— E do novo lugar? Você gostou? Eu sei que você tem um apego a porões, pensei que pudesse gostar desse. Eu esqueci de dizer, adorei a nova cor do cabelo, loiro combina com seu tom de pele. — Ele se aproximou, senti aquele arrepio conhecido na espinha e desejei me encolher. Eu estava tentando me fazer de forte, eu poderia convencer a minha mente que eu encontraria um meio de sair daqui, ou que Oliver estaria procurando por mim. Mas meu corpo reagia por si próprio, ele via Floyd com seu olhar predador e se encolhia, quando ele se aproximava demais eu sentia a náusea tomar conta do meu estômago com a mera ideia dele me tocar. E ele sabia disso, ele sabia perfeitamente o que fazer para me desfazer. — E então minha querida, quer me dizer o quanto sentiu saudades minhas? — ele parou exatamente a minha frente e se abaixou deixando o rosto que por tanto tempo assombrou meus piores pesadelos, na linha dos meus olhos. Mas agora, vê-lo a minha frente, seu rosto a um palmo de distância do meu, sentir a respiração quente dele tão próxima, ver em seus olhos mortos, faziam meus pesadelos parecerem algo bobo, a realidade era sempre muito pior. — Oh, está emocionada com o nosso reencontro.
Seus dedos frios tocaram a pele onde as lágrimas desciam e ele sorriu ainda mais, achando erroneamente que eram lágrimas de medo ou pavor. Eu não tinha notado as lágrimas caindo, mas eu tinha certeza de que elas eram feitas do mais puro ódio.
— Você acha? — respondi jogando toda a minha repulsa naquela pergunta sarcástica.
— Oh, alguém está arisca. — ele estava achando divertido me ver revidar, seus dedos finalmente deixaram minha pele e eu pude voltar a respirar- Acha que é a melhor maneira de lidar comigo?
— Eu nunca vou entender como lidar com você.
— Mas é simples, basta ser uma boa menina e fazer tudo o que eu mandar. — sorriu, aquele maldito sorriso sádico que sempre me atormentou, que sempre me fez o que mais de ruim ele poderia fazer — Ou não, eu vou gostar dos dois jeitos.
Apertei as unhas dentro das mãos fechadas em punhos, eu precisava de foco, eu não podia deixar que o medo me vencesse. Mas como ser forte quando eu tinha a minha frente tudo o que me enfraquecia?
— Onde estou? Ainda estou em Starling? — Tentei extrair algo com que pudesse trabalhar.
— Se apegou a essa cidadezinha? As pessoas dela? — Ele se ergueu, e começou a andar de um lado para o outro sem parar de olhar para mim, havia um estranho brilho no olhar dele, algo como um aborrecimento, mas que queimava muito além disso me lembrava uma emoção parecida com ciúmes, embora houvesse muita mais raiva. — Você sabe que não deveria... Sabe que o quanto mais se permite ter, mais eu terei o que tirar de você. — Ele estava perdendo o controle, eu reconhecia isso, eu vi muitas de suas oscilações de humor para saber que não era uma boa ideia estar perto dele agora — Eu começaria destruindo algo simples, como aquilo que você chama emprego. Eu odeio aquele lugar, foi muito atrevimento seu passar todas as noites servindo mesas. Degradante. Eu provavelmente colocaria fogo em tudo. — ele disse, seus olhos enfurecidos fitando o meu, mas seu tom mascarava a raiva com uma normalidade de quem diz que vai colocar o lixo para fora.
Eu engoli em seco, apenas imaginando o bar que Helena tanto lutou para manter sendo consumido pelo fogo. Floyd sorriu, ele sempre sorria quando suas palavras pareciam causar-me alguma dor.
— E há o charmoso apartamento. — estremeci ao ouvi-lo falar, dessa vez Floyd parecia muito mais controlado, ele sentou-se na poltrona do outro lado e pegou a rosa vermelha que havia deixado ali. Ele brincava distraidamente com ela em seus dedos, eu deveria estar aliviada com a distância, mas eu estava vidrada demais em seu olhar, em suas palavras que eu sabia não eram apenas ameaças, eram planos. — Eu passei dias e mais dias te observando lá, vendo-a aos poucos se abrir e florescer como um botão de rosa na primavera. Eu vi coisas que preferia não ter visto. — eu sabia que ele falava de mim e Oliver, porque nesse momento ele apertou a rosa entre suas mãos, esmagando-a com força sem se importar com os espinhos que machucavam a palma da mão dele fazendo-a sangrar. E então ele soltou a rosa, que agora não era mais inteira. Suas pétalas caíram amassadas e sujas de sangue pelo chão. A mensagem era clara: eu era aquela rosa. E ele iria esmagar cada uma das coisas boas que eu construí e as que eu ainda planejava ter, ele iria destruir meu coração com suas próprias mãos, e no fim me desfazer completamente. — Mas pode-se dizer que você criou uma história naquele lugar. Talvez devêssemos voltar lá e criar novas... Eu e você. — movi meus olhos do chão para ele, para seus planos vis e não deixei que aquela imagem penetrasse em minha mente, Floyd tentava me desestabilizar e eu perderia muito mais rápido se eu deixasse que ele fizesse isso.
— Não me parece uma boa ideia, me dizer cada movimento seu. — com muito custo consegui falar — Talvez eu possa frustrar seus planos.
— Eu gosto de te dizer o que vou fazer, querida, porque eu adoro vê-la fingir que não está com medo. — ele riu e cruzou as pernas num movimento deliberado — Continuando então, eu passarei para as pessoas que você diz se importar. — estremeci — Selina foi apenas um aperitivo, eu pretendo seguir em frente em ordem crescente de importância... Aqueles que você chama de amigos, o que restou da sua família... Se bem que Gordon já deve estar com o pé na cova, mas a mamãe permanece em Las Vegas, certo? Mas talvez eu comece com aquele que você se atreveu a dar seu precioso coração...
— Floyd... — Os olhos dele me cortaram como navalha. Eu raramente dizia o nome dele, eu não gostava de dizer ou pensar, mas recentemente eu percebi que o medo do seu nome apenas aumentava o meu medo dele.
Floyd pegou essa mudança, mas não o seu real significado.
— Já pronta para barganhar, querida? — estreitou os olhos curiosos para mim observando cada reação minha as suas palavras — E eu nem precisei de muito, eu sequer falei o nome dele... Oliver. Está pensando nele, não é mesmo? Eu fui bem inteligente dessa vez, não fui? Tirá-la dele bem debaixo do nariz. — ele sorriu orgulhoso de si mesmo e meu coração se apertou ao pensar em Oliver, desolado, desesperado e se sentindo impotente — Como acha que seu policial está se sentido? Raivoso? Triste? Rodando a cidade com uma arma na mão e desejando me matar?
Sim, eu tinha certeza de que Oliver estaria muito puto.
Eu tinha certeza também que isso fazia parte de algum plano distorcido de Floyd, e se havia algo que eu queria mais do que a própria liberdade, era manter as mãos de Floyd bem longe de Oliver. Eu ainda me recordava daquele pesadelo na outra noite, da dor que foi pensar ainda que por alguns instantes que Floyd tinha o matado.
— Porque ainda faz isso? Eu estou aqui não estou? Parabéns você venceu. — ergui-me do sofá atraindo a atenção dele para mim — Pare de jogar e acabe logo com isso! Diga com todas as palavras o que você quer!
— Você está certa, querida. — Ele se ergueu vagarosamente e andou a passos ainda mais vagarosos até mim, parando a minha frente. Quando ele falou sua voz veio tediosa, enquanto ele arrastava as palavras de um jeito que me assustava, as mãos, se colocaram ao redor do meu rosto, sem tocá-lo. Ele apenas apreciava a ideia de prologar a aversão que eu sentia do seu toque. — Eu venci, eu sempre venço. Toda vez que você foge de mim, eu a deixo brincar um pouco com a falsa sensação de liberdade, eu a deixo pensar que há uma chance de uma vida sem mim e então eu arranco todas as suas tolas esperanças quando eu a encontro novamente. E então eu brinco mais com você. — ele explicou com um sorriso no canto dos lábios os dedos enrolando uma mecha do meu cabelo os levando até seu nariz onde ele inspirou profundamente. — Mas então eu percebi que ganhar não é onde eu me divirto mais. — Ele soltou meu cabelo de uma única vez, e ficou apenas me observando com um sorriso louco os lábios. Eu percebi tardiamente que eu não era apenas uma obsessão doentia para ele, era um jogo doentio, e para meu desespero não parecia ter um final. — Oh sim, eu me divirto vendo seu corpo tremer de medo quando eu me aproximo, eu me divirto com suas lágrimas, com a incerteza que permeia a sua mente ao se perguntar de que forma eu irei destruí-la dessa vez. Não me entenda mal, Felicity, é sempre divertido, mas eu estava começando a me entediar... Pelo menos até você adicionar uma nova peça no jogo.
— Que peça? — perguntei, embora no meu íntimo eu já soubesse a resposta.
— Precisa mesmo perguntar? — Ele devolveu, me lendo com perfeição — Oliver Queen. — Disse o nome com certa teatralidade, e eu tentei esconder a minha reação.
— Isso é entre nós dois, Floyd. — eu tentei, havia aquela urgência dentro de mim, um tipo diferente de medo sempre que eu imaginava o que Floyd poderia fazer a Oliver. Eu dei um passo até meu perseguidor. — Sempre foi entre nós dois, faça o seu pior comigo, quebre-me novamente, destrua meu coração. Me faça desejar estar morta, e acabe com isso.
Eu não percebi o quão desesperada eu estava até sentir minha garganta fechar quando eu disse as últimas palavras.
— Querida, isso está longe de acabar, e eu decido quando vai acabar. — ele começou num tom estranhamente condescendente — Por muito tempo tudo o que eu queria era o seu corpo, estar tão impregnado na sua mente que não haveria espaço para mais nada ou ninguém, eu queria esmagar seu coração, para que ele jamais voltasse a bater novamente. — ele nunca tinha falado tão abertamente sobre o que queria de mim — Não se preocupe, eu ainda quero que você seja completamente minha, eu ainda irei fazer tudo isso e muito mais a você. — prometeu ainda naquele tom suave embora suas palavras fossem sórdidas, não contive um gemido de dor quando a mão dele apertou brutalmente o meu braço, eu sentia a raiva, a frustração e o ódio que Floyd passava naquele toque. — Mas recentemente eu percebi que você não pode mais me conceder nada disso. Porque todas essas partes de você que eu passei tanto tempo desejando, perseguindo, querendo tê-las apenas para mim. Você as deu para o Queen... — ele cuspiu o nome de Oliver como se fosse algo sujo — Então enquanto ele existir você não tem nada a me oferecer. — ele me soltou jogando-me de volta para o sofá — É por isso que começaremos um novo jogo.
Respirações pesadas.
Meu medo, a raiva e determinação dele. Tudo isso era palpável.
— O que vai fazer? — minha voz trêmula cortou o silêncio.
— Vou perguntar ao seu namorado, até que ponto ele está disposto a ir para tentar salvar você.
— E...?
— E então, nós jogaremos. — Sorriu. Ele andava sorrindo muito, e eu me perguntava o que havia na mente dele que o fazia sorrir tanto. — Não se preocupe, depois que eu vencê-lo eu vou poder aproveitar o meu prêmio.
— Você não... — Ele ergueu um dedo, como se pedisse para que eu ficasse calada enquanto retirava um celular do bolso o levando ao ouvido. Eu me calei, mas apenas porque estava curiosa com o que ele iria fazer. O silêncio era tanto que eu conseguia escutar a ligação chamando, até que alguém atendeu. Eu não precisei identificar quem era do outro lado da linha, embora não fosse difícil para mim. Floyd fez questão de dizer o nome dele.
— Oliver Queen... É muito bom falar com você outra vez.
***
Oliver Queen
Respire.
Respire.
Que merda, Oliver! Felicity precisa de você, se lembre da porra de como é respirar! Eu reclamei comigo mesmo, forçando-me a inspirar uma porção grande de ar para os pulmões e descolar o meu corpo que estava junto a parede antes que eu começasse a fazer parte dela.
O hospital estava uma bagunça completa, policiais por toda a parte, eu não tinha certeza do que eles estavam fazendo passando de um lado para o outro catalogando evidências, fazendo perguntas idiotas e tirando fotos de tudo, isso era perda de tempo, eles deviam estar nas ruas, procurando por ela em cada canto da cidade. Eu odiava estar na posição de testemunha, não somente porque eu não tinha o mínimo de paciência para lidar com policiais, o que era irônico considerando que eu era um, mas principalmente porque a cada minuto que passávamos nessa investigação sem sentido, era um minuto a mais que Floyd tinha com Felicity.
Floyd a tinha pego bem debaixo do meu nariz, nós não tínhamos que nos perguntar como, e sim para onde ele a levou.
Mas não havia nada.
Ele simplesmente desapareceu com ela.
Eu deixei o hospital sem nem mesmo receber notícias de como Gordon estava. Não tive coragem de ficar e ver em seu rosto que eu havia falhado com o pedido mais importante que ele um dia me fizera. Eu deveria tê-la protegido melhor. Eu não deveria ter deixado o lado dela nem mesmo por um segundo, se eu tivesse feito isso ela ainda estaria ao meu lado, segura.
Eu estava na delegacia agora, eu nem me lembrava de como havia chegado aqui, minha mente havia entrado num estado de estupor como se ainda não conseguisse acreditar que isso realmente havia acontecido. Havia alguns momentos em que eu me questionava se não estava preso em algum tipo de pesadelo vívido, como os que Felicity costumava ter, e apenas esperava que pudesse acordar. Mas tudo era real demais para ser fruto da minha imaginação.
A dor era real demais.
E a única forma de pará-la era encontrando Felicity. Mas como? Como encontrá-la quando eu não fazia ideia de para onde ele poderia tê-la levado?
Eu forçava minha mente, mas nenhuma ideia vinha. Eu sabia que a polícia estava tentando rastrear o gps do celular dela, mas o aparelho estava desligado então isso não nos levava a lugar algum, checaram as fitas de segurança do hospital, mas também não havia nada ali.
Estávamos no escuro.
Eu estava frustrado, com minha incapacidade de encontrar uma solução, com a incapacidade dos outros de fazer alguma coisa, qualquer coisa. Eu escutava as vozes agitadas, todo mundo falava ao mesmo tempo, capitão Lance gritava seus comandos e vez ou outra alguém se aproximava, me dava tapinhas nas costas e dizia que tudo ficaria bem.
Eles não podiam me prometer isso.
Eu precisava encontrar um modo de fazer tudo ficar bem. Eu não podia mais ficar aqui. Não podia simplesmente ficar parado e apenas esperar por uma pista a ser seguida, enquanto sabe-se lá o que Floyd fazia com Felicity. Eu peguei minha jaqueta que estava jogada sobre o encosto da cadeira, retirei a arma reserva que guardava dentro da gaveta e verifiquei se estava carregada.
Peguei também as chaves de uma moto.
Eu não sabia exatamente o que ia fazer, eu apenas precisava fazer algo, porque sentar e esperar enquanto Felicity sofria não era algo que combinava comigo.
— Oliver? — Senti as mãos de Sara em meu antebraço, me parando antes que eu pudesse dar meia volta e sair — Onde está indo? — Perguntou, investigando o meu rosto a procura de uma resposta e parecendo não gostar do que via ali.
— Eu não sei, Sara. — puxei meu braço da mão dela, eu sabia que estava muito perto de perder o controle. Minha voz já estava vários oitavos mais alta, e eu sentia meu corpo todo vibrar, um misto de raiva, medo e adrenalina acumulada implorando para que eu agisse — Vou rodar cada canto dessa maldita cidade, vou atrás de alguma pista, ou apenas atrás desse filho da puta até descontar toda essa merda que eu estou sentindo nele, até fazê-lo pagar por cada momento de dor que ele causou à Felicity. — eu fechei meus olhos por um instante, aquele pensamento de que ela estivesse machucada, de que ele a estava machucando e que eu estava aqui, impotente sem poder fazer nada para deter, isso fazia meu coração doer — Eu apenas... — minha voz falhou com a intensidade dor — ...Eu apenas não posso ficar parado esperando as respostas caírem do céu, sem fazer nada para encontrá-la, para trazê-la de volta para mim, eu preciso segurá-la em meus braços e nunca mais soltá-la. — a lembrança de como era abraçá-la, do que simplesmente ter seu corpo pequeno aninhado junto ao meu me fazia sentir completo e de como aquilo era certo e bom, me deixou ainda mais desesperado, eu não poderia perdê-la. Nós não poderíamos nos perder assim. — Eu falhei uma vez com ela, Sara, e eu preciso corrigir isso antes que seja tarde demais.
— Oliver... — eu conhecia bem o tom condescendente de Sara, eu costumava usar esse mesmo tom com ela quando ela saía da linha — Você não pode realmente acreditar que isso é sua culpa. — não respondi, mas minha reação deve ter me entregado, eu posso não tê-la oferecido diretamente para Floyd, mas eu deveria ter feito mais para mantê-la segura — Não é sua culpa! Você fez o melhor para protegê-la e mais do que isso, você deu à Felicity o seu amor, você mostrou que há coisas boas nesse mundo. Seu amor a fez mais forte. — Sara tentou me convencer, eu apenas abaixei a minha cabeça encarando os meus pés, eu queria tanto que Sara estivesse certa, eu queria que meu amor fosse o suficiente para mantê-la inteira até que eu pudesse tê-la em meus braços novamente. — Nós vamos conseguir algo, só precisamos de um pouco mais de tempo. Talvez nós...
Mais tempo.
Talvez.
Ergui meus olhos a fitando. Sara não compreendia que esse era o problema? Eu não poderia dar mais tempo ao Floyd, porque mais tempo dele com ela eram mais coisas ruins que ele poderia fazer a ela. Eu tão pouco gostava da ideia de um talvez. Talvez eu salvasse, talvez eu chegasse a tempo, talvez tudo ficasse bem.
Ou talvez eu tivesse perdido Felicity para sempre.
Um talvez não servia para mim, ele apenas fodia ainda mais com a minha mente.
— Eu preciso mais do que a porra de um talvez! — gritei batendo o punho na mesa, meu ato chamando a atenção de todos a nossa volta, olhos vieram em nossa direção, alguns preocupados, mas a grande maioria era apenas curiosa. Novamente meu corpo tremia, novamente aquela necessidade de fazer algo me impulsionava a sair desse lugar e ir em busca dela. — Ela é o que tenho de mais importante nesse mundo, Sara! Eu preciso dela em meus braços, eu preciso sentir o coração dela batendo, sua respiração fresca contra a minha pele, eu preciso olhar nos olhos dela e ter certeza de que ele não a quebrou mais uma vez, e que se ele tiver feito qualquer coisa, eu ainda sou capaz de ajudá-la a se reerguer. — expliquei aos berros — Eu não posso perdê-la, Sara. Ela é importante demais. Você entende? Você entende a merda que eu estou passado só de pensar nisso?
O olhar de Sara foi de pena para preocupação. Puta merda, eu estava perdendo todo o maldito controle, não iria demorar e minha melhor amiga iria sugerir que eu fosse internado na ala psiquiátrica de um hospital.
— Eu sei que é difícil... — Não há nada pior do que condescendência nessas horas. Sim, eu estava surtando e eu odiava que me tratassem como um pobre coitado, que me lançassem palavras vazias de consolo. Porque a verdade é que nenhum deles poderia me oferecer o alento que meu coração precisava agora.
Felicity.
Era ela, apenas ela o que eu precisava para acalmar o furacão de sentimentos desconexos que gritavam dentro de mim.
— Não, você não faz ideia do quanto é difícil. — eu dei um riso amargo — Porque você nunca amou alguém da forma que eu a amo, porque você sabe que tem medo de amar. — joguei sujo, a afastando — Como foi que você me disse aquela vez? Que prefere sabotar seus relacionamentos assim você não sairá machucada deles? Inteligente. Porque eu devo dizer, amar pode te machucar tão duramente que faz você se perguntar o porquê entrou nisso por vontade própria! Mas uma vez que entrou, não há outra saída, não há a merda de um talvez... Você tem que fazer algo, você tem que lutar porque se você a perder, se eu a perder, eu vou perder a mim mesmo.
— Oliver... — Sara tentou me segurar novamente, mas me desvencilhei, eu não iria perder mais tempo com conversinhas com ela.
— Deixe-o ir, Sara. — escutei a voz séria e pisquei, só então percebendo que Diggle estava ali, de braços cruzados e olhar fixo em mim — Ele precisa de um pouco de ar fresco. Talvez isso o ajude a pensar em algo que ainda não pensamos. — passei por Dig, sentindo sua mão firme em meu ombro — Avise-nos de qualquer coisa, Oliver, nós também nos preocupamos com ela e queremos ajudar. Você não está sozinho.
Assenti mecanicamente com a cabeça.
Eu deixei a delegacia e peguei uma das motos. Pilotei pela cidade, o vento frio da noite deixando meus sentidos mais alertas, mas isso não ajudava uma vez que eu não sabia aonde ir ou o que fazer. Eu estava determinado a encontrá-la e era duro admitir que eu não tinha a menor pista de por onde começar e que até então eu só tinha desperdiçado não apenas o meu tempo, mas o de Felicity também. Parte de mim queria apenas sentar numa calçada qualquer e chorar como um menino perdido que finalmente encontrou seu lugar no mundo, mas teve isso arrancado de sua vida.
Eu parei numa esquina qualquer assim que percebi que meu celular tocava. Eu estava ansioso, talvez fossem notícias de Felicity, uma pista qualquer, eu estava pronto para me agarra a qualquer coisa. Me permiti um minuto para encher meu coração de esperanças, um minuto para acreditar que tudo daria certo no final. Retirei o celular do bolso e encarei o visor não reconhecendo o número.
— Alô?
— Oliver Queen — eu entrei em estado de choque ao reconhecer aquela voz, e toda a maldita esperança que me atrevi a sentir e que aqueceu meu coração se transformou em um temor frio que agora se agitava por cada célula do meu corpo. — É muito bom falar com você outra vez.
— Onde ela está, Floyd? — o descontrole tomou conta de mim, era difícil segurar o celular por que minha mão tremia. — Me diz agora, para que porra de lugar você a levou!
— Ela está aqui comigo, é claro.— respondeu num tom lento e provocador, e eu tive que respirar fundo tentando me controlar, mas era de Felicity que falávamos, ele estava com ela e não havia uma fodida maneira de eu conseguir controlar a fúria dentro de mim quando eu pensava nisso.
— Se você tocar em um fio de cabelo dela, eu juro por Deus que eu irei...
- Me fazer pagar? Me matar com suas próprias mãos e me jogar no inferno que é o lugar onde eu mereço estar? — ele completou enquanto ria debochado, fazendo meu sangue correr ainda mais rápido em minhas veias. Aquilo era um maldito pesadelo do qual eu não conseguia acordar. — Você sequer consegue me achar, Oliver, como poderia me matar? Aliás, não acho que é você quem está em condições de fazer ameaças, aqui. — eu fiquei calado ao escutar a afirmação nada sutil, e me irritei principalmente porque ele estava certo.— Quer ouvir a voz dela? - ofereceu e meu coração simplesmente acelerou dentro do peito em resposta. O que eu não faria para apenas ouvir a voz dela mais uma vez. — Se jogar direitinho eu talvez deixe que você até mesmo a veja. O que me diz, pronto para jogar?
— Jogar? — perguntei sem compreender o que ele dizia.
— Sim. — afirmou a voz parecendo animada — Um pequeno jogo, eu e você. Imagino que já saiba qual será o prêmio.
Felicity.
Eu não conseguia acompanhar Floyd, não entendia o que havia na mente distorcida dele ou o que ele queria com esse maldito jogo, até pouco tempo tudo o que eu sabia dele era que ele era um professor obcecado por sua melhor aluna, disposto a tudo para tê-la. Mas eu não me importava mais, talvez em outra época, se este fosse um caso normal da polícia eu lidaria com isso de uma forma inteligente, seguindo o protocolo e tentando entendê-lo, antecipar seus movimentos, ou qual era o verdadeiro objetivo dele. Mas isso era antes, porque agora ele era apenas um filho da puta qualquer, que tinha a mulher que eu amava em suas mãos, e ele iria machucá-la. Não havia uma forma inteligente de lidar com isso.
Eu faria tudo, qualquer coisa por Felicity e eu não mediria as consequências.
— Vamos jogar ou não?— Floyd perguntou diretamente parecendo até mesmo impaciente, eu sabia que havia algo mais na ansiedade dele, sem dúvida havia algo mais por trás do tal jogo no qual ele apostara Felicity como prêmio, mas eu simplesmente não conseguia pensar em nada que não fosse Felicity.
— Eu quero falar com Felicity, primeiro. — fraquejei, eu precisava daquilo. Eu sabia que ouvi-la quando eu não estava perto dela e sabendo que ele a tinha, causaria uma dor ainda maior, mas eu não me importava com o quanto doesse, se o preço para ouvir a voz doce dela mais uma vez fosse a dor, eu pagaria sem pensar duas vezes.
Floyd gargalhou do outro lado, parecendo achar graça do meu pedido. A linha ficou muda por um tempo longo demais, e eu quase pensei que ele havia se negado a isso. Mas no fim, eu acho que ele apenas gostava de criar um drama maior.
— Oliver... - Eu fechei meus olhos por um instante apenas assimilando o quão bom era ouvir Felicity novamente, mas o sentimento bom durou apenas alguns segundos porque ouvir a voz dela quebrou algo dentro de mim e eu percebi que estava me mantendo bem, lúcido e até mesmo controlado até esse momento. Ouvi-la foi meu ponto de ruptura, todas as emoções me alcançaram de uma única vez e eu apenas desabei enquanto buscava apoio em uma parede.
Eu podia ouvi-la, mas eu não podia tê-la para mim.
Isso poderia ser pior?
— Amor, é tão bom ouvir sua voz de novo... — senti uma lágrima quente e grossa escorrer por meu rosto enquanto eu me esforçava para controlar a emoção que tinha sido escutá-la dizer meu nome outra vez — Você está... — minha voz agarrou, embargada demais com as outras lágrimas que eu me esforçava para segurar — Ele te tocou? Te feriu de alguma forma? Está machucada? — as perguntas cortaram minha garganta como navalha, se a resposta fosse sim para qualquer uma delas, eu não sei o que seria de mim, mas eu iria até o inferno caçar o filho da puta que era Floyd e não ficaria contente até vê-lo morto e enterrado embaixo de sete palmos de terra.
— Eu estou bem. — ela estava mentindo, eu sentia isso na voz dela e isso quase me matou, porque ela provavelmente estava revivendo o seu pior pesadelo e ainda assim estava mais preocupada comigo. — Por favor, Oliver, me diga que não vai entrar no jogo dele, não vai deixar que ele te manipule. Se você me ama, prometa-me que não vai fazer isso. — eu apertei o celular mais forte em minhas mãos, eu não poderia fazer essa promessa. Como ela podia me pedir para ignorar a única chance que eu tinha de salvá-la?
— Eu faço o que você quiser, qualquer coisa para fazê-la feliz, amor. — eu falei com doçura na voz e escutei um suspiro aliviado do outro lado — Exceto isso, eu sinto muito, amor.
— Não faça isso, Oliver... — eu senti o choro contido na voz dela ao dizer o meu nome.
— Amor, me desculpe, mas eu não posso! — Deus! Será que ela não via a impossibilidade daquele pedido? Eu não podia deixá-la nem mais um segundo na mão daquele monstro. Se ele pedisse para arrancar meu coração e entregar numa bandeja de prata apenas para salvá-la eu faria sem pensar duas vezes.
— O tempo acabou. — Floyd voltou a falar — Pronto para começarmos a jogar, Queen? Eu prometo a você que será divertido. — ele riu, sua risada tinha algo de amedrontador. — Para mim, pelo menos.
Levei uma das mãos em meus cabelos os puxando entre os dedos, eu queria conseguir pensar em algo rápido, um modo de pegá-lo dentro do próprio jogo dele sem arriscar Felicity. Mas quando um sádico mantém sua mulher refém, e todas as emoções estão brigando dentro de você, é difícil ser racional e usar a cabeça ao invés do coração.
Então resolvi apenas jogar conforme o jogo dele, na esperança de que isso de alguma forma me levaria até Felicity.
— O que você quer que eu faça?
***
Parei a moto em frente ao meu prédio, a rua estava escura e num silêncio sepulcral. Talvez fosse para combinar com o meu humor ou apenas porque já fosse madrugada e não havia uma alma viva na rua aquela hora. Subi ao meu apartamento sentindo o peso daquele dia cair sobre meus ombros, girei a chave e empurrei a porta, sem muita vontade. Eu não queria entrar ali, eu não queria ir ao meu apartamento e encontrar o lugar cheio de lembranças minhas e de Felicity. Desde o instante em que ela entrou na minha vida, ela transformou cada pequeno pedaço dela, ela enchera minha vida com seu amor e agora que ela se fora levando todas as coisas boas consigo e tudo parecia sem vazio de vida e de cor.
Mas eu precisava fazê-lo.
Bati a porta atrás de mim num estrondo.
— Oliver Queen. — Eu escutei a voz arrastada antes mesmo de acender a luz e poder associá-la a um rosto. Não que fizesse diferença, mesmo só tendo o visto uma única vez, eu já tinha aquele rosto com um tapa olho gravado na minha memória. Era esse rosto que recebia todo o meu ódio, o responsável por toda a maldita dor — minha e dela — era esse rosto que eu queria socar até que a minha raiva passasse ou até que o dono desse maldito rosto estivesse destruído e incapacitado de fazer mal a alguém.
Acendi a luz, Floyd estava sentado confortavelmente em uma das poltronas da sala. Com suas pernas cruzadas e um sorriso cínico do qual eu desejava arrancar todos os dentes, ele parecia exalar uma confiança, uma certeza de que era inatingível e isso trazia o inferno para fora de mim. Ele se ergueu, alisou a gravata de um jeito formal e ficou de pé em frente a mim.
— Bom encontrá-lo novamente, Oliver. — seu sorriso se tornou ainda maior e ele esticou a mão para mim, seu cumprimento nada mais era do que uma demonstração de superioridade. Eu lia a verdade nas entrelinhas, ele apenas queria se gabar, mostrar que me tinha em suas malditas mãos. Ele estava na minha casa, e tinha a minha garota presa em algum lugar e agora estava esfregando isso na minha cara.
Eu não pensei, eu acho que nem era capaz de pensar naquele momento apenas deixei que a raiva cega que eu sentia tomasse conta de mim naquele momento. Meu punho cerrado acertou seu rosto de uma única vez e com tanta força que seu corpo foi jogado ao chão. Eu nunca estive tão furioso em minha vida, eu nunca tive alguém que tirasse nada tão importante quanto Felicity de mim antes, e o sentimento de perda era em tantos níveis devastador. Eu precisava me vingar, eu precisava destruir aquele que ameaçava destruir tudo o que eu mais amava. Fui em sua direção a passos largos, o agarrando pelo colarinho com uma das mãos e o erguendo, jogando o seu corpo contra a parede com força enquanto me preparava para socá-lo mais uma e outra vez, de certa forma satisfeito por sentir um pouco mais daquela raiva sair. Eu era mais forte do que ele, eu poderia acabar com isso fácil.
— Tem certeza que quer continuar? Jogar o nosso pequeno acordo para o lixo? — ele falou entre os dentes sujos de sangue.
— Nesse momento, eu só quero acabar com você! — Cuspi, pronto para fazê-lo calar a boca com um novo soco.
— Me pergunto o que será de Felicity uma vez que você acabar comigo. — Bastou ele dizer o nome dela para eu abaixar o braço, para sentir aquele sentimento frio de impotência dentro de mim mais uma vez. — Quanto tempo ela sobreviverá, trancada e sozinha, sem comida ou bebida? — eu me afastei dele quando a sensatez se apoderou de mim. Contrariando tudo dentro de mim eu não poderia fazer nada à Floyd, não enquanto ele a tivesse em seu poder — Muito melhor agora. — Ele falou debochado, retirando do bolso um lenço e limpado a boca de onde o sangue escorria. Ao menos eu tinha acertado um belo soco, mas nem assim Floyd perdera a compostura. — Eu me surpreendi com o fato dela ter escolhido um tipo como você. Claramente não poderia ter sido uma escolha menos sensata. Eu deduzo que foi pelo sexo então. — pisquei com a mudança abruta de assunto — Diga-me Oliver, ela fode bem? Eu nunca fui tão longe, mas recentemente eu tenho pensado...
— Encoste um dedo nela e juro que vou matá-lo. — Eu gritei, perdendo novamente o pouco do controle que havia recuperado.
— Não vai. — deu de ombros sem se afetar com meu surto, na verdade ele parecia divertido com ele. Floyd sentou-se calmamente na poltrona e olhou para mim — Eu a tenho, escondida em algum lugar que você não faz ideia de onde seja. Você não irá me matar ou me prender sem saber onde ela está, e sem a ter em segurança. — pontuou, ele estava correto — É engraçado, o quanto de poder ela tem sobre as pessoas, não acha? Você está aí pronto para fazer qualquer coisa, por mais terrível que seja apenas para garantir a segurança dela, para garantir que a tenha para si. E quanto a mim? A garota ficou na minha cabeça desde a primeira vez que a vi, ela me fez persegui-la por todo o país, e mesmo agora a tendo para mim, mesmo podendo fazer o que eu quiser com ela, eu ainda sinto que preciso ter ainda mais dela.
Eu não o entendia, por mais que eu tentasse, eu não compreendia o que o levava a fazer isso. O jeito como ele falava de Felicity, era doentio, como se ela fosse uma posse que ele quisesse ter para si apenas porque não poderia ter.
— Que tipo de jogo está jogando, Floyd? — perguntei diretamente.
— Eu pensei que fosse óbvio. — as coisas só eram óbvias na mente distorcida dele — Eu a quero para mim, eu fiz um bom trabalho a destruindo, mostrando à ela o qual feio e sombrio o mundo pode ser, eu a moldei da forma que eu queria eu corrompi a essência feliz dela, eu arranquei seu sorriso e coloquei lágrimas em seus olhos. Ela me teme, ela sabe que eu posso destruir tudo o que há na vida dela, eu já fiz isso uma vez eu posso fazer de novo.
— Essa sua obsessão por ela, é apenas por isso? Você gosta da sensação de desfazer alguém? — aquela conversa estava me deixava enjoado.
— Em parte. — concordou com um menear de cabeça — Mas também me excita ver o medo nos olhos dela, saber que eu sou o responsável por cada parte quebrada da alma dela. Infelizmente, Felicity está diferente, ela ainda me teme, mas algo nela mudou, algo que a faz pensar que mesmo que eu a destrua, ela ainda pode se reerguer. — Ele me fitou, como se me culpasse por aquilo.
Eu quase sorri com o final de suas palavras. Minha garota era forte, ela não se dobraria fácil, ela sobreviveria.
— Qual é minha função nesse seu jogo?
— Oh, você tem algo que eu quero.
— O quê é?
— O coração dela. — essa foi a primeira vez que o vi demostrar uma emoção mais forte, os olhos dele pareciam mais escuros, cobertos por uma nuvem grossa de ódio, seu tom era acusador — É você Oliver, a maldita razão para a esperança que ainda há nela. É você que a faz acreditar que pode se livrar de mim e ainda ter um futuro feliz ao seu lado. — senti meu coração aquecer, eu também tinha aquela mesma esperança queimando dentro de mim. — É você a quem ela deu o seu precioso coração e eu preciso que o devolva para que eu possa destruí-la a minha maneira.
— Como sugere que eu devolva o coração para ela? — semicerrei os olhos na direção dele.
— Essa é a minha jogada final, Oliver. Melhor não pularmos etapas. — ele piscou para mim com o olho que não estava tampado, e se ergueu, ficando novamente de pé, como quem se prepara para ir embora.
— Esse jogo... Se eu jogá-lo nos seus termos, eu poderei vê-la?
— Faça algo para mim e ainda hoje você poderá vê-la. — Meu coração pulou dentro do peito, minha vontade era de gritar que eu faria qualquer coisa, mas eu estava tentando me forçar a ser mais cauteloso. Floyd podia ser louco, mas ele era esperto demais.
— O que tenho que fazer? — eu perguntei, e o vi sorrindo.
— Eu só preciso que se livre dos outros policiais. — Se aproximou de mim e eu fiquei mais alerta, colocando a mão sobre a arma que estava nas minhas costas — Eu quero jogar apenas com você. E para isso preciso que coloque isto — me entregou um pendrive preto — em um dos computadores da delegacia e deixe apenas rodando.
— O que isso faz?
— Você se importa com outra coisa além de Felicity? — não respondi, eu me importava com muitas coisas, meu emprego, meus amigos, mas Felicity era a minha prioridade — Então não precisa saber. Vamos apenas dizer que assim que tiver feito o que eu pedi eu mandarei uma mensagem dizendo o onde Felicity está. — não havia como dizer não, não quando ele me oferecia Felicity — Apareça com a polícia e ela morre. Tente me seguir quando eu sair daqui e ela morre. Não faça o que eu disse, advinha só o que acontece?
— Ela morre. — respondi, a frase amargando em minha boca.
— Até que você não é burro.
— E depois que eu fizer isso? Vai apenas me entregar Felicity? — Perguntei.
— Eu nunca disse que a entregaria a você, eu disse que a deixaria vê-la. — respondeu passando por mim e colocando a mão sobre a maçaneta da porta — Mas depois disso entraremos na fase dois do jogo, a minha favorita. — Ele disse com um sorriso misterioso no rosto, antes de sair pela porta do meu apartamento dizendo uma única frase que teve o poder de me fazer tomar uma rápida decisão — Não demore com isso, Oliver, eu estou entediado e Felicity está a minha disposição...
***
Eu fui rápido, eu não podia me dar o luxo de perder nem mais um segundo. E, além disso, a mera ideia de encontrar Felicity me impulsionava a correr. Eu sabia que colaborar com um sociopata nunca era a melhor maneira de lidar numa situação como essa. Merda, eu era o maldito policial que aconselharia a qualquer outra pessoa a procurar a ajuda da polícia, mas que estava fazendo exatamente o contrário. Mas em minha defesa eu só tinha Felicity na minha cabeça, e essa necessidade de chegar mais perto dela, de ajudá-la antes que ele pudesse fazer qualquer coisa.
Eu deixei meu apartamento, não sem antes pegar outra arma, apenas por precaução. Eu não sabia exatamente com o que lidaria, mas era sempre bom ter uma arma reserva. Pilotei de volta para a delegacia e cheguei lá questão de minutos. Eu entrei, sem olhar para as pessoas, embora eu sentisse o olhar de cada um sobre mim, os cochichos sobre o fato da minha namorada ter sido sequestrada e eu estar agindo como um louco. Sentei a minha mesa, e apenas me desliguei do resto do mundo me concentrando apenas no que precisava para ter Felicity de volta.
Eu coloquei o pendrive, e executei o arquivo que havia ali. Parte de mim imaginava que ele causaria alguma pane no sistema ou algo do tipo, mas nada aconteceu. Fitei meu celular em minhas mãos esperando ansioso pela mensagem me dizendo onde ela estava.
Mas nada aconteceu.
É isso que dá confiar num filho da puta.
— Mas que Inferno, Oliver! Como pode ser tão idiota? — Me xinguei, tentando pensar no que fazer agora, mas tudo o que consegui foi me recriminar por ter sido tão tolo. Eu deveria tê-lo seguido quando tive a chance, ou tê-lo socado mais vezes até o deixar inconsciente e o arrastado até a delegacia, fazê-lo falar de alguma forma, ou apenas rezado para que encontrasse Felicity a tempo.
Ao menos assim, eu teria certeza de que ele não estaria com ela, quebrando-a.
— Oliver! Não pensei que estivesse voltado, eu estava falando que precisávamos ligar para você, te avisar, mas eu vim correndo quando Dig me disse que te viu entrar na delegacia há poucos minutos. — Sara apareceu a minha frente jogando as palavras com pressa, o seu rosto estava lívido e ela parecia afobada.
— O que aconteceu? — Perguntei, eu conhecia Sara bem o suficiente e ela nunca fora muito boa para esconder as emoções, e ela parecia acelerada e quase contente. — Sara, não me teste, não hoje, me diga logo o que está acontecendo. — Ela mordeu o lábio antes de falar.
— Ok, mas prometa-me que não vai surtar. — eu assenti com a cabeça concordando apenas para que Sara fosse direto ao ponto, eu não poderia prometer que não surtaria hoje. — Você sabe que não tivemos sorte rastreando o gps da Felicity, certo?
— Sim. — concordei baixo, ouvir o nome dela cutucava a ferida aberta no meu coração, mas me lembrar de que não tínhamos pistas e que eu havia deixado Floyd me enganar e ir embora era como pressionar a ferida até que saísse mais sangue.
— Bem, o sinal do telefone de Felicity voltou, Oliver. — Sara disse com um sorriso tímido nos lábios, e colocou uma das mãos sobre os meus ombros — Nós temos a localização dela, é um pouco longe daqui em Coast City, mas chegaremos até ela, vamos trazê-la de volta para você. — Sara soou esperançosa — Se apronte, saímos em cinco minutos para buscar a sua garota.
Eu me ergui da cadeira, ainda desnorteado com a informação. Algo parecia errado naquilo, e só quando meu celular apitou, indicando o recebimento de uma mensagem e eu desci meus olhos para a tela e franzi o cenho compreendendo o que estava acontecendo.
— Eu não posso ir, Sara. — eu disse, depois de ler a mensagem no meu telefone. Floyd havia me mandado um endereço aqui mesmo em Starling, e ficava na região do Glades. Floyd disse que queria os policiais longe enquanto jogávamos, eu tinha certeza que o sinal do gps em Coast City era apenas um chamariz.
— O quê? Você bateu com a cabeça ou algo do tipo? — ela me encarou como se eu fosse louco — Nós estamos indo até a sua Felicity! Não é por causa dela que você tem surtado? Eu pensei que você quisesse estar lá... Pelo amor de Deus, Oliver! Ela vai querer que você esteja lá, para abraçá-la e acalmá-la quando tudo chegar ao fim. Ela precisa de você e você precisa dela também!
Sara estava certa.
E era por isso que eu não poderia ir com ela.
— Eu preciso estar em um lugar mais importante, agora. — Me desvencilhei de Sara e segui a passos largos para a saída, eu não tinha tempo a perder discutindo com ela. Mas é claro que Sara nunca deixava nada pela metade e me seguiu até o lado de fora da delegacia.
— Oliver, pare! — ordenou, e eu me virei para ela, já estava com o capacete na mão pronto para ir — O que pode ser mais importante do que Felicity? — Perguntou sem compreender o que estava acontecendo comigo.
— Nada nesse mundo é mais importante do que ela para mim. — falei com toda a honestidade e então subi novamente na moto e pilotei cortando a noite, rompendo todos os limites de velocidade existentes.
— Eu estou indo, amor. — eu disse esperando que de alguma forma a minha mensagem pudesse chegar até ela — Aguente firme, que eu estou indo até você.
***
Felicity Smoak
Eu estava com medo.
E não era medo por mim, era pior que isso, muito pior. Eu estava com medo de perder Oliver. Eu ainda me recordava com precisão daquele maldito pesadelo, da forma como Floyd tirara Oliver de mim e como tudo pareceu desabar depois daquilo. Eu só consegui me manter sã, porque naquele dia eu tive Oliver para me abraçar e me mostrar que ele estava comigo, que eu sempre o teria comigo. O que seria de mim, se meu maior pesadelo se tornasse realidade? O que seria de mim sem os braços de Oliver para me acalantar quando tudo isso acabasse?
Eu via Floyd e seu sorriso cínico, olhar aguçado e desprovido de qualquer emoção humana que fosse boa, me mostrando que ele tinha planos perversos guardados para mim. Eu o conhecia bem, parte do jogo dele era brincar com as emoções das pessoas. Era por isso que ele ligara para Oliver na minha frente, ele queria observar a minha reação. Eu gostaria de dizer que eu controlei bem minhas emoções, que eu me mantive distante, mas bastou falar com Oliver, escutar a voz dele tão preocupada e carinhosa comigo, saber que eu o queria, mas que eu não poderia ter, foi o que me fez desabar.
Eu o amava.
Como eu jamais havia amado alguém, como eu jamais pensei que fosse possível amar. Era um sentimento que preenchia e me completava, quando eu estava com Oliver ele me fazia acreditar que ser feliz era possível, que bastava eu estar ao lado dele que todo medo ou dor desapareceria. Eu pensei que amá-lo fosse algo bom, e foi até agora. Por que tudo poderia simplesmente acabar num único instante, sem que eu dissesse a Oliver o que eu sinto por ele. Sem agradecê-lo não apenas por curar cada pedacinho quebrado de mim com o seu amor, mas principalmente por me mostrar o quanto eu estava perdendo da vida fechando o meu coração para isso.
E não havia nada que Floyd pudesse dizer ou fazer que mudasse meus sentimentos por Oliver. O grande problema era que Floyd sabia disso também, ele percebia o quanto eu havia me apaixonado e o quanto Oliver mudara meu coração, e ele iria usar esse sentimento contra mim.
Ele estava arrastando Oliver para isso.
Floyd mesmo me disse. Oh, ele mesmo fez questão de me dizer que em breve tudo estaria acabado para mim e Oliver, que todo o meu feliz romance chegaria à único fim possível. Por isso, depois que ele retornou após um longo período fora eu me ergui do sofá e o encarei nervosa, esperando por alguma informação que me dissesse qual seria seu próximo movimento. Pelo hematoma feio em seu rosto eu tinha certeza que ele tinha encontrado Oliver, e meu coração doeu, apenas em pensar no que ele poderia ter feito.
— Olá, querida. Estou vendo que está atenta ao pequeno presentinho que o seu namorado me deu.— havia desgosto na voz ao dizer a palavra namorado, enquanto seu polegar ia ao canto do lábio e tocava o lugar que ainda estava inchado.
— Você... Você fez algo a ele? — perguntei externando minha preocupação.
— Eu? Oh, não querida. — negou de pronto, mas sorrindo daquele jeito que eu sabia que só poderia ser algo ruim. — Eu apenas dei a ele uma escolha.
Meu sangue pareceu congelar nas minhas veias.
— Que escolha? — perguntei, com medo da sua resposta.
— Ele poderia vir jogar com a gente, ou eu poderia jogar com você sozinho. — Estremeci com suas palavras. — Advinha qual foi a escolha dele?
Fechei meus olhos absorvendo a informação, eu sabia qual tinha sido a escolha de Oliver. Eu podia sentir meu coração protestando contra isso, as lágrimas quentes inundando os meus olhos. Eu abri meus olhos novamente e os guiei para Floyd o encarando com ódio, pelo seu semblante contente eu sabia exatamente como as coisas iriam terminar.
Seria como naquele meu pesadelo horrível. Floyd tiraria Oliver de mim, bem diante dos meus olhos e não haveria nada que eu pudesse fazer para detê-lo.
Eu não sobreviveria depois de perdê-lo.
— Floyd, por favor... Podemos fazer isso de outro jeito? — eu implorei, o coração batendo tão forte e rápido dentro do peito que eu pensei que ele pudesse ouvi-lo. Meu corpo tremia enquanto Floyd se aproximava de mim a passos vagarosos. Ele parou a poucos centímetros de mim, me encarou de cima abaixo como se analisasse meu valor, pensando no que eu poderia oferecê-lo para fazê-lo mudar de ideia. Ele sorriu para mim, aquele maldito sorriso branco e cheio de dentes atrás do qual ele escondia sua verdadeira natureza. Lentamente o sorriso deixou seu rosto, seu olhar se tornou mais aguçado enquanto ele me rodeava, como se fosse um leão cercando sua presa.
— Oh, eu estou curioso para a sua sugestão, mas sabe, querida, eu não vejo um outro jeito disso terminar. — ele estava atrás de mim agora, a voz fria e arrastada dele em meu ouvido, seus dedos tocando em meus ombros daquele jeito que dizia que eu estava presa a ele, e não havia para onde correr dessa vez. — Foi você quem o trouxe para a sua vida, foi você que permitiu que ela a tocasse, que ele a possuísse. Eu te disse antes, querida, você é apenas minha. — ele murmurou dando uma intensidade quase diabólica a última palavra — O que acontecer a partir de agora, será única e exclusivamente sua culpa. — Absorvi suas palavras me esforçando para não desabar com elas, eu sabia que isso fazia parte do jogo emocional dele, me fazer sentir culpada por deixar Oliver entrar na minha vida, por amá-lo da forma como eu amava. Eu não deveria deixar ele me atingir assim. Mas era impossível não pensar que se eu não tivesse me envolvido com Oliver, eu não teria trazido um monstro para a vida dele também. — Além disso, o nosso convidado especial já chegou. — A voz dele ficou mais forte e num movimento rápido, Floyd colocou algo frio em minha garganta enquanto puxava meu corpo para o seu.
Por mais que a proximidade me enojasse e o toque frio da adaga em minha garganta devesse me assustar, eu não dei muita atenção aquilo. Meus olhos estavam cravados no homem que descia as escadas segurando uma arma em uma das mãos.
— Felicity. — Ele disse, assim que chegou ao último degrau. Eu pensei que no meio desse pesadelo fosse impossível encontrar algo que me fizesse sorrir. Mas ali estava Oliver, dizendo meu nome, seus olhos me fitando com amor e preocupação, como se eu fosse a pessoa mais importante na vida dele. Por um momento eu me esqueci de tudo, meu coração acelerou em felicidade por vê-lo novamente e tudo o que eu queria correr para seus braços fortes, sentir que estávamos juntos novamente e que tudo ficaria bem.
Mas assim que dei mais um passo, a pressão da adaga em minha garganta se tornou mais forte. Meu sorriso esmaeceu, me lembrando de que apesar do quanto me fazia bem ver Oliver, a sua presença aqui só tornaria aquele pesadelo ainda pior.
Abaixei meu olhar para o chão, me negando a fitar seus olhos cheios de amor, porque apenas vê-lo sabendo como as coisas terminariam já era suficiente para partir meu coração.
— Oliver, você não deveria estar aqui. — murmurei num lamento triste, sentindo uma única lágrima escorrer pelos meus olhos e morrer em minha boca.
Tudo iria morrer essa noite.
Minhas lágrimas.
Minha vida.
Meu amor.
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