Runeterra: Lar dos Campeões
2 O Fardo da Culpa
Yone, teimoso como sempre, relutava em meus métodos e insistia que não queria ser igual a mim. Eu sorrio cautelosamente em sua direção.
— Ji é a predecessora da phyla, irmão — repito pausadamente o velho ditado que nosso pai costumava recitar — Seja paciente.
Recolho sua espada de bambu do chão de mármore e repouso-a em sua fronte, sentando-me a seu lado. Ele parece perturbado. Dou um pequeno e descontraído tapa em suas costas, mas sua reação imediata foi levantar-se e correr pela floresta afora. Não me surpreende tamanha teimosia, e o tempo me ensinou que o melhor que poderia fazer era deixá-lo ter seu espaço.
Um grito interrompe o silêncio da sala. O ar de tranquilidade irrompe-se e eu saio pela porta entreaberta atrás de Yone. Grito seu nome; sem resposta.
Entro às pressas no leito do rio que se espreitava por ali, e sei que não posso me tardar. Quando finalmente alcanço seu semblante, percebo que ele está inerte, removo-o da água e pressiono seu peito repetidas vezes em completo desespero. Eu estava atrasado.
Ouço então sua voz ecoar pela floresta, e agora todo o cenário utópico ioniano havia se transformado em uma carnificina. Corpos no chão, resquícios de uma guerra. Noxianos e ionianos espalhadas aqui e acolá, travando batalha com suas longas espadas e armaduras. Percebo que seu semblante havia desaparecido.
"Você me deixou morrer, irmão... por quê? Por que vocês nos traiu?", dizia a voz. Eu procuro por respostas, espreito-me entre as florestas num horror agonizante, mas o que eu encontrei fez com que qualquer devaneio que eu estivesse tendo parecesse egoísta. Seu corpo jazia inerte sobre o solo sangrento. E aquilo me fez lembrar. Yone já estava morto, eu o havia matado.
Acordo num sobressalto. Eu me lembro agora. Eu estou sozinho. Eu não tenho mais lar desde que a guerra o tirou de mim. O Monastério Shojin, o Jardin Sereno, o Choryon. Tudo isso agora estava enterrado no passado.
O ar estava fresco, e eu agradeci por ter deixado o Mar do Guardião. Aquelas águas me enauseavam, e acordar em solo firme pela primeira vez em muitos anos era reconfortante.
Finalmente sinto falta de algo. A bainha da minha espada repousa sob meu braço, mas ela estava vazia. Ela havia sido roubada. Eu levantei-me e saí da tenda improvisada, mas sabia que seria quase impossível restaurar o que perdi. Quase.
Sento-me sob uma peculiar árvore zauniana. Ela era recurva e parecia escura demais para uma árvore. Mas as folhas... o vento. Aquilo fez-me sentir em casa.
Começo a meditar e, de olhos semicerrados, eu procuro por minha disciplina perdida. Mas eu não consigo. O velho Choryon ainda assombrava meus pensamentos sempre que eu fechava os olhos. Eu teria de fazer aquilo do jeito antiquado.
Começo a andar pelas ruas movimentadas de Zaun, mas manter a discrição parecia impossível. A moda zauniana era diferente de tudo que eu conhecia em Ionia, e eu parecia fantasiado às vistas daquele estranho povo.
— Com licença, senhor — fico desconfortável quando ouço essas palavras vindo de uma voz feminina extremamente elegante — Vejo agora que sua bainha está vazia. Alguma chance da espada posta sobre leilão na rua principal ser uma doação sua?
Eu soube exatamente qual era meu destino naquele instante, mas havia algo mais imediato com que deveria lidar naquele momento. A moça. Seu sorriso me incomodava, mas não poderia negar sua beleza e jovialidade. Ela parecia serena postada ao meu lado.
— Sim, madame... inclusive é pra onde estou indo neste exato momento, mas não me lembro exatamente o endereço indicado.
— Você é de fora? — ela sorriu — Suas roupas quase não o entregaram. Noxus, Demacia...?
— Ionia.
Ela pareceu levemente abalada.
— É um longo caminho para cá, não? De toda forma, perdoe-me por tomar seu tempo. A rua principal segue os pouco discretos canos industriais. Refiro-me a esta rua principal, é claro.
Pouco acostumado com os hábitos zaunianos, levanto suavemente sua mão e beijo-na como forma de agradecimento. Ela sorri. Nos despedimos rapidamente e saio num discreto sobressalto para a rua principal.
Não era um lugar difícil de achar, afinal os canos industriais eram imensas estruturas de gás que deixavam o lugar extremamente informal e desconfortável. Avisto então uma multidão aglomerada e percebo o quão suspeito aquilo realmente era. E definitivamente estava certo, já que minha espada havia sido posta sobre uma suntuosa mesa redonda e estava sendo entregue no mesmo momento para um homem numa roupa extravagante.
— Esperem! — digo, levantando a bainha — Sei o quão suspeito isso pode parecer, mas essa espada fora-me roubada ontem a noite. Não pretendo acusar nenhum dos senhores, quero apenas o que me foi tomado.
O senhor nas roupas extravagantes me encarou. Era magro e tinha um rosto carrancudo e careca, e carregava uma grande e suspeita maleta. A multidão nos encarava como se esperando um conflito aparente, mas ele simplesmente estendeu-me a espada.
— Prove-me, então. Mostre que esta bainha servirá para esta espada.
Acenei com a cabeça. Estava seguro de que aquilo seria o fim, mas para minha surpresa, a bainha não encaixaria. Mas a espada era definitivamente a minha, eu sabia. Ele recolheu a espada de minha mão num ar de decepção e se retirou. Eu havia sido tapeado, esta era a única explicação. Aquela bainha definitivamente não era a mesma com que eu dormira, independente da semelhança.
O público sussurrou entre si coisas que não me interessavam saber, mas a atenção não estava mais voltada para mim, e sim para o leilão que ainda ocorria. Percebi uma caixa retangular que estava posta ali, e recolhi como se tivesse completa certeza do que estava ali. E tinha.
Correndo até o homem da maleta, eu abri a caixa e chamei.
— Esta é uma espada perigosa para ser carregada sem cuidado. Modelo ioniano. A bainha deve ajudar.
Colocando novamente a bainha na caixa estendi para o homem e percebi que todos naquela rua olhavam fixamente para nós. Ele pareceu surpreso, quando finalmente quebrou o silêncio.
— Há mais uma forma de provar que esta espada lhe pertence, meu caro. Posso ser frio, mas não injusto.
Abrindo a maleta, ele me entregou a espada e perguntou-me se eu poderia manejá-la. Assenti. Ele puxou da maleta uma esfera de vidro e arremessou-a para cima. Eu soube o que deveria fazer.
Ao contrário do que esperavam, eu não tentei cortar a bola. Todos me encaravam fixamente a espera da queda da bola, mas isso não aconteceu. A bola não caiu. Eu levantei-na com um tornado e embainhando a espada, recolhi a esfera do ar e entreguei a seu dono. Sem um arranhão.
Tudo parecia terminado, mas algo ainda suscitava-me dúvida. Dirigi-me, em curtos passos, ao mercador que outrora leiloara minha katana. Ele provavelmente esperou uma repreensão, mas ao invés disso eu simplesmente fitei-o por algum tempo.
— Foi você quem roubou? — perguntei.
— Roubar? Não, meu senhor, você está entendendo errado. Eu sou apenas um revendedor, não duvide de minha índole. Quando ela me entregou este artefato eu pensei que fosse uma colecionadora. E acredite, eu não tive nada a ver com isso.
Um ar de suspeita tomou conta de mim, mas eu me mantive firme até o final, quando perguntei, um pouco atônito.
— Você disse "ela". Quem te entregou essa espada?
— Era uma mulher... — ele disse — Com um sorriso amedrontador.
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