Running Away
23 Capítulo 22 - Safe and Sound
Notas iniciais
I remember tears streaming down your face
When I said, I'll never let you go
When all those shadows almost killed your light
I remember you said, don't leave me here alone
But all that's dead and gone and passed tonight
Just close your eyes
The sun is going down
You'll be alright
No one can hurt you now
Come morning light
You and I'll be safe and sound
Don't you dare look out your window
Darling, everything's on fire
The war outside our door keeps raging on
Hold onto this lullaby
Even when the music's gone
Gone
(Safe and Sound — Taylor Swift and the Civil Wars)
Felicity Smoak
No fundo eu sempre soube que seria assim.
Eu tentei fugir da verdade, mas dentro de mim eu sabia que não havia outro modo dessa história terminar. Mais cedo ou mais tarde esse confronto aconteceria, eu apenas ainda me mantinha presa naquela maldita ilusão de que talvez pudesse ser diferente, de que eu pudesse ter tudo e que de alguma forma ainda pudesse alcançar o tal felizes para sempre. Era irônico que depois de tudo o que eu passei, de todas as partes feias e sombrias que foram forçadas na minha vida, ainda houvesse aquela pequena chama no meu coração que ainda acreditava, que ainda tinha esperanças e esperava por algo bom no final.
Eu culpo Oliver por isso.
Por tanto tempo eu tentei sufocar a parte vulnerável de mim, a parte que acreditava que ser feliz era uma escolha e não uma dádiva, a qual eu nunca teria. Mas bastou ele aparecer em minha vida, com seus sorrisos charmosos, seu jeito meio canalha convencido que me irritava no princípio, mas que bem no fundo, fazia tão bem para a minha autoestima. Eu não percebi o momento em que fiz a minha escolha de ser feliz. Eu não percebi, eu fui deixando Oliver me provocar as mais diversas emoções, raiva, ciúme, irritação, pequenos momentos de alegria, gratidão, atração, afeto e por fim, a maior delas, amor. Sorrisos começaram a brotar em meus lábios, e um coração desacostumado a bater voltou a vida. Isto poderia ter sido catastrófico para uma garota como eu, que passou tanto tempo trancada atrás dos altos muros que ergueu ao redor de si, acostumada a se esconder dentro de uma sala fria e sem janelas, a se abraçar e a ter somente o medo e a dor como companheiras, tentando sufocar qualquer outro sentimento que pudesse tentar entrar, porque ela aprendeu da pior maneira que eles eram perigosos. Mas não foi catastrófico, não totalmente. Foi de certa forma belo, foi como me ver renascer em meio a minha própria destruição e reaprender a sentir tudo outra vez. Oliver sem sequer perceber foi me ensinando a viver novamente, e aos poucos eu me despi de minhas cautelas e deixei que ele tentasse derrubar os meus muros. Não foi fácil.
Mas ele não desistiu.
Eu amava isso nele.
Eu pedi que ele se afastasse tantas vezes, eu mesma usei das piores desculpas para afastá-lo, mas isso não o impediu, isso não o fez desistir. Ele viu aquela conexão entre nós, mesmo quando ambos mascarávamos isso apenas como atração sexual em nossas tentativas de negar o óbvio. Eu não sei explicar quando ou como aconteceu, não há como marcar o momento exato em que dois corações se apaixonam, mas dá para marcar o momento em que aceitamos esse sentimento como parte de nós, quando estamos prontos para vivê-lo em toda a sua plenitude e intensidade. E quando Oliver percebeu isso, ele não parou de demonstrar e não descansou até que eu estivesse pronta para aceitar, sem medo, o amor que ele me dava.
Ele era determinado.
Eu não poderia amar alguém melhor.
Dizem que quando nos apaixonamos a gente se perde um no outro, a ponto de se esquecer do mundo a sua volta, esquecer-se de si mesmo e apenas viver esse amor. Comigo foi ao contrário. Eu já havia me esquecido de mim mesma, eu acreditava que não houvesse lugar nesse mundo para mim, que não fosse me mostrar dor. Mas em Oliver, com Oliver eu me encontrei, ele escalou os muros ao redor de mim, e despertou a garota escondida dentro daquela sala escura e fria com o seu amor.
Ele não apenas acendera aquela pequena chama de esperança dentro do meu coração. Oliver era essa chama. E perdê-lo seria como apagá-la, tirar de mim toda e qualquer esperança boba de que ainda havia algo bom na vida.
Em momentos como o de agora eu notava que aquele meu pesadelo com Oliver não tinha sido apenas sobre meu medo de perdê-lo, sobre o medo de saber que Floyd estava perto de mim, e que tentaria tirar todas as pessoas que eu amava quando outra vez me levasse para si. Era medo de perder a esperança que Oliver acendera em mim, de perder a mulher que o nosso amor trouxera de volta. E também era como um maldito presságio, uma intuição de que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria.
Porque infelizmente a vida não poderia ficar num estado de inércia enquanto Oliver e eu nos amávamos, havia demônios a serem confrontados, ou sempre haveria uma parte de mim presa àquela garota com medo e que sempre fugia.
Era difícil negar essa parte de mim agora, a parte que estava com medo e se perguntava se não deveria ter fugido antes e evitado tudo isso.
E eu deveria ter fugindo no instante em que eu percebi como Oliver me afetava e não permitido que meus sentimentos por ele tivessem ido tão longe, porque agora era tarde demais para voltar atrás. Eu deveria ter me negado a sentir aquela atração, não me sentido tão confortável em seus braços, não me derreter por seus beijos ou carícias. E acima de tudo, eu não deveria ter permitido que Oliver tivesse meu coração. Eu deveria, mas eu não o fiz. Porque eu estava tão cansada de me conter, e eu queria tanto sentir.
Eu venho negado a Oliver um eu te amo, não porque eu não sinta isso por ele, mas era uma última tentativa de protegê-lo porque ingenuamente eu acreditava que dizer tais palavras em voz alta seria como condená-lo a toda essa escuridão que me perseguia. Porque mais cedo ou mais tarde, tudo o que eu amava era tirado de mim, porque esse era o jogo de Floyd. Ele me levava para longe, de volta para aquele mundo escuro e cheio de dor que ele tinha prazer em me apresentar e então ele começaria a me quebrar.
Ele gostava de me quebrar.
Por mais que Floyd gostasse de me perseguir, e se divertisse ao me atormentar nessa brincadeira de gato e rato sem fim. Desde o instante em que eu me atrevi a sentir a coisa que ele mais queria banir da minha vida, que me permiti fazer a escolha de ser feliz, no instante em que eu aceitei o coração que Oliver me oferecia, e dei de volta o meu próprio, machucado, sangrando, mas ainda batendo. Nesse instante foi que tudo mudou.
Porque no momento em que eu me neguei a ser o que Floyd queria. A erguer as barreiras e me esconder nas sombras, a sempre fugir de medo e impedir que qualquer pessoa se aproximasse. No instante que eu decidi que queria ser inteira novamente e permiti que Oliver tentasse colar os cacos do meu coração machucado, foi como um ataque direto a Floyd.
Porque amar Oliver foi o que trouxe de volta a mulher que Floyd tão cuidadosamente destruiu. Era ele quem me fazia sentir viva, seja quando discutíamos porque Oliver estava sendo um homem das cavernas possessivo e ciumento, ou quando ele revelava aquela parte doce de si, que estava sempre ao meu lado, me protegendo. Oliver colocou um sorriso nos meus lábios, quando eu mesma já havia me esquecido de como era bom sorrir, Oliver me abraçou durante as noites escuras e varreu todos os pesadelos da minha mente, Oliver carregou em seus ombros o peso do meu medo quando este era demais para mim. Em cada momento com ele, foi como reaprender a ser eu mesma, me ajudou a encontrar e colar cada parte quebrada de mim.
E eu, mais do que tudo queria ser inteira novamente, porque eu não queria dar apenas as partes de mim ao Oliver, eu queria me dar, completamente, por inteiro, sem medo ou restrições. Eu queria sentir o que era amar e ser amada com tudo de si.
E eu senti.
E cada momento foi único e maravilhoso, e esse amor era algo que Floyd jamais tiraria de mim, não importa o que ele fizesse, o quanto ele me machucasse ou tentasse me quebrar. Eu sempre amaria Oliver.
O grande problema era que Floyd sabia disso também.
Segurar aquele eu te amo não fez diferença no final, porque palavras pouco significam perto de atos, e em todos os meus atos, sem que eu sequer percebesse eu mostrava o quanto amava Oliver, o quanto ele era importante para mim. Segurar aquelas três palavras não o protegeu do que significava ser alguém que eu amava.
Eu sequer percebi quando foi que eu deixei de ser o alvo principal de Floyd. Mas era óbvio agora, não era para mim que ele deixava seus recados, pistas ou ligações, não era a mim que ele atormentava.
Era para Oliver.
Todos os seus ataques tinham sido diretos para Oliver. Até mesmo matar Selina, não tinha sido sobre tirar de mim uma amiga, tinha sido sobre liderar as investigações de Oliver até ele, e brincar comigo no processo. As fotos que ele deixou para trás mostrando que estava perto de mim em cada passo que eu dava, apenas evidenciando a Oliver que ele não seria capaz de me proteger, ele sempre estaria perto de mim, em cada passo, sempre pronto. Ele queria brincar com a mente de Oliver pelo máximo de tempo possível, não porque torturar Oliver era uma forma de me torturar.
Mas porque Floyd estava ferido.
Ele sentia raiva de Oliver, porque Oliver me tinha para si e destruíra o poder que Floyd costumava ter. Ao lado de Oliver o medo não mais me afugentava, não me fazia correr para longe, me fazia correr para Oliver. Porque era em Oliver que eu encontrava forças para lutar, era em Oliver que eu encontrava um motivo para lutar.
Que eu fosse de alguém, pertencesse a alguém do jeito que era com Oliver deixava Floyd puto. Ele mesmo havia dito a mim, que eu não tinha nada mais a oferecer porque tudo de mim eu havia dado à Oliver.
Eu normalmente duvidaria de que alguém tão terrível como Floyd seria capaz de se sentir ferido dessa forma. Por muito tempo eu vislumbrei Floyd como um psicopata sádico que sente prazer com o sofrimento do outro, com o meu sofrimento. Mas a verdade era que ia muito além disso, porque psicopatas não são capazes de sentir emoções ou sentimentos, mas Floyd era. A diferença era apenas que ele não conseguia sentir nada bom.
Se eu era o objeto da obsessão de Floyd, Oliver era o da raiva dele.
Eu via isso claramente agora. A maneira como a respiração quente dele batia contra minha orelha em rápidas lufadas de ódio, ou como o aperto em mim se tornou muito mais dominante e opressor, enquanto Oliver descia por aquelas escadas. Eu o escutei ranger os dentes enquanto Oliver parava a nossa frente, seus olhos azuis em mim, preocupados, tentando conter a raiva enquanto tentava forçar uma segurança ao olhar para mim. Dizendo-me com seus olhos que tudo ficaria bem, que ele estava aqui agora, e que eu não desistiria de mim.
Mas esse não era o ponto.
Eu amava a coragem de Oliver, o senso de heroísmo, o quanto ele estava disposto a tudo para me proteger. Mas eu não suportaria se algo acontecesse a ele só porque Oliver estupidamente queria ser o meu herói.
— Eu acho que é obvio o que você precisa fazer. — a voz de Floyd não tinha controle algum, eu acho que a raiva que ele sentia de Oliver minava essa característica dele — Livre-se da arma, e a nossa preciosa Felicity, não se machucará. — explicou, meu estômago contraindo ao escutá-lo dizer nossa Felicity, e se não fosse a adaga em meu pescoço eu teria protestado. Eu vi uma emoção de desgosto passar nos olhos de Oliver ao escutar também, mas ele controlou isso muito melhor do que eu.
— Tudo vai ficar bem, amor. — Oliver disse com a voz calma, seus olhos ainda nos meus, dolorosos, assustados por mim, mas ainda assim confiantes. Como ele podia estar assim? Eu sentia cada parte do meu corpo tremer porque a não ser que Oliver atirasse na cabeça de Floyd agora, isso não teria um fim. Mas eu sabia que ele não faria nada que pudesse me colocar em um perigo maior. E eu tive certeza disso quando Oliver se abaixou em um movimento lento, pegou a arma que tinha em suas mãos e a pousou no chão, chutando-a na direção de Floyd. Tudo isso sem desgrudar o olhar dos meus olhos, tentando me acalmar com eles.
Teria funcionado, se agora eu não temesse por Oliver que estava desarmado. Como ele iria se proteger?
— E eu pensando que o ponto principal de um relacionamento fosse a honestidade. — havia escárnio em sua voz, e mesmo sem vê-lo eu sabia que havia também um daqueles sorrisos sádicos que eu tanto odiava brincando nos lábios finos dele. — Nada vai ficar bem, não se iluda, querida. Você me conhece melhor, e já sabe como isso vai acabar. — A voz de Floyd era como um lençol de seda sobre uma cama de espinhos, superficialmente macia, mas por baixo escondia algo afiado e doloroso.
Senti uma dor aguda no pescoço acompanhada da sensação úmida de sangue escorrendo a medida que a pele era cortada. Não segurei um pequeno grunhido de dor com a ferida que não era funda, mas que latejava e isso pareceu satisfazer Floyd.
Fitei Oliver que dava passos para mim, querendo desesperadamente me ajudar. O controle dele indo por água abaixo enquanto o medo transparecia e o deixava lívido.
— Não dê mais um passo, acho que é claro quem tem o controle aqui, Oliver. — Floyd o lembrou, fazendo-o parar no meio do caminho.
— Seu desgraçado! Filho da puta! Não vai se safar dessa, vai pagar por tudo o que está fazendo a ela, cada pequeno momento de dor, cada tormento. — Oliver ameaçou, sua ameaça não veio exaltada, não foi movida pela raiva do momento, era mais como uma promessa — Vai pagar caro por isso nem que eu mesmo tenha que te carregar para o inferno!
— Eu vou? E será você quem vai me levar? — seu tom foi provocativo e cínico. — Bem, então acho que é melhor eu fazer meu pior, quero dizer, apenas para fazer valer o meu castigo de punição eterna. — ele riu de um modo debochado, como se soubesse que sairia impune disso no final. — Agora que estabelecemos a hierarquia de poder, eu tenho a garota que você ama, logo, você faz tudo o que eu mandar. — Oliver ficou parado, completamente duro enquanto o escutava, tentando controlar o ódio que eu via nos olhos dele — Esse é jogo. Agora, faça-me o favor de colocar essas algemas ao redor de seus pulsos. Eu não preciso explicar como funciona, afinal, você é um policial treinado.
Fitei quando Oliver fazia o que Floyd lhe ordenava. Eu tinha pensado que as algemas de ferro fundidas ao chão eram para mim, para evitar que eu fugisse. Mas não. Floyd sabia que Oliver viria até a mim.
Ele estava sempre um passo a frente.
— Pronto. — Oliver ergueu as mãos, mostrando-as presas como se dissesse que agora era inofensivo. Mas não havia nada de inofensivo no rosto dele, Oliver continuava a parecer determinado e corajoso, e parecia um pouco impaciente por algo. Ele não estava exatamente incomodado por estar preso, e sem uma arma ou qualquer meio de defesa, dentro do porão de um sádico.
Na verdade, eu deduzia que era exatamente aqui onde Oliver queria estar.
— Excelente. — senti um alívio imediato quando o corpo de Floyd se afastou do meu pegando a arma de Oliver no chão, toquei de leve a ferida no pescoço a pressionando para que parasse de sangrar. E apesar de ser Floyd quem falava, eu era o foco de Oliver, seus olhos estavam em mim, querendo me dizer tantas coisas. — Agora podemos começar.
— Começar o quê? — perguntei, virando-me para o meu captor.
— Você vai apenas ser espectadora dessa vez, querida. — falou docemente para mim, sua mão se erguendo como se fosse tocar em meu rosto, mas eu me afastei. Ele não gostou disso, seus dentes rangeram e o vi apertar as mãos em punhos, como se se contivesse. — Mais tarde eu me divirto com você, agora, eu preciso cuidar do seu amado, e então estaremos livres para voltar ao nosso usual. — estremeci, aquela era um perspectiva terrível.
— Você me disse que essa merda seria um jogo, Floyd, você me disse para vir até aqui e que se eu o vencesse... — Então era isso. Era por isso que Oliver estava aqui. Floyd fez algum tipo de promessa e ele simplesmente acreditou?
— Oh, está aqui pelo prêmio que prometi? — pisquei, eu era o prêmio? — Eu sei, é tentador, ninguém consegue resistir a essa preciosidade. — Floyd havia se sentado no braço da poltrona, fitando a mim e Oliver com divertimento enquanto brincava com a arma em suas mãos, girando-a no dedo indicador como se segurasse um brinquedo ao invés de algo letal.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntei, olhando diretamente para Oliver, seus olhos pareceram culpados e ansiosos.
— Felicity... — Tentei não me distrair com a sensação quente e confortável que era ouvir meu nome na voz dele — Amor? Não quero que se preocupe, eu fiz o acordo com Floyd...
— Não! — Eu não percebi que tinha gritado, mas estava ficando fora de mim — Como ousa fazer algo tão estúpido, Oliver? — Eu tremia, completamente incapaz de me controlar, porque Floyd Lawton era o diabo em forma de gente, e não havia um modo de algo meramente bom vir de um acordo com ele.
— Me escute, eu aceitei porque era a única chance de chegar até você, e no final disso, quando eu vencer qualquer jogo idiota que ele tenha em mente, nós dois vamos voltar para casa.
Casa. O apartamento de Oliver o qual aprendi a chamar de lar nos últimos meses, eu gostava dessa ideia de voltar para algo familiar, mas eu sabia que seria impossível. Balancei a cabeça deixando a ilusão ir enquanto a realidade desastrosa se impunha. Lágrimas se acumulavam em meus olhos e um bolor se instaurara na minha garganta me impedindo de falar. Oliver estava errado, Floyd jamais permitiria que isso acontecesse, ele jamais me deixaria ir. Oliver apenas entrara numa armadilha ao acreditar que havia uma chance.
Nós dois nunca iríamos para casa.
— Bem, eu não disse isso exatamente. — Floyd se erguera do sofá, guardando a arma e ajeitando a gravata.
— Nós fizemos a porra de um acordo! — Oliver se exaltou — Eu vou jogar qualquer merda de joguinho que passa por sua cabeça perturbada e então ela estará livre! — Floyd apenas sorriu de um jeito assustador.
— Sim é um jogo, onde eu sou o jogador e você é o meu brinquedo. — Os olhos de Oliver vieram para mim como se se desculpasse — E agora é hora de me divertir, eu não acredito que você foi tão ingênuo... — Ele riu enquanto deslizava o dedo indicador pela da adaga que usara comigo, limpando um pouco do meu sangue que estava ali. — E como meu brinquedo eu posso fazer o que eu quiser com você, mas no momento, eu só tenho essa vontade absurda de vê-lo sofrer. Sabe o porquê?
— Esclareça-me; — provocou. — Estou ansioso para descobrir o que se passa na sua mente perturbada.
— Eu não consigo decidir se você tem coragem ou se é apenas estúpido demais. Eu poderia gostar de você em outras circunstâncias — Oliver riu, mas a risada estava desprovida de humor.
— Eu poderia prendê-lo, colocá-lo numa camisa de forças e jogá-lo dentro de uma cela acolchoada no asilo Arkham em outras circunstâncias. Ou apenas socar várias vezes o seu rosto num caso de pura satisfação pessoal. — ele ergueu os braços, mostrando o que o impedia — Você é um doente. Porque fazer tudo isso? Perseguir e atormentá-la? Porque gosta tanto de fazê-la sofrer?
— Porque eu posso? Porque eu quero? Porque eu vi algo belo e precioso e que eu queria que fosse apenas meu. Porque destruir a essência dela me dá prazer. Eu poderia te dar tantas respostas, mas você nunca compreenderia.
Ninguém conseguiria compreender aquela mente deturpada.
— Se seu interesse é todo nela, porque eu estou aqui?
— Porque você tocou em algo que é meu! — Eu me encolhi diante da ferocidade do tom dele, a conversa até então tinha estado num tom estranhamente normal — Porque você trouxe de volta a mulher que eu passei tanto tempo assustando, fazendo-a se encolher de medo, fazendo-a fugir de tudo e todos. Você a fez acreditar que há uma chance de ter uma vida normal, de ser feliz e de amar. E eu não gosto dessa mudança, eu a quero assustada e com medo, eu quero que ela veja com seus próprios olhos o preço a se pagar por se atrever a amar alguém. — ele fez uma pausa dramática e eu tentei respirar porque eu não o tinha feito enquanto escutava o quão profunda era a doença de Floyd — Você está aqui para que eu possa acabar com as esperanças dela. Porque o seu sofrimento, é o sofrimento dela. Todo mau que eu fizer à você se reverte para ela, não é um jogo interessante, Oliver? Eu me vingo de você por ter algo que me pertenço, e no processo ainda a destruo um pouco.
— Seu filho da p... — Oliver não terminou o insulto. Floyd acertara um soco em cheio na boca dele.
— Esse foi pelo seu belo presentinho. — indicou o próprio rosto machucado. — O resto vai ser por mero prazer. — disse e então continuou a bater em Oliver, como se ele fosse um saco de pancadas e Floyd descontasse toda a sua fúria. E para o meu desespero ele tinha muita fúria.
— Pare! — eu gritei, correndo em direção a Oliver, eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo, mas ainda assim, eu não poderia apenas assistir.
— Por quê? — Floyd cuspiu para mim, as íris de seus olhos pareciam dançar, dando a ele um ar ainda mais louco — Porque você o ama? — ele acusou, e girou o corpo ficando de frente para mim, com suas mãos salpicadas com sangue de Oliver e aquele semblante que mais parecia de um assassino e embora o meu instinto me dissesse para me afastar, eu finquei meus pés no chão e o encarei. Somente porque se a atenção dele estava em mim, então significava que ele não estava machucando Oliver. — Ainda tem medo de dizer? São só três palavrinhas, Felicity... — ele provocou, mas me mantive calada — Eu acho que fiz um belo trabalho com você, eu fiz isso não fiz? — perguntou com certo orgulho — Eu a fiz ter medo de três palavras, do que elas representam.
Ele achava que havia vencido só porque eu não disse que amava Oliver.
Eu não disse, mas Floyd estava errado. Não era porque eu temia a palavra, aliás, palavras não faziam diferença quando o sentimento é verdadeiro e amar Oliver era verdadeiro e especial, o sentimento tinha modificado tanto em mim e nele também. Amá-lo era algo íntimo, era belo, tinha sido transformador. E eu não queria macular a importância daquilo, dizendo à Floyd antes de dizer a Oliver. E ele merecia ser o primeiro a ouvir essas palavras da minha boca, o primeiro a saber que ninguém mais tocara meu coração da forma que ele tocara.
— Você precisa se lembrar de que amor é uma bala para o seu cérebro. — meu coração sentiu um aperto ao se lembrar de que ele havia dito algo similar no meu pesadelo, logo antes de matar Oliver. Ele retirou a arma de Oliver que estava consigo e a acariciou com reverência. Ele sorriu antes de coloca-las apontadas na cabeça de Oliver e minhas pernas quase perderam as forças. Ele iria fazer isso, ele iria matar Oliver e meu coração doía apenas em imaginar um mundo sem ele. — Mas balas acabarão com isso muito mais rápido, e eu quero me divertir um pouco mais. — Disse, tornando a guardar a arma.
Voltei a respirar.
Diversão para Floyd era o mesmo que tormento, para mim e Oliver, mas ao menos ainda tínhamos tempo, eu não sei o que faríamos com ele, mas eu precisava encontrar algo positivo quando todo o meu mundo parecia estar desabando na frente dos meus olhos.
Virei o rosto por um segundo desviando o olhar enquanto Floyd acertou Oliver mais uma vez, me perguntando por quanto mais tempo eu assistiria Oliver ser machucado antes de tomar uma decisão que mudasse isso.
***
Oliver Queen
Cuspi sangue no chão e ergui meus olhos buscando por ela. A minha visão ainda estava turva, embaçada, e eu acho que o desgraçado havia quebrado uma costela minha. Talvez duas. Mas eu ignoraria melhor a dor se pudesse vê-la.
E eu a vi.
Merda.
Ela estava assustada. Ela olhava para mim com aqueles olhos azuis cheios de lágrimas contidas, dentes que apertavam a carne dos lábios tão forte que eu temia que ela se machucasse, ela envolvia os próprios braços ao redor de si mesma como se quisesse acalentar o frio que sentia. E mesmo que ela aparentasse vulnerabilidade havia também uma certa fúria dentro dela, eu via além do seu exterior, eu sabia que nesse momento Felicity estava pensando em como me tirar dessa situação. Eu queria correr até ela, apertar seu corpo pequeno em meus braços e lhe garantir que tudo ficaria bem e impedir que ela fizesse alguma estupidez apenas para me proteger, como entrar em qualquer tipo de jogo estúpido de Floyd, como eu havia feito.
Eu sabia que ela temia que fosse me perder e que isso estava fazendo-a sofrer.
No momento em que aceitei jogar o jogo de Floyd apenas para me aproximar dela, eu já sabia o quanto Felicity iria ficar assustada com a minha presença ali. Porque a minha garota era forte, ela era uma lutadora e lutaria com todas as forças contra toda a merda que Floyd tentasse fazer com ela. Ela ergueria o seu queixo e aguentaria firme enquanto ele tentava a quebrar novamente, e ela era inteligente também. Em algum momento ela esperaria que Floyd abaixasse a guarda e tentaria fugir, voltar para mim.
Mas agora que eu estava aqui, tudo o que ela via era algo mais a perder.
Eu não queria ser uma vulnerabilidade para ela, eu só queria que ela soubesse que não há uma fodida maneira de eu deixar que ela passasse por isso outra vez. Nem que eu tivesse que aguentar uma ou duas costelas quebradas por ela. Ou fazer um sacrifício ainda maior.
Eu faria, sem hesitar.
E talvez isso acontecesse, mas eu não me importava comigo no momento. Eu estava aqui por ela, para dar a ela uma chance de escapar. Não importa quantos socos eu ganhasse de Floyd, eu aguentaria. Ao menos eu estava aqui, ao menos ela sabia o quanto ela era importante para mim.
Floyd parecia ter o estranho dom de ler a minha mente, como se soubesse o que eu estava tentando provar.
— Você pode ir, Oliver. — ele ofereceu dessa vez limpando as costas das mãos sujas com o meu sangue usando um lenço — Eu não preciso de você, tudo o que eu quero é Felicity e eu a tenho. Você é apenas uma inconveniência para mim. — Ergui meus olhos para ele, sem entender onde ele estava querendo chegar com aquilo, procurando pela armadilha — Ela pensa que você a ama, ela pensa que esse amor é algo bom. Mas não é, e eu irei provar. Eu te dou duas opções: você pode morrer aqui e agora, na frente dela, gravando mais esse horror que acredito, ela jamais conseguirá superar, além de que ela vai carregar para sempre a culpa de saber que você morreu por causa dela. — meu coração falhou, eu não queria que isso sequer passasse pela mente de Felicity, eu não queria que esse bastardo colocasse mais esse peso sobre ela. — Ou você pode ser menos nobre e mais inteligente, pode salvar a própria pele e entregar Felicity para mim.
Entregá-la?
Nunca.
— Oliver... — a voz dela veio naquele tom de súplica que abalou meu coração.
— Não ouse me pedir isso, Felicity! — eu gritei com fúria, eu odiava ficar irritado com ela. Mas naquele momento eu estava, porque eu faria qualquer coisa por Felicity, eu desistiria de tudo apenas por ela, eu seria qualquer coisa por ela. Eu atenderia qualquer pedido dela, mas não esse. Desistir dela? Jamais. Como eu poderia conviver comigo mesmo sabendo que permiti que Floyd a levasse? Sem que eu lutasse pela liberdade dela? Não era todo esse o ponto de amar? Estar disposto à fazer tudo, a sacrificar tudo por aquela única pessoa no mundo inteiro que faz seus dias terem sentido? Não é sobre colocar a felicidade do outro acima da sua? E considerando que Felicity era a minha felicidade, como eu poderia lhe dar as costas e simplesmente condená-la a todo esse horror? — Eu não posso, amor. — Falei com a voz embargada e sentindo as lágrimas se acumularem no canto dos meus olhos.
Eu precisava que ela estivesse bem e feliz.
Eu olhei para ela.
Tão desolada.
Tão triste e sem rumo.
Ela sabia que estávamos perto demais de um adeus.
O que ela não sabia, era que ainda havia uma chance dela escapar disso. Uma vez que ela saísse daqui e que não houvesse mais a ameaça de Floyd na vida dela, ela ainda teria uma chance de viver. Mesmo sem mim na vida dela. Ela tinha amigos e família, ela voltaria a trabalhar no bar, se divertiria com Helena e Tommy, ela teria em Sara uma boa amiga também, eu tinha certeza de que a adotaria como uma irmã. E havia Gordon que estaria sempre agindo como o tio protetor, ela finalmente poderia voltar a ver a mãe. Mesmo sem mim, ela estaria cercada de amor, e eu não poderia desejar nada diferente para ela.
Eu só queria que ela pudesse ver o que eu via.
Ainda havia esperanças.
— Morte honrosa então? — Floyd interrompeu meus pensamentos.
— Eu posso...? — virei o rosto para Floyd, sentindo-me estranhamente cansado, o peso emocional e o desgaste físico caiam sobre mim, e eu tentava a todo custo não deixar que isso me impedisse de colocar ordem na minha mente e fazer a coisa certa.
— O quê?
— Eu apenas... — respirei fundo sentindo uma dor licitante nas costas ao fazê-lo — Eu só quero abraçá-la uma última vez. — pedi num sopro de voz, eu parecia derrotado pronto para aceitar o meu destino, e Floyd aprovava isso.
— Um último desejo? — ele riu — Oh, isso é adorável. Está a ponto de morrer por causa dela e ela ainda é seu desejo?
— Ela sempre será. — falei fitando Felicity com amor, ela suspirou e meneou a cabeça olhando para mim como se dissesse para que eu não fizesse aquilo, uma lágrima solitária escorria por seu rosto mostrando-me o quanto aquilo a machucava.
— Sempre vai ser um espaço de tempo muito curto para você. — ele desprezou.
— Floyd... — Felicity se aproximou dele, eu notei como cada parte do corpo dela lutava contra aquele ato, mas ainda assim ela seguiu em frente. — Eu posso...
— Não faça isso, Felicity! — Pedi, sabendo que assim como eu estava disposto a tudo por ela Felicity também estava disposta a fazer tudo por mim, eu sentia isso no olhar dela para mim, na forma como o meu coração reagia à esse simples olhar.
O amor é tão tragicamente bonito.
— Pronta para implorar? Me oferecer qualquer coisa pelo seu amado? Deixe-me poupa-la do trabalho. Você o ama, mas não deveria, eu te disse Felicity, eu disse que você era minha, mas você ousou a ser de outro. — Floyd explicou, como se explicasse algo simples à uma criança — Você deu a ele o seu amor, seu coração e o seu corpo, quando se negou a me dar qualquer um dos três, e agora eu terei que consertar os seus erros, querida. Eu preciso que ele deixe de existir para que eu possa transformá-la novamente na garota acuada e com medo, na menina atormentada que sabe que não há uma fodida maneira de se livrar de mim. E só então, quando não restar nada além de escuridão dentro de você, eu tomarei tudo o que sempre quis para mim. Tudo o que você deu a ele, quando era meu por direito.
O discurso dele quase me fez quase vomitar a bile.
— Eu nunca deixarei que encoste em um fio de cabelo dela. — eu não faço ideia de onde consegui forças para gritar daquele jeito. Eu sequer estava em posição de fazer ou falar qualquer coisa, mas ouvi-lo dizer aquelas coisas para ela, ativava um instinto de forte proteção em mim. E tudo o que havia na minha mente era essa necessidade de manter esse monstro sórdido o mais longe possível dela.
— Você quer dizer assim? — os dedos dele se afundaram nos cabelos dela, meu estômago embrulhou, eu tentei inutilmente me soltar daquelas malditas algemas.
— Solte-a! Tire suas mãos sujas de cima dela! — ele sorriu e afastou dela parecendo divertido com o meu descontrole, que não desapareceu, porque mesmo que Floyd tenha se afastado, dessa vez Felicity caminhou para ele, parecendo decidida.
— Deve haver um outro jeito, Floyd... Nós podemos ir embora, fugir, apenas eu e você... eu faço, qualquer coisa. — Ela falou naquele tom doce e suave, mas a voz dela parecia desprovida de vida, a expressão triste e sombria. Fechei meus olhos por um instante quando ela respirou fundo e colocou a própria mão sobre a dele, eu não conseguia olhar para o que ela estava disposta a fazer apenas para que eu vivesse.
Porque tinha que ser tão doloroso?
— Sua oferta é tentadora, querida, mas você está fazendo isso por ele. — ele a olhou, controlando a raiva no próprio tom — Você me desobedeceu e eu preciso puni-la por isso. A sua penitência será assistir enquanto ele morre lentamente, ver o momento em que a luz deixa seus olhos enquanto percebe que nada disso teria acontecido se não fosse por você.
Eu a via tremer, seus olhos grandes e brilhando com as lágrimas estavam em mim, choque passando por seu rosto enquanto aos pouco eu via a culpa tomar conta dela. Felicity moveu os lábios dizendo um “eu sinto muito”, mas nenhum som saiu da boca dela.
— Felicity... — eu meneei a cabeça, lhe dizendo para não acreditar nele. — Mesmo que algo ruim aconteça a mim hoje, você precisa saber que não é sua culpa. — eu precisava tirar aquela culpa dela — Foi minha escolha, eu escolhi você, eu sempre vou escolher você. — Ela sorriu tristemente para mim como se dissesse: olhe onde essa escolha te trouxe.
— Oh, tocante, eu até deixarei que atenda o último pedido dele. — Floyd disse — Porque no fundo eu sou misericordioso e tenho pena do pobre homem que se atreveu a amá-la sem saber as consequências disso. — ele falava olhando para Felicity dessa vez, minha garota sustentou o olhar, ainda que as lágrimas caíssem e o coração dela estivesse temeroso por mim, ela se fez de forte para Floyd. Eu não sabia quanto tempo mais ela aguentaria, cada frase que saía da boca dele era precisamente pontuada para atingi-la, quebrá-la de alguma forma. — Ou vai ver eu apenas quero que ele a tenha em seus braços uma última vez, para que ele perceba que isso nunca mais vai acontecer, que todos os seus próximos abraços serão meus.
— Eu agradeço a sua bondade. — Floyd trincou os dentes nenhum pouco satisfeito quando Felicity lhe deu a resposta atrevida e sarcástica. Ela era mais dura do que mostrava.
Felicity caminhou até mim sob o olhar atento e raivoso de Floyd.
Os braços dela me envolveram com um aperto quente e conhecido. Meu corpo doía, tudo em mim doía, e ainda assim eu queria que ela me apertasse mais forte, eu queria sentir mais dela. Eu inspirei fundo mesmo sabendo que isso causava pontadas nas minhas costelas, passei o meu nariz em seus cabelos, seu rosto, sentindo o cheiro suave dela. Sentindo o calor da pele dela na minha, das lágrimas quentes que caiam de seus olhos e se misturavam as minhas próprias.
Pode um abraço fazer o tempo parar e tudo ao nosso redor desaparecer?
Porque eu juro, no momento em que a senti tão perto foi como se a terra parasse de girar, tudo parou e assim permaneceu enquanto o meu coração explodia em amor, tristeza, e paz. Sim, paz. Porque eu amava Felicity Smoak e ela me amava também, mesmo não dizendo as palavras, nada nesse mundo ou em outro poderia mudar isso, nada apagaria a nossa história, nada tiraria de mim o lugar dentro do coração dela.
Ainda que tentassem quebrá-lo, a minha lembrança ainda estaria lá, me certificando de reconstruí-lo, de lembrá-la que é isso o que amor faz. Ele conserta o que está quebrado, ele cuida do que está doente, e cura qualquer ferida, não importa o quão profunda ela pareça.
Eu a senti estremecer quando murmurei um pedido inesperado em seu ouvido, seus belos olhos azuis se tornaram maiores enquanto ela olhava diretamente nos meus, nervosa e apreensiva enquanto seus braços rodeavam o meu corpo num abraço mais forte, suas mãos descendo por minhas costas até a parte inferior.
— Não deixe esse ser o nosso último abraço. — eu sussurrei enquanto ela assentia atordoada para mim.
— Isso é o suficiente. — Floyd disse puxando Felicity pelo cabelo e a afastando bruscamente de mim — Agora é a minha vez. — ele veio na minha direção com uma adaga na mão, e com a outra ele me erguia pelo colarinho da blusa. O olho dele, aquele que não estava tapado pelo tapa olho não parecia humano, mas sim de uma criatura sem alma. Não era apenas assustador, era triste. — Eu cogitei matá-lo com sua própria arma, mas seria mais rápido e menos prazeroso, e eu quero que Felicity tenha uma imagem mais sangrenta e agonizante de você sofrendo e morrendo aos poucos — eu deveria estar preocupado, ele tinha a adaga pressionada em minha barriga, eu sentia a pressão da ponta metálica que rasgara o tecido da blusa e chegava a pele, eu até mesmo podia sentir meus músculos se contraindo enquanto ela afundava, porém meus olhos estavam em Felicity enquanto assenti para ela num menear mínimo de cabeça.
Floyd notou isso. Ele se virou, o sorriso cínico em sua boca desapareceu no instante em que a viu, com a arma nas mãos trêmulas apontando na direção dele.
— O que você... — seu sorriso morreu e as palavras sumiram assim que a primeira bala o atingiu na perna, ele urrou de dor e foi a passos trôpegos na direção dela, com fúria, eu queria me soltar, mas as malditas algemas não permitiam, e meu corpo parecia ainda mais pesado. Eu me senti escorregar pela parede, pressionando ambas as mãos na ferida latejante no abdômen enquanto caía de joelhos.
— Espero que o diabo aprecie a sua companhia. — Felicity disse e então escutei o segundo tiro e o vi cair ao chão, eu não vi direto porque minha visão falhava, mas parecia ter sido um tiro perfeito, direto no coração, não que eu acreditasse que ele tivesse um. Sangue se espalhava pelo chão enquanto Floyd não tinha forças para sequer se mover, ele apenas permaneceu caído de bruços agonizando de dor. Apesar de ser um policial e estar acostumado a todo esse tipo de horror, ver alguém morrer não era algo bonito. Mas eu não iria fingir que não estava aliviado de saber que ele não era mais uma ameaça a Felicity.
Minha garota por sua vez, parecia desesperada.
As mãos dela tremiam, ela jogou a arma para longe de si como se apenas tocar nela queimasse, seus olhos doces vieram para mim preocupados e com medo. Eu não entendia. Nós vencemos, Floyd não poderia mais fazer à ela algum mal, então porque ela parecia tão aflita?
Ela pulou o corpo de Floyd e veio até mim com pressa, se abaixando no chão e ficando a minha frente. Eu tentei sorrir enquanto fitava seu rosto belo se materializar na minha frente, eu poderia passar o resto da minha vida apenas olhando para ela, mas a luz se apagou de repente e seu rosto desapareceu.
— Oliver? Oliver? — ela me chamou, suas mãos quentes envolvendo o meu rosto e eu suspirei em deleite por sentir seu toque mais uma vez — Abra os seus olhos, por favor, só abra os olhos. Vai ficar tudo bem, apenas fique comigo, ok? Fique comigo! Não se atreva a me deixar agora! — seu tom foi exigente.
Me esforcei para atender ao pedido dela.
— Para aonde mais eu iria? — tentei brincar, eu não queria deixá-la preocupada. Esse tinha sido o meu plano, eu sabia que havia uma chance enorme de que desse tudo errado, mas eu apenas queria garantir que ela tivesse uma chance de se salvar. Por isso eu trouxera a arma reserva e a escondi em minhas costas por baixo da blusa, eu só precisava que ela estivesse perto o suficiente para pegá-la e salvar a si mesma.
— Por favor, me diga que está bem. — ela pediu temerosa de que a resposta fosse o contrário disso.
— Eu estou bem. — Ela não acreditou em mim, seus olhos foram para baixo onde minhas mãos pressionavam o ferimento, eu sabia que parecia feio, tinha um monte de sangue ali. Mas eu estava bem. Possivelmente sangrando até a morte? Sim. Mas Felicity estava a salvo e isso era o suficiente para me acalmar e trazer essa estranha sensação de bem estar. — Eu preciso que saia daqui e procure ajuda. — eu falei com ela
— Tudo bem, — ela disse sem muita convicção, mas deixando a postura mais ereta se preparando para ir — Apenas me prometa que vai manter seus olhos abertos e não durma até eu voltar, eu vou... — ela não terminou a frase, mas eu havia escutado a explosão de um novo tiro e olhei para Felicity tentando entender de onde ele tinha vindo. Ela apenas ergueu os olhos para mim, a boca aberta num “o” horrorizado.
— Amor? — consegui forças para murmurar. — O que aconteceu? — movi a cabeça pesada na direção de onde pensei ter vindo o tiro e gelei. A minha visão estava um pouco embaçada, mas eu vi Floyd ainda caído ao chão, eu vi o momento em que o olho dele ficou estático e ele morreu, com aquele maldito sorriso perverso estampado no rosto e uma arma em sua mão mostrando o seu último ato. — Está machucada, amor?
— Não é nada. — Ela disse me tranquilizando e eu olhei para baixo. Havia sangue manchando a roupa dela, sangue que não era meu.
— Você está sangrando, ele atirou em você. — constatei ao vê-la erguer uma das mãos trêmulas e sujas com o próprio sangue. Meu coração pareceu pesar uma tonelada, eu não conseguia respirar. Ela me disse algo, mas eu não compreendi, o zumbido em meus ouvidos se tornando mais alto, a escuridão querendo me vencer — Fique comigo. — Pedi, meu corpo relaxando sem o meu consentimento. Os lábios dela se moveram de uma forma sensual. Eu nunca vi uma boca tão perfeita quanto a dela, tentei me concentrar no som que faziam.
Eu amo você.
Pensei tê-la escutado dizer e sorri, eu gostaria de fitar os olhos dela por mais tempo, ter certeza de que ela ainda estava aqui e bem, mas minhas pálpebras estavam pesadas demais e a escuridão parecia tão convidativa.
***
Bip. Bip. Bip.
Era uma mudança e tanto. Eu tinha me acostumado com o som doce da voz de Felicity dizendo que me amava, a frase se repetia em minha mente incontáveis vezes como se fosse o disco da minha música favorita e eu não conseguia parar de escutá-la por isso o mantinha no replay. Mas a medida que fui me tornando mais consciente o som da voz dela foi se afastando para longe, eu queria me agarrar a ele, a sensação de calma que a voz dela me trazia, mas não consegui. E quando a voz dela se foi tudo o que escutei foi apenas um irritante e constante bip.
Abri meus olhos ignorando o desconforto que era fazê-lo, naquele momento eu só precisava que o irritante bip parasse para que eu voltasse a escutar a voz de Felicity.
— Você acordou! Finalmente! — eu franzi o cenho para a loira sorridente à minha frente, pisquei várias vezes me certificando de que eu estava vendo bem, e quando percebi quem era meu rosto se fechou numa carranca. Aquela altura eu já havia assimilado que estava num quarto de hospital, as lembranças de tudo o que acontecera voltando de uma única vez. — Você poderia ao menos fingir que está feliz por me ver, Ollie? — Eu não podia, simplesmente porque por mais que eu considerasse Sara uma irmã, ela não era a loira que eu queria ver agora.
Minha última lembrança de Felicity era vaga e imprecisa. Floyd em seu último suspiro atirara nela, e se Felicity não era a primeira pessoa que eu via quando abria os meus olhos isso significava que algo estava muito errado.
— Onde está Felicity? Ela está bem? Porque não está aqui? Sara? — perguntei, me remexendo sobre a cama tentando me mover e remover as agulhas em mim. Inferno, eu não conseguia esperar por respostas eu iria ir atrás dela.
— Ela está bem! Você precisa ir com calma, Oliver! — o inferno que eu precisava ir com calma, eu sabia que estava no hospital, mas Felicity não estava ao meu lado, minha última lembrança era dela sangrando e isso era o suficiente para me deixar louco. Se ela estava machucada e não estava perto de mim, então... Não queria completar aquele pensamento. — Você não deveria estar agitado assim.
— Então me dê as merdas das minhas respostas para que eu possa me acalmar! — reclamei mal humorado, sabendo que mesmo as respostas não seriam capazes de me acalmar.
— Você deveria estar se recuperando, eu não deveria sobrecarregá-lo com informações. — falou incerta, me deixando ainda mais ansioso.
— Sara, fale agora ou eu mesmo me levanto dessa cama e irei procurá-la. — ameacei novamente tentando me sentar ignorando a pontada de dor logo abaixo o meu estômago.
— Você é tão irritantemente teimoso! Felicity está bem. — trinquei os dentes, eu só iria acreditar nisso quando a visse com meus próprios olhos e me certificasse que não havia nenhum arranhão nela — Ela está! O ferimento dela foi superficial, a bala a atingiu de raspão, ela mal precisou de um curativo, Oliver. — insistiu, colocando uma mão em meu ombro para me acalmar e me forçando a deitar novamente. Eu respirei um pouco mais devagar enquanto Sara continuava. — Ela não deixou o seu lado da cama nem por um momento, ela ficava repetindo que te amava, e que essa seria a primeira coisa que ela iria dizer quando você abrisse os seus olhos. Romântico, não é?
Eu dei um meio sorriso ao escutar as palavras de Sara.
— Ela está bem. — repeti para mim mesmo, deixando a constatação daquilo me acalmar um pouco. — Então onde ela está?
— Com Gordon, ele está tendo a alta nesse momento e ela foi passar um tempo com ele, já que mesmo não fazendo nada além de dormir você tem monopolizado toda a atenção dela. — respondeu, puxando a cadeira ao lado da cama e se sentado.
— Então o que aconteceu exatamente? Como nos acharam?
— Como se você não soubesse! Oliver Jonas Queen, você é um bastardo inteligente, mas nunca mais ouse me deixar as cegas desse jeito! — Me repreendeu, sua mão fechada em punho socando de leve o meu ombro.
— Aí. — reclamei do soco — Então você pegou minhas dicas?
— Todo aquele papo de Felicity ser a coisa mais importante no seu mundo, e quando eu digo que temos uma pista dela você diz que tem um lugar mais importante para ir? Oh, por favor! Não me ofenda, eu sou loira, mas não aquele tipo de loira. Foi meio que óbvio. — eu não estava certo se Sara entenderia, mas eu precisava de um backup, porque eu sabia que Floyd jamais honraria com a palavra e eu não queria deixar Felicity apenas por sua conta caso algo desse errado. — Mas ainda assim, foi assustador ir a cegas e com tão pouco tempo para montar uma tática ou ainda sem saber qual era o seu plano. Rastreamos a moto da polícia que você usou, e meu pai concordou que seria melhor mandar uma equipe para Coast City, seguindo o plano original para não levantar suspeitas, enquanto Diggle e eu iriamos liderar outra até você. Infelizmente nós não nos aproximamos muito e esperamos por algum tipo de aviso, e só entramos na casa quando ouvimos o primeiro tiro, e quando chegamos ao porão Felicity estava chorando sobre o seu corpo... Merda, Oliver! Eu pensei que tínhamos perdido você.
— Sabe que eu jamais a deixaria ter outro parceiro, se eu morresse eu seria sua assombração pessoal. — brinquei, mas Sara não sorriu. Ela realmente deve ter ficado assustada.
— Devíamos ter entrado antes. — se recriminou.
— Não. — neguei — Foi o tempo certo, antes disso poderia ter deixado as coisas um caos, e Floyd poderia ter feito algo...
— Como esfaquear você? — a pergunta foi retórica.
—...algo com Felicity. — pontuei fazendo Sara suspirar alto.
— Foi por ela que você se arriscou entrou no jogo dele, não é?
— Foram vários motivos, todos eles extremamente egoístas. Eu precisava vê-la, saber que ela estava bem, e eu queria dar à ela uma chance de escapar. Eu só pensei em entrar até lá, distraí-lo o suficiente e entregar uma arma à ela. Eu queria que ela se defendesse, ela não merecia passar por tudo aquilo outra vez.
— Eu não vejo nada de egoísta em seus motivos. — ela sorriu de um jeito que me irritava — Eu só vi um homem perdidamente apaixonado e disposto a tudo, inclusive a arriscar a própria vida, apenas para que a mulher que ele ama não sofresse. É tragicamente romântico.
— Pare com isso, Sara.
— Oh, fica encabulado com meus elogios? — seu tom irritante foi proposital.
— Você é tão irritante. — devolvi, mas sim eu estava encabulado.
— É um dom. — jogou o cabelo por cima do ombro, sua atenção indo ao celular que apitava indicando a chegada de uma nova mensagem.
— É Felicity? — perguntei ansioso.
— Sim, acalme seu coração, ela disse que está ansiosa para falar com você e que em breve estará aqui. — meu coração bateu mais rápido, o monitor cardíaco deixando isso claro para Sara — Oh, coração acelerado, e um sorriso acompanhado de olhos apaixonados! Eu nunca pensei que viveria para ver isso acontecer com você, sempre tão fechado com as mulheres, nunca se comprometendo, usando-as apenas para sexo...
— Você fala como se eu fosse um canalha.
— Você sabe que era um. — respondeu — Em sua defesa um canalha honesto, nunca prometeu nada as pobres coitadas, mas ainda assim sempre havia um ou outra iludida que acreditava ser capaz de ter mais do inatingível Oliver Queen. — Aquele assunto me incomodava, eu não era mais assim, não desde Felicity.
— Você fala como se você fosse um exemplo de relacionamentos saudáveis. — Mudei o foco para Sara.
— Eu sei. — ela pareceu chateada e me senti um pouco mal por trazer isso — Mas ver você com Felicity, o quanto vocês se amam, o quanto se apaixonar fez bem tanto à você quanto a ela, me fez perceber o quanto eu quero algo assim na vida também. Você estava certo, eu saboto meus relacionamentos, mas se você conseguiu alguém como Felicity, talvez exista alguém para mim também. — ela confessou encarando os próprios dedos.
— Sara Lance, isso tem a ver com alguém em especial? — pressionei, já sabendo a resposta.
— Talvez. E como eu sou nova nisso de se apaixonar eu vou precisar da sua ajuda, por que eu não sei como chegar nesse cara, não é como se eu pudesse basear isso em sexo. — ergui uma das sobrancelhas, encarando seu sorriso suspeito já prevendo que ela me colocaria em algum tipo grande de encrenca — Eu quero um tempo para conhece-lo melhor, por isso eu estou pensando... Quando você voltar a trabalhar, talvez eu te machuque intencionalmente, mas só um pouquinho, apenas o suficiente para te acompanhar ao hospital e ver meu médico de sorriso encantador.
— Dr. Sorriso? Eu não conheço nenhum, ele é dentista? — Eu disse, meu olhar se desviando rapidamente para a pessoa encostada no batente da porta cuja presença Sara ignorava.
— Não se faça de besta! O moreno alto com olhos castanhos doces e meigos. — Oh, isso estava ficando cada vez melhor, fiz minha melhor cara de quem não sabia quem era. — Dr. Ray Palmer... — ela falou e eu vi uma emoção diferente passar por seus olhos — Eu sei que ele é diferente, todo certinho e educado e geralmente eu escolho os caras ou garotas fodidas, para um relacionamento sem futuro. Mas eu realmente acho que gosto dele. — as bochechas de Sara ficaram vermelhas — Eu vou jogar pesado, e como meu parceiro eu vou precisar que você me ajude, eu prometo não te machucar muito. — me cutucou com o dedo indicador de um jeito que possivelmente deixaria um hematoma, sutileza nunca tinha sido o forte de Sara — Diga algo, Oliver, não me deixe apenas falando sozinha!
— Estou calado para te ajudar. — acenei com a cabeça em direção a porta.
— Você não precisa machucar alguém só para me ver, Sara. — A pessoa a porta se manifestou exibindo um sorriso. Sara olhou por cima dos ombros e corou mais ainda. Oh, aquilo era divertido.
— Seu idiota! Não é porque você quase morreu e está numa cama de hospital que eu não vou quebrar o seu nariz.— ela rosnou a ameaça para mim entre os dentes.
— Ei, eu já estou bastante quebrado, e como o Dr. Sorriso disse, você não precisa me machucar para vê-lo. Eu tenho certeza que ele está bastante interessando ou não teria ficado parado na porta te ouvindo falar sobre ele com um sorriso bobo nos lábios. — apontei, e o médico colocou as mãos nos bolsos parecendo encabulado.
— Eu quis dizer machucar hipoteticamente, não é como se eu fosse realmente quebrar o nariz dele. — Sara se explicou lançando um sorriso doce para o médico, como se fosse uma pessoa inofensiva. Oh, merda minha melhor amiga não apenas gostava dele, Sara Lance havia sido fisgada e pela maneira que o tal Dr. Sorriso sorria para ela, eu estava claramente sobrando ali. — Mesmo que ele mereça.
— Podemos discutir sobre essa sua vontade de quebrar narizes mais tarde, num jantar talvez...? — ela sorriu animada para ele.
— Podem, por favor, parar com as preliminares de olhares? — interrompi o momento, não porque não era interessante ver minha melhor amiga flertar tão desastrosamente, eu conseguia pensar em milhares de jeitos de constrangê-la ainda mais, mas tinha algo muito mais importante e bonito para focar toda a minha atenção. — Porque a minha namorada está na porta e eu quero um tempo a sós com ela. — Felicity estava ali, com o cabelo um pouco revoltado e as bochechas coradas, parecendo que tinha corrido para chegar até mim. — talvez tenha algumas preliminares de olhares também e isso pode ser constrangedor. — nossos olhares se cruzaram, um sorriso aliviado e divertido se insinuou nos lábios dela — Aliás, a maneira que meu coração está batendo mais rápido e todo mundo está vendo, já é constrangedora o suficiente.
Sara riu, e depois que Dr. Palmer me deixou algumas recomendações médicas, para meu completo alívio, os dois partiram.
— Oi. — eu disse enquanto ela fechava a porta atrás de si e finalmente nos vimos sozinhos — Como está? Machucada? — Não me segurei, ela tinha passado por muito eu precisava saber como ela se sentia.
— Eu te amo. — Felicity soltou de uma única vez, a voz dela emocionada, seu rosto expressando nada menos do que amor. Eu sentia que Felicity me amava, mas ouvi-la dizer aquelas três palavras, poder ver o quanto ela me amava e que não havia nenhum resquício de medo de amar, mas apenas medo de não poder amar. Era uma mudança boa. — Você me ouviu? Eu amo você. Amo você, Oliver Queen. — Ela repetiu enfaticamente andando até mim, e só então percebi que estava tão deslumbrado por ela, por suas palavras, que não havia dito nada em resposta.
— É bom ouvir isso. — eu disse olhando para ela. Como alguém conseguia ser tão linda? Seria sempre assim? Toda a vez que eu a visse ela roubaria o meu fôlego e faria meu coração acelerar? — Eu escutei da primeira vez que disse naquele porão, mas não tinha certeza se era real ou coisa da minha mente cansada.
— Me desculpe ter demorado tanto para dizer. — ela disse, se aproximando ainda hesitante, colocando uma das mãos sobre a minha.
— Não importa. — meneei com a cabeça acariciando a delicada mão, era tão bom poder sentir a pele dela com a minha — Você não demorou em sentir.
— Não demorei. — sorriu.
— Venha aqui mais perto antes que eu desobedeça toda ordem médica e vá até você e a envolva em meus braços — pedi, me arrastando um pouco na cama e liberando espaço para ela se deitar ao meu lado, um toque de mãos não era o suficiente para mim, eu precisava sentir o calor da proximidade com o corpo dela, sentir a pulsação, o cheiro, a respiração dela, ter a certeza de que ela estava bem.
— Você não faria isso.
— Quer pagar para ver? — Ela não fazia ideia do quanto eu precisava dela.
— Você é tão mandão. — ela reclamou com um beicinho, mas atendeu ao meu pedido se acomodando ao meu lado na estreita cama de hospital. Ela tentou não me tocar temendo me machucar, eu acho, mas eu precisava demais dela para me importar. Passei meu braço por debaixo da cabeça dela, e mesmo tentando ser o mais delicada possível, ela não conseguiu evitar se aninhar em mim, era como se fosse algo instintivo em nós. Bastava estar perto, que nossos corpos simplesmente encontravam a melhor maneira de se encaixarem.
Ficamos assim por um tempo.
Era bom ter um momento de calma, para apenas sentir o coração um do outro, para perceber que finalmente aquilo tinha acabado. Nós quase nos perdemos, nós quase não tivemos a chance de um amanhã. Mas acabou. Nós poderíamos seguir em frente agora, nós poderíamos seguir nossos planos e construir todo um futuro juntos.
Nós vencemos.
Eu apenas não esperava que tivéssemos perdido nada no processo.
— Você está bem? — virei a cabeça na direção dela, fitando o seu rosto enquanto liderava meus lábios a tocarem a pele suave da testa dela.
— Oliver... Você passou por uma cirurgia e os últimos três dias nessa cama de hospital, inconsciente. — a voz dela quebrou algumas, me revelando o quanto aquilo havia a assustado. — Era eu quem deveria perguntar se você está bem não o contrário.
— Você sabe o que eu quis dizer. — Ela suspirou seus olhos se desviando dos meus, seus dedos perdendo um tempo maior enquanto brincavam com os meus, eu sabia que ela estava evitando a pergunta principal, mas sabia também que ela precisa de um tempo para responder. Eu a dei, porque pela primeira vez, não havia urgência em ir com pressa, não precisávamos correr com nada.
Havia tempo para viver.
Tempo para o amor curar qualquer ferida.
— Há uma parte de mim que está atormentada, eu fico revendo aquele momento na minha mente, o momento em que eu o matei. E não consigo deixar de pensar o quão terrível é tirar a vida de alguém, ainda que essa pessoa seja o pior tipo de pessoa e que o mundo é um lugar melhor sem ele. — ela estremeceu, como se relembrasse daquele momento e eu apertei a mão dela, lembrando-a de que ela estava aqui comigo, e não naquele porão. — Mas a maior parte eu me sinto apenas aliviada porque acabou, eu digo a mim mesma que é errado eu me sentir assim...
— Hey... Não é errado se sentir assim! — eu disse suavemente, porém com intensidade — Não se culpe, você é uma boa pessoa a qual coisas ruins aconteceram. Você fez o que foi necessário, sabe que se não tivesse feito o que fez, algo muito pior poderia ter acontecido. — ela suspirou, fiquei contente por ver que ela estava me compreendendo, que eu estava sendo capaz de acalmá-la um pouco sobre isso. — Eu poderia ter te perdido, Felicity, eu sei que pedir a você que usasse aquela arma foi demais, mas eu nunca duvidei que você fosse capaz de nos salvar.
— Eu sei. — ela concordou — Mas isso não muda o fato de que foi algo...
— Feio. — completei para ela que apenas assentiu.
Aquela era uma conversa pesada. Matar alguém não era algo fácil de lidar, como um policial eu tive vários momentos de casos de vida ou morte em que matar foi o único caminho encontrado. E eu odiava que Felicity carregasse esse peso com ela, mas ela era forte, superaria isso, nós superaríamos isso. Mas por enquanto era melhor apenas mudar o foco da conversa.
— Está machucada em algum lugar? — ela negou sem muita convicção — Felicity? Eu terei que fazer uma inspeção completa quando eu ficar melhor. — ela sorriu de um jeito malditamente sensual que fez o monitor que marcava as batidas do meu coração ir ainda mais rápido. Ela acabava comigo. — Eu vou beijar cada arranhão, cada pequeno machucado, apenas porque minha boca tem propriedades medicinais. — prometi a ela, e seu sorriso se alargou.
— Apenas você, Oliver Queen, ainda deitado em uma cama de hospital é capaz de falar algo sexual.
— Você ama isso em mim.
— Amo. — eu gostava de como a palavras vinha fácil na boca dela.
— E eu amo tudo em você. — confessei, colocando uma das mãos em seu rosto e puxando-o para mim, deixando que os nossos lábios roçassem um no outro sem pressa, apenas sentindo a pressão suave dos lábios se encaixando, o gosto doce e excitante quando minha língua os contornou fazendo-os se entreabrirem para mim. Apenas deixando que aquele beijo provocasse um turbilhão de pensamentos bons em mim todos eles relacionados a Felicity — Case-se comigo, amor. — falei entre um beijo e outro, a frase simplesmente escapou sem que eu percebesse me deixando tão surpreso quanto ela.
— O quê? — Felicity se afastou um pouco e eu pensei que a tivesse assustado, seus olhos me fitavam com evidente surpresa, mas havia tanto amor neles também que eu deixei que isso fortalecesse aquela ideia tão inesperada, mas que agora parecia tão certa pra mim, para nós.
— Diga que se casa comigo. — insisti e ela mordeu o lábio inferior, evitando uma resposta imediata — Eu não estou dizendo para apressarmos isso, nós fizermos planos, e eu quero curtir mais do tempo para namorar você, e eu sequer tenho um anel. Mas depois de tudo o que passamos, eu apenas gostaria da sua promessa de que, um dia, você irá se casar comigo.
Ela suspirou, não de um jeito cansado, mas do jeito que suspiramos quando algo toca o nosso coração. Eu olhei para seu rosto, seus olhos estavam mais cálidos e risonhos, sua boca com um sorriso especial que me fazia sorrir de volta para ela querendo provar daquele sorriso. Mas no momento em que seus lábios se moveram, prontos para me dar uma resposta, alguém entrou no quarto arranhando a garganta.
— Pelo desespero do monitor cardíaco eu pensei que você estivesse tendo um ataque do coração. — olhei para a figura a porta. Jim Gordon estava ali, com uma bengala apoiada nas mãos lhe dando suporte para caminhar, ele parecia bem fisicamente, mas a carranca em seu rosto me dizia que ele desaprovava o que via: Felicity e eu, juntos na cama. Felicity imediatamente se desvencilhou de meus braços, permanecendo sentada na cama e nossas mãos unidas. — Eu não vou dizer que gostei do que estou vendo aqui, mas pelo menos eu sei que Oliver não está em condições de fazer nada, então estou mais tranquilo.
Oh, ele não sabe de nada.
Eu estava dolorido, mas eu suportaria qualquer dor apenas para fazer várias coisas que eu não deveria com Felicity, mas o maldito monitor cardíaco iria indicar se fôssemos muito longe, e ainda estávamos no hospital... Não que a fantasia de sexo no hospital não fosse boa. Olhei para o monitor que se acelerou novamente com a direção dos meus pensamentos, era melhor eu me controlar, Felicity e eu teríamos tempo para nós.
Todo o tempo do mundo.
E eu tinha muitas ideias de como aproveitar esse tempo com ela.
— Você apenas interrompeu um quase pedido de casamento. — eu disse com simplicidade querendo ser honesto ao mesmo tempo em que mudava a direção dos meus pensamentos, Gordon arregalou os olhos e pareceu suar frio, quase retirei minhas palavras, o homem tinha em mim um olhar assassino no rosto, estava tenso e parecia prestes a ter um ataque do coração.
— Você a engravidou? — A pergunta soou como uma acusação que me deixou completamente sem reação enquanto Felicity simplesmente segurou a risada. Porque ele havia chegado à essa conclusão?
— OH, MEU DEUS! EU SEREI AVÓ! — a exclamação veio alta e clara, preenchendo cada canto do quarto, e eu não duvidava que tivesse sido ouvida em outros cantos do hospital.
— O quê? — perguntei atordoado para a mulher loira que entrava no quarto, com olhos brilhantes e saltitando de empolgação.
— Eu estou tão feliz por você, querida! — ela veio até nós, abraçando Felicity tão apertado que quase a sufocava — E este é o pai do bebê? — Ela olhou para mim com um sorriso sincero e animado — Tão bonito! Vocês terão lindos bebês! Eu estou tão feliz, querida. — ela abraçou Felicity novamente, que tentava falar, mas a mulher simplesmente não permitia — Você finalmente encontrou a felicidade que merecia... — ela disse, ajeitando os cabelos de Felicity parecendo tão orgulhosa dela.
— Mãe, eu... — Oh, eu deveria ter deduzido que ela era a mãe de Felicity.
— E ao lado desse policial bonitão. — piscou como se a parabenizasse — Seus filhos terão belos e profundos olhos azuis e...
— Mãe, eu não estou grávida! — Felicity teve que gritar para ser ouvida, e o semblante da mãe dela simplesmente caiu em decepção.
— Mas seu tio disse que... — a mulher disse, tentando se agarrar aquilo como uma última esperança.
— Eu não estou! — Felicity falou mais convicta e ao mesmo tempo cuidadosa, tentando não ferir os sentimentos da mãe.
— Isso é uma pena, eu espero que tenham planos para isso em breve! Porque eu estou animada com a ideia de ter netinhos. — Ela olhou diretamente para mim — Providencie-os para mim, Oliver. — Ela piscou para mim me lançando um sorriso cheio de insinuações, que fez Felicity corar, e eu não podia me olhar no espelho, mas senti meu rosto arderem embaraço — Oh, me desculpe. Aqui estou eu, cheia de intimidades com o namorado da minha filha, te chamado pelo primeiro nome quando sequer me apresentei. — esticou a mão na minha direção — Prazer em conhecê-lo, Oliver, sou Donna Smoak, sua sogra e futura avó dos seus adoráveis filhinhos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Olhei para Felicity que olhava para o teto e respirava fundo, parecendo envergonhada. Mas eu não consegui parar de sorrir. Não apenas porque era bom ter um momento mais leve e divertido, conhecer essa parte de Felicity, a garota com bochechas avermelhadas de vergonha porque a mãe estava conhecendo o namorado. Mas também porque toda aquela conversa me fez pensar em filhos, não apenas na parte prazerosa que seria fazê-los com Felicity, mas em cria-los, construir uma família com ela.
Há muito tempo que eu era sozinho, minha mãe tinha sido a única família que tive e ela morreu quando eu era jovem demais. Gordon era o mais perto de um pai que tive, e eu considerava Sara como uma irritante irmã mais nova. Mas a ideia de começar algo meu com Felicity enchia meu coração com um tipo de amor que eu sequer imaginava que existisse.
Por um momento eu fechei meus olhos, deixei as vozes ao meu redor diminuírem até sumirem completamente e permiti que aquela sensação boa me dominasse, eu pude ver o futuro tão perfeitamente. Felicity balançando um pequeno bebê em seu colo, o ninando enquanto eu contava uma história para o nosso filho ou filha mais velho. Nós deixaríamos um beijo sobre a testa dele ou dela quando adormecesse, colocaríamos o bebê no berço e apagaríamos a luz do quarto, mas deixaríamos a do corredor acesa e a porta aberta.
Depois iríamos para o nosso quarto, eu a amaria a noite inteira e depois aninharia seu corpo pequeno junto ao meu e a teria sempre segura em meus braços.
Eu gostava desse futuro.
Quando tornei a abrir os olhos, o quarto estava silencioso, Felicity fechava a porta atrás de si.
— Onde está todo mundo? — perguntei, eu tinha fechado os meus olhos por meros segundos. Embora meu pequeno devaneio com o futuro tenha parecido durar toda uma vida.
— Eu os expulsei. — respondeu sem se importar — Você deveria estar descansando, mas minha família resolveu te atacar. Minha mãe querendo bebês, e meu tio prestes a ter uma sincope apenas em pensar no que nós dois teríamos que fazer para ter bebês. — explicou, me fazendo rir. Era exatamente aquela a situação. — Já imagino a confusão que serão os natais com todo mundo junto... — Ela deixou a frase no ar, e eu gostei de ouvi-la porque me dizia que nossa ideia de futuro não era muito diferente.
— Eu gosto de Gordon, ele é apenas muito protetor com você. — comentei e ela ergueu uma das sobrancelhas — Exageradamente protetor, mas eu posso ter um pouco de culpa. Ele gosta de mim, ele sabe que tipo de homem eu sou, e sabe que não há uma fodida maneira de eu manter minhas mãos longe de você. — Eu ergui minha mão pegando a dela. — E eu gostei de conhecer sua mãe, ela é... — procurei uma palavra para definir Donna Smoak, mas era difícil encontrar algo que fizesse justiça a pessoa efusiva que ela era. — ...Peculiar.
Felicity gargalhou.
— É um jeito educado de dizer que ela é completamente surtada! — ela disse divertida — Mas eu senti falta dela. — eu via no rosto dela o quanto isso era verdade, desde que Floyd começara a persegui-la, Felicity teve que deixar toda uma vida para trás, era bom vê-la feliz por poder recuperar algo tão importante. — Ela pegou o primeiro avião assim que soube que tudo estava acabado, ela tem passado os últimos três dias me sufocando com amor maternal e me enchendo de perguntas sobre você. Ela foi muito incisiva sobre isso. — compartilhamos um olhar — Eu a amo, e eu senti falta dela durante esse tempo, mas eu agora eu queria ficar sozinha com você nesse quarto.
— Isso soou sexual, Smoak, eu gostei. — provoquei — Vai me atacar ou algo assim?
— Talvez. — ela disse num tom de brincadeira.
— Deite-se comigo. — pedi, eu nunca a tinha perto o suficiente.
— Quem está sendo o tarado sexual agora?
Eu ri, meu riso se transformando em um sorriso leve e preguiçoso enquanto ela se aninhava novamente ao meu lado, a cabeça repousando sobre meu ombro de modo que eu só precisava me inclinar um pouquinho e inspirar o cheiro do cabelo dela, deixar que esse cheiro me confortasse, me lembrando de que ela estava aqui comigo, sã e salva em meus braços onde era o seu lugar, e ninguém a tiraria daqui. Felicity por sua vez tinha uma das mãos sobre meu coração, como se os bips constantes da máquina não fossem o suficiente e ela precisasse ter certeza de que ele estava batendo. Eu acho que esse era o próprio modo dela de se acalmar e perceber que eu também estava bem.
Depois de um tempo a mão dela desceu um pouco tocando ainda que acima da blusa o lugar onde Floyd havia enfiado a adaga. Eu resmunguei um gemido de dor, a lembrança doendo muito mais do que a própria ferida.
— Dói? — Felicity perguntou com a voz temerosa, a preocupação ainda dominando seus olhos enquanto ela mordia nervosamente o lábio inferior. Eu dei um sorriso fraco desejando confortá-la, mas aquilo era tudo o que eu conseguia naquele momento. Levantei o outro braço e coloquei minha mão por cima da dela, sentindo o calor conhecido de sua pele, a sensação boa que era finalmente poder tocá-la novamente. Saber que ela estava aqui comigo e eu não iria perdê-la, que ninguém jamais conseguiria tirá-la de mim.
O pesadelo finalmente tinha chegado ao fim.
— Só dói quando você se afasta. — eu a respondi.
Era a verdade, eu poderia lidar com dores físicas. Eu era um policial treinado, eu estava há anos em campo e já tive ferimentos tão ruins quanto esse. Mas a dor de ter Felicity longe de mim, de não saber se ela estava bem e segura, o tipo de dor que me atingiu quando eu pensei tê-la perdido para sempre, esse era um tipo de dor que eu nunca tinha experimentado antes.
E eu não queria sentir outra vez.
— Então parece que ficarei para sempre. — ela respondeu com simplicidade.
Ela iria ficar.
Comigo.
Em meu coração.
Para sempre.
Sempre.
E sempre.
Ela finalmente iria parar de fugir.
E eu era o homem mais feliz da terra porque eu sabia que não importava que caminho nossas vidas tomassem de agora em diante, ela sempre estaria comigo, nós estaríamos juntos.
E isso soava malditamente perfeito.
— Felicity? — a chamei me lembrando de algo — Você ainda não me deu uma resposta. — lembrei. Eu não precisava repetir a pergunta, os olhos emocionados dela me diziam que ela se lembrava perfeitamente qual era.
— Eu caso com você, Oliver. — ela sussurrou a confirmação contra a minha pele — um dia. — Ressalvou e meu coração parecia que ia explodir, o bip irritante soando tão rápido quanto era possível.
— Um dia. — eu repeti, tocando seus cabelos com meus lábios e deixando um sorriso feliz escapar deles — Felicity? — a chamei novamente quando uma ideia me atingiu, ela ergueu os olhos para meu rosto. — Hoje é um dia, não é? — perguntei ansioso.
— Sim. Hoje é um dia. — ela respondeu com aquele sorriso que iluminava todos os meus dias, e que eu sabia que iluminaria o resto da minha vida.
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