Notas iniciais
Onde está esse papel? - Miguel

“Olá mãe, como vai? Provavelmente você já teve ter recebido a carta de ontem, bom, estou indo entregar a foto que tirei e pegar meu dinheiro, bom qualquer coisa eu escrevo aqui”.

Guardei o papel no bolso da minha jaqueta, cheguei a um pequeno prédio, provavelmente tinha uns cinco andares.

“Ah! Lembrei que você não sabe sobre o sistema de casas por aqui, deixe eu te dar uma breve explicação, tecnicamente nós poderíamos tirar fotos e enviar para um jornal local ou uma revista, mas nessa cidade eles irão ignorar sua foto se você enviar sem ter um nome importante ou dinheiro, ai entra as casas, que não são nada mais que lugares onde reúnem serviços para conseguir qualquer informação, muito além de fotos, no fim eles são só intermediários, mas é bem mais seguro que pegar qualquer trabalho por ai.”

Entrei pela porta da frente, o porteiro do prédio, Xavier, sinalizou para mim, o prédio tinha como primeira sala uma pequena sala com dois sofás, um quadro, uma mesa de centro e um vaso nela, a sala tinha uma porta de madeira que quase se mescla na parede, o suficiente para você não notar se só olhar de relance, mas não o suficiente para parecer proposital. Abri a porta, lá estava, a sala de espera, lá tinha uma secretária numa mesa, era Eva, ela era ruiva e seus cabelos quase chegavam aos ombros, tinha olhos marrons e usava óculos, ela olhou para mim, sabia que eu vim ver o chefe, ela apontou para um sofá velho, era para eu esperar, além de mim havia outra mulher na sala, sentada no canto do sofá, anotando algo numa prancheta em suas mãos, tinha cabelos pretos e um busto elevado, talvez fosse uma mulher querendo contratar algum serviço de coleta de informação, sentei ao lado dele.

— Olá. – Me atrevi a falar com ela, estava com vergonha de falar algo mais para ela, mas ela nem virou sua cabeça.

Ficamos alguns segundos em silêncio, Eva trabalhando com papéis, a morena e eu na sala, a mulher respirou fundo.

— Domine Jesu Christe, Rex gloriae, libera animas omnium fidelium defunctorum... — A mulher do nada começou a cantar ópera, Eva olhou feio para a mulher e estava prestes a sair da sua mesa para bater nela.

— Ei senhorita, você não pode cantar aqui! – Intervi, a morena parou de cantar e Eva me agradeceu com um pequeno sorriso em seu rosto.

— Por que não? Não estou atrapalhando ninguém. – A morena me olhou indignada, seus olhos eram verdes.

— Desculpe, mas tem pessoas trabalhando aqui, você não pode sair soltando palavras sem sentido por ai! – Acho que perdi toda minha vergonha.

— Palavras sem sentido? Isso é Mozart! – A mulher largou a prancheta. – Requiem! Domine Jesu Christe! Uma linda obra de Mozart que pede piedade a Deus sobre todas as almas humanas! Daqui algumas horas eu irei emocionar centenas de pessoas com essa ópera!

— Essa cidade só sabe ópera? – Questionei.

— Ópera acalma as pessoas, inclusive nesses tempos de escuridão. – Ela parou por um segundo. – Tenho que guardar minha voz para hoje a noite.

Todos ficaram quietos, isso durou alguns minutos até que Eva disse:

— Sr. Layer, pode entrar na sala para ver o chefe.

Eu me levantei, olhei para a morena, fui até a porta e abri. Quando entrei vi o chefe sentado na sua mesa, Senhor Ferrete, um homem de quase cinquenta anos, apresentando as marcas da idade na pele, seu cabelo era uma mistura de branco e preto, quase uma guerra entre o grisalho e a tinta, mas estavam perdendo para a calvície, seus olhos eram azuis, mas aquilo não passava de uma lente de contato e um terno branco, mas o que me assustou foi quem estava sentado com ele, Gerold Ville e sua assistente Minna.

“Bom mãe, acho que vou começar a fazer meu testamento aqui nessa folha mesmo”.

— Se acalme garoto. – falou Gerold, será que meu medo era notável no meu rosto ou ele lia mentes? – Não estamos aqui para te matar nem nada do tipo.

— Então o que vocês querem? – Usei toda minha coragem para falar isso.

— O Senhor Ville que te contratou Miguel. – Senhor Ferrete falou doces palavras que me acalmaram por alguns segundos, ai depois a calma se tornou dúvida.

— Por que me contrataram para tirar uma foto? – Perguntei.

— É difícil explicar exatamente o motivo, podemos dizer que o prefeito estava muito alvoroçado e nos ameaçando. – Gerold apontou para Minna. – Mas o que viemos fazer aqui era nos desculpar pela Minna ter te perseguido.

— Me desculpe, não sabia que você era o contratado. – Desculpou-se Minna, o cabelo da Minna era preto e lembrava um pouco o de Eva, nunca tinha reparado nisso, nas raras vezes que vejo ela meus olhos se voltam só para uma parte, os seus seios.

— Não foi nada. – Dei uma risadinha, lembrei-me do urro que ela tinha dado, nem parecia a mesma pessoa.

— Bom Senhor Ferrete, já vamos indo, espero que possamos fazer mais negócios juntos. – Gerold olhou para mim. – E você, pode me dar agora.

— O que? – Perguntei.

— A foto, ainda está com você não é? – Gerold vez uma cara de zangado.

— Ah, é mesmo. – Coloquei minha mão no bolso, peguei o papel que estava nele, mas era o papel que eu tinha para escrever a carta, mas não tinha nada anotado nele, com medo peguei a foto e vi, eu tinha escrito toda a carta nas costas da foto, suei frio na testa. – Bom, hehe, tem algumas anotações nas costas dele, espero que você não se importe...

— Tudo bem. – Gerold pegou a foto das minhas mãos. – Vamos indo Minna.

— Ok. – Minna e Gerold saíram da sala.

— Hey Miguel. – Senhor Ferrete chamou minha atenção. – O dinheiro, venha logo pegar, não posso perder muito tempo hoje. – Ferrete colocou o um envelope na mesa, com uma anotação de números, quinhentos dólares.

— Uau! Quinhentos? – Peguei o envelope. – Quando você recebeu? Aposto que foi uns quatro ou cinco mil.

— Isso não te interessa, se quiser mais trabalho volte amanhã estou sem nada hoje. – Ele praticamente me expulsou da sala.

Sai da sala, passei na recepção, vi a morena se levantando para entrar na sala e a Eva mandando um tchau, sai do prédio e vi Gerold entrando num carro, mas no fim a única coisa que conseguia pensar era só uma: Ter que reescrever o que estava atrás da carta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.