Runners
1 Capítulo 1
Estávamos naquele mesmo lugar, tão familiar a todos, e ainda assim desconhecido pela maioria, para eles estiveram ali desde sempre, os tons cinzentos e escuros da sala antiga, os velhos colchões roídos pelo tempo e aqueles sofás, os velhos sofás que já participaram de tantas conversas amigáveis, brigas ferrenhas e que sempre estava presente naquele momento, a iniciação. Estávamos aqui desde que nos lembramos de estar em algum lugar, uns foram criando os outros, mas era sempre a Mãe que trazia alguém novo, não sabíamos bem porque, nem de onde vinham, só sabíamos que antes deste lugar não eramos ninguém, ou eramos algo que não valia a pena ser mencionado, e ao chegar ganhávamos novo nome, novo sentido, nova família, e a partir daí ninguém mais mencionava nada da vida de antes, nosso nascimento havia sido nossa iniciação e de certa forma não era só um simbolismo, tudo muda depois da iniciação. Só que não sabíamos que a iniciação de Juliet não iria mudar só a vida dela, mas o rumo de todos que estavam ali. Foi num dia qualquer, uma manhã fria de inverno enquanto acordávamos e fazíamos os preparativos habituais da manhã, a Mãe adentrou a porta ladeada por Henry e Thomas, na frente dela aqueles olhos azuis perdidos, mas ao mesmo tempo muito penetrantes, os cabelos loiros despenteados caindo pelo rosto, sinais de fome, sofrimento, e dor. Tinha então na época seus 6 anos de idade e como a maioria de nós quando passamos por aquela mesma porta não sabia o que era nem o que seria de si mesma a partir daquele dia. Nos espalhamos pelos dois sofás laterais ao sofá do meio e escutamos a Mãe falar com Juliet, as palavras habituais "Seja bem vinda, criança, estamos entre família agora e não há o que temer do que se passou antes daqui. Tu abandonas agora tua vida de antes e segue jogando fora tudo aquilo que não foi verdadeiro, a vida apagará de ti tudo que não lhe for conveniente para a jornada de agora, a partir de agora te chamaremos Juliet, e esta é tua única família, teus amigos e irmãos". Ela não disse uma palavra, somente abaixou a cabeça e assentiu a tudo que lhe foi dito. Eu gostaria de poder lembrar de minha iniciação, vim pra cá muito novo junto com meu irmão e só lembro de estar aqui desde sempre.
Mas a vida ali era muito mais complicada do que simplesmente conviver e partilhar, e do lado de fora, quando passávamos por aquela mesma porta enorme e pesada de madeira antiga tudo podia mudar, laços estreitos mostravam não ser tão estreitos assim e nos piores momentos de adversidades conhecíamos a verdadeira face e as tendências de quem estava ao nosso lado. Ali dentro nos esforçávamos para conviver bem, as vezes tentando esquecer passagens estranhas de tempos em que estivemos fora, sabíamos que tudo era muito mais hostil fora de nossa "casa".
Era sempre assim que começava, espalhávamos em nossos pares, pegávamos as informações de que precisávamos e passávamos pela porta, sempre correndo, espreitando, passando por frestas e sombras para evitarmos que alguém nos reconhecesse, vez ou outra isso acontecia, mas sabíamos nos virar bem nessas situações também, acho que já era de nossa natureza e nós fazíamos isso muito bem, era sair e correr, natural como respirar. Nosso objetivo era buscar em lugares muito distantes aquilo que já não existia em nossa realidade destruída. A cidade em ruínas nos brindavam com suas paisagens familiares, suas mesmas nuvens cinzentas, a poluição e a chuva fina, mas o que precisávamos estava em quase todas as vezes em lugares mais "vivos", e não era só questão de onde, mas de "quando", isso mesmo, as vezes para se ter o que se quer no tempo em que vivemos é preciso buscar numa época em que ainda não havíamos destruído as coisas do qual mais tarde sentiríamos ser tão necessárias.
E por isso nós corríamos, e encontrávamos esses lugares especiais, eles nos chamam e nós os sentimos, a energia deles pode passar desapercebida para a maioria das pessoas, mas nós temos a capacidade de sentí-los e aperfeiçoamos nossa habilidades de encontrá-los e usá-los a nosso favor. Vinham como uma porta, um alçaoão, um armário, uma passagem qualquer que nos transportava pra algo muito além do que um simples cômodo adjacente ou compartimento interior, nos transportavam para um outro "quando".
E naquele dia eu saía atrás de outra porta, um caminho que já era conhecido, junto com meu "par". E minha autoconfiança não me deixava precaver algo que pudesse dar errado naquilo tudo, parecia mais uma corrida comum, mas foi quando aprendi uma das lições mais valiosas da vida, é quando tudo parece calmo e natural demais que uma grande tempestade pode estar prestes a se aproximar.
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