Runaway Plan
2 Red Lab
Notas iniciais
Quando acordo novamente, desejo poder ainda estar inconsciente. Certamente seria menos agoniante… ou desconfortável.
Minhas mãos estão atadas à tiras grossas de couro no teto. Meus pés nem mesmo tocam o chão e meus braços sofrem espasmos de dor, uma vez que, provavelmente, devem estar me sustentando por um longo tempo.
No momento, realmente me odeio por não ter resistido à injeção, mas logo me repreendo mentalmente. Tudo faz parte do Plano. Esse sacrifício definitivamente vale a minha liberdade.
Uma rápida analise no novo ambiente me conta tudo o que já sei. Uma longa lâmpada fosforesceste iluminando a sala. Uma porta de aço a minha direita. Uma mesa equipada com ferramentas aparentemente ameaçadoras à minha esquerda. Ah, e claro. Uma única e solitária câmera projetando uma luzinha vermelha na parede à minha frente.
Perfeito. O show já está quase pronto. Só precisamos do nosso convidado de honra que chegará em três… dois… um.
A porta se abre e, contra tudo o que deveria fazer — o que deveria mostrar — me permito um breve e imperceptível suspiro de alívio. Ouvir o barulho dos passos no corredor nunca falha e é exatamente por isso que ainda tenho minhas dúvidas.
Ele, apesar de não saber realmente quem ele é, caminha tranquilamente em minha direção, seu avental refletindo a luz pálida vinda do teto. Imediatamente, noto a agulha fina em sua mão e estremeço ligeiramente, mas consigo permanecer imóvel até o último segundo.
Que é quando o ponta fria da injeção toca minha pele.
Meu joelho empurra Ele para trás e, brevemente, posso ouvir o ruído de surpresa que que sai de sua garganta. Sem perda tempo.
Exatamente como o Plano manda, alcanço com os meus pés descalços o primeiro instrumento da mesa ao meu lado e acabo desperdiçando alguns momentos preciosos tentando arrumar o pequeno bisturi.
Desajeitadamente, jogo o objeto pontudo na direção Dele, mas o máximo que consigo é um corte superficial em seu ombro.
Estou em pânico, tremendo descontrolávelmente. Contudo, não posso perder mais nem um segundo.
O próximo objeto da mesa está a uma distancia maior, mas pego a larga tesoura sem muitos problemas. Meu movimento seguinte o atinge no pescoço e, por um momento, consigo ver o brilho em seus olhos com a real possibilidade de morte. Ele está aterrorizado.
Não me permito pensar demais. Com um rápido e firme giro dos quadris, a ponta da tesoura corta sua garganta e Ele desaba no chão, engasgando.
Assim que seu corpo para de se mexer e uma poça de sangue começa a se formar, ou até mesmo antes disso, sei que vou me lembrar desse momento para sempre. De como se sentiu perfurar a sua pele, de como foi observá-lo cair. De como a realidade parou de funcionar por um único e passageiro instante.
Quase sorrio de satisfação, mas rapidamente percebo o quão doentio deve parecer e me impeço. Além disso, já gastei tempo demais aqui.
Com outro movimento dos meus pulsos. As algemas se abrem e caio de pé no chão. O alívio de ter meus braços libertados é esmagador, porém é emoção logo se dissipa quando ouço ruído de passos mais pesados e ensurdecedores lá fora, no corredor. Droga. Definitivamente, gastei tempo demais.
Para me certificar de que nada dê errado e tudo ocorra de acordo com o Plano, corro até a porta e a tranco do único modo que sei, mesmo sabendo que será inútil. Felizmente, passei uma eternidade observando e estudando uma fechadura igual a essa, em minha própria cela.
Depois, tento freneticamente arrastar o corpo inerte Dele para o outro canto da sala, espalhando o sangue escarlate e reluzente pelo chão. Conscientemente, sei muito bem que a câmera está me observando com sua luz vermelha ameaçadora. Então, tomando muito cuidado no posicionamento do corpo do cadáver, vasculho os bolsos do avental agora manchado de vermelho até finalmente encontrar o vidrinho minusculo que notei assim que Ele entrou na sala. É exatamente como ela descreveu. Sem rótulo, sem cor. Apenas transparência e um liquido claro em seu interior.
Mal termino de esconder o pequeno frasco na manga propositalmente descosturada da minha blusa estupidamente grande quando o estrondo penetrante da porta de aço maciço sendo arrombada me deixa de joelhos.
No que parece ser apenas um piscar de olhos, quatro homens, dessa vez, devidamente armados, me cercam e avançam em minha direção. Eles aparentam ser agressivos e, realmente, seus uniformes pretos e seus coletes escuros reforçam essa mensagem.
Quero me levantar. Quero pegar a arma do coldre na coxa da pessoa à minha frente e atirar. Mas me contenho. Isso pode me trazer sérias consequências. Além de acabar com o Plano definitivamente.
Portanto, procuro ficar imóvel enquanto me vejo ser presa à algemas de verdade, daquelas que é praticamente impossível de se escapar. Permaneço quieta quando me arrastam pela porta e pelo corredor. Estou impassível quanto me jogam em outra sala e trancam a porta firmemente. Durante todo o percurso, o sutil objeto pulsa escondido em minha roupa.
Dessa vez, o ambiente é escuro o suficiente para me tornar invisível. Mas nada disso realmente importa, porque a primeira parte do plano foi concluída com sucesso.
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