Running Away

10 Capítulo 9 - Wicked Game


Notas iniciais
Olá leitores, como eu disse no capítulo de War eu estou tentando voltar, ok? Mas vamos com calma... Para quem ainda não viu, eu postei no meu canal do youtube o trailer de Running Away! Assistam: https://youtu.be/_HS1mJECBXU Obrigada pelos comentarios, favoritos, MPs carinhosas e desesperadas! Eu responderei assim que conseguir um tempo. Boa leitura!

The world was on fire and no one could save me but you

It's strange what desire make foolish people do

I never dreamed that I'd meet somebody like you

And I never dreamed that I'd lose somebody like you

No, I don't wanna fall in love

No, I don't wanna fall in love

With you

With you

What a wicked game to play, to make me feel this way

What a wicked thing to do, to let me dream of you

What a wicked thing to say, you never felt this way

What a wicked thing to do, to make me dream of you and

I don't wanna fall in love

No, I don't wanna fall in love

With you...

(Wicked Game — Raign)

Felicity Smoak

Eu sou uma idiota.

Uma completa idiota.

Mais do que isso, eu sou a pessoa mais idiota que existe nesse mundo todo. Recriminei-me durante todo o caminho desde que eu havia deixado o apartamento de Oliver. Estava escurecendo, um vento frio cortava o ar me fazendo arrepiar. Abracei a mim mesma e esfreguei os braços na tentativa de afugentar o frio com a fricção. Eu havia saído com tanta pressa que esqueci até mesmo de pegar o meu casaco. Esse era o efeito que Oliver tinha sobre mim, me desnorteava e me tornava uma pessoa distraída e displicente. Como eu havia deixado que as coisas entre nós dois chegassem tão longe?

Eu deveria tê-lo parado antes que ele chegasse muito perto. Oh sim, a situação era realmente muito crítica. Oliver estava certo. A atração entre nós era absurda, quase magnética, meu corpo se via sendo puxado para o dele como se fossemos lados opostos de dois imãs. E a situação tendia a piorar quando discutíamos. O calor, a raiva momentânea, tudo explodia de uma única vez, nos deixando expostos, incapazes, meros reféns diante da necessidade que tínhamos um do outro.

E então eu me esquecia do motivo pelo qual estávamos brigando. Tudo o que eu conseguia ser consciente era de Oliver, de como eu queria seu corpo pressionado contra o meu, sua boca tomando tudo da minha, de sentir seu gosto e seu cheiro, de ter suas mãos queimando em minha pele.

Sexo.

Era primitivo, mas era assim que Oliver sempre me vencia. Meneei a cabeça me livrando daquele pensamento. Seja lá o que fosse que estivesse acontecendo entre mim e Oliver, não era uma batalha. Não havia vencedores e perdedores. Mas era um fato de que ele estava fodendo minha mente antes mesmo de foder comigo.

Eu não sabia o que o estava levando a agir daquele modo comigo, sendo tão incisivo naquela proibição estúpida de não me deixar sair do apartamento, mas eu precisava sair. Precisava estar em um ambiente livre da presença de Oliver Queen, para que pudesse pensar corretamente nas consequências das minhas ações. Se eu ficasse naquele apartamento eu não conseguiria resistir por muito mais tempo, e logo acabaria na cama com ele.

E seria assim tão ruim? Vai me dizer que não está louca para isso? Aquele diabinho em meu ombro me questionou.

Ruim? Como se sexo com Oliver pudesse ser menos do que excelente, quente e escorregadio. Eu tinha recebido apenas uma amostra, e ainda me sentia tonta com a intensidade do que havíamos compartilhado, de como meu corpo correspondera as suas carícias com gemidos de prazer e desespero. Senti meu rosto esquentar com as imagens vívidas que voltaram a minha mente com tanta precisão e que aceleraram meu ritmo cardíaco me aquecendo, eu sequer sentia o frio da noite que a pouco me incomodara, eu apenas me concentrava nas lembranças. Oliver me beijando no pescoço com sua barba por fazer arranhando deliciosamente a minha pele. Oliver me tocando me fazendo derreter em seus braços com suas carícias, a visão erótica de sua cabeça no meio de minhas pernas, e eu gritando o seu nome com desespero enquanto sua língua deslizava em mim e fazia maravilhas em meu corpo... Engoli em seco, todas aquelas sensações formigavam em minha pele, me lembrando do que havíamos feito e me fazendo desejar dar meia volta e exigir terminarmos aquilo na cama. Ou no mínimo me fariam ter um orgasmo apenas por me lembrar.

Era irracional desejar uma pessoa dessa forma! Eu tinha tido minha cota de sexo no passado, eu não era uma garota inexperiente e introvertida, mas eu nunca me senti assim... Tão sedenta e ansiosa por alguém. Oliver me fazia sentir viva de uma forma que eu nunca me senti antes, era como se com eu deixasse de ter medo, e acreditasse que eu poderia ter mais dessa vida. Depois de tudo o que passei, eu pensei que houvesse perdido uma parte de mim que eu jamais seria capaz de recuperar. A parte que se permite doar, que confia, que deixa alguém entrar.

Mas Oliver me fazia desejar isso, desejar me doar, confiar nele e deixar que entrasse e visse cada pedacinho quebrado de mim. E não era apenas pela atração sexual, isso era apenas o prelúdio, era por Oliver em si, as pequenas partes dele que aos poucos ele me revelava e que por mais que eu tentasse ignorar, me fascinavam.

Sim, ele podia até ser um ogro controlador em grande parte do tempo, mas eu sabia que havia alguém doce ali, decente e carinhoso, alguém por quem seria muito fácil se apaixonar. Se eu me deixasse levar pelo momento, se eu parasse de lutar contra a atração e abaixasse minhas defesas, eu sei que se tornaria muito mais do que sexo para mim. Mas, e para Oliver? Não, ele não era o tipo de cara que se apaixonava, ele era o tipo de cara feito para sexo e apenas isso.

No fim de tudo eu me tornaria apenas mais uma garota em sua cama, que ele dispensaria tão logo encontrasse outro desafio. Mas ainda assim, havia uma parte de mim que estava considerando. Cogitando se valeria a pena arriscar tudo por isso, eu queria desesperadamente sentir algo diferente, eu queria que Oliver pudesse ser aquele a me fazer sentir como uma mulher novamente, a me fazer esquecer o meu passado conturbado e seguir em frente.

Eu apenas não poderia fazer isso hoje.

Hoje eu precisava apenas respirar fundo e clarear um pouco a mente.

Empurrei a porta do bar que abriu num rangido, vi Helena que estava atrás do balcão erguer as sobrancelhas e lançar seus olhos desconfiados em minha direção assim que me viu entrar.

— O que faz aqui, Felicity? Eu te disse que você não trabalharia hoje. — estranhei o tom quase hostil de sua voz.

Caminhei mais para perto sem ter que me desviar das mesas e cadeiras que estavam empilhadas num canto do bar. Achei curioso, embora Helena tenha dito que eu não trabalharia às terças-feiras eu supus que o bar funcionaria normalmente.

— Você está usando óculos. — comentei sorrindo ao ver o seu visual incomum, Helena fazia o estilo femme fatale, tendia a deixar os homens babando com apenas um olhar. Era refrescante vê-la um pouco mais despojada — Eu costumava usar óculos também, mas descobri que lentes de contato são incrivelmente mais práticas. — Helena não retribuiu o meu sorriso, apenas fechou com certa brutalidade o caderno que tinha à sua frente (o qual eu tentei sem muito sucesso espiar, e tudo o que vi foram números), e retirou os óculos — Alguém está de mau humor hoje. — puxei um banquinho me sentando a sua frente, me recusando a me dar por vencida.

— Você está de folga, e a primeira coisa que faz é vir trabalhar? — Questionou com ar incrédulo.

— Quem disse que vim trabalhar? — Devolvi.

— Então o que faz aqui? — Ela tamborilou os dedos sobre o caderno, me encarando.

— Acreditaria se eu dissesse que senti saudades da minha adorável chefe? — Pisquei os olhos para Helena docemente, que apenas revirou os dela em resposta.

— Nem um pouco. — o canto de seus lábios se ergueu num pequeno sorriso — Mas pela sua cara meio desesperada eu suponho que algo tenha acontecido e seu primeiro impulso tenha sido fugir para cá. Então não me faça perder tempo e desembucha logo, Felicity. Por que está aqui?

— Você é péssima nesse lance de amizade, não tem nenhuma sutileza. — comentei.

— Sou tão sutil quanto um elefante e você está me enrolando. — Sim, eu a estava enrolando.

— Eu só precisava de uma amiga para me ouvir e me dar conselhos, talvez um ombro para chorar ou uma bebida bem forte para me fazer esquecer. Já que você está evidentemente de mau humor, vou ficar apenas com a última opção, por enquanto.

— Então você veio como cliente? Porque terei que te expulsar da mesma forma. — abri a boca pronta para protestar — Não viu a placa de fechado do lado de fora?

— Hum, eu estava um pouco distraída... — ou muito, com pensamentos nenhum pouco puros sobre Oliver Queen e seu poder de me deixar em chamas, completei mentalmente. Suspirei audivelmente, Helena não deixou isso passar despercebido.

— Hum... Distraída é? — estreitou seus olhos de forma suspeita para mim, como se me analisassem — Eu suponho que Oliver tem algo a ver com isso? — ergueu a sobrancelha sugestivamente.

— Eu te odeio. — exclamei enquanto Helena gargalhava contente por minha reação soar com uma confirmação — Como você pode saber? Eu sequer toquei no nome dele!

— A culpa é toda sua por ser um livro aberto. — Bufei, eu era assim tão transparente? Helena continuou, respondendo a pergunta que eu sequer chequei a fazer — É que você fica diferente quando o assunto é Oliver. Ele te provoca, tem um efeito incomum sobre você, isso é óbvio e na maior parte das vezes você tenta tratar isso com um falso desdém, fingindo que não é nada demais, ou com pura irritação. Mas hoje... Bastou eu dizer o nome dele, para você corar e sem contar que você está com esse olhar satisfeito e ao mesmo tempo confuso, que me diz que as coisas entre vocês mudaram — continuou — Então, estou deduzindo que seguiu meu conselho e finalmente transou com ele, estou certa? — perguntou diretamente.

— Pode apenas me servir algo? Forte e de preferência com o poder de apagar lembranças que simplesmente se recusam a deixar a sua cabeça. — Pedi, tentando mudar o foco da conversa.

— Eu posso, mas eu não vou... Eu duvido muito que você queira mesmo esquecer uma noite de sexo selvagem e quente com Oliver Queen — me provocou sorrindo maliciosamente para mim, eu estava prestes a corrigi-la, afinal Oliver e eu não transamos, embora tenhamos chegado perigosamente perto disso. Para minha sorte, antes que eu pudesse dar a minha embaraçosa resposta, escutei uma voz feminina preencher o ambiente, me permitindo me concentrar momentaneamente em outra coisa.

— Olá? — chamou hesitante, enquanto empurrava a porta do bar.

— Selina! — sorri ao vê-la e fiz sinal para que se aproximasse.

— Você convidou mais alguém para um bar fechado? — Helena sussurrou.

— Hey, seja simpática! — adverti — Eu sabia que você seria uma péssima amiga para me dar conselhos sobre Oliver, então eu liguei para Selina antes de vir para cá, ela parecia chateada com algo e não queria falar sobre isso ao telefone. Pensei que seria bom que conversássemos um pouco e falássemos sobre o que nos atormenta.

— Então você marcou uma reunião do maldito clube da luluzinha no meu bar? — cruzou os braços impaciente.

— Desculpe. — falei sinceramente me sentindo culpada. Helena não estava num humor muito bom hoje e obviamente eu o estava deixando pior — Selina possivelmente será muito mais racional no assunto “Oliver” do que você. E eu gostaria de ter opções que não incluíssem fazer sexo com ele para me livrar do problema.

— Ok. — Helena levantou ambas as mãos em sinal de rendição. — Eu prometo guardar as garras — cruzou dois dedos selando a promessa. Não confiei nenhum pouquinho nela.

— Olá, Felicity. — Selina me cumprimentou, puxou o banco ao meu lado e sentou-se — E você é a Helena, certo? Dona do bar? Eu não tinha certeza se o estabelecimento estava aberto, havia uma placa na porta dizendo “fechado”. — comentou — Mas como Felicity me disse para vir aqui...

— Aparentemente estamos funcionando. — Helena forçou um sorriso — O “fechado” é apenas para dar um pouco de exclusividade para a nossa reuniãozinha. — Lancei um olhar significativo para Helena, que havia exagerado um pouco no sarcasmo. — Eu vou pegar as bebidas, parece que vou precisar.

Helena nos deu as costas enquanto procurava pelas bebidas certas nas prateleiras. Aproveitei para iniciar uma conversa com Selina, o plano era fazê-la falar bastante assim eu poderia dar a minha mente um descanso de Oliver Queen.

— Como tem sido a estadia em Starling? — Fiz uma pergunta simples, banal e que manteria a conversa num tema seguro.

— Eu dormi com Bruce Wayne. — soltou de uma única vez, arregalei meus olhos e abri a boca chocada ao escutar a confissão.

— O quê? — quase gritei, eu sabia que ela tinha uma queda pelo CEO da Wayne Interprise, mas que mulher no mundo não tinha? Mas daí a realmente dormir com ele? — Como isso aconteceu?

— Eu não sei como aconteceu.

— Wooou, as coisas ficaram interessantes. — Helena voltou-se para nós com um sorriso amplo no rosto e uma garrafa de vodca em uma das mãos. — E Felicity é bem simples como aconteceu, eles tiraram suas roupas, eles tiveram algumas preliminares quentes, a não ser que os safadinhos estivessem muito apressados para isso e então o tal do Bruce enfiou o...

— Helena!

— O quê? Eu só ia dar uma aula rápida de biologia...

— Você não presta. — era para ser uma repreensão, mas eu estava rindo — Me conte tudo, Selina.

— Eu o acompanhei a essa festa estúpida, nós dançamos, rimos a champanhe subiu a minha cabeça e quando dei por mim estávamos no quarto dele no hotel, nos despindo... — fechou os olhos fortemente como se relembrasse — ...E foi absolutamente incrível.

— Isso está começando a parecer com aqueles programas ruins em que a pessoa revela um segredo obscuro e é julgada por isso. E eu já disse o quanto eu amo julgar as pessoas? Então quem é Bruce Wayne? — Helena sentou-se apoiando um dos cotovelos sobre a bancada e sorria para Selina com expectativa.

Selina a encarou com o cenho franzido, mas se limitou a responder:

— Ele é meu chefe, e eu tenho certeza que vou ser demitida!

— Ou vai ganhar uma promoção. — Selina lhe lançou um olhar exasperado — Espere... Você não está dizendo o Bruce Wayne, o lindo, sexy, que tem um olhar mortal e ao mesmo tempo atormentado, e além disso tudo bilionário, dono do grupo Wayne Interprise?

— Exatamente esse! — confirmou, e Helena começou a gargalhar alto.

— Oh, por favor! Você e Felicity vieram ao meu bar para choramingarem porque transaram com caras gostosos. Isso é lá coisa para se reclamar? O que eu não daria por uma boa trep...

— Eu não transei com Oliver! — praticamente gritei.

— Não transou é? — seus olhos voltaram para mim, incisivos e ao mesmo tempo divertidos — O quão perto chegaram então? — inspecionou inclinando o corpo mais para frente por sobre o balcão numa postura intimidante, senti minhas bochechas arderam, mordi o lábio inferior sem saber exatamente o que dizer — Muito perto pelo visto, já que você ficou sem palavras. Pelo menos ele te deu um orgasmo daqueles inesquecíveis?

Fechei meus olhos, as lembranças que eu tentava tanto evitar voltavam com força total. E todas aquelas sensações que Oliver me provocara, o que ele me fazia sentir, era apenas muito para confrontar naquele momento.

— Você é um monstro, Helena. — falei tentando soar brava com sua impertinência, mas falhando miseravelmente. Seu sorriso se tornou ainda maior, enquanto ela derramava a bebida em três copos distintos de doses.

— Mas foi bom, não foi? — insistiu, deslizando um dos copos para mim e outro para Selina, ficando com o terceiro para si.

— Foi o melhor orgasmo da minha vida. — suspirei, e arregalei os olhos logo em seguida ficando surpresa com a minha própria confissão — Satisfeita?

— Eu não, mas você provavelmente sim! — riu da própria piada — Vocês duas e seus problemas de menininhas me dão sono. — disse apontando para mim e Selina, virando sua dose de uma única vez — Na verdade vocês não merecem beber da minha bebida. — tomou a bebida de Selina e puxou a minha, que obviamente seria a próxima vítima — Você, Felicity, está reclamando porque recebeu o melhor orgasmo da sua vida. E sua amiga, se lamentando por ter dormido com o chefe, que pelo que entendi, além de bonito e rico, é bom de cama! — disse, meneando a cabeça descontente como se aquilo fosse um verdadeiro sacrilégio — Eu queria que meus problemas se resumissem a orgasmos! — falou por fim, batendo as mãos sobre o balcão parecendo frustrada.

— Helena... — Chamei seu nome ao perceber que aquilo parecia ser muito mais.

— Eu perdi o bar. — Abriu os braços ao dizer aquilo. — Recebi uma intimação ontem, não consegui quitar a hipoteca que meus pais fizeram pouco antes de morrer, então o bar vai a leilão amanhã e eu não tenho dinheiro suficiente para comprá-lo. O que obviamente não é nenhuma surpresa, eu mal consigo controlar Roy e minha irmã Sin vive matando aulas, até que o bar sobreviveu por muito na muito tempo enquanto eu o gerenciava... — sorriu amargamente — Me sinto muito melhor agora por desabafar, até que essa reunião do clube da luluzinha não é uma completa perda de tempo. — concluiu.

— Eu sinto muito, Helena... — comecei, mas ela dispensou minha compaixão com um aceno de mão e um pequeno sorriso.

— Aparentemente você está desempregada, então eu acho que isso te dá direito a beber a sua bebida também. E já que eu vou perder tudo isso amanhã, devemos ao menos causar algum prejuízo. — Deslizou o meu copo de volta para mim enquanto tornava a encher o dela e o de Selina. — Agora vamos brindar! — Determinou erguendo o seu copo.

— Brindar a quê? — questionou Selina, confusa com a súbita animação de Helena.

— Ao maldito clube da luluzinha! — Helena disse e todas nós erguemos nossos copos e fazemos o brinde mais tolo de todos.

***

Eu não sei como permiti que Helena me convencesse disso.

Mas aqui estava eu, em uma boate. O Verdant ficava a apenas algumas quadras do bar de Helena, depois de muitas doses de vodca (dela e de Selina), já que para a tristeza de ambas eu ainda não estava embriagada, um pouco desinibida talvez, mas ainda assim completamente consciente dos meus atos. Helena simplesmente anunciou que iríamos sair para dançar. Selina rapidamente apoiou a ideia, enquanto eu era o voto vencido.

Eu não ia a uma boate há tempos. Muitas pessoas, música alta, ambiente pouco iluminado e com poucas saídas, sem contar as luzes multicoloridas que piscavam me deixando com dor de cabeça. Além do quê, tudo isso me deixava tensa e desconfortável. Eu não gostava de me sentir exposta, e principalmente eu não gostava de não ter controle do ambiente ao meu redor, eu me sentia um alvo fácil aqui. Seria tão simples para ele se misturar em meio a tantos outros rostos, se esconder nas sombras e se aproximar sorrateiramente de mim. Ou ainda, ele poderia novamente batizar a minha bebida, e eu sequer notaria. Se ele aparecesse, até mesmo meus gritos de pavor seriam abafados e ignorados graças a batida frenética do DJ.

Em outra época quando eu era apenas uma jovem normal eu ficaria contente em passar um tempo me divertindo com as amigas em um lugar como esse, mas agora eu tinha todos os motivos do mundo para odiar boates. Era incrível, apesar de estar a quilômetros de distância dele, ainda assim ele tinha todo o controle da minha vida. E enquanto ele estivesse vivo, esse medo sempre estaria comigo, não importa onde eu estivesse, ele estaria em minha mente, me restringindo e me impedindo de seguir em frente e de realmente viver.

Pelo menos eu havia convencido as garotas a ficarmos em uma mesa próxima ao bar, ao invés de no meio da multidão na pista de dança. Aqui era um pouco mais fácil ter controle de tudo o que acontecia a minha volta.

— O que acha, Felicity? — Escutei Selina me perguntar, seus cílios longos piscavam ansiosos na minha direção esperando por uma resposta para alguma pergunta, e imediatamente me senti mal por não ter prestado atenção em nada do que ela disse.

— Me desculpe, eu não estava prestando atenção.

— Eu disse que ela não estava prestando atenção. Provavelmente a mente dela estava ocupada demais pensando em Oliver Queen e os orgasmos maravilhosos que ele é capaz de causar... — Helena provocou. Eu não estava pensando em Oliver, mas bastou escutar o nome dele e minha mente já se via repleta de imagens. Eu estava indo por um caminho perigoso demais, precisava de uma forma de tirá-lo do meu sistema ou isso acabaria mal.

— Hey, aquele não é o Tommy? — mudei de assunto assim que vi o moreno a poucos metros de nós, Helena virou o rosto na direção em que eu falava, e seu sorriso presunçoso esmaeceu. Me senti um pouco vingada.

— É claro que ele tinha que estar aqui! — reclamou bufando de raiva.

— Uau, ele é um gato! — Selina acrescentou, olhando por sobre os ombros para ver sobre quem falávamos. Helena lançou a ela um olhar fulminante e para a minha surpresa um pouco territorial, me fazendo segurar o sorriso. Helena poderia tentar enganar a todos, negar o quanto quisesse, mas ali havia uma história, e eu queria todos os detalhes.

— Quando é que você vai me contar o que há entre vocês dois? — Inqueri interessada, Helena sempre fugia do assunto quando eu perguntava sobre o moreno.

— Não há nada entre nós dois. — garantiu com uma expressão blasé, enquanto tomava um gole do drink dela.

— Oh, que bom então, porque ele está vindo em nossa direção. — comentei displicente, fazendo-a se engasgar com a bebida e virar o rosto em direção a Tommy que seguia em nossa direção com um olhar decidido.

— Ótima hora para uma ida não muito rápida ao banheiro. — Helena se levantou depressa indo no sentido contrário a Tommy. Meneei a cabeça e sorri educadamente enquanto ele se aproximava de nós, parecendo um pouco desapontado.

— Hey, Tommy. — cumprimentei.

— Olá, garotas. Onde está Helena? — questionou, um vinco havia se formado entre suas sobrancelhas enquanto ele inspecionava o lugar a procura da minha amiga.

— Banheiro. — respondi e ele meneou a cabeça compreendendo o real significado daquilo.

— Ela é sempre tão esquiva...

— Sinto muito.

— Não sinta. — lançou-me um adorável sorriso de canto — A resistência dela só deixa tudo mais interessante, além disso, eu sou persistente. — piscou para mim antes de seguir a mesma direção de Helena.

— Essa sua amiga é um pouco doidinha, não é? — Selina comentou.

— Sim, mas ela é ótima. — Afirmei, era uma pena ela ter perdido o bar, eu estava gostando de trabalhar lá, pelo menos era onde eu tinha uma folga de Oliver.

— Eu vejo isso. Na verdade estou com um pouco de ciúmes da amizade de vocês. — sorriu — Mas eu ainda não entendo o porquê de você deixar tudo em Gotham para trás, seu emprego, seus amigos... E não disse nada, nem mesmo para mim, você simplesmente desapareceu e então eu a encontro aqui, trabalhando como garçonete em um bar. Quando você vai me contar o que realmente aconteceu, Felicity? — Woou, a bebida realmente havia deixado Selina mais direta.

— Eu precisei deixar Gotham para trás. — Selina era uma boa amiga, mas essa era uma parte de mim que eu não queria expor a ninguém.

— Eu não entendo.

— Eu sei, mas é tudo o que posso dizer. — Mantive-me firme e no fim ela apenas suspirou assentindo com a cabeça.

— Tudo bem, se você está feliz aqui... E se há um cara que te dá orgasmos intensos e maravilhosos.... — provocou-me.

— Disse a garota que dormiu com o chefe! — retornei.

Touché! — Ela disse, e nós duas rimos. — Sabe do que precisamos? Dançar! — afirmou observando as pessoas se perdendo na pista de dança.

— O quê? — exclamei alarmada.

— Precisamos pular seguindo a batida da música e deixar que isso tome conta da nossa mente e corpo, esquecer os problema e apenas relaxar. — esclareceu, virou o restante de sua bebida de uma só vez e se colocou de pé.

— Eu não quero dançar. — Protestei veemente.

— Por favor, Felicity. — Selina pediu, seus olhos felinos se tornaram maiores e eu me senti impelida a aceitar.

— Tudo bem, mas será apenas uma mús.... — Selina sequer esperou que eu completasse a frase e simplesmente me puxou com sua mão me levando em direção a multidão, exatamente no meio da pista de dança.

Ela estava certa.

A música trazia um alívio indescritível. Era fácil deixar meu corpo se mover conforme a batida, fácil fechar meus olhos e me permitir me esquecer de tudo e de todos por um momento. Havia algo de libertador ao se perder, meus pensamentos, minhas preocupações não zuniam mais em minha mente, havia apenas a música e a reação do meu corpo a ela. Eu não era mais a garota que sempre fugia, na verdade eu poderia ser quem eu quisesse que o mundo não se importaria.

Me deixei ser envolvida por toda aquela áurea de liberdade associada a diversão e sorri como a muito tempo eu não sorria. Me permiti acreditar, que naquele curto espaço de tempo, que tudo ficaria bem. Eu ficaria bem.

Essa esperança momentânea me fazia bem.

— Não olhe agora, mas tem um cara que simplesmente não tira os olhos de você. — Selina disse alto em meu ouvido, abri meus olhos e movi imediatamente meu rosto na direção em que Selina olhava. Parecia ser a área VIP que ficava numa espécie de segundo andar de onde dava para ver toda a movimentação na pista de dança, o sorriso que antes eu ostentava sumiu rapidamente da minha face.

— Eu disse para não olhar! — Me repreendeu, porém eu mantive meu olhar firme, procurando, mas tudo o que vi foram pessoas dançando ou conversando distraidamente, pensei ter visto a sombra de homem de costas se afastando, mas eu não tinha certeza disso. Poderia ser apenas minha mente, acostumada a me pregar peças.

— Como ele era? — perguntei, eu já não dançava mais, eu já não sorria. Apenas sentia aquela sensação desconfortável de medo que começava na boca do estômago e se espalhava por cada célula do meu corpo se apoderando completamente de mim.

— Alto, cabelos escuros, ar misterioso... — começou a listar.

— Mais alguma coisa? — pressionei. — Como ele estava vestido? Havia alguma marca em seu rosto?

— Ele usava um terno escuro... Mas se você está tão interessada nós devíamos ver por nós mesmas... — Selina disse puxando a minha mão seguindo naquela direção. Fiquei aflita ao perceber que ela havia confundido minhas indagações com interesse.

Eu senti meu sangue gelar enquanto Selina me arrastava naquela direção. Eu sabia que estava sendo paranoica, não havia como ele saber que eu estava aqui, mas ainda assim o medo era algo muito maior, soltei a mão de Selina e corri em direção contrária, o desespero em mim falou mais alto e comandou minhas ações. Eu tentava me desvencilhar entre as pessoas que dançavam loucamente, empurrando sem muita delicadeza, eu precisava sair daqui e respirar.

— Me desculpe. — falei automaticamente quando em minha ânsia de sair dali eu bati com tudo em alguém.

— Não desculpo, a menos que você dance comigo. — Ergui meus olhos encarando o homem a minha frente que sorria, um daqueles sorrisos vazios e reservados para os momentos de flerte. Ele poderia ser considerado bonito, mas o cheiro forte de álcool em seu hálito e a forma que me abordou, só me faziam achá-lo um idiota.

— Obrigada, mas não. — neguei tentando passar por ele que segurou meu braço me impedindo de ir adiante.

— Qual o problema princesa? É apenas uma dança. Eu não mordo, ao menos que você peça. — revirei os olhos ao escutar a cantada mais ridícula de todas. Sim, definitivamente se encaixava na categoria de idiota.

Eu estava pronta para exigir que ele me soltasse, mas fui pega completamente de surpresa quando senti um par de mãos se colocarem ao redor da minha cintura com propriedade me puxando para trás, e me afastando daquele homem. Meu corpo se apoiou com certa naturalidade na rigidez de um peitoral masculino. Senti o cheiro de um perfume conhecido e estranhamente me senti relaxar contra seu corpo.

— Ela disse não. — A voz era dura e fria, havia certo toque intimidador que fez o rapaz dar passos para trás com uma expressão de medo em seu olhar. E então eu compreendi porque estava tão confortável, eram as mãos de Oliver que rodeavam a minha cintura, era seu corpo que estava ali tão intimamente próximo ao meu.

— Desculpe, cara, eu não sabia que ela estava acompanhada. — foi sua eloquente desculpa — Mas um conselho? Não deixe sua garota por aí sozinha, ela é um perigo. — Os olhos do homem se voltaram para mim me analisando com certa luxúria.

— Não deixarei. — O aperto de Oliver se tornou mais firme, a voz saiu como um rugido ameaçador e finalmente o homem se afastou.

Me girei dentro do seu aperto firme, eu estava pronta para dizer a Oliver que eu não precisava ser defendida, que era perfeitamente capaz de lidar sozinha com aquilo. Mas no momento em que me vi de frente para ele, olhando em seus olhos azuis que pareciam mudar de cor a medida que os flashes de luzes da boate passavam por seu rosto, eu simplesmente me esqueci do que dizer. Tudo o que eu era consciente era de como estávamos próximos, tão próximos que era possível sentir o gosto da respiração de Oliver na minha boca, o calor de seu corpo junto ao meu. E eu queria mais.

— O que você está fazendo num lugar como esse? Tem ideia do quanto fiquei preocupado com o seu desaparecimento? — Oliver me lançou as perguntas que mais soaram como uma reprimenda, seu tom de voz estava elevado e irritado, ele praticamente gritava comigo.

— Isso não é da sua conta! — Me vi devolvendo irritada, eu simplesmente odiava quando ele me tratava como uma adolescente desobediente. Me afastei dele, dando um passo para trás, se nós íamos começar uma discussão era melhor manter certa distância. Quando o fiz, senti meu corpo esbarrar em alguém, não era novidade, estávamos no meio da pista de dança isso era normal, a questão era que esse alguém encheu a mão com vontade na minha bunda, eu soltei um palavrão e me virei pronta para reagir, mas para minha surpresa Oliver foi mais rápido.

— Mantenha as suas mãos longe do que não lhe pertence. — grunhiu para o rapaz, enquanto segurava o pulso dele, torcendo-o, o que pela cara de agonia do meu assediador parecia ser algo realmente doloroso.

— Eu entendi, foi mal. — choramingou o rapaz se afastando de nós com rapidez enquanto massageava o pulso.

— Que cena foi essa? — Me virei para Oliver questionando, seu semblante estava enfurecido, seus olhos crispavam para mim num misto confuso de emoções e sua respiração saía em lufadas alteradas.

— Mas que inferno, Felicity! Nós vamos sair daqui agora ou eu não respondo por mim se mais um cara tentar passar a mão na sua bunda! — afirmou, colocando o seu corpo protetoramente atrás de mim e me abraçando, enquanto me guiava em meio a multidão para uma saída de incêndio que dava para a lateral da boate. Foi uma caminhada longa e tortuosa, era difícil ignorar seu corpo tão perto de mim, sua respiração quente e alterada em meu ouvido, e principalmente era praticamente impossível ignorar certa parte da sua anatomia roçando contra a minha bunda.

Oliver me soltou e se afastou tão logo estávamos do lado de fora, em um beco pouco iluminado. Estranhamente, meu primeiro pensamento foi uma frase de Helena me dizendo algo sobre Oliver me arrastar para um beco escuro para retirar a minha inocência. Olhei para Oliver que chutava uma lata de cerveja contra a parede várias e várias vezes, parecendo irritado e frustrado. Não parecia que ele queria tirar a minha inocência agora.

— Qual é o problema com você? — questionei, e Oliver se virou para mim tomando uma respiração profunda enquanto se aproximava a passos rápidos.

— Você fugiu, Felicity, como uma maldita adolescente que está de castigo! — Senti meu rosto arder em fúria com sua repreensão e me vi diminuindo a distância entre nós com passos raivosos.

— Primeiro: você não é meu pai, você não dita as ordens, não me diz se eu posso ou não sair de casa e muito menos aonde posso ir. Segundo: eu não sou uma adolescente, eu sou uma mulher que tem direitos! E eu não fugi, eu apenas exerci meu direito de ir e vir conforme me assegura a constituição! — Revidei alterada. Oliver passou a mão por seus cabelos fechando os olhos com força, tentando controlar a respiração. Quando ele olhou para mim novamente eu vi algo que me desestruturou, medo, vulnerabilidade. Eu nunca tinha visto nada disso em seu olhar, na verdade eu costumava pensar que Oliver era um policial fodão, que nada temia.

— Sinto muito, eu não pretendia te tratar dessa forma. — começou com uma inesperada delicadeza — Mas, você puxa o inferno para fora de mim! Eu fiquei preocupado, eu não sabia onde você estava, se estava bem e segura, se algo havia lhe acontecido... Tem ideia de como eu fiquei assustado, Felicity? — Pisquei diante daquelas palavras, eu estava pronta para ouvir suas acusações e reprimendas, mas de forma alguma eu esperava sua preocupação.

— Oliver... — algo ficou preso em minha garganta quando eu disse seu nome — Eu sei que meu tio te encarregou de cuidar de mim, mas isso não significa me tratar como sua prisioneira.

— Meus atos de mais cedo não tiveram nada a ver com o pedido de seu tio. — Descartou prontamente. — Embora eu vá honrar com tudo o que Gordon me pediu, meus atos de mais cedo foram puramente movidos pelo meu egoísmo. — Declarou, seus olhos fitando intensamente os meus.

— Eu não entendo... Por quê...? — Deixei a pergunta incompleta no ar, Oliver deu mais um passo a frente, seu corpo se projetando a centímetros do meu. Prendi a respiração quando senti sua mão se colocar em meu rosto acariciando suavemente a bochecha com o polegar, me fazendo suspirar com sua inesperada gentileza. Ele engoliu em seco antes dizer as próximas palavras, palavras estas que fizeram meus joelhos amolecerem e coração bater descompassadamente dentro do peito.

— Porque eu me importo com você, Felicity, e eu não quero que vá embora. É tão difícil de perceber isso?

Notas finais
Aguardo a opinião de vocês, sobre o capítulo e o trailer da fic! Comentem e façam uma autora feliz =D Eu queria muito conseguir escrever o próximo capítulo logo, tenho a impressão que vocês vão gostar! Kisses!